“Processos”, Ana Elisa Ribeiro

PROCESSOS
poema de Ana Elisa Ribeiro —

na voz de Sílvio Diogo

O amor é um processo químico.
O amor é um processo biológico.
O amor é explicável pela história,
com implicações geoespaciais.
O amor é uma questão híbrida.

A fotografia é um processo químico.
A fotografia é um processo físico.
A fotografia é uma questão artística,
jornalística e tecnológica,
com implicações éticas e financeiras.
A fotografia é uma questão híbrida.

O que dizer de nossas fotografias rasgadas?
O que dizer destas fotos em que não estamos
lado a lado, e nem podemos nos tocar?
O que dizer das fotos que não tiramos
daqueles dias de amor nascente?
E destas fotos em que estamos
com os pares errados?

O que não é fotografia
dependerá da memória.

A memória é um processo químico.
A memória é um processo biológico.
A memória é uma questão para nós,
com implicações para o futuro.

O amor é um processo.
A fotografia é um processo.
A memória não é confiável.
O amor é sempre um processo.
A fotografia, não.
Olhar minuciosamente a fotografia
é um processo híbrido.
A memória é um processo que falha.
Resta confiar na ciência e no amor.

*

Do livro Álbum. Belo Horizonte: Relicário, 2018.

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Ana Elisa Ribeiro, 1975, é mineira de Belo Horizonte. Autora de Poesinha (BH: Pandora, 1997), Perversa (SP: Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (BH: InterDitado, 2008), Anzol de pescar infernos (SP: Patuá, 2013), Xadrez (BH: Scriptum, 2015), Marmelada (BH: Coleção Leve um Livro, com Bruno Brum, 2015), Por um triz (BH: RHJ, 2016). Além desses livros de poesia, tem outros de crônica, conto e infantojuvenis publicados por diversas editoras brasileiras. Participou de antologias, revistas e jornais no Brasil, em Portugal, na França, no México, na Colômbia e nos Estados Unidos. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, professora e pesquisadora de Edição no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG).

*

Foto da autora (com a mãe, Maria Carmen): Sílvio Diogo

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“tor e a dor”, Waldemar Euzébio Pereira

tor e a dor
poema de Waldemar Euzébio Pereira —

na voz de Sílvio Diogo

às vezes me pacifico
assim
imperceptível
fico quieta
hiber nada
nula de movimentos
só o cérebro ferv ilha

em redondilhas
sevilha
em redondilhas
sevilha

enquanto dançamos
maravilhas de bailados
a roda da vida rodopia
e uma vertigem lassa
me alcança e me
abraça

em redondilhas
sev ilha
em redondilhas
sev ilha

antes que me deem por morta
agarro um touro à unha e
já estou pronta pra outra

*

Do livro 25 boleros entre sambas. Belo Horizonte: Mazza, 2014.

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Waldemar Euzébio Pereira nasceu em Montes Claros, norte de Minas Gerais, a 25 de junho de 1946. O pai, Geraldo Euzébio, que tocava violão, bandolim e cavaquinho, trouxe as primeiras referências musicais. Aos 15 anos, compunha e tocava violão. Concluiu o curso de violino no Conservatório Lorenzo Fernandez, em 1970. Integrou o Grupo Banzé de danças folclóricas e, como ator, atuou em diversas peças teatrais em sua cidade natal. Em junho de 1971, mudou-se para Belo Horizonte, onde constituiu família, formou-se em Direito na UFMG e, ainda hoje, reside. Prosoema, seu livro de estreia, foi lançado em 1976 (edição do autor). Pela Mazza Edições publicou, em 1993, Do cinza ao negro (poemas); em 2004, Achados (contos); e, em 2014, 25 boleros entre sambas (poemas).

waldemas.com

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Trilha: “Nosotros”, bolero do cubano Pedro Junco (1916-39), na versão de Omara Portuondo com a Orquestra Todos Estrellas — da série de CDs 5 Leyendas, 2005.

Imagem: sobreposição de fotos de Jorge Quintão

Cambalhota, Sílvio Diogo

Capa: aquarela de Carolina Teixeira (Itzá)

Cambalhota, o giro corporal sobre a própria cabeça, uma mudança súbita, uma volta repentina, uma acrobacia. Ao jogar com diferentes significados possíveis de uma palavra, ou com palavras que soam próximas, mas com sentidos diversos, o autor desarma formulações preconcebidas e desvenda conexões entre o aspecto pensante da personalidade e o que se passa nos meandros do corpo. A toada emotiva, as vidas intrincadas, as fricções da liberdade com a domesticação, da dor com o cuidar, desenham ousados arranjos de som e de imagem. O brincar e a infância, presentes como temática e como linguagem, embaralham as fronteiras entre seriedade e humor. O livro compõe-se de 38 poemas escritos de 2007 a 2017.

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Ficha técnica

Título: Cambalhota
Autor: Sílvio Diogo
Capa e contracapa: aquarelas de Carolina Teixeira (Itzá)
Páginas: 64
Formato: 14,0 x 21,0 cm
Peso: 150 g
Lançamento: 26/05/2018
ISBN: 978-85-65410-05-2
Diamantina: Arte Desemboque Casa Editorial, 2018

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Como adquirir o livro

A partir de 14 de maio, pedidos poderão ser feitos pelo endereço eletrônico cambalhota.poesia@gmail.com / pagamento por depósito ou transferência bancária (Caixa Econômica Federal).

Valor: 28,00 (livro) + 6,00 (frete) = 34,00 reais

O livro também estará à venda na Estante Virtual. Nesse caso, há as opções de pagamento por cartão de crédito e por boleto bancário.

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Ouça dois poemas do livro na voz do autor:

Essa lei

O menino e o gigante

“O menino e o gigante”, Sílvio Diogo

O MENINO E O GIGANTE
poema de Sílvio Diogo —

na voz do autor

De dentro do gigante,
cruzada a bocarra,
engolido já,
deglutido nas vísceras,
entre as engrenagens
do motor do relógio,
o menino arteiro
luta por inventar
movimento.
O gigante aperta
a cada viravolta;
o roncar parece
pulsar indiferente.
As pequenas mãos
do artífice desvendam
a luz de uma artéria.
O gigante se mexe;
seu sono é nublado.
O menino persiste:
por mais que se canse,
necessita do espaço
que existe, ele sabe,
no organismo do monstro.
Por onde andará
a primeira invenção
que fez no titã?
Mantém consigo um mapa
no qual desenhou
os trajetos de outrora;
porém, espremido,
não o consegue abrir.
Só uma artimanha
pode ser que revele
o fio da clareira.
O mirim não se move;
deixa que os ouvidos
capturem as batidas
que o gigante ecoa.
Os roncos diminuem:
um respiro fundo
arrasta o cataclismo
pelo corpanzil.
O pequeno decola;
voa para o íntimo
do peito que se abre.

*

Sílvio Diogo nasceu em Uberaba a 16 de dezembro de 1982. Cursou jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É autor dos livros de poemas Respingos e clamores: libreto do fundo do peito liberto (2005) e Desenho do chão (2008), ambos lançados pelas Edições Toró, em São Paulo; e Calhe, grafia, cale (Goiânia: Ateliê Tipográfico da UFG, 2017). Publicou a tradução de O olho da mulher, poesia reunida de Gioconda Belli, da Nicarágua (Diamantina: Arte Desemboque, 2012). Realiza trabalhos de ilustração, caligrafia, arte gráfica e edição de livros. Desde 2009, é produtor cultural na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, em Diamantina.

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Foto do autor: Maxwell Vilela

“Dardo”, Ana Martins Marques

DARDO
poema de Ana Martins Marques —

na voz de Sílvio Diogo

Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mãos pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.

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Do livro A vida submarina. Belo Horizonte: Scriptum, 2009.

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Ana Martins Marques nasceu em novembro de 1977, em Belo Horizonte, onde mora. É graduada em letras e doutora em literatura comparada pela UFMG. Publicou A vida submarina (Scriptum, 2009), Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015), Duas janelas (com Marcos Siscar; Luna Parque, 2016) e Como se fosse a casa (com Eduardo Jorge; Relicário Edições, 2017). Recebeu diversos prêmios literários, entre eles o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional por Da arte das armadilhas e o terceiro lugar do Prêmio Oceanos, com O livro das semelhanças.

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Foto da autora: Rodrigo Valente

“Mulher meio-fio I” / “Negra luz II”, Fabiana Carneiro

Mulher meio-fio I / Negra luz II
— Fabiana Carneiro —

na voz de Sílvio Diogo

MULHER MEIO-FIO I

Depois de dançar com a morte, vaguei por aí. A sola do meu pé podia adivinhar o passado. E eu queria apenas cavar um buraco profundo. Mas o asfalto resistia friamente às minhas investidas. Eu, mulher meio-fio, à procura de um pedaço de terra. Minha vista doía — era muita a luminosidade. Havia sons confusos, gente apressada. Uma sorte de olhares que imprimiam ao meu gesto um tom de desvario. Tudo alheio ao que dentro de mim pulsava e ainda era movimento…

Eu vagando, vagando, numa busca determinada de não esquecer o perfume do sagrado que me foi deixado na pele.

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NEGRA LUZ II

Se há desespero no sangue é preciso terra. Um coração cheio de terra, regado pelo choro consagrado da mulher, pode florescer. A mãe movediça pulsa viva e aquilo que verte de suas veias estouradas fecunda-se em negra origem. O amálgama de sangue e terra é substrato de que se alimenta o nascido. No seio da violência e do afeto resiliente a vida floresce.

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Fabiana Carneiro nasceu em São Paulo a 11 de fevereiro de 1985. Mora em Salvador. Mestre e doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo; bacharel e licenciada em Letras (Português e Espanhol) também pela USP. Tem experiência de pesquisa e ensino em artes, com ênfase em teoria literária e estéticas negras/afro-brasileiras. Atuou na rede formal de ensino e em projetos sociais, âmbito no qual destaca a proposição de oficinas de escrita autobiográfica para/com mulheres negras. Ademais de suas práticas como crítica e educadora, desenvolve produção artística com escrita, videoarte, dança e performance. É idealizadora e diretora audiovidual do projeto Literatura Inteira.

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Foto da autora: Juh Almeida

“Eu era criança e tinha medo”, Júlia de Carvalho Hansen

EU ERA CRIANÇA E TINHA MEDO
poema de Júlia de Carvalho Hansen —

na voz de Sílvio Diogo

Eu era criança e tinha medo
da curva da escada
eu tinha medo
da jabuticabeira não.
Mas quanto medo tenho do barão.
Eu, que só conheço um lado
e do outro desvio,
via os caminhos
desmanchando juntos.
Tinha medo de vulto
passava correndo
na curva da escada.
Onde o poder encontra
aquele que o transtorna?
Onde estão os olhos do escuro?
Hoje vulto não sei
se pega às vezes
se respira
se são suas as lufadas
sombras sem ossos
a janela que trinca batendo
se escolhem o momento de acabar
ou se a morte é só um raspão
na órbita de um planeta
um pó, um vento.
Olho muito não.

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Do livro Seiva veneno ou fruto. Belo Horizonte: Chão da Feira, 2016.

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Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo a 12 de janeiro de 1984. É autora de quatro livros publicados: uma narrativa em prosa de nome O túnel e o acordeom (editado em 2013 pela não edições em Lisboa, e em 2017 pela Livros Fantasma em São Paulo) e três livros de poemas: cantos de estima (publicado numa edição da autora em 2009 e em 2015 pela Douda Correria em Lisboa); alforria blues ou Poemas do Destino do Mar (Belo Horizonte: Chão da Feira, 2013) e Seiva veneno ou fruto (Chão da Feira, 2016). Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, é mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa. É escritora, astróloga e uma das editoras da Chão da Feira.

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Foto da autora: Ilana Lichtenstein