Refugiadas

a que guarda o mistério do casulo

a que me mostrou Fellini
a que lia poemas comigo
a que falava sempre do Recife
a que me trouxe de volta

a que tinha licores de pequi
a que já amava os piás
a que revelou as fotos
a que me levava ao acampamento

a que ouvia o tilintar da chuva
a que ia à noite aos trilhos do trem
a que batia caixa e cantava
a que me ensinou o silêncio

a que não poupava o mínimo riso
a que previa perigos
a que faz e desfaz planos
a que está a caminho

a que permanece estática
a que singra o medo
a que se sente só
a que espreita

a que aguarda o mistério do casulo

*

Sílvio Diogo, 18 de julho de 2018

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Uma versão em português da letra de “Nega (Photograph blues)”, música de Gilberto Gil

Nêga (Pedacinho do céu)
— Gilberto Gil

(versão em português da letra: Sílvio Diogo)

Nêga
Você não sossega, não
Nega, não
Os seus loucos poucos dias
Os seus poucos findos dias
Pra mim
Nêga
Você me pega, eu
Me apego, sim
Os meus loucos poucos dias
Os meus poucos findos dias
São seus

Quando eu te conheci, quando eu te conheci foi tudo tão azul
Fui te rondando, te sondando sem um pio
Só fiz questão de elogiar o seu pêlo macio
E você veio então com uma conversa de xampu
(Fiquem à vontade, fiquem à vontade)
E foi tirando, foi tirando sem parar fotografias
Pelo centro da cidade
E a gente ia, a gente ria

Nêga…

Você caminha onde agorinha eu caminhei, e vai você
Revendo assim meu velho povo que eu deixei lá
E eu aqui fazendo o mesmo, aquilo mesmo, o mesmo, o mesmo, o mesmo que você
E agora posso mergulhar na sua xícara de chá, de chá, deixá, de chá, de chá, deixá
Fiquem à vontade, juntos à vontade
Muito à vontade, sempre à vontade
Pra ser, pra ser, prazer, pra ser
Pra ser, prazer, pra ser, pra ser
O que era destino, o que era de ser
O que era destino, o que era de ser
E foi, e só
Aquilo que foi só, e o que não foi

Nêga…

Revele as nossas fotografias
Quem sabe o sonho, assim, seja verdade
Quem sabe, nêga, a gente risse, sempre ria
Ou caía de uma vez a tempestade

Revele, nêga, as nossas fotografias
Quem sabe, assim, quem sabe a gente saiba
Quem sabe, sim, quem sabe, não, o sim, o não, o sim, o não
O nada, a não ser um pedacinho seu
Nêga, só um pedacinho do céu

*

DIOGO, Sílvio. Respingos e clamores: libreto do fundo do peito liberto. São Paulo: Edições Toró, 2005.

*

Nota: Esta versão em português, publicada em meu primeiro livro de poemas, foi concebida a partir da música gravada por Gilberto Gil e Jorge Ben no álbum Gil Jorge Ogum Xangô (Philips, 1975). Uma primeira gravação de “Nega (Photograph blues)” havia aparecido no LP inglês de Gilberto Gil, lançado em 1971 na Inglaterra pela Famous e no Brasil pela Philips.

A letra de “Nega (Photograph blues)” em inglês:

‘Gilberto Gil: todas as letras’ (incluindo letras comentadas pelo compositor) / organização: Carlos Rennó; colaboração especial: Marcelo Fróes; textos de Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik. Edição revista e ampliada. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 139.

Poesia e historicidade

Alfredo Bosi

(…)

Qual fase da história foi vivida só de instantes presentes, pura e abstrata contemporaneidade sem memória nem projeto, sem as sombras ou as luzes do passado, sem as luzes ou as sombras do futuro? A pergunta ganha toda pertinência quando se trata de história da cultura e, mais ainda, de história de uma prática simbólica tão densa como a poesia.

Contextualizar o poema não é simplesmente datá-lo: é inserir as suas imagens e pensamentos em uma trama já em si mesma multidimensional; uma trama em que o eu lírico vive ora experiências novas, ora lembranças de infância, ora valores tradicionais, ora anseios de mudança, ora suspensão desoladora de crenças e esperanças. A poesia pertence à História Geral, mas é preciso conhecer qual é a história peculiar imanente e operante em cada poema.

Que experiência calada no sujeito terá suscitado esta e não aquela imagem metafórica? No caso do texto narrativo, que lembranças ou que sonhos deram vida àquela personagem? Terá sido um emoção que tomou corpo em uma figura. Ou a memória de uma situação sofrida há anos, se não quase perdida na infância. Ou a leitura empática de outro texto que serviu de estímulo à nova escrita. Ou a necessidade de amarrar com o fio da alegoria um nó existencial recorrente. Ou, enfim, mais de uma dessas possibilidades chamadas a se atualizar na palavra ficcional.

O fato de essas várias pistas serem pertinentes leva o intérprete a assumir uma posição de cautela na hora sempre arriscada de historiar a gênese de um texto que traz em si marcas de tempos diversos convergentes na sua produção. Só uma concepção de historicidade da prática simbólica pode dar conta das imbricações de sujeito e trama social, mesmo porque o que chamamos genericamente de ‘sociedade’ entra no sujeito na medida em que o sujeito se forma e se transforma no drama das relações com outros sujeitos e consigo mesmo.

(…)

*

A.B.
1/1/2000

*

BOSI, Alfredo. “Prefácio: Poesia e historicidade”. In: O ser e o tempo da poesia. 6ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp. 13-4.

“Conjunto da obra”, Vanessa Juliana

CONJUNTO DA OBRA
poema de Vanessa Juliana —

na voz de Sílvio Diogo

O grito
Senhoras e senhores
Ecoava
Assassinos!
Misóginos!
Homofóbicos!
Lesbofóbicos!
Racistas!
Opressores!
Escravagistas!
Traficantes!
Pedófilos!
Corruptos!
Ruralistas!
Moralistas!
Torturadores!
Estupradores!
Falsos evangelistas!
Golpistas!
O rito
Senhoras e senhores
Impôs silêncio
Ao grito bramido por justiça!
Então
Cantaram
Dançaram
Poetizaram
Representaram
Performatizaram
Com arte
Denunciaram
Mas não se calaram!

(31 de agosto de 2016 – Dia da votação do impeachment da presidenta Dilma Vana Rousseff)

*

Do livro Tertúlia dos Vales. Rafael Avelino (org.). Rio de Janeiro: Albatroz, 2018.

*

Vanessa Juliana, mulher, lésbica, arte-educadora, poeta, música, assistente social, nasci em Blumenau/SC. Há 11 anos moro em Minas Gerais, no município de Teófilo Otoni, no qual ministro aulas no curso de graduação em Serviço Social e no mestrado em Tecnologia, Ambiente e Sociedade da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Sou mãe também.”

“plano”, Tazio Zambi

PLANO
poema de Tazio Zambi —

na voz de Sílvio Diogo

daqui pra frente
é daqui

pra outro
lugar

ainda q lá
seja

aquilo
d onde se volta

sem
se notar


ante pé

e quase sobra
o q

fazer
d arrimo

e agora
evola

na promessa
d um até logo

daqui pra frente
tudo vai

ser
diferente

corte
q aparta

duas cartas
sem remetentes

*

Tazio Zambi (1985), poeta e artista visual, nasceu em Vitória, Espírito Santo, e atualmente mora em Maceió, Alagoas. Publicou Retráteis (contos, 2009) e Cerco (poemas, 2013). É doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e professor do Instituto Federal de Alagoas.

*

Trilha: “No Sul do Polo Norte”, música de Nelson Angelo
Do disco Naná Vasconcelos, Nelson Angelo, Novelli (1974)