Salário

Mario Benedetti

Aquela esperança que cabia em um dedal,
aquela alta vereda junto ao barro,
aquele ir e vir do sonho,
aquele horóscopo de uma longuíssima viagem
e a longuíssima viagem com adeuses e gente
e países de neve e corações
onde cada quilômetro é um céu diferente,
aquela confiança desde não sei quando,
aquele juramento até não sei onde,
aquela cruzada para não sei o quê,
esse quê que alguém poderia ter sido
com outro ritmo e alguma loteria,
enfim, para dizer de uma vez por todas,
aquela esperança que cabia em um dedal
evidentemente não cabe neste envelope
com papéis sujos de tantas sujas mãos
que me pagam, é lógico, todo dia 29
por eu ter os livros assinados em dia
e deixar que a vida transcorra,
simplesmente goteje
como um azeite rançoso.

[tradução de Silvio Diogo]

Em Poemas de la oficina y del hoyporhoy. Madri: Visor Livros (Colección Visor de Poesía), 1991.

Sueldo — em espanhol