Arte Desemboque

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Xilogravura de Silvio Diogo inspirada no Boizinho de Josino Medina e Paulinho Amorim, feita em oficina durante a Semana Roseana em Cordisburgo (2006), sobre foto de Renato Oliveira em Diamantina, com o Pico do Itambé ao fundo + photoshop (2011)

[logotipo da Arte Desemboque Casa Editorial]

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“Salário”, Mario Benedetti

Mario Benedetti / Foto de Sara Facio

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Aquela esperança que cabia em um dedal,
aquela alta vereda junto ao barro,
aquele ir e vir do sonho,
aquele horóscopo de uma longuíssima viagem
e a longuíssima viagem com adeuses e gente
e países de neve e corações
onde cada quilômetro é um céu diferente,
aquela confiança desde não sei quando,
aquele juramento até não sei onde,
aquela cruzada para não sei o quê,
esse quê que alguém poderia ter sido
com outro ritmo e alguma loteria,
enfim, para dizer de uma vez por todas,
aquela esperança que cabia em um dedal
evidentemente não cabe neste envelope
com papéis sujos de tantas sujas mãos
que me pagam, é lógico, todo dia 29
por eu ter os livros assinados em dia
e deixar que a vida transcorra,
simplesmente goteje
como um azeite rançoso.

*

Tradução: Sílvio Diogo

*

Poemas de la oficina y del hoyporhoy. Madrid: Visor Livros (Colección Visor de Poesía), 1991.

Sueldo — em espanhol

“O olho da mulher”, Gioconda Belli

Gioconda_Belli

O olho da mulher, poesia reunida de Gioconda Belli
Diamantina: Arte Desemboque Casa Editorial, 2012

Tradução, composição e projeto gráfico: Sílvio Diogo
Revisão da tradução, notas e prólogo: Bethania Guerra de Lemos
Ilustrações: Carolina Tiemi Teixeira

Para ter acesso à versão integral do miolo do livro em formato PDF, clique aqui.

Para adquirir a obra impressa, clique aqui.

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Apresentação de O olho da mulher, por Allan da Rosa
[texto publicado na orelha do livro]

E finalmente se traduz e se publica a Poesia de Gioconda Belli no Brasil. Será que só mesmo uma editora miúda, ousada na dúvida e na dívida, pra antever essa filosofia do arrepio e nos prover desse terremoto frutificante? Desse mistério em gotas que nos raia de vitalidade e gana quando lemos os versos de Gioconda?

Neste livro voga a delicada e dedicada lida de matutar cada verso com os poros, com a História, com a esperança pareando o que há de reverberação com os séculos brasileiros, com a tanta tombada de gente indígena também. E se consideram com atenção as paralelas e as diferenças que se traçam com nossa fôrma de matrizes africanas e lusas, em relação à Nicarágua e às Antilhas.

O sorriso no tremelicar do sexo. A utopia e seus azeites e graxas no prazer de sonhar coletivo e na penúria de organizar o desenho, dando rumo às durezas elementares da revolução sandinista. A dedilhada canção à Nicarágua e sua paisagem, suas esquinas, seus fogos. As árvores que dançam enquanto geram… Todo esse novelo se desenrola e nos envolve (mas não nos prende) na colheita de O olho da mulher, livro fascinante, professor e discípulo do Amor vivido em Luta.

Allan da Rosa
— escritor, pedagogo e poeta; organizador do selo Edições Toró

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Trecho do prólogo de Bethania Guerra de Lemos
[publicado na contracapa]

Primeiro livro de poemas de Gioconda Belli a ser traduzido no Brasil, a obra que temos em mãos é de fundamental importância para compreender toda a criação literária da autora. A poesia foi o gênero com o qual iniciou sua trajetória e do qual nunca se afastou. Nos anos de insurreição popular, prévios à revolução sandinista, a literatura foi uma das ferramentas de renovação artística na atividade feminina comprometida com as mudanças. Nas palavras da escritora Daisy Zamora, “essa presença feminina, nas diversas etapas da luta revolucionária, não tem precedentes no continente americano”.

O corpo que se rebela e se afasta do que já não deseja viver é aspecto recorrente em toda a obra de Gioconda Belli, que celebra essa imagem de diferentes formas: fazendo parte da natureza mais selvagem e retornando a ela, ou compondo a paisagem das cidades, da urbe que abriga os corpos e os transforma.

O novo espaço onde serão possíveis os renascimentos, mais livres de dogmas e preconceitos forjados por séculos a fio, precisa de um novo amanhecer, “Uma nova teoria do Big Bang”, com a qual nos presenteia Belli neste O olho da mulher.