Entre o ver e o escutar

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María Zambrano

Algo se forma entre o ver e o ouvir; entre o olhar e o escutar. Algo mais, como nas combinações químicas em que um corpo nasce da combinação entre dois elementos. A água, por exemplo.

E, para que algo novo nasça da combinação de dois ou mais elementos, hão de ser eles diferentes, ou conter, se são substâncias compostas, um elemento diferente que é liberado ao produzir-se a combinação. Ou seja, o que é igual se soma, e o que é diferente, combinando-se, dá origem a algo novo.

Não é coisa tão simples, contudo, buscar o que é que se produz quando dois sentidos combinam-se entre si, por se tratar de algo um tanto inapreensível, como o são, no limite, todas as coisas de nossa psique. Em primeiro lugar porque cada sentido tem o seu cortejo, os seus ajudantes, em outros sentidos revelados ou não. Acaso sabemos quantos sentidos temos de fato? Não existirão sentidos ainda desconhecidos, implicados em outros ou localizados em lugares do sistema nervoso não identificados ainda?

Não é de um ponto de vista fisiológico, e sim psicológico, que abordamos aqui os sentidos. E mais até que de uma consideração psicológica, em verdade se trata, nestas notas, de uma consideração modestamente fenomenológica, de uma reflexão sobre os dados do nosso sentir.

Pois, antes de mais nada, é do que sentimos que se trata. Decifrar o que se sente, perceber com certa nitidez o que se passa dentro de si mesmo, é uma exigência do ser pessoa. A vida que dentro de nós flui pede uma certa transparência.

Os sentidos, isto é, o que chega a nós através deles, recorta-se sobre um certo fundo. Um dado sensorial supõe e leva consigo todo um mundo, talvez o mundo todo. Mas de uma certa maneira. Um sentido é um caminho até a realidade, uma via de acesso a ela — o que acontece, sem dúvida, por ser inesgotável a realidade. E porque perdemos, se é que alguma vez o tivemos, o contato imediato com ela.

Visão e audição são os sentidos principais, os dois mais nobres, os mais diferenciados também, já que tato e paladar são como modulações de uma sensibilidade geral. O olfato aproxima-se um pouco da audição. Os dois recolhem-se dentro de uma cavidade sinuosa.

A audição recolhe os sons, é óbvio. Mas estes sons são sentidos como chamados, avisos, sinais que anunciam que algo vai chegar ou está partindo. Os rumores tendem a tornar-se sons dentro de uma atenção espontânea, que nos mostra mais que a atenção voluntária, o originário sentir que nos habita e nos move. Quantas vezes pensamos que nos chama uma voz quando se trata apenas de um som emitido por um ser sequer animado: uma porta que chia, um cristal que vibra. No vento discernimos lamentos, prantos, queixas. Os rumores, bem como os sons, tendem imediatamente a adquirir alma, como se o sentido da audição fosse um órgão conectado muito intimamente com ela, com seus secretos temores e esperanças. E assim, à beira do ouvido, dos erros que ele nos leva a cometer, podemos discernir essa última e secreta, indefinível esperança que nos habita de sermos chamados por nosso nome, por alguém ou, ainda, por algo que não conhecemos, de ouvir-nos chamar de uma vez por todas; uma voz que nos procure, a íntima certeza de saber-nos conhecidos, conhecidos de todo, inteiramente identificados por alguém ou por algo para além do cotidiano.

O que se ouve move o ânimo mais do que se vê. O grito da vítima é mais lancinante que a própria visão. E uma só palavra pode mais que a presença real de uma pessoa quando é o caso de acreditá-la, de acreditar nela. O que se ouve é mais prova de fé que o que se vê. O que não deixa de estar em relação com a definição tradicional da fé, que diz que fé é crer no que não vemos. Nessa mesma tradição, crê-se pela palavra escutada e guardada.

Entre o visto e quem vê existe uma distância. Uma distância não apenas física — que também existe no ouvir —, mas sobretudo de ânimo, na atitude do que vê; este, ainda que se aproxime fisicamente para ver melhor o objeto de sua mirada, está se distanciando ao mesmo tempo para dar-lhe espaço, lugar onde se recorte. E assim o que é visto converte-se ou tende a se converter em objeto. O que se ouve, ao contrário, adentra no ânimo, no interior. Quando se produz uma reação motora, um movimento, no caso do ver se trata de ir tocar o que é visto — quer se faça isso ou não —, e no caso do ouvir se trata também de ir, mas não para tocar; em princípio é um ir que é um acudir ou um apresentar-se. A não ser que na audição especificamente haja sinais de algo que é preciso ir ver. O que chega pelo ouvido chama à união — e assim Ulisses teve que tapar os ouvidos para não ouvir o canto das sereias. É a voz a portadora do destino. Mas será preciso seguir falando, já que não fizemos senão aflorar o imenso tema.

Outubro de 1964

[tradução: Silvio Diogo]

Filosofía y educación: manuscritos. Málaga, Ágora, 2007 (Org.: Ángel Casado e Juana Sánchez-Gey).

Fotografia de Zambrano: Miguel Hernández, 1936

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Incidente doméstico

Unamuno

Miguel de Unamuno

 

Traça a menina toscas garatujas,
de escritura arremedo,
mostra-os para mim e diz
com uma careta de gesto inteligente:
“O que diz aqui, papai?”
Vejo umas linhas que parecem versos.
“Aqui?” “Sim, aqui; quem escreveu fui eu; o que diz?
porque não sei ler…”
“Aqui não diz nada!”, respondi na hora.
“Nada?”, e fica um tempo pensativa
— ou assim me parece, pelo menos,
pois… está nos outros ou está em nós
isso a que chamamos talento? —.

 

Logo, refletindo, eu me dizia:
Fiz bem revelando-lhe o segredo?
— não o dela nem o daquelas toscas linhas,
mas o meu, é claro —.
Sei eu se alguma musa misteriosa,
um subterrâneo gênio,
um espírito errante que à espera
de encarnar está em humano corpo,
não lhe ditou essas linhas
de enigmáticos versos?
Sei eu se são a gráfica envoltura
de um idioma de séculos vindouros?
Sei eu se dizem algo?
Acaso vivi por dentro delas?
Não dizem mais as árvores, as nuvens,
os pássaros, os rios, os luzeiros…
Não dizem mais e nos dizem tudo!
Quem sabe de segredos?

 

[tradução de Silvio Diogo]

Desenho de Unamuno: Carmelo Méndiz