Incidente doméstico

Unamuno

Miguel de Unamuno

 

Traça a menina toscas garatujas,
de escritura arremedo,
mostra-os para mim e diz
com uma careta de gesto inteligente:
“O que diz aqui, papai?”
Vejo umas linhas que parecem versos.
“Aqui?” “Sim, aqui; quem escreveu fui eu; o que diz?
porque não sei ler…”
“Aqui não diz nada!”, respondi na hora.
“Nada?”, e fica um tempo pensativa
— ou assim me parece, pelo menos,
pois… está nos outros ou está em nós
isso a que chamamos talento? —.

 

Logo, refletindo, eu me dizia:
Fiz bem revelando-lhe o segredo?
— não o dela nem o daquelas toscas linhas,
mas o meu, é claro —.
Sei eu se alguma musa misteriosa,
um subterrâneo gênio,
um espírito errante que à espera
de encarnar está em humano corpo,
não lhe ditou essas linhas
de enigmáticos versos?
Sei eu se são a gráfica envoltura
de um idioma de séculos vindouros?
Sei eu se dizem algo?
Acaso vivi por dentro delas?
Não dizem mais as árvores, as nuvens,
os pássaros, os rios, os luzeiros…
Não dizem mais e nos dizem tudo!
Quem sabe de segredos?

 

[tradução de Silvio Diogo]

Desenho de Unamuno: Carmelo Méndiz

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