Quadrilha

Jeanne

Aline Crestani e Silvio Diogo

Adele em temporada de partida. Escobar não deseja Capitu. Encontram-se na noite do Velho Mercado, revestida de roupas brancas. Lua crescente. Provam-se petiscos e biritas, passos trançam o chão de pedras curtido. Puxam as rodas planos e danças. Segundas vozes se juntam e ensaiam harmonia com o canto desafinado que vem do palco.

Prova de que sonhos não envelhecem é a aparição, em pessoa, de Jeanne Moreau. Adele extasia-se. Olha para Escobar e lhe conduz ao close. Os demais trajes brancos perdem foco para o vestido preciso, o porte elegante, os olhos que sorriem. Na roda em que estão, partilham do encantamento com Cravo e Canela, o casal ruivo que ri muito.

Antes de pensarem na forma de aproximação, ocorre a Escobar que a mulher se parece com uma amiga sua, contadora de estórias. É a deixa para que ele, após instantes de hesitação e exclamação, decida ir ao encontro dela.

Em pé, à sua frente (a mulher está sentada entre amigos), pergunta se é parente da contadora de estórias. A resposta, muito sorridente, é não. Escobar sorri, puro de tão bobo, inventa mais algumas palavras inexpressivas e despede-se sem perguntar o nome de Jeanne Moreau.

No retorno à roda, Adele está inconformada com o relato. Cravo e Canela riem. Aproximam-se do grupo Hilda e Cigano. “— Prazer em conhecer”. Hilda pergunta a Escobar se tem parentesco com um outro Escobar da cidade. Este, bobo como sempre, devolve a pergunta: “— Isto é uma desculpa?”. Mais risos.

Chega Elza. Tem pressa. Ouve as querelas da roda, compreende, mas tem pressa. Há uma semana sabe quem quer. Seu desejo pertence a outra trupe, do outro lado do Oceano. Mas por acaso agora está próximo, à sua frente. O gesto de Elza é certeiro: aponta, chama e vai. Está perto de Benjamin. Logo, sem alvoroço, saem sozinhos os dois.

Escobar e Adele, uma vez que nem o mínimo sabem descobrir, resolvem sair em breve, a tempo. Em descompasso sobem os becos. Depois de cruzarem mesas, gente e ladeiras, certa moça encaracolada levanta-se com ânimo abrupto. Escobar, ainda bobo, confunde-a com uma surda e muda que conhece. Ao chegar mais perto, surpreende-se com o abraço falante: “— Oi. Noite linda, né?!”. Não é quem ele pensa. Adele, boquiaberta, monta o quebra-cabeça e sabe que essa moça é Quitanda. As duas sabiam-se, mesmo sem saber.

Segue o périplo. Vai-se fechando a noite, e ninguém sobe ao encontro deles.

Dois dias depois, reaparecem Quitanda e Jeanne Moreau.

*

[Imagem: “Jules e Jim”, François Truffaut (1962)]

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