Insana voz, palavra sã

— Silvio Diogo

“Se nossos sentidos e nossa consciência fossem realmente impressionados pela realidade, se pudéssemos entrar em comunicação imediata com as coisas e conosco, acredito que a arte seria inútil, ou melhor, que seríamos todos artistas, pois nossa alma vibraria continuamente em uníssono com a natureza”. (Henri Bergson, O riso)

Em ação, o poeta França (Valdemilton Alfredo de França) — http://poetafranca.com/
Em ação, o poeta França (Valdemilton Alfredo de França) http://poetafranca.com/

I

Este escrito foi concebido com a disposição de tecer relações entre a saúde e os usos da palavra poética. Mais que esquadrinhar aspectos literários do texto em prosa ou verso, pousado sobre o papel, a intenção é considerar recursos da linguagem nos momentos em que se transmite corpo a corpo, em que percorre paisagens vivas e articula personagens e pessoas dentro e fora do texto, quando consciente e inconscientemente age em favor do equilíbrio dinâmico entre os organismos e seu respectivo ambiente.

O exercício pode principiar com uma procura dos pontos de contato entre a emoção e o intelecto. Escreve Murilo Mendes em nota preliminar à Invenção de Orfeu de Jorge de Lima: “Nada terão a dizer de positivo certos críticos que abordam um texto de poesia ‘como se tivessem de produzir uma ficha de estatística’” [1]. Detalhes sensíveis ao pensar e à superfície da pele provocam nosso olhar e nossa psique a se atentarem aos processos de transformação capazes de tocar o corpo e aprofundar nossa compreensão do espaço em que vivemos e do qual somos parte.

É próprio da poesia apresentar-se simultaneamente simples e complexa. Simples por se valer de materiais comuns, por se despir de acessórios, por concentrar a seiva da linguagem e se ater ao substancial. Complexa porque, ao inventar-se, estabelece princípios de composição particulares, elege temas em que se aprofunda, trabalha com materiais da textura do som, do sonho, da memória. A leitura e a escuta da palavra poética pedem mais e mais proximidade; como se uma voz dissesse: “cheguem mais perto”. Murilo Mendes argumenta, no exemplo mencionado, que o trabalho de exegese do livro de Jorge de Lima requer “amor, ciência e intuição, e não apenas um frio aparelhamento analítico” [2].

O exemplo do diálogo entre os dois poetas brasileiros, dois amigos, “companheiros de armas espirituais”, vem aqui inspirar os primeiros passos deste percurso. Quando ressaltamos a importância do enlace do organismo vivo com o seu meio, partimos dos ensinamentos que apontam para a interdependência entre a constituição individual dos seres (mulheres e homens, plantas, bichos) e a posição em que se encontram no mundo; posições relativas, em um mundo que se movimenta continuamente.

As fronteiras erguidas pelo esforço racional de apreender objetivamente coisas, lugares e conceitos dificultam o reconhecimento dos ciclos de energia presentes tanto nas diferentes fases da natureza quanto em nossos próprios órgãos e membros, bem como em cada período de nossa vida. A psicóloga clínica Georgina Martins, que enveredou pelos caminhos da arteterapia e da bioenergética, refere-se a uma instância corporal que, para a sabedoria chinesa, é a junção de três elementos: a essência psíquica, a consciência e o espírito. Trata-se do Shen, energia visceral metabolizada no corpo que se faz concreta a partir da tomada de consciência dos órgãos. A autora explica que “essa energia está presente em cada órgão, que comporta um sentimento correspondente; e a emoção funciona como um elo que contata o indivíduo com sua essência e com o mundo externo” [3].

Em lugar de definir o que seja essência, deixemos a imaginação agir conforme a reverberação das ideias na chama do peito. Segundo Georgina Martins, o coração simboliza a energia do fogo; no coração também habita a energia do cérebro, que representa a consciência total. Em A condição humana, Hannah Arendt afirma que, ainda que pudéssemos determinar a essência natural de todas as coisas que nos rodeiam e que não somos, seria altamente improvável fazer o mesmo a nosso próprio respeito; “seria como pular nossa própria sombra”. Nas palavras de Arendt, “as condições da existência humana — a própria vida, a natalidade e a mortalidade, a mundanidade, a pluralidade e o planeta Terra — jamais podem ‘explicar’ o que somos ou responder a perguntas sobre o que somos, pela simples razão de que jamais nos condicionam de modo absoluto” [4].

A percepção dos elementos vitais que mantêm o vigor do corpo e possibilitam o amadurecimento emocional e espiritual está relacionada ao desafio de abertura a formas de linguagem próximas ao sonho, à imaginação, à poesia. É nestes substratos que se encontra a força de que tanto insistimos em nos afastar. Jung observa que em nossas atividades cotidianas aprendemos a rejeitar os adornos da fantasia tanto na fala quanto nas ideias, o que as enfraquece: “nos nossos pensamentos conscientes restringimo-nos aos limites das afirmações racionais — afirmações bem menos coloridas, desde que as despojamos de quase todas as suas associações psíquicas” [5].

A mesma operação de esvaziamento não se aplica aos referenciais simbólicos que constituem o nosso corpo físico e psíquico. Reminiscências da infância, conteúdos emocionais e genéticos herdados, comportamentos e tendências de caráter familiar e cultural trazem a potência de ampliar os horizontes da consciência, em especial quando assimilados e integrados ao processo de formação da personalidade. Eis o valor de considerar-se o sonho como fenômeno corporal corriqueiro e legítimo, “expressão integral, importante e pessoal do inconsciente particular de cada um e tão ‘real’ quanto qualquer outro fenômeno vinculado ao indivíduo”, como escreve John Freeman na introdução ao livro O homem e seus símbolos [6]. Se nos protegemos demasiadamente e evitamos o convívio com as visões íntimas que não conseguimos explicar, reforçamos a dissociação e fechamos os sentidos à riqueza de estímulos produzidos pelos sonhos. Jung assinala a necessidade de haver um impulso mais eficaz para reagirmos às imagens oníricas. “E é isto que a ‘linguagem do sonho’ faz: o seu simbolismo tem tanta energia psíquica que somos obrigados a prestar-lhe atenção” [7].

Uma das possibilidades da palavra poética é romper as facilidades do hábito e captar o epicentro em que os fenômenos emocionais contam com a mesma pujança dos fenômenos naturais, das tempestades e dos trovões, em que árvores, cavernas, rios e serpentes simbolizam sabedorias, espíritos e princípios de conexão cósmica. Um exemplo da literatura ilumina o uso primordial e imprevisto em que a linguagem se molda para tornar-se o vínculo com as nossas capacidades íntimas de construção, expansão e inventividade. O tradutor alemão Curt Meyer-Clason, em carta dirigida a Guimarães Rosa em agosto de 1967, solicita um esclarecimento a respeito da expressão “coraçãomente”, que aparece no conto “Substância” de Primeiras estórias. O sentido da palavra seria o mesmo de “cordialmente”?

O escritor brasileiro responde: “‘Coraçãomente’ ficou mais concreto, direto, quente e imediato que ‘cordialmente’ — isto em português, porque, quando usamos ‘cordialmente’, nem se recorda mais o radical latino; hoje, ‘cordialmente’ é termo de emprego banal, superficial, convencional. […] Teremos de achar algo de impacto maior, os corações aparecendo descobertos e vermelhos, quase anatomicamente, como os Sagrados Corações de Christo e da Virgem” [8].

desenho de Silvio Diogo
Desenho de Silvio Diogo

 

II

Em seus infinitos movimentos de luz e som, no eco e na metamorfose que vencem distâncias e desvendam qualidades interiores que se insinuam nas aparências, a leitura é um ato singular e plural. Pode ser a experiência reservada e solitária de sussurro (o sussurro do autor no ouvido do leitor), mas nunca deixa de configurar a experiência de muitos, a experiência social, que é o mesmo e diverso sussurro espalhado no tempo e pelo espaço. Na própria leitura em silêncio, colada ao livro, ocorre reencenação do texto, do enredo, participa-se do desfiar de causos, descrições, avanços, impasses da narrativa e de quem narra.

Entre as muitas acepções de que se reveste a leitura, Muniz Sodré enfatiza a faculdade de produção de sentidos implícita no ato de ler, sua natureza expressiva, de inventividade: “concebida, tradicionalmente, como o ato pelo qual se apreende o conteúdo de um texto por meio da decifração de signos gráficos, a leitura nos nossos tempos tem-se afirmado como um processo de expressão criativa” [9].

Queremos chamar a atenção a uma dimensão corporal da leitura e a potencialidades terapêuticas da palavra poética, especialmente em práticas mobilizadoras como a leitura em voz alta, a contação de estórias e a declamação de poesia.

As vozes que saltam dos textos ficcionais transportam ouvinte e leitor a um universo prenhe de referências ligadas ao corpo e, de modo particular, às dimensões da fala e da expressão sonora. Há um ambiente rítmico que permeia as palavras, composto de registros orais, exclamações, sotaques, ditos populares, gargalhadas, protestos, indiretas, ladainhas de lamento, rezas, murmúrios, gritos e queixumes. Incluem-se aí os processos de emudecimento: os sons sufocados, a encabulação, dificuldades de articulação da voz, timidez, gagueira, cochichos e desconfiança.

Este aspecto paradoxal é pleno de sugestões. O vínculo corporal posto em cena pela comunicação poética é capaz de bulir com o estado de retraimento dos sentidos e estimular a confiança nos poderes criativos da linguagem. No campo da análise bioenergética, Georgina Martins destaca a importância do afrouxamento de couraças corpóreas que mantêm o corpo aprisionado a determinadas atitudes diante do mundo, o que a autora denomina defesas psíquicas [10].

Quando tais defesas já se encontram estabelecidas no corpo, pouco podem suspendê-las as tentativas de convencimento por argumentação. Recursos verbais logicamente articulados revelam-se ferramentas gastas para o ofício de tocar aspectos corporais motivadores da expressão e do imaginário. Se valorizamos o conjunto de energias corpóreas da leitura, é porque partilhamos do entendimento de que há uma condução textual e orgânica dos itinerários da aprendizagem, no sentido de que a experimentação do corpo e o desenvolvimento das relações do eu com o ambiente e com os outros correspondem a um enraizamento progressivo em direção às fontes da criatividade. Georgina Martins reporta-se a Bachelard e Lowen ao escrever que “o processo de construção da identidade passa pelo contato com o encadeamento da história vivida, este fio condutor que nos leva a narrações do outro e que nos impregna como verdade acerca de quem realmente somos” [11].

Não nos parece ousado imaginar que a poesia seja um tecido de comunhão entre os seres por intermédio da linguagem. Neste ponto, vale transcrever os seguintes versos do poeta norte-americano Gary Snyder:

“O que a minha mão segue em seu corpo/ É a linha. Uma torrente de amor/ de calor, de luz, o que meu/ olho lascivo/ lambe […] É essa torrente./ De energia. o que minha/ mão em concha toca, seguindo a linha./ ‘quadril’ e ‘virilha’/ Onde ‘eu’/ sigo à mão e olho/ o limite da vertigem do seu corpo./ Como quando a visão brinca à toa nas colinas/ Em deleite pelo que ela alimenta.” [12]

A tradutora Luci Collin menciona uma interpretação a respeito deste poema que toca nas relações entre a tessitura literária e a corporalidade: “a linha poética ‘segue’ as linhas do próprio corpo, como se dirigida por elas. O ‘eu’ aparece entre aspas porque o poeta — e o eu poético — se dissolvem na cena, exatamente como o corpo se dissolveu na paisagem” [13].

Ao aprofundar-se nos mistérios do corpo, a percepção se abre a formas inesperadas de comunicação e de uso da linguagem.

O contato com investigações recentes acerca da dimensão terapêutica da leitura fortaleceu nossa hipótese sobre os efeitos em prol do equilíbrio corporal envolvidos no diálogo poético. Entre esses trabalhos destaca-se a tese de doutorado em literatura de Clarice Fortkamp Caldin, apresentada em 2009 na Universidade Federal de Santa Catarina [14]. A autora propõe que a narração ou a dramatização de um texto literário possuem desdobramentos terapêuticos, em virtude da “capacidade do cérebro para se restruturar, para ‘elaborar’ de maneira positiva eventos traumáticos e resgastar boas lembranças” [15].

Especialmente pelos movimentos no espaço e por envolverem gesto e voz, as diversas modalidades de atualização corporal do texto poético produzem um campo de contato interpessoal de extrema importância para a formação da subjetividade. O vínculo se estabelece não apenas entre intelectos; trata-se de um vínculo corpóreo em sentido amplo. Clarice Caldin afirma que “assim como a fala é a abertura de meu corpo ao corpo do outro, a leitura é uma troca consentida de ideias, pensamentos, conhecimentos e emoções entre o corpo do escritor e o corpo do leitor ou do ouvinte”. E prossegue: “tanto a cumplicidade entre autor e leitor/ouvinte quanto o acasalamento da linguagem implicam generosidade, descentramento, o sair de si, o permitir que o outro tenha voz, ou seja, autoriza a ruptura da fronteira entre a fala do autor e a fala do leitor/ouvinte” [16].

A melodia ou a atonalidade captadas durante a escuta de uma estória ou de uma sequência de poemas supõe a existência de um fio solidário (e não mais solitário, como costuma ser o processo da escrita) que se descortina do texto e repercute no pensar e sentir de cada ouvinte. Experimentamos a presença de outro ser que dialoga conosco e de outro espaço que criamos com o diálogo.

Paul Zumthor, que empreendeu uma pesquisa interdisciplinar sobre o papel desempenhado pelo corpo na leitura e na percepção do literário, enfatiza a noção de performance e estende seus sentidos e aplicação à leitura e à poesia. O autor observa que o ato da leitura comporta “elementos não informativos, que têm a propriedade de propiciar um prazer, o qual emana de um laço pessoal estabelecido entre o leitor que lê e o texto como tal. Para o leitor, esse prazer constitui o critério principal, muitas vezes único, de poeticidade” [17].

Vista de tal ângulo, a leitura não é somente técnica de decodificação e informação: o foco se volta para o suporte vocal da linguagem, “fato físico-psíquico próprio”, que ultrapassa a função linguística [18]. Para Josette Féral, em artigo citado por Zumthor, “a condição necessária à emergência de uma teatralidade performancial é a identificação, pelo espectador-ouvinte, de um outro espaço; a percepção de uma alteridade espacial marcando o texto. Isto implica alguma ruptura com o ‘real’ ambiente, uma fissura pela qual, justamente, se introduz essa alteridade” [19].

Assim como o oral designa a base subjetiva do escrito [20], o corpo constitui a referência primordial de todas as nossas reflexões e projeções mentais. O neurologista português António Damásio compreende a perspectiva de que “o nosso próprio organismo, e não uma realidade externa absoluta, é utilizado como referência de base para as interpretações que fazemos do mundo que nos rodeia e para a construção do permanente sentido de subjetividade que é parte essencial de nossas experiências”. Ele diz: “Concebo a essência das emoções e sentimentos como algo que podemos ver através de uma janela que abre diretamente para uma imagem continuamente atualizada da estrutura e do estado do nosso corpo” [21].

Desse modo, ao nos aproximarmos do texto atualizado pela voz, nossa percepção é provocada para que o corpo adentre um outro estado: o espaço e o tempo poéticos, a presença de uma outra pessoa, o laço que se cria entre falante e ouvinte. Paul Zumthor afirma que “o poético tem fundamental necessidade, para ser percebido em sua qualidade e para gerar seus efeitos, da presença ativa de um corpo: de um sujeito em sua plenitude psicofisiológica particular, sua maneira própria de existir no espaço e no tempo e que ouve, vê, respira, abre-se aos perfumes, ao tato das coisas” [22].

Ilustração de Carolina di Paolo baseada na máscara mortuária de Machado de Assis (revista Estudos Avançados 16 (46), 2012
Ilustração de Carolina di Paolo baseada na máscara mortuária de Machado de Assis (revista Estudos Avançados 16 (46), 2012

 

III

Em virtude de o cérebro reter conhecimentos sob a forma de imagens; de essas imagens serem acessadas quando raciocinamos e tomamos decisões; e de as emoções e sentimentos atuarem no mecanismo de regulação biológica; e ainda pelo fato de a poesia trabalhar com imagens metafóricas e burilar emoções — entendemos que a reverberação das imagens poéticas tenha melhor alcance sobre certas regiões de nosso organismo e de nosso cérebro pouco sensíveis a manifestações da linguagem pautadas pelo paradigma lógico-racional.

Esta abordagem apoia-se nos estudos de António Damásio, em particular no enfoque dado por este autor ao papel das emoções sobre a racionalidade e o poder de escolha e deliberação. Damásio propõe “a existência de uma determinada região do cérebro onde os sistemas responsáveis pelas emoções e sentimentos, pela atenção e pela memória de trabalho interagem de uma forma tão íntima que constituem a fonte para a energia tanto da ação externa (movimento) como da ação interna (animação do pensamento, raciocínio)” [23].

Seria mesmo possível entrever conexões entre ambientes reais e imaginários, poesia e saúde? A situação de deparar-se com um território estranho ou com transformações muito importantes nas condições de vida de certo território imprime-se a tal ponto na experiência, seja de pessoas reais, seja de personagens ficcionais, que as dimensões do interior e do exterior chegam a se confundir. Alguma catástrofe pessoal, familiar ou comunitária pode desmanchar o que existe de chão comum, transformado em beco, em labirinto.

Ao darmos ênfase ao material simbólico com o qual se trama a criação literária, procuramos atentar para as relações que unem a criação cultural e as condições materiais de uma sociedade. Néstor García Canclini salienta a presença de “ingredientes ideais ativos” necessários ao desenvolvimento de todo processo de realização material: “O pensamento não é um mero reflexo das forças produtivas: existindo nelas desde o seu começo, configura-se como uma condição interna da sua manifestação” [24].

Para o historiador Nicolau Sevcenko, o caso da literatura é emblemático, pois constitui provavelmente “o limite mais extremo do discurso, o espaço onde ele se expõe por inteiro, visando reproduzir-se, mas expondo-se igualmente à infiltração corrosiva da dúvida e da perplexidade. É por onde o desafiam também os inconformados e os socialmente desajustados”[25].

Os estudos da etnopoética admitem o desdobramento das narrativas orais em níveis semânticos que abrangem diferentes maneiras de contar e de utilizar as estórias. Sérgio Medeiros, ao apresentar as reflexões de Barre Toelken sobre o mito do Coiote entre os índios Navajo, refere-se a um nível de sentido que nos interessa particularmente — o da terapia —, em que “o performer é um médico-feiticeiro com liberdade para fragmentar a narrativa, a fim de escolher apenas certas imagens privilegiadas que são consideradas terapêuticas porque evocariam o todo (poderíamos imaginar aqui o aleph borgiano, um ponto ou fragmento que contém todo o Universo)” [26].

O poeta e ensaísta Gary Snyder, afinado à perspectiva da etnopoética, faz uso das imagens da parte e do todo ao articular o conhecimento do lugar e o conhecimento de si próprio: “O lugar é você, a parte primeira deste conhecimento maior do eu. O seu lugar real — mesmo que seja um lugar industrializado e poluído — se liga ao mundo, à ética maior do mundo” [27]. A dedicação à poética do lugar nos predispõe ao desenvolvimento da percepção espacial por intermédio da fantasia. Reconhecer-se partícipe do ambiente de entorno é circunstância facilitada pela adesão do corpo ao substrato social simbólico. Luci Collin afirma que “a poesia é, para Snyder, um fio que liga o homem ao resto do universo, é o instante de percepção, de revelação tanto da vida do planeta quanto do indivíduo neste planeta. […] Assim, qualquer modelo para uma cultura verdadeiramente saudável deve começar com a identidade pessoal e o compromisso com o lugar” [28].

Outro ponto que se deixa entrever é o potencial terapêutico da leitura sobre os vínculos de passagem, individuais e coletivos. A construção da identidade e o amadurecimento emocional e interpessoal nutrem-se do caráter de reinvenção próprio do imaginário poético. Aqui nos inspiramos na formulação de Jung: “Estabeleci como regra particular considerar cada caso como uma proposição inteiramente nova, sobre a qual começo um trabalho de quase alfabetização” [29].

Ilustração de Carybé no livro “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez
Ilustração de Carybé no livro “Cem anos de solidão”, de García Márquez

 

IV

O título deste texto faz referência a duas expressões que se transformaram quase em ditos populares. Uma delas é antiga, “mente sã em corpo são”, e tem origem em verso do poeta romano Juvenal (mens sana in corpore sano). Do terreno individual para o coletivo, a outra expressão está no livro Macunaíma, de Mário de Andrade: “pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”.

Com esta última frase, conforme explicam Nísia Trindade Lima e Gilberto Hochman, “Macunaíma assinou o livro de visitas do Instituto Butantã que, segundo o irreverente personagem de Mário de Andrade, era o orgulho dos paulistas. O escritor estabelecia diálogo em torno da preguiça como expressão do modo de ser dos brasileiros e reportava-se também à força que a imagem da doença teve na composição dos retratos do Brasil em que se acentuavam seus males de origem” [30].

Nas primeiras décadas do século XX, era patente o distanciamento das investigações científicas, especialmente no campo da medicina, do modo de vida das comunidades tradicionais do país. Imagens e símbolos advindos da cultura europeia, que muito inspiraram os projetos governamentais implementados naquele período, dificilmente poderiam ser acompanhados por populações que aqui viviam sob a influência de concepções historicamente associadas à tradição oral, às matrizes indígenas e afrobrasileiras, e às crenças religiosas.

Esta breve alusão histórica é aqui trazida para localizar a questão dos “contrastes sociais e culturais da sociedade brasileira” [31], uma vez que continua em pauta “o tema das possibilidades e das resistências à modernização, em uma nova versão do debate intelectual sobre progresso e civilização que envolveu os intelectuais de fins do século XIX e três primeiras décadas do século XX” [32].

As conclusões apontadas por Nísia Trindade Lima e Gilberto Hochman reforçam nossa compreensão sobre a importância de proposições práticas e metodológicas que incorporem, na pesquisa científica, representações, traços, movimentos, paixões, sentidos condensados de uma época, de um povo, de uma comunidade cultural, e que não encontram expressão em linguagens lógicas, formais, sendo acolhidas, consciente e intuitivamente, lúcida e ludicamente, pelo fazer artístico. Escrevem os autores: “Refletindo sobre os conceitos de cultura rústica e de resistências culturais à mudança social, verificamos a continuidade do estranhamento dos intelectuais diante de tantos Jecas-Tatus, resistentes aos conselhos dos diferentes especialistas para tratar a ancilostomose, racionalizar o trabalho e mudar seus hábitos mais arraigados e que, embora falando português, pareciam viver em uma outra sociedade” [33].

A linguagem que se aproxima da necessidade humana de contornar privações materiais ou simbólicas lança mão da proximidade do corpo com o sonho, envolve-se na artimanha que é a experiência coletiva de imprimir anseios à realidade. Ao comentar sobre as oferendas que se preparam para a festa dos mortos, no México, García Canclini destaca a cerimônia como uma “ocasião propícia para a compreensão do que os homens fazem, através da festa, com o que não podem fazer com a morte” (…), “ajudando-nos a perceber que a cultura não é apenas o modo como esta arte pobre reelabora as condições materiais, concretas, da sociedade, mas também o que ela imagina como situado além dela” [34].

Georgina Martins realça o valor da convivência dinâmica entre sentimento e pensamento e indica o imprescindível exercício da imaginação nas ocasiões decisivas que marcam o processo de individuação: “Assim como nos sonhos criativos, a reflexão a respeito das escolhas do momento navega em direção ao interior das coisas, ampliando o horizonte que segue para o mundo que ainda poderá surgir. […] A passagem para uma atitude madura diante da vida está demarcada exatamente pela possibilidade do sujeito de se colocar adiante dos fatos reais” [35]. José Paulo Paes assim define tal operação: “no nível simbólico, a vitória do desejo humano obstado ou recalcado sobre a realidade até então a ele hostil ou renitente” [36].

* * *

A amarração dos fios, na preparação deste escrito permeado de digressões, recorre ao entrelace. Não se quer arremate, ponto final. Aqui se tecem relações entre poesia e saúde, reflete-se sobre o caimento e retoma-se o ponto. Textura da estória: conversação por teia de intenções desveladas. Sobrevivida a cadência, resta inquirir sobre os pressupostos de todo dizer: memória hesitante de falar/calar. Em ponto não inteiramente desconhecido, retorna a costura, exigente de reparos ou, em caso de crise, de desprender-se inteira. Confundidos os corpos, quase desaparece a linha.

* * *

Notas

1 MENDES, Murilo. “Nota de abertura”. In: LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. São Paulo: Círculo do Livro, s/d, p. 18.

2 MENDES, Murilo. Op. cit., p. 18.

3 MARTINS, Georgina. “As vibrações cíclicas da vida”. Rio de Janeiro: s/d. In: Núcleo de Novas Abordagens em Psicoterapia — Seção “Artigos”. Disponível em www.nunap.com.br/artigos.html. Acesso em 05/12/2014.

4 ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 2005, pp. 18-19.

5 JUNG, Carl G. “Chegando ao inconsciente”. In: JUNG, Carl G. et al. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964, p. 43.

6 FREEMAN, John. “Introdução”. In: JUNG, Carl G. et al. Op. cit., p. 12.

7 JUNG, Carl G. “Chegando ao inconsciente”. In: JUNG, Carl G. et al. Op. cit., p. 49.

8 ROSA, João Guimarães. Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason (1958-1967). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, pp. 410-13.

9 SODRÉ, Muniz. “Apresentação”. In: Práticas leitoras. (Cursos da Casa da Leitura; 3). Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2009, p. 7.

10 MARTINS, Georgina. “Brilho do sonho na poesia do corpo”. In: Encontro Paranaense; Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, XIV, IX. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2009.

11 MARTINS, Georgina. “Brilho do sonho na poesia do corpo”. Op. cit.

12 SNYDER, Gary. “Sob minha mão e olho as colinas distantes, seu corpo”. In: Re-habitar: ensaios e poemas. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005, p. 89.

13 FRANK, Robert e SAYRE, Henry. The Line in Postmodern Poetry. US: University of Illinois Press, 1988. Citado por Luci Collin em SNYDER, Gary. Op. cit., p. 299.

14 CALDIN, Clarice Fortkamp. Leitura e terapia. Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, linha de pesquisa Filosofia e Ciência da Literatura, área de concentração Teoria Literária. Florianópolis: UFSC, 2009.

15 Idem, p. 207.

16 Idem, p. 83.

17 ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p. 24.

18 Idem, p. 11.

19 FÉRAL, Josette. “La Théâtralité”, Poétique, 1988. In: ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p. 41.

20 ZUMTHOR, Paul. Op. cit., p. 13.

21 DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 14-16.

22 ZUMTHOR, Paul. Op. cit., p. 35.

23 DAMÁSIO, António R. Op. cit., p. 97.

24 CANCLINI, Néstor García. As culturas populares no capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 31.

25 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 28.

26 MEDEIROS, Sérgio. “A mitologia do viajante solitário”. In: MEDEIROS, Sérgio (org.). Makunaíma e Jurupari: cosmogonias ameríndias. São Paulo: Perspectiva, 2002, p. 21.

27 SNYDER, Gary. Op. cit., p. 11.

28 COLLIN, Luci. “A real medida das coisas”. In: SNYDER, Gary. Op. cit., pp. 11-12.

29 JUNG, Carl G. “Chegando ao inconsciente”. In: JUNG, Carl G. et al. Op. cit., p. 92.

30 LIMA, Nísia Trindade; HOCHMAN, Gilberto. “Pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são… Discurso médico-sanitário e interpretação do país”. In: Ciência e Saúde Coletiva, v. 5, n. 2, pp. 313-332. Rio de Janeiro: Abrasco, 2000.

31 Idem.

32 Idem.

33 Idem.

34 CANCLINI, Néstor García. Op. cit., p. 16.

35 MARTINS, Georgina. “Brilho do sonho na poesia do corpo”. Op. cit.

36 PAES, José Paulo. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções. São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 17.

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