A atenção

Maria_ZambranoMaría Zambrano

A atenção não é senão a receptividade levada ao extremo, isto é, dirigida a um determinado campo da percepção ou do pensamento; isto é, dirigida ao mundo exterior ou, reflexivamente, ao mundo próprio.

Distinguem-se na atenção dois planos: o da atenção espontânea e o da voluntária. A atenção espontânea começa do grau mínimo em que se pode dizer que uma pessoa está desperta: é um estado de passividade em que a atenção, espécie de raio de luz, vai atraída de um lado para o outro de acordo com o estímulo que a chama. Claro está, no entanto, que a atenção não existe por si mesma; é o atributo da consciência e da alma de alguém. E assim, conforme seja este alguém, sua atenção espontânea será atraída por um tipo de estímulos. Um dos indícios mais seguros para conhecer uma pessoa é proporcionado pela direção que segue a sua atenção quando está abandonada a si mesma. Em geral, pode-se dizer que o que brilha atrai a atenção mais do que o opaco; que o que se move mais do que o que permanece quieto; o estranho e singular, mais do que o consuetudinário.

A atenção é um campo de claridade, de iluminação. É uma tensão, um esforço — e, como é natural, uma fonte, talvez a mais considerável, da fadiga. Este campo de claridade produz-se pelo interesse que a pessoa sente por um ou por outro aspecto do inesgotável, imenso, ilimitado campo da realidade, chamando realidade a toda presença, ainda que seja uma imagem ou um pensamento. A atenção é como a luz que se desprende [de] uma íntima combustão. A vida é, antes de tudo, e desde a sua origem até o final, uma combustão incessante, tanto física e psíquica, como do próprio pensamento. E, ao menos no ser humano, esta combustão se transforma em claridade, em luminosidade.

Costuma-se definir a atenção voluntária por uma concentração deliberada de todos os poderes de apreensão de que o homem dispõe, de acordo com a realidade a que se atente — já que em alguns casos os sentidos pouco ou nada têm a fazer. Essa operação, contudo, não é tão simples, pois vários inimigos estão à espreita de que se verifique adequadamente. Pois, paradoxalmente, trata-se antes de tudo de tirar, e não de pôr.

Dirige-se a atenção a um campo da realidade para captá-la, para obter dela o máximo de sua manifestação. A primeira ação, portanto, será uma espécie de inibição; paradoxalmente, uma retirada do próprio sujeito para permitir que ela, a realidade, se manifeste. E nesse ponto a atenção há de fazer uma espécie de limpeza da mente e do ânimo. Há de se ver com a imaginação. Com a imaginação e com o saber. A atenção há de levar o sujeito ao limite da ignorância, para não dizer da inocência.

Por isso não basta concentrar-se, como é costume crer, para que a atenção, com a sua invisível claridade, se produza. A atenção há de ser como um cristal quando está perfeitamente limpo e deixa de ser visível para deixar passar diafanamente o que está do outro lado. Se atentarmos intensamente a algo e lhe projetarmos os nossos saberes, os nossos juízos, as nossas imagens, uma espécie de capa espessa se formará e não permitirá a essa realidade manifestar-se. E isto encontra-se em conexão com o fato de que alguns importantíssimos descobrimentos tenham saltado à mente do descobridor quando estava distraído, porque então estava livre a sua mente. É bem verdade que tais casos sucederam a quem vinha, longa e fundamente, buscando, investigando, atentando, até mesmo em sonhos, ao que por fim, um dia, num instante, lhes apareceu, como por si próprio, à maneira de um prêmio.

O exercício da atenção é a base de toda atividade, é de certo modo a própria vida que se manifesta. Não atentar é não viver. Mas trata-se de um exercício complexo, de toda uma educação, da educação de todo o organismo e do ser humano, e não só da mente ou dos sentidos. Disso, para dizer a verdade, continua-se sabendo mais nas culturas do Oriente do que nas do Ocidente. Daí que a realização de certas proezas humanas, do ser humano apenas, sem o auxílio da técnica maquinista, seja coisa costumeira para os orientais, e para nós, ocidentais, incompreensíveis prodígios; no fundo, trata-se nada mais que da atenção, de uma atenção educada que exige por sua vez o conhecimento e o uso das subjacentes energias e poderes do ser humano, este que tanto se assemelha a um desconhecido continente.

Novembro de 1964

[tradução: Silvio Diogo]

Filosofía y educación: manuscritos. Málaga, Ágora, 2007 (Org.: Ángel Casado e Juana Sánchez-Gey).

Fotografia: Zambrano em Ponte Vechio (fonte: Fundación María Zambrano)

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