Elementos para uma teoria dos meios de comunicação (cap. 17, excerto)

Hans Magnus Enzensberger

Enzensberger

“De uma perspectiva histórica, a literatura escrita só teve papel dominante por poucos séculos. A predominância do livro hoje nos parece apenas um episódio. Um período incomparavelmente maior a precedeu quando a literatura era oral; agora, ela é absolvida pela era das mídias eletrônicas, que, com sua tendência intrínseca, faz, por sua vez, todos falarem. Em seu auge, o livro de certa forma usurpou as formas de produção do passado, primitivas mas à disposição de todos. Por outro lado, ele representou as formas de produção futuras, que permitem a cada um de nós se tornar um produtor.

O caráter revolucionário da impressão do livro, aliás, foi suficientemente descrito e seria absurdo negá-lo. A literatura escrita, do ponto de vista de sua estrutura midiática, era progressista como a burguesia que a produziu e a quem ela serviu. (Mais detalhes sobre isso se encontram no Manifesto Comunista.) Em analogia ao desenvolvimento econômico do capitalismo, que foi o que possibilitou o advento da Revolução Industrial, também as forças produtivas imateriais não poderiam ter-se desenvolvido sem acúmulo de seu capital. (Nós também agradecemos ao acúmulo do capital e de seus ensinamentos à mídia livro.)

Faz-se importante reconhecer que quase todo o mundo fala melhor do que escreve. (O mesmo vale para escritores.) A escrita é uma técnica extremamente formalizada, que já do ponto de vista puramente fisiológico exige uma postura corporal estranhamente rija. Corresponde a isso o alto grau de especialização social que ela exige. Escritores profissionais desde tempos imemoriais tendem a pensar em castas. O caráter de classe de seu trabalho também é inquestionável na era da obrigatoriedade escolar geral. Todo o processo é extraordinariamente estigmatizado. Erros ortográficos, totalmente inoperantes para a comunicação, são punidos com a desclassificação social do escriba; atribui-se força normativa às regras que valem para essa técnica, força essa sem justificativa racional. A intimidação por meio da escrita permaneceu como um fenômeno específico de classes e foi bastante difundido também em sociedades industriais desenvolvidas.

Esses momentos de alienação não podem ser eliminados da literatura escrita. Eles são reforçados por meio dos métodos pelos quais a sociedade perpetua suas técnicas de escrita: enquanto se aprende a falar muito cedo e geralmente sob condições psicológicas favoráveis, a caligrafia requer uma parte importante da socialização autoritária por meio da escola (‘a bela escrita’ como ato de domesticação). Isso marca para sempre a linguagem da comunicação escrita, seu tom, sua sintaxe e seu gesto (portanto também o texto desta página).

A formalização da língua escrita permite e beneficia a supressão de resistências. Durante a fala, contradições não resolvidas são solucionadas por meio de pausas, interrupções, lapsos de linguagem, repetições, anacolutos, sem falar nos ‘fraseologismos’, na mímica, na gesticulação, na velocidade e na intensidade da voz. A estética da literatura escrita qualifica tais momentos involuntários de ‘erros’. Ela exige, explícita ou implicitamente, a resolução das contradições, a racionalização, a regularidade da forma linguística, desconsiderando o seu teor. Aquele que escreve já é estimulado desde a mais tenra idade a esconder seus problemas não resolvidos atrás de uma muralha de proteção de corretismo. Estruturalmente, a impressão do livro é uma mídia ‘monológica’, que isola tanto os produtores quanto os leitores. O feedback e a interação são extremamente limitados, exigem procedimentos complexos e trabalhosos e, raras vezes, levam a correções: a edição uma vez impressa é incorrigível, ela poderá ser, no máximo, destruída. O círculo regrado da crítica literária é extremamente lento e elitista; de antemão, ele exclui o público.

Para as mídias eletrônicas, nenhuma das características da literatura escrita ou impressa é válida. O microfone e a câmera suspendem o caráter de classe da forma de produção (e não-produção). As regras normativas regridem: a entrevista oral, a briga, a passeata não exigem nem permitem ortografia e caligrafia. A tela desvenda o alisamento estético de contradições não resolvidas e camufladas. É bem verdade que nela aparecem mentirosos aos milhares, porém percebe-se de longe que querem vender algo. Em sua contribuição atual, o rádio, o cinema e a televisão carregam consigo, à exaustão, os traços autoritários e ‘monológicos’ que herdaram de formas mais antigas de produção, e isso de forma alguma ocorre sem que se queira. Esses momentos excessivos da estética da mídia atual são forçados pelas condições sociais. Eles não decorrem da estrutura das mídias. Ao contrários: elas lhe são opostas, visto que essa estrutura exige interação.

Aliás, é bastante improvável que a escrita como técnica especial desapareça em certo prazo. A mesma consideração é válida para o livro, cujas vantagens práticas ainda são evidentes, para diversos fins. É verdade que ele é pouco prático e não favorece a economia de espaço como outros sistemas de arquivamento, mas oferece possibilidades mais simples de acesso que, por exemplo, o microfilme ou o arquivo magnético. No caso-limite, ele poderia ser integrado ao sistemas das novas mídias, perdendo assim os restos de sua aura ‘cúltica’ e ritualística.

Isso já se observa a partir do desenvolvimento tecnológico. A eletrônica apropria-se cada vez mais da escrita: telégrafo, transmissão rápida, aparelho de leitura, composição fotográfica automática e composição eletrônica, autômatos de escrita, compositores, eletrostato, biblioteca Ampex, enciclopédia em fitas-cassete, escritor de luz e magnético, speedprinter.

Aliás, o famoso técnico da mídia russo, El’Lisickij, já em 1923 exigiu a ‘biblioteca eletrônica’, uma exigência que com o estado da técnica daquela época parecia praticamente sem sentido, ao menos soava incompreensível. A imaginação desse homem preconizava o futuro:

Apresento a seguinte analogia:

Invenções no âmbito de ideias

Invenções de âmbito geral

Fala articulada

Caminhar de forma ereta

Escrita

Roda

Impressão do livro por Gutenberg

Carroça, puxada por tração animal

?

Carro

?

Aeroplano

‘Mostro essa analogia para provar que, enquanto o livro ainda for necessário como objeto palpável, isto é, enquanto ainda não tiver sido absolvido por uma forma autônoma ou cinematográfica, nós devemos esperar novas invenções fundamentais na área de produção do livro a cada dia. […] Há indícios que essa invenção fundamental deva originar-se da área vizinha da fotoimpressão.’ (Walter Benjamin, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, 1936)”.

*

Hans Magnus Enzensbeger, Elementos para uma teoria dos meios de comunicação, 1970 (São Paulo: Conrad, 2003, pp. 91-96; tradução de Cláudia S. Dornbusch)

Fotografia: Joachim Becker (ullstein bild via Getty Images)

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