Chega, o corpo

Nada piora, nada disso
piora. No lugar do corpo onde doeria,
os poros fecharam. Quem foi, poesia,
que o corpo mandou?

Mandou fechar o portão,
cansado de ficar lá
espiando o mecanismo próprio
de inventar futrica.

Inventa que não está,
copia a palavra estrela
e deita, não quer saber.

Joga alto quando se ri
dum anúncio de jazigo
no cemitério fulano.

Não se mandou correndo,
corpo franzino que era
quando mandaram correr.

Esperou todos saírem,
todos se embrutecerem.
E, da cortina, espreita
com os muitos olhos que tem.

O que tinha de piorar
ele não vê, não tem mais.
O corpo é a boca aberta.
Já disse tudo ao dizer
que chega.

*

Do livro Desenho do chão; São Paulo: Edições Toró, 2008

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A vida em crise

Infinito_03

María Zambrano

Não parece muito necessário justificar que acreditamos estar vivendo em crise; é já um lugar comum de nossos dias e, como tantos lugares comuns, leva-nos a correr o risco de que resvalemos sobre ele, sem nos adentrarmos. Porém, a acontecer assim, será como resvalar sobre nossa própria vida. E o grave é que tal coisa — resvalar sobre a própria vida, sem adentrar-se nela — pode ocorrer com suma facilidade. Por isso é necessário que tentemos desentranhar o que há dentro dessa realidade a que aludimos ao dizer crise. É necessário. E, no entanto, não nos podemos atrever a defini-la deveras. Só nos cabe fazer isso que não é fácil confessar que se faz, em virtude do indevido uso de uma palavra que foi, em outros tempos, humilde e expressiva como tantas outras. A atividade humana denominada meditação, de humilde expressão, não significa resultado algum a não ser simplesmente uma atividade, uma atitude quase, muito colada à vida de todos os dias, já que a meditação não é senão a preocupação que corre sem se revolver, um pouco domada por um certo leito; uma preocupação que se fundiu com nossa mente, incrustada em nossas horas. E tão colada à vida diária que, a exemplo desta última, não tem término fixo de antemão; não vai concluir em nenhuma obra ou resultado; e só vai se justificar modificando-se a si mesma, tornando-se, passo a passo, mais transparente, alcançando maior claridade. Algo, enfim, parecido a uma confissão. Buscamos saber o que vivemos; como se disse poeticamente, “vigiar o sonho”.

Viver em crise é viver em inquietude. Mas toda vida se vive em inquietude. Nenhuma vida, enquanto passa, alcança a quietude e o sossego, por muito que o anseie. Não será simplesmente a inquietude o que caracterize o viver em crise, mas sim, em todo caso, uma inquietude determinada, ou uma inquietude excessiva, além, ou no limite, do suportável.

Assim parece ser. Se repassamos os títulos das revistas literárias jovens e também dos livros de Poemas ou de Ensaios dos anos que vão de 1915 a 1930, a palavra “inquietude” ou “inquietudes” é a que com maior frequência aparece. E é sabido o quão delator é o fato de que uma palavra seja usada com preferência na expressão literária e, mais ainda, na expressão literária balbuciante.

Já desde o início deste século parece ter sido ultrapassada a margem de inquietude em que toda vida se desenvolve. Isso se fazia ostensível em múltiplos sintomas: no estilo arquitetônico chamado “modernista”, que imprimiu tremor à mais estável das artes, no afã das viagens, na própria abertura crescente das classes sociais. No entanto, não precisamos mais lançar mão de sintomas literários ou de formas artísticas para comprovar a tremenda inquietude que ameaça devorar nossa vida. A realidade superou uma vez mais a imaginação, e a inquietude em que as criaturas humanas estamos vivendo não parece que possa ir além, sobretudo para nós, os filhos desse inquieto continente chamado Europa. Porque a inquietude se tornou substância de nossa vida e o nosso único bem. Temos apenas inquietude e o esforço que realizamos para nos mantermos dentro dela.

Inquietude que não é a de outros tempos de vidas ricas em aventuras, por ser uma inquietude que suportamos, dentro da qual nos sentimos reclusos. É inquietude que nos vem de fora, não libertadora atividade que brote de dentro. O mais humilhante que existe para um ser humano é sentir-se levado e trazido, arrastado, como se lhe não restasse outra opção, como se lhe fosse impossível escolher ou tomar decisão alguma porque alguém, que não se presta a consultá-lo, já as está tomando todas por sua conta.

Tal passividade tem lugar na solidão mais tremenda. Ao mesmo tempo que inquietos, sentimo-nos submersos em uma “solidão sem descanso”. Com a solidão ocorre, porém, o mesmo que com a inquietude. Também a solidão é própria da vida de sempre; também está no fundo da vida humana. A solidão da época de crise é, todavia, bem distinta dessa solidão do homem desperto, pois não se deve a uma maior lucidez e pode até envolver uma maior confusão. É solidão causada pela inquietude, porque não sabemos nada, nem poderemos repousar em certeza alguma. Estamos tão sós porque estamos terrivelmente inquietos e perturbados.

A crise mostra as entranhas da vida humana, o desamparo do homem que ficou sem apoio, sem ponto de referência; de uma vida que não flui em direção a meta alguma e não encontra justificação. Assim, em meio a tanta desgraça, os que vivemos em crise temos talvez o privilégio de poder ver, mais claramente, colocada a descoberto por si mesma e não por nós, por revelação e não por descobrimento, a vida humana; a nossa vida. É a experiência peculiar da crise. E como a história nos parece dizer que se verificaram várias, teríamos que cada crise histórica torna manifesto um conflito essencial da vida humana, um conflito último, radical, um “pode ou não pode”. Isso porque a vida humana parece ser o território da possibilidade, das mais amplas possibilidades; e a história, o processo de as ir consumindo, até seu último extremo e raiz. Daí que, em momentos de crise histórica, existam sempre alguns mártires chamados vulgarmente “extremistas” e que são os encarregados de levar à sua última consequência, ao seu absurdo, as possibilidades da vida humana. E se houvéssemos de ser honestos conosco, a conclusão a tirar seria negativa sempre. Até agora, o que resulta de todas essas experiências é que a vida humana não é possível, ao que parece, de nenhuma maneira. E a pergunta que sempre renasce é: é possível ser homem?; como? Nos tempos de plenitude parece ter-se respondido afirmativamente de um modo determinado. O único modo de responder afirmativamente não é dizendo sim em abstrato, mas oferecendo uma forma de vida, uma figura da realidade dentro da qual o homem tem um determinado afazer; e toda a sua existência, um sentido. Nos instantes de crise, a vida aparece despida, no maior desamparo, a ponto de chegar a causar-nos rubor. Neles, o homem sente a vergonha de estar nu e a necessidade terrível de cobrir-se com o que quer que seja. Fuga e afã de encontrar figura que nos faz precipitar nos equívocos mais dolorosos. Faria falta simplesmente um pouco de valor para olhar, sem pressa, essa nudez; para vigiar já não o sonho, mas sim, mais honradamente, os próprios mananciais do sonho; ver o que dele nos resta, quando já não nos resta nada.

 

*

Fragmento de “La vida en crisis”, publicado em Hacia un saber sobre el alma (1950, 1. ed.)

Tradução: Silvio Diogo

Imagem: Rosa Mascarell Dauder, Infinito (da série Iluminaciones)