Chega, o corpo

Nada piora, nada disso
piora. No lugar do corpo onde doeria,
os poros fecharam. Quem foi, poesia,
que o corpo mandou?

Mandou fechar o portão,
cansado de ficar lá
espiando o mecanismo próprio
de inventar futrica.

Inventa que não está,
copia a palavra estrela
e deita, não quer saber.

Joga alto quando se ri
dum anúncio de jazigo
no cemitério fulano.

Não se mandou correndo,
corpo franzino que era
quando mandaram correr.

Esperou todos saírem,
todos se embrutecerem.
E, da cortina, espreita
com os muitos olhos que tem.

O que tinha de piorar
ele não vê, não tem mais.
O corpo é a boca aberta.
Já disse tudo ao dizer
que chega.

*

Do livro Desenho do chão; São Paulo: Edições Toró, 2008

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s