A crise e o lirismo comedido

Inicio o texto com um contexto necessário. Fui a Belo Horizonte e voltei, sexta-feira última, em companhia de colegas técnicos-administrativos da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, para a assembleia unificada na UFMG. Lá ficou deliberado que a greve continua, mas que a disposição da base do Sindifes é a de fechar o acordo com o governo federal durante esta semana: reajuste salarial de 5,5% que só passa a vigorar no próximo ano (no pior dos casos, em agosto, após o novo arrocho divulgado pela equipe econômica na semana passada), mais 5,0% de aumento salarial em janeiro de 2017. Acordo sem euforia, clima de aperto. Conclusão inconclusa de que, na atual conjuntura, um pequeno reajuste é melhor que zero. Ainda falta saber qual será a posição da Fasubra (a federação nacional das entidades dos técnicos-administrativos).

Voltei intrigado com a leitura que fiz durante a viagem, na ida e na volta: o livro de crônicas “Bom dia para nascer”, de Otto Lara Resende, publicado em 1993, logo em seguida à morte do escritor, em 28/12/1992. Eram os anos Collor. Os textos reunidos no livro foram publicados originalmente na Folha de S. Paulo entre maio de 1991 e dezembro do ano seguinte. Otto Lara Resende faleceu um dia antes da renúncia de Collor. O elegante estilo do cronista debruça-se sobre a crise que levaria ao ‘impeachment’, sobre os caras-pintadas, a ECO/92, debates sobre a pena de morte, o massacre do Carandiru (ocorrido em 02/10/1992), além de reflexões sobre a literatura, língua, etimologia, memórias remotas e recentes, enfim, o tecido com que se faz a crônica.

André Lara Resende, filho de Otto, já era àquela altura um economista badalado: fizera parte da equipe do Plano Cruzado, durante o governo Sarney, e chegou a ser consultado pelo governo Collor sobre o confisco da poupança (restam dúvidas se aconselhou ou desaconselhou o presidente a fazê-lo). Seria um dos idealizadores do Plano Real, antes ainda da eleição de Fernando Henrique Cardoso, pois já compunha, em 1993, o grupo do Ministério da Fazenda de FHC no governo Itamar. Foi, portanto, um dos ideólogos do combate à inflação e da “estabilização” da moeda (assim, com todas as aspas). Presidente do BNDES durante a privatização das teles, em 1998, foi pego num grampo telefônico em que manifestava pressão em favor de um dos grupos de empresas com interesse no leilão. Ao longo de sua trajetória, tem conciliado a carreira pública com a de banqueiro. Sócio-fundador do banco Matrix, no início da década de 1990, destacou-se como gestor, no Brasil, do dinheiro de grandes fundos de investimento estrangeiros. No ano passado, compunha a equipe econômica da candidata Marina Silva à presidência.

Em crônica datada de 20/04/1992 com o título de “Graça e desgraça”, Otto Lara Resende escreve que, mesmo reconhecendo a importância da poesia para a cultura de um povo e para o destino da humanidade, nem por isto deixa de observar “que a sina do poeta, a sua sorte, não está entre as mais desejáveis, sobretudo num século que cultiva acima de tudo o conforto dos bens materiais.” E prossegue: “Basta ver a maior parte dos poetas. Dão às vezes um espetáculo de completo desequilíbrio. São vidas frequentemente frustradas. Até Chateaubriand e Victor Hugo foram vítimas de um profundo desequilíbrio. Os poetas não têm a paz dos homens de ciência. Ou dos homens de ação. Um Pasteur e um Lesseps se realizaram num êxito saudável. Foram vidas felizes. Já poetas, e escritores também, conhecem experiências dolorosas. Quem gostaria de ser um Baudelaire ou um Verlaine?”

Só faltou dizer que, até mesmo com o desequilíbrio e a poesia, há muitos modos de se fazer dinheiro. Sem inocência, nem isenção. Não há como ler o lirismo de Otto sem se lembrar dos juros e da dívida. Não há como pensar a crise atual sem considerar a pressão sem cansaço dos homens de negócio; sem pensar nesses vivos personagens que, compondo diretamente ou não o governo, produzem cenários nada fabulosos que os favoreçam. E favoreçam, também, a frustração.

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