As mulheres do mercado

Luci Collin

I.

dir-lhes-ei coisas no ouvido
mas pensarão que então grito
mas pensarão que replico
sons e o orvalho
que veste a noite do ínfimo imenso
sentido

vozes das lavadeiras
(cuidai)
vozes das mulheres que anunciam
os melhores peixes
neste mercado de
caixas       passos       promessas
musicarei teu olhar

os melhores homens são feitos
de espaço
entre siso e nada
as melhores frases
daquilo que sempre se disse
ficado no ar
os melhores vinhos
são tempo e sol
certos
e desse banquete
nada descreverei
porque o que me interessa
são os sinos
porque o que me impressiona
é o que contas ter visto

talvez babel
feita de comos

como se fosse o porquê
dir-te-ei duplos sentidos
como lâmina duplo corte
como dupla pele
como aqui e lá

mas aquele que compreende
os vermelhos
vigia                 cala
viscera num ato de
perguntar
QUANDO

………………………….QUANDO ESTÁ

 

II.

de cor palavras bonitas
de cor o preço das noites
de cor palavras canção

já nas primeiras horas
mecanismos se desenrolam
nem enredos
só está cantilena
só a descrição pura
do que é máximo
vale ventriloquia?

aço de um ventre estéril
o eternizável aqui

senhor eu vendo melancolia
portanto ficai longe
mira-me por detrás de portões
de grossas paredes apenas ouve
mira-me alto em altares
muito superiores
mira-me em silêncio e nada conclui

vendo esquinas obscuras
vielas
único sentido        única mão

quero ver-te por dentro
mas estou aqui
para o anúncio
que cumpro como
missão

rasgarás folhas
espalhar-se-ão destinos
e o mar
é melhor que nem se fale
já que não compreendo as figuras
que me assaltam
nesse azul pisado e liso
nem sólido nem oficioso
nem único

tentarei conceber a carta
onde peço            onde imploro

intento a melhor letra
e por fim no lacre
revela-se o sinete

gritem mulheres
que o peixe é fresquíssimo

gritem que o corpo gosta e precisa
de sempre muito e mais
gritem que os olhos se procuram

e que o brilho
que se empresta do orvalho
à escuridão é quase rito
que os silêncios se gastam
que os saldos ressuscitam
úmida e impressionante
ilusão em muito
…………………………… MUITO MAIS

 

III.

e depois gritem os homens

no teu ouvido deposito
a cantoria dos gatos
rasgando lento essa noite

sob um fio
sob um único fio
de teia ali
mínimo
como se forma o inseto
a presa                 a gota
a palavra certa que é
quando

os versos que sabes
de cor
semelham asas
e adentras janelas
frestas           fendas
feridas curas
e te renderão tratados
que desprezarás
porque não colecionas
ocos

senhor voz
tu que sabes
que as dobras da escuridão
vaticinam brancos
diga-nos voltarás a abrir
a porta
para os mapas que a mão
tremendo
entregou
vidas todas de gatos
de ti
o nada que eu sei
fez-se o meu
nada
e aqui as vozes
verbo depurado
o duplo e a dobra

nessa ocasião
pássaros reivindicam
para si a cena
e anunciam nova
manhã

uma manhã sem preço
onde só as vozes
dizendo que sim
no ouvido
da multidão

*

(Trato de silêncios. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)