Essa lei

Com o poema “Essa lei”, de minha autoria, começo a dar voz à leitura de escritos vários – um propósito que vinha há tempos acalentando e que agora se inaugura. Desenho do ar. Do chão. Do som. Bora lá, se acheguem…

 

ESSA LEI
— Sílvio Diogo

Essa lei me escapa.
Ela confunde.
Essa lei escolhe.
Essa lei encolhe.
Ela quase some.
Não, nela não há desespero,
há/à espera:
de que a gente esqueça,
de que a gente espere
que ela dê as caras,
que ela dê as cartas.
Essa lei pacífica
bate continência.
Ela é fazendária.
Essa lei arrenda.
Ela fala em público!
Essa lei assombra.
É o degrau de cima.
Essa lei assola.
Essa lei assusta.
Ela desacorda.
Essa lei sintética
vira o nosso Juízo.

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Edifício

EDIFÍCIO
— Geir Campos

CantoClaro

(Fala dos Senhorios)

É favor conservar as portas fechadas,
fechadas se possível igualmente as janelas:
deste modo evitareis que o vizinho bisbilhote
vosso intencionalmente apartado apartamento
e sobretudo evitareis a visão do vizinho,
esse inevitável e incômodo acompanhamento.
É favor conservar fechadas as portas;
e que o edifício pareça um refúgio de presenças mortas,
embora em cada aposento germine o ódio num ersatz de horta.
Não tereis quem vos dê nem a quem devais dar
— Bom dia! Boa noite! Boa sorte!
Os dias não serão bons, as noites menos,
e a sorte nunca, se alguém falar;
fale o rádio, somente, e só a ele ouvireis.
Se há ansiedade nos olhos, a televisão em cores
tudo vos mostrará — o grande mundo, sem seus maus odores;
outrossim podeis pôr nas paredes, nos móveis, nas mesas,
esculturas e quadros de preferência os mais abstratos
que vos consolem com sua mortíssima natureza.
Na hora própria fareis colocar a um canto fora da porta
o litro vazio e o exato dinheiro
para o leiteiro madrugador e o padeiro
que zelosos vos servem e a quem tampouco vereis
com seus sapatos batidos, a roupa gasta, mas a face corada
que vos faria invejar-lhes a vida tão natural.
Cartas, se vos chegarem, hão de vir pela caixa postal.
Demais, se há mais problemas, resolvem-se pelo telefone
a cujo bocal direis claro o endereço e mastigadamente o nome.
Para receber encomendas e tratar eventuais serviços
recomendamos a admissão formal de um criado
bastante esperto para dar boa conta de tudo isso
e não se imiscuir em vossos desassuntos privados.
Parentes nem amigos! Aconselhamos, em vez, a adoção
de algum bicho pequeno e dócil — um gato ou um cão;
o ideal seriam plantas e entre as plantas ideal um cacto,
um cacto em miniatura faz as vezes de muitas criaturas.
Assim, com um criado e no máximo um cão ou um gato,
se possível um cacto… vivereis a calma dos retratos.
Mas para tanto é mister não compactuardes jamais
com certos arquitetos e seus equívocos de cimento:
porta e janela não são para a-p-a-r-t-a-m-e-n-t-o-s!
Porta ou janela aberta é sempre tentação para o olhar
e olhando havíeis de ver outros olhos perto
e em seguida à janela e à porta sonharíeis abrir
também a vossa boca, e logo após a boca a vossa alma,
e afinal vos entenderíeis (pois falando assim de alma aberta)
e desse entendimento entre as pessoas e as famílias e os povos
cedo ou tarde brotariam novos planos e projetos novos
de um mundo com jardins, grandes praças e parques, pomares,
túneis e estradas, aeroportos e pontes, portos de mar e pontes
reduzindo à unidade o que antes eram fragmentários horizontes,
e de um lado para outro o pão indo e vindo,
e de um lado para outro o sonho indo e vindo
— lançadeiras da paz tecida e necessária…
E o que seria de nós, da indústria contrária?

*

(Canto claro e poemas anteriores. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957)

Pessoa e democracia: a história sacrificial

Maria_Zambrano

María Zambrano

É difícil que as pessoas entendam que um regime não seja uma espécie de estrutura fixa, de “coisa”, daí que exijam dele, acima de tudo, a quietude. E, mais, que confundam esta quietude com a ordem. A mente da maioria das pessoas é todavia estática e concebe a realidade como conjunto de coisas e a vida – até mesmo a própria – como conjunto de fatos, negando-se a ver que os fatos são “momentos” de um interminável processo, analogamente ao modo como as chamadas coisas são, segundo a física moderna, feixes de energia. Mesmo essas ideias não criaram imagens adequadas nem engendraram, portanto, um sentimento que lhes corresponda. Subsiste ainda a velha imagem da “materialidade” das coisas e do tempo plano, povoado de fatos da vida histórica. É o “materialismo” do qual temos que nos livrar – nós, os ocidentais.

A Democracia como regime há de ser a expressão, a resultante da sociedade democrática. Sociedade que se irá alcançando na medida em que a visão do homem vá adquirindo uma visão mais justa da sua própria realidade e, através dela, da realidade toda; lhe vá perdendo temor. Dir-se-ia então que a necessidade de descobrir o real e de defrontar-se com ele teve desde sempre que lutar com um pânico da realidade. Em todo homem preserva-se essa batalha, e em toda sociedade também. Até agora, o projeto da vida democrática é o que, entre todos, aparece mais livre desse temor ancestral da realidade.

Em todo absolutismo de pensamento e em todo despotismo jaz o medo da realidade humana e até da realidade, prévia à humana. Teme-se a riqueza, a multiplicidade, a mudança. Intui-se ou pressente-se a disciplina que é preciso ganhar para viver frente a uma realidade que se reconhece como movimento. Pois, se se crê que o real é imóvel, tende-se a ficar imóvel, ou melhor, quem o concebe move-se com a ingênua segurança das crianças que acreditam que a lua e as estrelas estão fixas. E ainda o afã da dominação: se tudo está quieto e só eu me movo, quero dizer que o posso dominar.

A confusão da ordem com a quietude funda as suas raízes num terror primário. E é um dos aspectos mais perigosos desse estatismo que ainda subsiste na mente ocidental. Pois não há razão para que a imagem seja a de um edifício, mais do que a de uma sinfonia. O motivo pelo qual para a maioria das pessoas seja assim pode ser, talvez, que o edifício esteja aí de uma vez por todas… enquanto dure. E a sinfonia temos de a escutar, atualizá-la a cada vez; temos de certa forma de a refazer, ou sustentar o seu fazer-se: é uma unidade, uma ordem que se faz diante de nós e em nós. Exige-nos participação. Temos de entrar nela para a receber.

A ordem de uma sociedade democrática está mais próxima da ordem musical do que da ordem arquitetônica. A história começa quando se erige uma construção; e, conforme dissemos, a imagem da vida histórica, até agora, é a de algo que se edifica. A transformação que há de se verificar talvez seja de modo a que, algum dia – felizmente –, a imagem da vida histórica, do fazer histórico, provenha da música; desta ordem que harmoniza as diferenças.

Pois a grande novidade da ordem democrática é que há de ser criada por todos. A ordem de algo que está em movimento não se faz presente se não entrarmos nela. Esta é a singularidade de uma ordem que só se revela a nós quando a ela nos incorporamos. Por isso, as pessoas hostis à democracia encontram-na sempre desordenada ou na iminência da desordem, muito embora os países onde ela existe, mesmo que de forma incipiente, mostrem maior estabilidade e equilíbrio do que os submetidos a regimes de “ordem e autoridade”. E ainda chegam alguns a justificar, e a agradecer ao céu, os milhões de mortes havidas para livrar um país da “desordem” de uma democracia que não custara vida humana alguma para se instaurar e que não executara sentença alguma de morte para se manter. Ao negar-se a participar de sua ordem, simplesmente confundem esta ordem vivente e fluida com o caos, como alguém cujo ouvido não pudesse seguir o fluir de uma melodia ou a complexidade do contraponto; alguém que quisesse encontrar a ordem e a harmonia no som contínuo de uma nota. É o quietismo do qual temos que nos livrar – nós, os ocidentais.

A ordem democrática se alcançará somente com a participação de todos como pessoas, o que corresponde à realidade humana. E a igualdade de todos os homens, “dogma” fundamental da fé democrática, é igualdade na condição de pessoas humanas, não em qualidades ou caracteres; igualdade não é uniformidade. Trata-se, pelo contrário, do pressuposto que permite aceitar as diferenças, a rica complexidade humana – não apenas a do presente, como também a do porvir. A fé no imprevisível.

Será utópico pensar que esta ordem, em lugar de excluir realidades, as irá incluindo todas? Ordem é limite, e limite é exclusão. Mas o limite, e o seu inevitável excluir, pode funcionar de outra maneira, numa situação futura que hoje somente podemos vislumbrar. No entanto, daquilo que se vislumbra podem nascer algumas indicações, como flechas que marcam uma direção.

Viver humanamente é ter que eleger entre as circunstâncias, disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, ao enunciar a Razão Vital. Mas há uma eleição prévia, decisiva entre todas: a que se faz de si mesmo. Sempre entendi a afortunada fórmula de Ortega – “somos necessariamente livres” – como equivalente a esta: “somos necessariamente pessoa”. Mas não é o mesmo, se para além de o ser necessariamente, se quer sê-lo, pois aí se coincide com o próprio ser livre. Atualiza-se a liberdade; só então a comum, a própria.

Nesta situação de liberdade atualizada, a realidade aparece de maneira diversa em relação a quando se é apenas “necessariamente livre”. Diferença que se mostra abissal quando se é livre sem o querer ser, quando se é pessoa apenas pelo fato do nascimento. A realidade deforma-se na mente de quem é pessoa “à força”; não há de ser outra a raiz do ato da calúnia. Quem é apenas necessariamente pessoa teme a realidade e a planifica: plana, esquelética, quase uma imagem de morte. Ao passo que a realidade se torna mais real à medida que se ordena, para quem tenha aceito a si próprio como pessoa. A realidade é vida para ele.

Porém, há um modo de se afirmar como pessoa, um modo trágico que é afirmar-se como personagem; o personagem é sempre trágico; sob ele geme a pessoa e, para um dia se libertar, precipita-se na tragédia, depois de ter precipitado aquilo que dela dependia. Se o homem ocidental retirar a sua máscara, renunciar a ser personagem na história, estará disponível para eleger-se como pessoa. E não é possível eleger-se a si mesmo como pessoa sem eleger, ao mesmo tempo, todos os demais. E os demais são todos os homens.

Com isso não se acaba o caminho; melhor, começa.

 

Roma, 23 de julho de 1956

 

[Persona y democracia: la historia sacrificial. Barcelona: Anthropos: 1992; trecho do capítulo “La función de la minoría y del pueblo en la democracia naciente”; pp. 162-5]

Tradução: Sílvio Diogo