Edifício

EDIFÍCIO
— Geir Campos

CantoClaro

(Fala dos Senhorios)

É favor conservar as portas fechadas,
fechadas se possível igualmente as janelas:
deste modo evitareis que o vizinho bisbilhote
vosso intencionalmente apartado apartamento
e sobretudo evitareis a visão do vizinho,
esse inevitável e incômodo acompanhamento.
É favor conservar fechadas as portas;
e que o edifício pareça um refúgio de presenças mortas,
embora em cada aposento germine o ódio num ersatz de horta.
Não tereis quem vos dê nem a quem devais dar
— Bom dia! Boa noite! Boa sorte!
Os dias não serão bons, as noites menos,
e a sorte nunca, se alguém falar;
fale o rádio, somente, e só a ele ouvireis.
Se há ansiedade nos olhos, a televisão em cores
tudo vos mostrará — o grande mundo, sem seus maus odores;
outrossim podeis pôr nas paredes, nos móveis, nas mesas,
esculturas e quadros de preferência os mais abstratos
que vos consolem com sua mortíssima natureza.
Na hora própria fareis colocar a um canto fora da porta
o litro vazio e o exato dinheiro
para o leiteiro madrugador e o padeiro
que zelosos vos servem e a quem tampouco vereis
com seus sapatos batidos, a roupa gasta, mas a face corada
que vos faria invejar-lhes a vida tão natural.
Cartas, se vos chegarem, hão de vir pela caixa postal.
Demais, se há mais problemas, resolvem-se pelo telefone
a cujo bocal direis claro o endereço e mastigadamente o nome.
Para receber encomendas e tratar eventuais serviços
recomendamos a admissão formal de um criado
bastante esperto para dar boa conta de tudo isso
e não se imiscuir em vossos desassuntos privados.
Parentes nem amigos! Aconselhamos, em vez, a adoção
de algum bicho pequeno e dócil — um gato ou um cão;
o ideal seriam plantas e entre as plantas ideal um cacto,
um cacto em miniatura faz as vezes de muitas criaturas.
Assim, com um criado e no máximo um cão ou um gato,
se possível um cacto… vivereis a calma dos retratos.
Mas para tanto é mister não compactuardes jamais
com certos arquitetos e seus equívocos de cimento:
porta e janela não são para a-p-a-r-t-a-m-e-n-t-o-s!
Porta ou janela aberta é sempre tentação para o olhar
e olhando havíeis de ver outros olhos perto
e em seguida à janela e à porta sonharíeis abrir
também a vossa boca, e logo após a boca a vossa alma,
e afinal vos entenderíeis (pois falando assim de alma aberta)
e desse entendimento entre as pessoas e as famílias e os povos
cedo ou tarde brotariam novos planos e projetos novos
de um mundo com jardins, grandes praças e parques, pomares,
túneis e estradas, aeroportos e pontes, portos de mar e pontes
reduzindo à unidade o que antes eram fragmentários horizontes,
e de um lado para outro o pão indo e vindo,
e de um lado para outro o sonho indo e vindo
— lançadeiras da paz tecida e necessária…
E o que seria de nós, da indústria contrária?

*

(Canto claro e poemas anteriores. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957)

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