‘A história das nuvens’: nove meditações

Com Marcela Abreu Guimarães, traduzi nove poemas de Hans Magnus Enzensberger, publicados em “A história das nuvens: 99 meditações”, livro inédito em português (Die Geschichte der Wolken. 99 Meditationen, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003). A transcriação teve suas idas e vindas, aprendizados, revisões, pausas e relampejos. Foi novo, nublado e numinoso. Esperamos que gostem.

*

— Hans Magnus Enzensberger

*

Memória do exato momento

A manhã do remorso que te atravessa os membros feito uma dor ciática;
o dia em que te fizestes ridículo para todo o sempre;
a tarde em que deitas no chão e o sangue te escorre do nariz;
a hora em que descobres que te iludistes durante quatorze anos, nove meses e duas semanas;
o minuto em que tua própria filha te olha como uma estranha;
o momento em que acreditas sentir nas costas a ponta da faca;
o instante em que encontras a carta de despedida sobre a mesa da cozinha;
o décimo de segundo em que a avalanche começa a se soltar sob teus pés;

e antes e depois os muitos instantes inimagináveis de sossego.

*

Inevitável

Mais um desses pares amorosos
que vagarosamente se dilaceram;
outra vez o homem com as piadas
das quais ninguém mais ri;
eis também a mulher com o cachorro
que late para todo o mundo;
o que fracassa na cama — oh sim, ele! —;
aquele outro com a cabeça quente
porque o escapamento enferruja;
o relutante que não quer pagar;
ou — chi! — o neto de voz fraquinha
com o lábio inferior caído cambado,
e, olhe só, o assassino!
como ele remorde a derrota que sofreu
naquele tempo, seiscentos anos atrás;
é o fervoroso embaraço relembrado,
o pavor da próxima cólica,
o tão esperado beijo de Judas,
tudo isso se eleva pontualmente,
como um joão-bobo, retorna,
como a conta de telefone e a lua.
Ai de nós! O choque desolador de sempre,
o malfadado reconhecimento,
quando a velha caixa de surpresas se abre
e o diabo de molas salta em nossa cara.

*

Divisão do trabalho

Tudo o que tu não podes:
aterrissar o Jumbo abarrotado,
provar o teorema de Mordell,
fazer tricô – que os outros façam por ti,
pouco prendado como és,
dependente do Sagrado São Floriano,
do diretor da cadeia, do homem
com os alicates isolantes, da mulher que lê a sorte,
do carroceiro com o lixo, do benzedor
e, não por último, da mamãe.
Todos podem trazer alguma coisa
para teu sustento, teu divertimento
e te fazer, quer queiras ou não,
companhia — e tu?

*

Metrô Wittenbergplatz

Aqueles que desabam contra ti, para baixo
no Hades cotidiano
na escada rolante, este homem velho,
todo envolvido em seu coração casmurro,
e a senhora enxovalhada
que murmura consigo alguma amargura —

eles também já se entusiasmaram,
outrora, um dia, esquecidos de si próprios,
fora de si, radiantes
de louca alegria, ou não?
Como se passou? Desde quando? E por quê?
Lá fora a neve também, mais uma vez,

virou lama.

*

Câmara obscura

Esta mulher à tua frente
à contraluz, indecifráveis
boca e olhos,
um espectro. Perguntas
a ti mesmo, apenas: quem, quando,
de onde vem,
o que silencia,
o que me censura?

Numa nuvem sombria
ali está, inabalável.
Ofuscado por tanta luz,
tanto esquecimento,
estás sentado diante dela
nessa cadeira nua.
Tu não vês.
Tu és visto.

*

Nu artístico

O trovão na noite de agosto despertou-me,
mas tu, no sono, arremessaste o lençol,
sem sonho, sem abalar-te pela torrente elétrica.
Raios de magnésio cegam tuas pálpebras fechadas.
Um branco violeta brilha em teus quadris que respiram,
enquanto, milhares de vezes, a água dançante matraqueia no telhado.

*

Temperaturas

Há temperaturas que nenhum termômetro mede,
apenas a pele pode distingui-las:
o morno vapor do bebê, que cheira a soro de leite,
o sopro fresco do pêssego, vindo da geladeira,
a avermelhada erupção da fúria, que o sarampo aflora em nossa face,
e a fria flor de gelo, que queima a língua curiosa da criança;
e, mais, o ardor febril do ciúme nas pontas dos dedos,
o acalorado pudor, que encharca o cérebro,
e o que nunca e em nenhum outro lugar ocorre em nossa galáxia:
as duas quenturas dos que, lado a lado, na cama, se aconchegam adormecidos.

*

À meia-luz

Quando ela está assim deitada, completamente de lado,
como uma vaca ou uma gata,
sem propósito ou arrependimento,
um halo à meia-luz rodeia
sua pele cintilante.

Tu podes perceber, tu sentes,
quando estás suficientemente perto dela,
essa suave radiação
no longínquo infravermelho.
Uma demonstração de Fourier
que ninguém decifra.

É somente um sopro,
que te toca mais
que o toque,
e que tu não sabes por quê;
é talvez a sorte.

*

Cadê?1

Ó,
teu sempre e muito ver o que se passa,
teu captar a tempo. Como esquecer
tuas miradas, teu olhar de apreensão,
faro infalível?
Um só inútil encrespar de mares,
trazê-lo à vista e esperar
até a pouco e pouco o sol se pôr
— tal paciência te faltava.

Eram bem outros teus anseios
e tempo algum para o arrepio
do passear dos dedos no cabelo.
O esquilinho cinza, extraviado
no metrô, nem te chamava a atenção.
E mesmo o aroma do amor,
que lento, lentamente se dissipa,
te deixou, para calar de todo
o tremeluzir de estrelas e
a loucura inteira que se insinua
por sobre a ponta dos pés.

Ó,
teu não ver mesmo o que se passa,
teu não notar coisa nenhuma.

 

1 Optou-se por traduzir este poema de modo mais livre em comparação com os anteriores. O título “Schade” (pena, lástima, pesar) foi vertido como “Cadê?”, sonoramente próximo ao original em alemão e, do ponto de vista dos tradutores, mais interessante para evocar o sentido e a situação do poema como um todo. Também a quebra de versos e de estrofes sofreu pequenas alterações na tradução, para reforçar a interjeição “Ó”.

 

*

Die_Geschichte_der_Wolken

*

Sobre os tradutores

Marcela Abreu Guimarães
Cursou graduação em Letras (Bacharelado em Alemão) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com pesquisa acerca das paisagens socioculturais na obra de Lima Barreto. Contato: abreumarcela@gmail.com
Sílvio Diogo
Cursou jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Publicou os livros de poemas “Respingos e clamores: libreto do fundo do peito liberto” (2005) e “Desenho do chão” (2008); além da tradução de “O olho da mulher”, poesia reunida de Gioconda Belli, da Nicarágua (2012). Contato: silviodiogo@yahoo.com.br

 

Anúncios