Com os seus próprios olhos

Luiz Vilela

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Houve um batido fraco na porta.

— Entre — disse o diretor.

A porta abriu, e um menino entrou.

O diretor estava sentado à mesa, com um livro aberto.

— O senhor mandou me chamar?

— Mandei. Sente-se; pegue essa cadeira aí.

O menino pegou a cadeira e sentou-se.

O diretor cruzou as mãos e recostou-se.

— Como vão seus estudos, Ivo?

— Bem, obrigado.

— Você vai ser o primeiro outra vez, esse mês?

— Quero ser… — o menino sorriu.

— Você será. Você é estudioso e, além disso, muito inteligente…

O menino olhou para o chão e ficou mexendo no tapete com a ponta do pé.

— Você sabe para quê que eu mandei te chamar?

— Não senhor.

— Faz alguma ideia?

— Não.

— Nem imagina mais ou menos?

— Não senhor.

O diretor ficou um instante em silêncio.

— Ou imagina e não quer falar?

— Não senhor, não imagino.

O menino olhava para o chão.

O diretor levantou-se e foi até a janela. Ficou olhando para fora, de costas para o menino.

— Tenho umas coisas para conversar com você, Ivo — disse sem se voltar. — Foi para isso que mandei te chamar.

Sentado, o menino olhava atento para ele.

— Você foi sempre um menino sincero. Desde que você entrou para aqui, você foi um dos meninos que mais admirei; não só pela inteligência, mas também pela educação que você tem, e pela coragem de dizer sempre a verdade, mesmo quando isso possa ser pior para você, te trazer algum castigo. Lembra aquela vez que vocês se esconderam no vestiário?

— Lembro sim senhor.

— Quando eu disse que se eu descobrisse o autor daquilo, ele ia pagar caro.

— Lembro.

— E quê que você fez?

— Eu confessei que era eu.

— E eu, quê que eu fiz?

— O senhor me perdoou.

— E o que eu disse, você lembra?

— Lembro sim senhor.

— Quê que eu disse?

— O senhor disse que o prêmio que eu merecia por ter dito a verdade era maior do que o castigo que eu merecia por aquela pilantragem.

— “Pilantragem”… — o diretor sorriu. — Você tem a memória boa…

Continuana imóvel, e o menino, sentado na cadeira, olhava para ele.

— Foi isso mesmo… — sacudiu a cabeça devagar. — Pois muito bem; e se eu te perguntasse agora algumas coisas: você responderia só a verdade?

— Responderia.

— Você não mentiria nem um pouco?

— Não senhor.

— Nem uma só vez?

— Não senhor.

O diretor ficou em silêncio. Cruzou as mãos atrás. O menino esperava, olhando atento para ele.

— Está bem. É o seguinte: você saiu de casa ontem à noite?

— Saí sim senhor.

— Onde que você foi?

— Na minha avó.

— Ela mora perto da igreja, não é?

— É sim senhor.

— Quer dizer que você tem que passar pelo Jardim Velho?

— Tenho.

— Então você passou lá, ontem à noite?

— Passei.

— Passou?

— Passei sim senhor.

O diretor ficou em silêncio. Continuava de costas para o menino.

— Então era você mesmo — disse, numa voz mais baixa.

O menino não falou.

— Era?

— Senhor?

— Era você mesmo que passou lá ontem à noite?

O diretor voltara-se para ele. O menino olhou para o chão.

— Era?

— Era sim senhor.

— E você me viu, não viu?

O menino sacudiu a cabeça.

— Viu?

— Vi.

— Você reconheceu que era eu?

— O menino sacudiu a cabeça.

— Sim; eu sei que você me reconheceu.

O diretor voltou a olhar para fora.

— E você viu com quem eu estava?

Vi sim senhor.

O menino, encolhido na cadeira, olhava para o chão.

— Com quem eu estava, Ivo?

O menino olhou para ele:

— Com quem? Não, com quem eu não conheci não.

Não — disse o diretor, com um gesto de impaciência. — Não é isso. Não é isso que estou perguntando. Era uma mulher que estava comigo?

— Mulher? Não senhor.

— Quem era então?

— Quem?

— Quem estava comigo?

— Um menino.

— Você tem certeza?

— Tenho, eu vi.

— Você viu. Quer dizer que você viu também o que eu estava fazendo com ele; o que nós estávamos fazendo.

— Como?

— Você viu se nós estávamos fazendo alguma coisa?

O menino ficou olhando para o chão.

— Viu?

O menino não respondeu.

O diretor voltou-se para ele:

— Você não disse que responderia ao que eu perguntasse?… Viu ou não viu?

— Vi.

— O que era? Você sabe o que era aquilo?

— Sei.

— Sabe mesmo?

O menino sacudiu a cabeça.

— Jura que você sabe, ou você está respondendo à toa?

— Não senhor.

— Você sabe?

— Sei.

— Você entendeu o que era aquilo?

O menino sacudiu a cabeça.

— Quer dizer que você viu mesmo o que eu estava fazendo com ele?

Sacudiu a cabeça.

— Você viu que eu estava abraçado com ele?

— Vi.

— E que eu estava passando a mão nos cabelos dele e no rosto dele, você viu?

Sacudiu a cabeça.

— Viu?

Sacudiu a cabeça.

— Diga.

— Vi.

— Tudo isso que te falei?

O menino sacudiu a cabeça.

— Com os seus próprios olhos? Jura? Você quer cair morto aqui agora, se está mentindo?

Sacudiu a cabeça.

O diretor parou de falar. O menino ficou olhando para o chão, tentando fixar os olhos no tapete, que parecia ondular e afundar.

O diretor voltara à janela. Agora tinha enfiado as mãos nos bolsos do paletó.

Lá fora ia escurecendo, e o gabinete já estava na penumbra. Gritos apagados vinham do campo de futebol, onde os meninos aquela hora treinavam.

— Você sabe o que significa isso, Ivo? Você pode imaginar o que significa para um homem como eu o fato de um menino como você ter visto o que viu ontem?

O menino estava olhando para o chão.

— Quantos anos você tem? Onze?

— Dez.

— Dez… Você acha que eu já tinha feito aquilo antes, Ivo? Que eu já tinha procedido daquele jeito outras vezes, como você viu ontem?

— Não senhor.

O diretor voltou-se para ele:

— Não mesmo? Ou acha?… Pode dizer…

— Não senhor.

— É verdade. Eu nunca tinha feito assim, nem uma só vez em toda a minha vida… nunca tinha feito isso…

O diretor ficou em silêncio.

— Você sabe que eu sou casado, não sabe? Que eu tenho três filhos. O menor, uma menina, é da sua idade…

— Eu sei.

— E minha idade?

— Cinquenta anos, o senhor vai fazer; em setembro. Nós até vamos fazer uma festa para o senhor.

— Festa?

— É, o senhor não sabia? Todas as turmas juntas; vamos fazer uma festa para o senhor em setembro.

O diretor abaixou a cabeça.

Caminhou de volta para a mesa e tornou a sentar-se. Ficou olhando para o livro.

Olhou para o menino:

— Vou te perguntar só mais uma coisa; depois você poderá ir embora.

— Sim senhor.

— Você contou para alguém?

— A festa?

— Não, ontem.

— Não senhor.

— Vai contar?

— Não senhor.

— Por quê, Ivo?

O menino olhou para o chão.

— Por que você não vai contar?…

— Eu… Eu não quero…

— Sei; compreendo… Eu sabia que você não contaria. Você é um menino bom…

O diretor ficou algum tempo olhando para o livro.

Olhou de novo para o menino:

— Mas você nunca vai esquecer isso, não é?

O menino não respondeu.

— Pode ir — disse o diretor. — Era só isso.

O menino despediu-se e saiu.

O diretor ficou só no gabinete, os olhos fixos no ar.

*

Tarde da noite (contos), 1970

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Casc’ de ferida

Sempre achei graça nessa expressão que os meus primos usam para se cumprimentar:

— Eaê, Casc’ de Ferida!

Assim, sem a vogal, uma palavra emendando na outra, quase sendo arrancada a ponta da casc’…

Nos últimos dias não me sai da mente a imagem: a democracia é uma casquinha na ferida da vida histórica.

E quem há de negar que ela é imprescindível à cicatrização?

Um minuto

O equivalente, em película, a um minuto de filme: era este o material que os aspirantes a cineastas, estudantes de audiovisual, recebiam.

O trabalho era fazer caber, em um só minuto, ideia, roteiro, enredo, cena, personagem, poesia, narrativa, devaneio: o que quer que fosse.

A limitação técnica apresentava-se ao exercício criativo de modo determinante. Exigia esforços prévios, arquiteturais, projetivos. Desenhava-se.

Filmar ainda se assemelha a subir ao palco, a pôr em cena a vida, os corpos, a respiração.

Enceno a lembrança do minuto de película a fim de movimentar o foco rumo ao tempo de preparo, à gestação da arte, à memória dos instrumentos de ofício.

Quem, por exemplo, inventa jogos de caça às borboletas não ignora a travessia dos artífices.

Sem Nome

Sem Nome, cãozinho cambaio, passara a frequentar a garagem do prédio. Valia-se de sua magreleza para cruzar a grade em que os outros vira-latas ficavam enganchados. Assim, protegia-se do frio e podia receber o eventual alimento que os moradores lhe dispensavam. Só uma regra Sem Nome tinha de seguir: não engordar a ponto de ficar preso nos vãos da grade. Era simples.