Terapia dos brotos

froes
Leonardo Fróes

 

Nesse tempo de incertezas,
confiscos e estripulias,
o chuchu já está brotando
em menos de cinco dias.
Também a mandioca brava,
a cana e a melancia
começam no mês de agosto
a enraizar com energia.
A bem dizer, qualquer pau
metido na terra fria
vai pegar e botar folhas
sem relutância ou porfia.
O tempo, se por um lado
produz enchente e agonia,
por outro convém às plantas
que saem da letargia.
Até a cebola brota
no aço inox da pia
quando acaba o sono verde
que a primavera anuncia.
Se for o caso, comprove:
pegue o bulbo que irradia,
coloque-o num vaso fértil
e espere a flor com alegria.
Nesse tempo, o desespero,
a ideia de moratória,
fez de cada brasileiro
um descrente na vitória.
Ninguém olhou para o chão
onde se escreve uma história
pequena, de tegumentos
e seivas que irão à glória.
Ninguém viu que uma semente
explode sem nostalgia
para dar à terra exausta
mais alento e outra harmonia.
Isso no entanto acontece
no lado claro da via
pelo qual também passamos
sem saber aonde se ia.
A semente, um broto novo,
a ideia que se teria,
a casca velha que fende
e morre no que ela cria,
tudo isso são momentos
de uma estranha parceria
que abaixa a crista do homem
e depois logo o extasia.
A vida é maior que a gente
e mais do que a gente espia,
pensando que ao ver de fora
a gente se torna um guia.
A vida contém esterco,
fungos de melancolia,
gestos doidos que florescem
entre amor e antipatia.
Mas também contém os galhos
que abraçam quem se desfia
procurando uma razão
de dar o que pretendia.
Contém, é claro, essas greves
e a inflação sem garantia,
salários de manga curta
com brigas de algaravia.
Mas também contém os berros
do instante de quem procria
e, em se tratando de plantas,
é a imersão na afonia.
O silêncio, sua carga
de interior teimosia,
e a capacidade lenta
de entregar cada fatia.
A natureza é engraçada,
dá sem trégua e principia
a gerar tudo de novo,
avessa à monotonia.
Hoje mesmo ela desperta
de sua breve dormência
para dar à humanidade
uma sensual inocência.
Dá os seios da beterraba
no vão das línguas macias,
o achado de um chuchu murcho
que aponta melhores dias
e ainda o repolho e suas
múltiplas orelhas sadias.
Ouça pois esse conselho
de quem fez o que podia,
pegando na enxada para
dar corpo ao que não se via.
Aproveite bem a hora
e plante, por terapia,
ou para matar a fome,
entre os homens, de empatia.

*

Argumentos invisíveis. Rio de Janeiro: Rocco, 1995

Fotografia de Leonardo Fróes: revista Modo de Usar & Co.