Calada

O tema desta historieta é tão velho quanto andar para trás. Como só fazemos andar para trás na atual temporada, vamos lá. Há uma pessoa que me conta as cenas e aqui simplesmente as transcrevo. Pode-se resumir tudo nos versos de Cacaso: “O amor que não dá certo sempre está por perto”.

O ano é 1991. Patrícia é funcionária do departamento de odontologia da universidade e apaixona-se por um estudante, Felipe, pouco mais jovem do que ela. Tenta de todo jeito contornar ou evitar o embaraço, mas em vão. Passa então a contornar o próprio Felipe, a dar-se à vista do moço, a demorar-se nos poucos toques que trocam, mas em vão. O curso dele se esvai, Felipe se forma. Ela não lhe diz o interdito.

A turma toda sabe do amor de Patrícia. Felipe, não. Ou faz que não.

Passada a primeira fase de turvo desengano — ele já longe —, Patrícia quer materializar o sentimento, por incerto que seja, platônico ou o escambau, num ato concreto. Como não é simpática a lampejos de fúria, decide compor uma música. Não tem ideia de que elementos é feita uma música. Quer porque quer.

Ensaia em casa, escreve versos, arrisca uma melodia. Canta por muitas manhãs. Quando considera estar razoável, aluga uma hora de estúdio, deixa tudo planejado com um conjunto de instrumentistas; ela própria se dispõe a gravar a voz. No dia marcado, o conjunto não aparece. O técnico do estúdio vê-se premido por duas circunstâncias: o tormento da mulher (de mistura à falta de traquejo) e o pulsar do relógio na parede revestida com isolamento acústico. Sugere-lhe assim que vá para casa, tente adaptar a letra à melodia de uma canção já existente e retorne no dia seguinte.

Patrícia escolhe na madrugada “Gravity of love”, do projeto Enigma. Sua letra chama-se “Calada”.

O técnico, solícito à causa, faz o que pode na mistura. E Patrícia vê o quanto, num estúdio, uma hora é pouquíssimo. Consegue sair, feliz da vida, com três cópias em CD. É a sua música!

Faz-se necessário contar que já estamos em 2001 e que nossa protagonista está casada. Quase não se faz presente a imagem de Felipe, a vida toma rumos estáveis. Na universidade, ela trabalha há tempos em outro departamento. É nos corredores do prédio de odontologia, contudo, que encontra um colega dos tempos antigos que lhe dá notícias, após um caloroso abraço, sobre Felipe: “ele anda aqui perto, para um congresso”.

“O quê?!”

Sem esperar o término do expediente, a mulher inventa pelo telefone qualquer desculpa ao marido, passa rápido em casa, recolhe um dos três empoeirados CDs, guardados entre papéis, e viaja de carro à cidade vizinha. O périplo por pousadas, hotéis e chácaras não a leva a congresso algum. Interroga, conversa, manobra, orienta-se, retorna, inventa novas histórias. Senta-se sozinha às vinte e uma horas de sexta e pede uma cerveja na calçada do bar.

Em frente, a rádio comunitária evangélica anuncia promoções da farmácia. Ela se perde em devaneios vários e, é óbvio, na incômoda pergunta sobre o porquê de estar ali àquela altura da noite, do ano, da vida. No intervalo desses pensamentos ou, quem sabe, em uma das interrupções do som alto contíguo, ocorre-lhe a ideia de ir à rádio e pedir que toquem sua música para toda a cidade. O programador que lhe recebe pede apenas, em troca, a cópia do CD. Não sem relutar um tempo e explicar que se trata tão-somente de um plágio do projeto Enigma, Patrícia cede. E assim se dá a estreia de “Calada”.

Felipe continua personagem ausente. Estamos em 2013. Patrícia, divorciada, procura com os funcionários da odonto o endereço original do ex-aluno, entre os registros de arquivo. Dirige-se com um amigo até as imediações da residência ali informada. E depois de inventar outra história na vizinhança consegue saber que, desde o término do curso, ele mora em Brasília. Em um quase amanhecer da mesma semana de investigações, ela quer pixar uma frase para Felipe na fachada da casa onde ainda vive a mãe do homem.

Por motivos de segurança e por sigilo acordado com a pessoa que me narra a história, não informo a localização da casa. Posso dizer que a tentativa do recado no muro é frustrada por dois policiais que rondam o bairro; e que Patrícia só não é presa com o amigo porque se decide a contar a versão real a eles. Como prova, entrega-lhes a segunda cópia do CD.

Infelizmente, não há mais a relatar. Patrícia está hoje disposta a esquecer Felipe. Quer sim melhorar a música, incrementá-la, gravá-la de novo e, de preferência, com instrumentistas de verdade. Ela própria frequenta aulas de canto.

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