Um bom crime chileno

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Rubem Braga

Quando eu era editor pensei em fazer um livro — ou mais de um — sem nenhuma literatura, apenas com narrativas de crimes verdadeiros. É difícil de explicar, mas inegável a atração que isso exerce sobre o leitor. Aqui vai um crime acontecido em 1903 no Chile.

O caso é que uma bela noite um incêndio destruiu o edifício da Legação da Alemanha. No meio dos destroços fumegantes havia um cadáver. O Ministro, barão Hans von Boden, não teve dificuldades em reconhecer o corpo do conselheiro da Legação, Wilhelm Beckert, mesmo porque na mão esquerda estava a aliança de casamento. Além de Beckert, devia estar na Legação, na hora do incêndio, o jovem porteiro Tapia, chileno. Inutilmente se procurou o seu corpo; não foi encontrado em parte alguma. A mulher de Tapia informou que ele não aparecera em casa.

Examinando com mais atenção o cadáver de Beckert, os médicos chegaram à conclusão de que ele havia sido assassinado antes do incêndio, recebendo golpes na cabeça e no coração. O Ministro revelou que dinheiro e valores consideráveis tinham sido roubados.

Sabia-se que Beckert tinha sido ameaçado por jovens nacionalistas chilenos; ele contara isso a alguns amigos. Entre seus papéis particulares foi encontrada uma carta anônima contendo ameaças a sua vida, e uma carta escrita por ele próprio, endereçada ao presidente da República do Chile, para ser aberta em caso de morte. Essa carta não tinha nenhuma revelação interessante; apenas ele protestava contra acusações que lhe eram feitas de exercer atividades contrárias aos interesses dos chilenos e acabava pedindo clemência para seu assassino, que só poderia ser um moço fanático. A emoção pública foi enorme, e as altas autoridades foram ao enterro do conselheiro. O discurso feito pelo Ministro continha ameaças veladas ao governo chileno, caso o criminoso não fosse punido.

Tapia é procurado em todo o Chile pela polícia e pela população sem resultado. É a essa altura que aparece um judeu de certa idade, relojoeiro, que procurou o juiz encarregado do processo para contar o seguinte: que vira o conselheiro Beckert na noite do incêndio e, pelos seus cálculos, depois do incêndio. O juiz perguntou se ele tinha certeza de que era Beckert. Disse que sim, pois o conhecia muito bem. Mas falara com ele? O relojoeiro disse que o cumprimentara em alemão, e Beckert, que ia tomando um carro de praça, respondera em castelhano, dizendo que não o conhecia. Essa conversa do relojoeiro não seria levada muito a sério, se um jornalista desses sensacionalistas não a publicasse com certo escândalo. Ao dar a entrevista, o relojoeiro negou-se a admitir que se tivesse enganado na pessoa e na hora. Gabava-se de ser um excelente fisionomista e, apesar de a rua estar meio escura, reconhecera perfeitamente Beckert. Quanto à hora, também tinha certeza, pois era um homem de horários precisos: um relojoeiro.

Essas declarações animaram um dentista, que vira o corpo queimado, a declarar que os dentes pareciam os de um homem muito jovem, e não de um senhor da idade de Beckert. A coisa estava ficando mais séria, e apesar da grande irritação do Ministro da Alemanha, o juiz acabou ordenando a exumação do corpo. O dentista de Beckert foi chamado e declarou que aquela boca não era de seu cliente. A mulher de Tapia disse que este tinha dentes perfeitos, só uma pequena cárie. E lá estava a cárie.

Beckert foi preso no sul do país, quando tentava atravessar a fronteira para a Argentina. Ainda tinha muito dinheiro no bolso, e seus documentos, com outro nome, eram perfeitos. Foi condenado à morte e, enquanto esperava a execução, confessou que seu grande consolo, no meio daquele tremendo golpe errado, era reler os belos elogios que lhe fizera, no discurso à beira-túmulo, o seu ex-chefe, o barão Hans von Boden, Ministro do Kaiser.

Janeiro, 1990

*

Um cartão de Paris. / Rubem Braga; [seleção: Domício Proença Filho]. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1997.

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