Privativa

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pela coisa pública

exceto quando
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A moça do box

Sonhei com a moça do box. Não reconheci o seu rosto. Havia a névoa quente ao redor dela, e permaneci à porta. Havia o vapor do sonho.

Foi assim: eu chegara a uma casa circundada por árvores, de aspecto simples, pintura descascando, com varanda e quintal. Estava aberta. Não dava ares de abandono, ao contrário, os móveis, as plantas, os utensílios indicavam que era habitada.

A curiosidade conduzia-me pelos espaços da casa, e quando pressenti que a qualquer momento poderia chegar gente, elas efetivamente apareceram. Eram mulheres. Entraram falantes e não demonstraram surpresa com a minha presença. Traziam sacolas e já se iam esparramando pelos cômodos.

Foi uma menina que veio até mim. Pediu-me que alcançasse uma caixa de brinquedos no alto da estante. E me apontava detalhes do ambiente enquanto brincávamos. Era estranha a naturalidade de tudo.

Passado algum tempo, em que se fez silêncio na casa, a menina me guiou para um corredor que principiava à esquerda da sala onde estávamos. Caminhei por ele, à meia-luz, até a última porta à direita. Estava aberta também.

E eis que me encontro com a imagem da moça do box, no banho. Além dela, uma outra mulher completava o quadro. E creio que foi por causa da presença tranquila desta última, sentada junto à entrada, que permaneci parado à porta. Com a espontaneidade própria dos acontecimentos do sonho, a moça do box pôs-se a falar comigo, a conversar sobre assuntos que eram de meu conhecimento e interesse. Eu não a reconhecia. Ela falava e falava, no meio do vapor.

Foi assim que pude saber da localização da casa, dos arredores, de como havia ido parar ali. Não havia hesitação nas palavras da moça. Ouvi com atenção tudo o que me contou, e só fui ser provocado pela interrogação sobre a sua identidade quando acordei.