“O sentido se sente com o corpo”, Josely Vianna Baptista

Li em voz alta, pelo celular, um poema mui envolvente de Josely Vianna Baptista, “O sentido se sente com o corpo”. Palavra rente à pele, som de querer perto. “Como se diz o que está por um triz?” Aprocheguem-se…

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O sentido se sente com o corpo
— Josely Vianna Baptista

“o sentido se sente com o corpo, como o olho se molha quando chora. o sentido é quente como o corpo, como o olho que brilha quando gosta. o sentido se pensa com o corpo, que pressente esse sentir que não mente. (como se diz o que nunca se diz? o que se desdiz? como se diz o que se diz a esmo? como se diz mesmo?) o sentido se dobra como o corpo que sente outro corpo rente ao corpo, se veste com o corpo que desveste os véus de seus segredos e seus medos. vai-se lendo bem lento, em silêncio, quando quase do avesso me convenço. (como se diz o que nunca se diz? como se quis o que nunca se fez? como se faz o que nunca se quis? como se diz o que está por um triz?) o silêncio vai-se lendo em silêncio, quando quase do avesso me convenço. vai-se lendo sentido no silêncio, vai-se vendo, do avesso me convenço. o silêncio vai dizendo ao silêncio: assim se diz o que se diz mesmo. assim que diz o que se quer — desejo”

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Do livro “AR”. São Paulo: Iluminuras; Fundação Cultural de Curitiba, 1991.

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Fotografia das estrelas: Elisa Borges

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Masculina coragem


Sílvio Diogo

a Gioconda Belli

Necessita-se de homens corajosos;
homens que olhem nos olhos
e aprimorem o jeito de alegrar as mulheres,
calentar as mulheres.
E alertar-se.
Homens que assumam as próprias imperfeições
e as enfrentem com o ímpeto de que são dotados.
Que percebam, sim, os marasmos da amada
e busquem nos segredos da convivência
os pontos precisos, os momentos precisos
de falar e agir.
Homens que sejam tocados pelo desejo
de estarem felizes consigo,
com os amigos, o trabalho, os sonhos, a vida.
Necessita-se de homens corajosos
para lidar com a casa, as necessidades, as perdas;
os assuntos fortes e delicados.
Homens que procurem cuidar
das carências do corpo,
da saúde do coração.
Necessita-se de novos homens.
E de experiência, também, necessita-se.
Em proveito dos gêneros
(muitos mais do que dois)
é dirigido este anúncio.
Necessita-se, por certo,
de mulheres atentas
a essas tantas
necessidades.

*

Ilustração: — Sílvio Diogo, 2008
(grafite, papel, lápis de cor, tesoura)
[desenho do logotipo das Edições Toró (2005), versão colorida para o livro “Um segredo no céu da boca: pra nossa mulecada”. São Paulo: Edições Toró, 2008]

Pausa para refletir

Espelho mágico,
ó estilhaçado ser
que nos devolve
o escárnio do povo,
a triste figura!

Diante de ti,
irmão fractal,
aos despedaços,
não saímos:
iludidos de ótica.

Arriscas provar
que a vaidade
é o nosso feitiço,
olhar o excesso
em excesso.

Espelho esperto,
espantalho da paz,
queres fazer crer
que somos só
a feia aflição.

Alucinados,
trocamos de pele
e nos vestimos
do lado do avesso
para te agradar.

Ousemos, enfim,
impor uma pausa
à tua presença,
à tua própria imagem
dessemelhante.

Mãos que se achegam
procuram-se ver.
Aos olhos dos outros
(se não forem o inferno)
é que nos descobrimos.

Música das máquinas

Adentrar, menino, a marcenaria;
vasculhar o mundo do marceneiro
de nome Minaré.

— Minaré! Minaré!

Desvendar, no tempo de após,
o maquinário e a memória,
a palavra desenhada,
a datilografia do som,
a melodia sob a agulha,
a revelação da luz.

— E clique! E clique!

Eriçar a ponta dos dedos:
abrir as portas do voo
com o toque da voz.

Contar histórias de um tempo
em que marceneiro e menino
dividem pó de oficina
e canção de motor.

— Minaré! Minaré!