Água para o Brumadinho

— um apelo em poesia

No sítio que é dos Cantares,
convivo com um problema:
o drama comunitário
com que construo o poema.

É um apelo, confesso,
nascido da impaciência.
A formalidade, há anos,
não resultou em sucesso.

Nas terras do Brumadinho,
luminoso lugarejo,
falta a água, imprescindível
para todos os vizinhos.

Protocolamos ofícios,
procuramos Copanor,
tentamos a Prefeitura;
toda sorte de artifícios.

Não há água na torneira.
Ninguém possui o registro.
Até o Ministério Público
conhece bem tudo isto.

Reuniões se sucederam,
cálculos foram feitos.
Compromissos no papel
mostraram-se sem proveito.

O Brumadinho, no Guinda,
é um formoso povoado:
dia de névoas e sol;
noite de céu estrelado.

As corujas esvoaçam
e algum coelho aparece.
Aranhas, rãs e calangos
a sua morada tecem.

Variedades de rochas
fascinam estudiosos;
os coloridos cascalhos
indicam bens preciosos.

Conglomerados antigos
afloram por muitos lados.
Incontáveis diamantes
extraíram-se aos bocados.

Nesse lugar pioneiro,
relata-nos a história,
garimpeiros cavucaram
a joia dentro da rocha.

O garimpo, todavia,
escasseou com o tempo.
Abandonaram-se as lavras,
sobraram grandes crateras.

Duros blocos de rochedos,
mais despesas do que lucro:
vidas duras de sustento
no horizonte do Tejuco.

Na bravura, os moradores
fixaram residência
nos terrenos descuidados
(meio de subsistência).

Um monte de cangas rubras
chamado Paiol de Pedra
já guardou muito tesouro.
E hoje é nome de rua.

Preservar o Brumadinho,
sua história e geologia,
é olhar para o Cerrado,
suas mínguas, sua magia.

Um ponto dos mais difíceis
é o acesso às fontes hídricas.
Os mananciais, já raros,
na estiagem dão o mínimo.

E se cada domicílio
pudesse contar enfim
com o fluir da água potável,
própria para ser bebida?

A vida vicejaria
na horta regada, forte;
no frescor dos alimentos;
no banho com mais conforto.

Partilhamos do princípio
de que a água é um tema público.
Querelas ambientais
são repletas de conflitos.

Por isso, é indispensável
que o diálogo aconteça,
que a omissão se desfaça,
que se escutem as queixas.

Sabemos que a crise hídrica
não é privilégio nosso.
A sede atravessa o século,
o mundo de injustas posses.

Torna-se prioridade
procurar alternativas
que contemplem os saberes
do povo e dos cientistas.

No bioma do Cerrado,
as plantas medicinais
são força das benzedeiras
que espantam o mau-olhado.

Brincar de subir em árvore.
Andar atrás das formigas.
Pular de peito no rio.
Artes de criança antiga?

Pois bem, temos as lições
do passado e do presente
para estrear a estação
que acenda os sonhos da gente.

A distância é pouquinha.
A caixa-d’água do Guinda
está só a um quilômetro
do núcleo do Brumadinho.

E há um leve declive
ao longo do chão da estrada
que facilita o traçado
de uma nova rede hidráulica.

O empenho da Prefeitura
no cadastro dos imóveis
será vital ao projeto
de tudo quanto almejamos.

O município aprovou
um regimento específico
voltado a áreas rurais
com aspectos urbanos.

Espera-se que esta lei
proporcione os registros
e as certidões de número
para cada moradia.

Um Brumadinho com água,
entre o campo e a cidade,
é sonho que cultivamos.
E a vida é sonho. E é árvore.

Candeia, ipê, jatobá,
samambaia, quaresmeira,
gameleira, gabiroba,
goiaba, jequitibá.

De galho em galho voamos
na utopia, na fé.
A gente enfim quer bebida,
quer diversão e balé.

Sílvio Diogo
— primavera de 2017

*

Nota: Inspirado no morador de Brasília — Luiz Carlos Garcia — que converteu a sua indignação com um vazamento de água num longo poema reivindicatório, tentei traduzir em versos o apelo em defesa da implantação do abastecimento de água no povoado do Brumadinho, distrito do Guinda, em Diamantina. A questão me toca diretamente, pois ali venho construindo uma casa, o Sítio dos Cantares. Agradeço ao amigo Renato Oliveira, vizinho de Brum’s, por provocar-me à escrita.

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