“O ingresso”, María Zambrano

Neste escrito de 1965, a pensadora espanhola María Zambrano levanta questões sobre o ingresso de estudantes advindos de escolas públicas e de classes desprivilegiadas nas universidades e, de modo mais geral, sobre a travessia dos estudos na vida das pessoas. Vale muito a reflexão, até mesmo — e especialmente — por aquilo que há de datado em seu ensaio.

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María Zambrano

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O INGRESSO

Era mais brusco e também mais solene, em outras épocas, o trânsito da Escola Primária aos estudos do bacharelado em relação ao que se verifica hoje da Primária à “High School” ou aos Liceus de Ensino Médio. Diversas razões contribuem para isso: a primeira parece ser a democratização do ensino médio, para o qual afluem, cada [vez] em maior número, os estudantes de um e de outro sexo. Antes, especialmente no “velho mundo”, o acesso ao Liceu ou ao Instituto era reservado a uma certa classe social, e era indício quase certo do prosseguimento dos estudos até à Universidade ou às Escolas Superiores. Ingressar, pois, no Instituto ou na High School significava o primeiro passo de uma longa carreira que, alcançada, conservaria os seus seguidores dentro do recinto dessa classe social tão ampla denominada burguesia, ou os incluiria dentro dela, no caso — não muito frequente — de quem a ela não pertencesse.

Se por acaso o garoto que ingressava, mediante exame, no estabelecimento de ensino médio havia cursado o básico em uma escola pública, e não em um desses colégios chamados “particulares”, sentia-se separado dos seus companheiros que ficavam porventura ainda mais um ano nos bancos da Primária ou que, ingressando no seio de sua própria família, começavam a trabalhar em um ofício. Desses companheiros e amigos da infância, um abismo separava o afortunado estudante. Ele já era de outra classe, de outro mundo: ele estudava em vez de trabalhar para ganhar a vida. Seguia educando-se; educando-se e não somente estudando, ao passo que aqueles outros que não haviam ingressado no ensino médio davam por terminada a sua educação junto com os seus estudos. Daquele momento em diante, só os ensinaria a vida, a dura experiência da vida. E era também como se de repente tivessem que se fazer homens; como se todas as suas férias houvessem para sempre terminado; como se somente as rudes alegrias saíssem ao encontro deles, com sua perigosa dupla face. Como se de repente o [que] se chama “a realidade da vida” se lhes precipitasse totalmente.

O que é então seguir estudando sabendo que será por muitos anos seguir educando-se? Se fosse perguntado ao privilegiado que se separava de seus companheiros da infância para “elevar-se” por meio do estudo a outra categoria social, a outro modo de vida: Que modo de vida é este do estudante, acaso não tem a ver com a realidade da vida — o que seria o mesmo que dizer que é algo irreal? Não exatamente: o estudante ingressa num modo de viver que tem contato com a realidade da vida; o que faz é real, real e às vezes heroico o esforço. Resulta porém que a realidade desses estudos, dessa prosseguida educação, produzirá o seu fruto em um longínquo amanhã. Será quando acabe a carreira, quando se encontre lançado à realidade da vida — tal como se vê hoje o companheiro pobre que não pôde seguir uma carreira. E se tais reflexões se fizesse, ingressaria desde o primeiro momento no Estabelecimento de Ensino Médio com a grave alegria de quem se sabe privilegiado, de quem recebe um dom que obriga, e que talvez mereça menos que outros que não o receberam. O privilégio de preparar-se, de ir-se preparando para essa rude, esquiva realidade da vida. O ir familiarizando-se com ela passo a passo, seguindo uma ordem. Conduzido, guiado. As procissões acadêmicas têm esse sentido; ser a representação da vida mesma das aulas; os jovens iniciandos conduzidos e guiados pelos iniciadores que lhes evitam obstáculos, quedas, duras experiências, riscos sem fim; que lhes mostram o caminho do labirinto antes de deixá-los sozinhos em seu centro.

— Fevereiro de 1965

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Tradução: Sílvio Diogo

Filosofía y educación: manuscritos. Málaga, Ágora, 2007 (Org.: Ángel Casado e Juana Sánchez-Gey).

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