“Clareiras do bosque”, María Zambrano


Apresento aqui uma passagem da versão em português do livro Claros del bosque, de María Zambrano. A circunstância da tradução de uma obra escrita por uma filósofa, em linguagem dotada de forte sentido poético — a fronteira tênue em que Zambrano constrói conceitos e metáforas —, estabelece desafios para o exercício do trânsito entre idiomas.

O intenso diálogo da filosofia com a poesia marca toda a trajetória intelectual de María Zambrano (1904-91). Sobre a singularidade de Claros del bosque, publicado em 1977, assim se expressa a própria pensadora: “Creio portanto que, como livro, é o que mais responde a essa ‘ideia’ há tempos formulada de que ‘pensar é antes de tudo — como raiz, como ato — decifrar o que se sente’, entendendo por sentir o ‘sentir originário’, expressão usada por mim já há muito anos”.

O excerto a seguir está no quinto capítulo do livro, “La metáfora del corazón”.

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CLAREIRAS DO BOSQUE
— A metáfora do coração

É profeta o coração, tal como aquilo que se encontra no centro e num confim, sempre na iminência de ir ainda mais além do que já foi. Está a ponto de romper a falar, de que o seu reiterado som se articule nesses instantes em que quase se detém para recobrar o alento. O novo que habita no homem, a palavra; mas não as que dissemos, ou no mínimo como as dissemos; uma palavra que fosse nova apenas porque brotasse, porque nos surpreendesse como o alvor da palavra. Visto que o homem padece por não haver assistido à sua própria criação. E à criação de todo o universo conhecido e desconhecido. A sua ânsia de conhecer parece ter precisamente como fonte essa ânsia de não haver assistido à criação em sua totalidade, desde a luz primeira, desde antes: desde as trevas não dilaceradas. A teologia das grandes religiões — e também a filosofia, de modo mais circunspecto — dá testemunho do caráter ineludível desta revelação.

E não parece que se tenha considerado suficientemente este grande ressentimento, este ressentimento “fundamental” que o ser humano leva no seu coração, como raiz de todos os ressentimentos que o povoam: não haver assistido — e seria, por sinal, testemunha única — ao ato criador. Se tomamos por base o relato sagrado do Gênesis, o homem sucumbiu à sedução promissora do futuro: “Sereis como deuses”, não em apetite de felicidade, mas, ao contrário, saindo da felicidade que o inundava para ir buscar uma criação própria, de algo que ele fizesse; não se restringindo a contemplar o que se lhe oferecia, para fugir da pura presença dos seres de quem sabia o nome, mas não o segredo. Todavia, a palavra que não chega a sair do coração não se perde, essa palavra nova na qual resplandeceria, com claridade inextinguível, o novo da palavra. A palavra diáfana, virginal, sem pecado de intelecto, nem de vontade, nem de memória. E a sua claridade teria o que nenhuma palavra nos dá certeza de alcançar: ser inextinguível. Não se perde, desata-se em voz, uma voz que suspira sozinha e, tal como o suspiro, eleva-se atravessando angústia e espera; transcendendo.

E é a voz que se infiltra em certas palavras de uso cotidiano e, com ainda maior ênfase, nas mais simples, as que dão certeza. E se não se tornam por isso inextinguíveis, têm uma espécie de firmeza e até de fórmula sagrada.

E é a voz interior que se identifica com algumas vozes, com algumas palavras que se escutam não se sabe bem se dentro ou fora, porque se escutam do íntimo. E ao sair para escutá-las, é de si mesmo que se sai. E entre dentro e fora, todo o ânimo fica suspenso, como fica sempre em toda identificação de algo que pulsa no coração e algo que existe objetivamente. É o terror supremo que se precipita ao escutar como certo aquilo que se teme. E o total esquecimento de si, quando se escuta o que nem sequer se sabia estar aguardando. E nesta feliz situação dá-se a música perfeita; o canto.

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Tradução: Sílvio Diogo

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Em dezembro do ano passado, a revista Caliban publicou um ensaio que compus sobre a pensadora espanhola: Escritos, mulher, escritos: a minha descoberta de María Zambrano”.

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