“Das viúvas”, Sônia Queiroz

DAS VIÚVAS
poema de Sônia Queiroz —

na voz de Sílvio Diogo

a rua é torta
invento
na janela
um riso para o morto

não abro portas
espalho
pelas frestas
encantos para o morto

e espano
destes móveis
as digitais do morto

espanto
dos papéis
as palavras do morto

a hora é torta
remexo
na panela
risoto para o morto

não abro portas
solfejo
nas paredes
um canto para o morto

e dobro
nos lençóis
os suores do morto

e lavo
desta louça
o paladar do morto

o medo é o peso
mantendo
minha mão
suspensa neste ataque

o medo é a medida
retendo
minha mão
mexendo esta comida

o medo é a reza
comendo
minha mão
no pão de todo dia

o medo é o morto
vertendo
minha boca
no torto deste riso

*

Do livro O sacro ofício. Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1980.

*

Sônia Queiroz nasceu em Belo Horizonte em 1953. Licenciada em letras e mestre em estudos linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais, fez doutorado em comunicação e semiótica pela PUC/SP. É autora dos livros de poemas O sacro ofício (1980), Relações cordiais (1997) e Corra água por onde correr (2003). A partir de suas pesquisas sobre os cruzamentos entre oralidade e escrita, memória, edição e transcriação — em especial no campo das culturas afrobrasileiras —, publicou Pé preto no barro branco: a língua dos pretos da Tabatinga (1998) e Na captura da voz: as edições da narrativa oral no Brasil, este em coautoria com Maria Inês de Almeida (2004). É professora da Faculdade de Letras da UFMG.

*

Foto da autora: Cedecom / TV UFMG, série “90 anos de histórias” (fotograma)

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Ártemis, Apolo e os traumas do nascimento

Em um dos capítulos de Clareiras do bosque, María Zambrano faz referência aos gêmeos Ártemis e Apolo. Ao preparar as notas da tradução do livro para o português, chamou-me a atenção o fato de que, cada um a seu modo, os irmãos mitológicos sofreram os efeitos, ao longo de suas vidas, das tribulações do parto. Um outro ponto que me tocou, especificamente no caso de Apolo, foi a interdependência entre a arte da profecia e a arte de curar. A seguir transcrevo as duas notas “gêmeas”.

*

Na mitologia grega, Ártemis, filha de Zeus e Leto, é a irmã gêmea de Apolo. Quando Hera descobriu que Leto estava grávida de seu marido Zeus, proibiu a ela que desse à luz em terra firme ou em qualquer ilha do mar. Em suas perambulações, Leto encontrou finalmente a flutuante ilha de Delos para o nascimento de seus dois filhos. Ártemis nasceu antes de Apolo e ajudou a mãe nos trabalhos de parto, e ficou tão horrorizada com o que sofreu Leto, que pediu ao pai o privilégio de permanecer para sempre virgem. Acompanhada pelas ninfas e pelas virgens, Ártemis percorria selvas e montanhas. De seu séquito faziam parte igualmente vários animais: veados, corças, lebres, leoas, javalis. Tal como Apolo, a quem muitas vezes está associada no mito e no culto, carregava o arco e a aljava cheia de setas temíveis e certeiras. A ira de Ártemis era proverbial. Como deusa da caça e da lua, personificava a independência do espírito feminino. O arquétipo por ela representado capacita a mulher a buscar os seus objetivos em terreno de sua livre escolha, conferindo-lhe uma habilidade inata para afastar de seu caminho a quantos lhe desejam embargar os passos. Embrenha-se nas florestas e vai em busca de sua presa. A deusa dos animais selvagens, da caça e da vegetação, da castidade, da cura e do parto, é o protótipo da divindade que desconhece obstáculos. Foi denominada, entre os romanos, como Diana. (Cf.: Junito de Souza Brandão, Mitologia Grega, v. 3. Petrópolis: Vozes, 1987, pp. 348-50.)

*

Apolo (Febo, entre os romanos) é uma das principais divindades da mitologia grega, um dos deuses olímpicos. Como já mencionado na nota anterior, era filho de Zeus e Leto e irmão gêmeo de Ártemis. Tão logo nasceu Apolo, Zeus enviou ao filho uma mitra de ouro, uma lira e um carro, ao qual se atrelavam cisnes. A estes ordenou Zeus que se dirigissem rumo a Delfos, mas os cisnes conduziram Apolo para o país dos Hiperbóreos, povo lendário que habitava uma região ensolarada, sob um céu eternamente azul, na extremidade norte da Terra. Ali permaneceu um ano: na verdade, uma longa fase iniciática, talvez para purificar-se do trauma do nascimento. Decorrido esse período, retornou à Grécia e só então se apossou de Delfos, após matar a serpente-dragão Píton. Apolo ficou conhecido como o deus da divina distância, que ameaçava ou protegia desde o alto dos céus, sendo identificado como o sol e a luz da verdade. Era o agente de purificação ritual e símbolo da inspiração profética e artística. A ele foi dedicado o mais famoso oráculo da Antiguidade, o Oráculo de Delfos. Havia uma íntima conexão entre a arte da profecia e a arte de curar. O conhecimento acerca do período de preparação durante o qual um acontecimento ou uma criação se elaboram em surdina, antes de assumirem existência efetiva, tinha por objetivo essencial, na maioria dos casos, a cura, e a atividade terapêutica dos deuses e dos heróis se exercia principalmente por meio das respostas do oráculo. Apolo, deus oracular por excelência, era, ao menos a princípio, um deus-médico, e assim se torna visível a íntima correlação entre cura e profecia no majestoso epíteto que lhe empresta o dramaturgo Ésquilo: iatrómantis, quer dizer, o médico-mântico, “o que sabe curar com os seus oráculos”. A cada inverno Apolo viajava até os país dos Hiperbóreos. Essa peregrinação mítica era um símbolo da sucessão das estações, regidas pelo deus mediante o deslocamento aparente da posição do sol no céu ao longo do ano. Criava-se, assim, um elo entre o mundo dos homens e as forças dos mundos superiores. (Cf.: Junito de Souza Brandão, op. cit., p. 50.)

“As mulheres do mercado”, Luci Collin

AS MULHERES DO MERCADO
poema de Luci Collin —

na voz de Sílvio Diogo

I.

dir-lhes-ei coisas no ouvido
mas pensarão que então grito
mas pensarão que replico
sons e o orvalho
que veste a noite do ínfimo imenso
sentido

vozes das lavadeiras
(cuidai)
vozes das mulheres que anunciam
os melhores peixes
neste mercado de
caixas       passos       promessas
musicarei teu olhar

os melhores homens são feitos
de espaço
entre siso e nada
as melhores frases
daquilo que sempre se disse
ficado no ar
os melhores vinhos
são tempo e sol
certos
e desse banquete
nada descreverei
porque o que me interessa
são os sinos
porque o que me impressiona
é o que contas ter visto

talvez babel
feita de comos

como se fosse o porquê
dir-te-ei duplos sentidos
como lâmina duplo corte
como dupla pele
como aqui e lá

mas aquele que compreende
os vermelhos
vigia                 cala
viscera num ato de
perguntar
QUANDO

………………………….QUANDO ESTÁ

 

II.

de cor palavras bonitas
de cor o preço das noites
de cor palavras canção

já nas primeiras horas
mecanismos se desenrolam
nem enredos
só esta cantilena
só a descrição pura
do que é máximo
vale ventriloquia?

aço de um ventre estéril
o eternizável aqui

senhor eu vendo melancolia
portanto ficai longe
mira-me por detrás de portões
de grossas paredes apenas ouve
mira-me alto em altares
muito superiores
mira-me em silêncio e nada conclui

vendo esquinas obscuras
vielas
único sentido        única mão

quero ver-te por dentro
mas estou aqui
para o anúncio
que cumpro como
missão

rasgarás folhas
espalhar-se-ão destinos
e o mar
é melhor que nem se fale
já que não compreendo as figuras
que me assaltam
nesse azul pisado e liso
nem sólido nem oficioso
nem único

tentarei conceber a carta
onde peço            onde imploro

intento a melhor letra
e por fim no lacre
revela-se o sinete

gritem mulheres
que o peixe é fresquíssimo

gritem que o corpo gosta e precisa
de sempre muito e mais
gritem que os olhos se procuram

e que o brilho
que se empresta do orvalho
à escuridão é quase rito
que os silêncios se gastam
que os saldos ressuscitam
úmida e impressionante
ilusão em muito
…………………………… MUITO MAIS

 

III.

e depois gritem os homens

no teu ouvido deposito
a cantoria dos gatos
rasgando lento essa noite

sob um fio
sob um único fio
de teia ali
mínimo
como se forma o inseto
a presa                 a gota
a palavra certa que é
quando

os versos que sabes
de cor
semelham asas
e adentras janelas
frestas           fendas
feridas curas
e te renderão tratados
que desprezarás
porque não colecionas
ocos

senhor voz
tu que sabes
que as dobras da escuridão
vaticinam brancos
diga-nos voltarás a abrir
a porta
para os mapas que a mão
tremendo
entregou
vidas todas de gatos
de ti
o nada que eu sei
fez-se o meu
nada
e aqui as vozes
verbo depurado
o duplo e a dobra

nessa ocasião
pássaros reivindicam
para si a cena
e anunciam nova
manhã

uma manhã sem preço
onde só as vozes
dizendo que sim
no ouvido
da multidão

*

Do livro Trato de silêncios. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

*

Luci Collin nasceu em Curitiba em 1964. Ficcionista, poeta e tradutora, publicou até o momento dezoito livros, entre os quais A palavra algo (2016, poesia), Querer falar (2014, poesia), Trato de silêncios (2012, poesia); A peça intocada (2017, contos), A árvore todas (2015, contos); Nossa Senhora D’Aqui (2015, romance), Com que se pode jogar (2011, romance). Graduou-se em piano, letras (português/inglês) e percussão clássica. Fez mestrado sobre o poeta norte-americano Gary Snyder, doutorado sobre os retratos literários de Gertrude Stein e pós-doutorado sobre a poeta irlandesa Eiléan Ní Chulleanáin. É professora no Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Paraná.

*

Foto da autora: Rafael Dabul

“Pode ligar o chuveiro?”, Allan da Rosa

PODE LIGAR O CHUVEIRO?
conto de Allan da Rosa —

na voz de Sílvio Diogo

(…)

Alguém me abre o chuveiro aqui, por favor?

Pedreiro considerado foi o bisavô, Seu Tebas de Jenê. Nenhuma casa que fez há 30 anos precisou reforma. Furava cada tijolinho dos muros e chapiscava dentro. Não tem degrau de escada feito por sua colher que tenha rachado, procure quem quiser. Dizem as noras que construção hoje, com dois meses de feitura, o cimento já lascou tudo na ponta, fiação umedeceu, é um tal de porta empenada e empoçamento, fácil. Pra voltar e cobrar conserto. Muro dura nem três anos e bambeia, trinca ou arreia. Três temporais de validade.

Ele sabia manejar o clima nos cômodos, deixar aquecido na invernia e fresquinho quando brasava o verão. Dominava lápis, alicate e peneira, até arquiteto pedia sua opinião. Alguns ainda vêm e convencem a sair, empurram sua cadeira de rodas pelas praças antigas do bairro do Catalônia, ninguém mexe não… tá com o bisa, tá com o ganga. E também rodam lá pela nobreza do Parque Granola. Quarteirões inteiros onde qualquer parede caiada teve estudo e toque do bisavô. Tantos bangalôs, tantas mansões assinadas por escritório de arquitetura…

A tia Ceci era menininha ainda e ruminava o nojo de beijar sua mão na porta da escola, de pedir bença encardida. Um dia confessou, pura, tadinha. Pediu pra não acarinhar a cabeça também, sua unha de encher laje era a comédia das amiguinhas. Peão. Porqueira. Vergonha do esmalte de cimento.

Don Tebas de Jenê pesquisou sabão, campeou xampu que dissolvesse o vexame escombroso da sua filha… uma semana sem ler sobre construção. E chegou mesmo foi no sabão de coco. Mais a ponta de canivete futricando unha debaixo da água quente.

Restou esse descabelo de esfregar os dedos até sangrar. Se tivesse força… mas nem alho hoje pica mais, nem casinha de baralho sua tremura güenta montar. E esse sestro não perdeu.

Desligar pras crianças tomar banho. Única infiltração em sua viga é a querença de trabalhar, corrosão no tédio que espeta a costela.

Bonito a erezada brincando. Don Tebas escuta a inocência e filtra ali o verdadeiro da passagem. Tem hora que pouco importa quem vai lhe dar o comprimido e limpar seu fraldão.

Mas limpar minha bunda e minha ferida na perna eu faço sozinho!

(…)

*

“Pode ligar o chuveiro?” (fragmento). Do livro Reza de mãe. São Paulo: Editora Nós, 2016.

*

Allan da Rosa nasceu em São Paulo, a 10 de abril de 1976. Escritor e educador, publicou Vão (2005), Da Cabula (2006), Zagaia (2007), Pedagoginga, autonomia e mocambagem (2013), Reza de mãe (2016), Zumbi assombra quem? (2017), entre outros livros. Criou em São Paulo, em 2005, o selo Edições Toró, ligado ao movimento de literatura periférica da cidade. Cursou graduação em história na Universidade de São Paulo, onde em seguida fez mestrado em educação. Atualmente é doutorando também na Faculdade de Educação da USP.

*

Foto do autor: Sílvio Diogo

“Aula de desenho”, Maria Esther Maciel

AULA DE DESENHO
poema de Maria Esther Maciel —

na voz de Sílvio Diogo

Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.

*

Do livro Triz. Belo Horizonte: Orobó Edições, 1998.

*

Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas, a 1º de fevereiro de 1963. Vive em Belo Horizonte desde 1981. Escritora, ensaísta, professora na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicou, entre outros, Dos haveres do corpo (poesia, 1985), Triz (poesia, 1998), O livro de Zenóbia (ficção, 2004), O livro dos nomes (ficção, 2008), As ironias da ordem: coleções, inventários e enciclopédias ficcionais (ensaio, 2010), A vida ao redor (crônicas, 2014), Literatura e animalidade (ensaio, 2016).

*

Foto da autora: Rubner de Abreu

*

Agradecimentos a Maria Elisa Almeida pela indicação do poema.

“Nascente”, Cuti

Bom dia, 2018. Bem-vindo seja.
Na aurora deste tempo, volto-me à mina d’água da escrita do mestre Cuti.
Com alegria li em voz alta o seu poema “Nascente”.
Feliz Ano Novo! Axé!

NASCENTE
poema de Cuti —

na voz de Sílvio Diogo

o broto brota sob a bota
que pisa
a gente cala por enquanto
porque precisa
a nossa fala que o tambor fala
é brisa
do novo que há de ver
a palma
a calma trancada e reprimida
a trama já tramada que está verde
a verde verdade preta amadurece
ama e cresce sob a bota
imagem dum pilão que mói que soca

o broto sob a bota brota
que pisa
o broto brotalvorada
e nova rota
e grita

o broto é negro como o riso-terra
e espera apenas que outros
bebam do suor dos rios.

*

Do livro Negroesia. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

*

Cuti é pseudônimo de Luiz Silva. Nasceu em Ourinhos (SP), a 31 de outubro de 1951. Formou-se em letras (português/francês) na Universidade de São Paulo, em 1980. Mestre em teoria da literatura e doutor em literatura brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (1999/2005). Foi um dos fundadores e membro do Quilombhoje/Literatura, de 1983 a 1994, e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros, de 1978 a 1993.

www.cuti.com.br