“Fábula de bichos mudos”, Katia Portes

Poemas de Katia Portes

na voz de Sílvio Diogo

21.

FÁBULA DE BICHOS MUDOS

Um dia o gato e o rato — fartos de perseguições e ameaças — se sentarão no meio-fio sujo da rua e compartilharão leite, queijo e lamentações. E naquele gesto de amizade toda a graça se perderá.

*

22.

RETALIAÇÃO

Podia ver minhas costuras de dentro. Minhas linhas tortas, amarrotadas.
Mas dei a ela a felicidade de pensar ter definido meus alinhavos.
Meus farrapos, minha história.
Ela não sabe.
Retalho uma vez, para sempre retalho.

*

23.

O amor, senhor de mim.
Minha água de beber.
Com que lavo panelas,
com que me banho, com que choro.

*

24.

Entre calcinhas velhas e furadas
e meias sem par,

grandes amores também se perdem
na bagunça das gavetas.

*

25.

DE CINZAS

Com os bolsos vazios de saudade,
sem moedas pra gorjeta.
Sem sarjeta, pra quando o bar fechar.

A euforia se despediu de mim em pleno carnaval.
As cores parecem só cores.
Vou me vestir de branco e passear.

*

26.

Foram muitos meses de inverno até aqui, até agora.
Enfim é verão.

Tudo em seu devido lugar.
O céu, azul.

Você, meu amor, fique.
Mas um passo à esquerda, por favor.

Evite tapar meu sol.

*

27.

Gosto dos girassóis e dos jasmins.
Sofro das dores mais clássicas.

*

28.

Envelhecer dentro desse abraço, onde cabe um mundo, onde cabem dois. Ser esse abraço um cais. Estar dentro desse abraço quando a explosão do sol der cabo deste mundo. Ver a chuva na perspectiva desse abraço. Estar nua, estar coberta, estar repleta. Estar alguém dentro desse gesto, desse afago, desse analgésico. Envelhecer dentro desse abraço.

Ser esse abraço um cais.

*

29.

Vagando, te encontrei virando a esquina da cidade de abismos. Olhando fundo nos teus olhos percebi: tudo em volta seria queda. O mundo — esse meio-fio entre despenhadeiros — e nós, dançarinos. Suas mãos dentro das minhas. Não tive medo.

*

Katia Portes nasceu em São Paulo a 11 de agosto de 1988. Trabalha com produção editorial e cultural. Desde 2007 publica poemas no blog contoscontragotas.blogspot.com. O interesse e a atuação em áreas como fotografia — artes visuais no geral — e história são ferramentas de sua criação e trabalho, além de aspectos particulares de sua trajetória. A sequência de poemas aqui transcritos pertence a um livro inédito da autora.

*

Foto: Katia Portes (autorretrato)

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“Música para modelos vivos movidos a moedas”, Ricardo Aleixo

MÚSICA PARA MODELOS VIVOS MOVIDOS A MOEDAS
poema de Ricardo Aleixo —

na voz de Sílvio Diogo

Há muito já estão mortos os modelos vivos que, no
passado, apenas posavam para os artistas e, do oito

centos em diante, também para os fotógrafos que,
em seus estúdios, consideravam-se artistas. Os modelos

vivos da atualidade, além de mais vivos que os do
passado, fazem mais que posar impassíveis diante de

pincéis cinzéis ou lentes. Recortam o ar com pequenos
gestos de falso, grácil nô, a intervalos irregulares, regidos

pelo barulho das moedas que um ou outro passante
atira dentro das latas que eles, os hodiernos modelos vivos,

postam a seus pés quando se integram estáticos, mudos,
metonímicos, metamímicos, cobertos de tinta até o rosto,

à quase sempre feia paisagem das praças e esquinas
das cidades brasileiras de médio e grande porte por onde

desandarilham. Nada representam, nenhum papel. Presentam
-se. São o medium e a mensagem. Fingem submeter-se ao

comando dos lançadores de moedas, e aí expira sua arte
que nem mesmo aspira à condição de arte e começa a dos

pagantes. Pergunto-me, como se perguntava Heinrich
Kleist sobre os manipuladores de marionetes que tanto

encantavam o amigo a quem devia o despertar do interesse
pelos mistérios daquela arte de rua, se os passantes

pagantes conhecem os mecanismos que movem os modelos
vivos; se possuem pelo menos uma ideia do belo na dança.

*

Do livro Modelos vivos. Belo Horizonte: Crisálida, 2010.

*

Ricardo Aleixo nasceu em Belo Horizonte a 14 de setembro de 1960. Poeta, artista visual, sonoro, performador, cantor, compositor, ensaísta e editor. Publicou, entre outros, os livros Antiboi (2017), Impossível como nunca ter tido um rosto (2015), Modelos vivos (2010), Máquina zero (2004), Trívio (2001) e Festim (1992). Como solista ou integrante da Cia. SeráQuê e do Combo de Artes Afins Bananeira-ciência, já performou na Alemanha, na Argentina, nos Estados Unidos, na França, em Portugal e na Suíça. Concentra seus projetos de criação e pesquisa no Laboratório Interartes Ricardo Aleixo (Lira), no bairro Campo Alegre, em Belo Horizonte.

*

Foto do autor: Timo Berger

*

Neste link, é possível visualizar o poema em PDF.

Desvio e transcendência em Modelos vivos, de Ricardo Aleixo

Sílvio Diogo

O que se busca é a vida da língua para produzir vida.
(
Marc-Alain Ouaknin)

I

Venho devolver, com gratidão, uma palavra minha a Ricardo Aleixo, a partir da leitura de seu Modelos vivos1. A ação de inscrever o livro neste tempo nosso é de louvar e saudar. Dediquei-me à obra como a um álbum (o “objeto intersígnico” que o autor menciona), e cada letra, cada imagem, cada sonoridade ali dispostas transparecem muito bem cuidadas, trabalhadas, buriladas; elas constroem, especialmente, um caminho de leitura que atinge, no conjunto, uma coesão fortíssima, tendo como eixo o título (Modelos vivos), tão rico em possibilidades. A disposição dos poemas ao longo do livro é extremamente feliz, em termos visuais e de sentido. Bom de tocar, estimulante alimento. Ressalte-se o primoroso trabalho de Bruno Brum na editoração e na composição gráfica, em conjunto com o autor.

Modelar a matéria visual, a matéria tátil, a matéria sonora, esta arte fronteiriça da poesia (e da poesia de Aleixo) requer uma pesquisa de linguagem que não prescindirá dos modelos, que os homenageará textual e implicitamente, amando-os, vivos. Eles e elas, modelares, são evocados, incorporados, mas não se confundem com a corporalidade da escrita e da voz do autor — maduras, vigorosas. Modelos vivos, tal como se diz no cinema, é “livro de autor”.

A arte anda no livro qual aranha na teia: vai compondo, desde o corpo em direção ao ambiente, a linha tênue, torta, perigosa, onde, no entanto, mora o chão firme. A arte também está presente de outros ângulos, problematizada como mercadoria (uma a mais entre as outras todas?), neste mundo desumanidade. O livro, assim o li, ao desejar “devolver o dansarino à dansa”2, deseja captar/provocar/faiscar em nós (em nosso ser modelo-máquina-autômato-vivente) a humanidade-arte, a vida pulsante, a pele, o manto, “a impossível proeza”3.

Modelar (desta vez como adjetivo) é também a vida em família, o estar entre outros, é mirar-se nos modelos da mãe e do pai, é entender-se filho e, depois, também pai. Irmão, artista. Redescobrir-se humano, ser de palavra, corpo a ser lido, segredo a decifrar. Os vivos do título criam, nas entrelinhas e nas entrelínguas, um bom embate com a morte: “atrapalhar o trabalho da morte”4 é também saber que, além e aquém da morte, somos fisgados por outros tantos tipos de silêncio e enclausuramento, mais graves, talvez, do que ela própria. A imagem da captura do peixe, da captura do humano — a imagem do rapto da imagem — eis a poesia.

Leio o poema-par “tem que ter palavra para ser humano” / “tem que ser humano para ter palavra”5 serpenteando por todo o livro, cutucando as noções de fixidez e abertura. A firmeza ética do “ter palavra” não significa ter palavra fixa, ter uma palavra, uma palavra rígida.

Manter a palavra. Romper com a palavra. Justamente essa abertura, a possibilidade e o desejo de “ainda um dia poder ver”6, tocou-me de modo pungente e me evocou um trecho do livro Biblioterapia, do rabino francês Marc-Alain Ouaknin: “Por que lemos? Por que interpretamos? A resposta é clara: para fazer com que o ‘ser infinitivo’ não se transforme em ‘ser definitivo’, para fazer com que a existência possa ainda ser entendida como transcendência”7.

Que nenhum “impulso de desistência”8, a fantasmar a vida e o trabalho do poeta, possa pulsar mais do que a imperiosa transcendência.

*

“Desvio”, poema de Ricardo Aleixo em ‘Modelos vivos’

II

Quis incluir um apontamento no correr das linhas anteriores, mas o tema exigiu a criação de um item à parte. Ele refere-se, em princípio, ao poema-objeto “Desvio”, mas deságua sobre Modelos vivos e sobre questões de arte e ciência. Sobre a vida. Ricardo Aleixo constrói, em “Desvio”, uma estrutura circular, formada por colagens em que se repetem as palavras do poema:

pelé encontra mazurkiewcs. num átimo, o gol feito que, ainda hoje, o demo desfaz, ou melhor, desvia para o círculo dos erros perfeitos.9

Um dos mais belos gols não feitos da história do futebol, o lance de Pelé e Mazurkiewcs na Copa do Mundo de 1970, visto à distância ou ainda bem de perto, dança entre o erro e o acerto, a via e o desvio. Ricardo Aleixo, modelando com linha e círculo, impede que a bolinha do olhar do leitor encontre a meta do fim da frase. A estrutura visual do poema assemelha-se a uma concha ou a um funil — mergulha-se em um buraco que é como o de nosso ouvido ou o de um gramofone.

Em Ulysses Gramophone, Jacques Derrida escreve acerca do James Joyce de Finnegans wake:

Ele [Joyce] repete, mobiliza e babeliza a totalidade assimptótica do equívoco. Faz dele ao mesmo tempo seu tema e sua operação. Ele tenta nivelar à maior sincronia possível, a toda velocidade, o maior poder das significações, contidas em cada fragmento silábico, fundindo cada átomo de escrita para sobrecarregar o inconsciente com toda a memória do homem: mitologias, religiões, filosofias, ciências, psicanálise, literaturas. E a operação desconstrói a hierarquia que, em um sentido ou outro, ordena essas últimas categorias a uma ou outra delas. Esse equívoco generalizado não traduz uma língua em outra a partir do senso comum. Ele fala várias línguas ao mesmo tempo.”10 [grifo nosso]

Se aqui cito a passagem, faço-o menos para tecer uma comparação entre os escritores, e mais para frisar uma certa relação de procedimentos11. A expressão “totalidade assimptótica do equívoco” ficou a reverberar em mim e levou-me a sendas antes inexploradas. No ano de 2004, o prêmio Nobel de Física foi concedido a três pesquisadores (David J. Gross, Frank Wilczek e H. David Politzer) “pela descoberta/invenção da chamada ‘liberdade assimptótica’, em artigos publicados na ‘Physical Review Letters’ que datam desde 1973”12.

Etimologicamente, “assimptótico” vem do grego asúmptótos, ‘que não se reduz, não coincidente’. Segundo Sónia Duarte — em texto publicado no interessantíssimo sítio Flutuante:

A “liberdade assimptótica” consiste numa relação não intuitiva […] em que a força dita forte (que mantém a coesão entre os quarks, partículas constituintes do protão e do neutrão, os quais, por sua vez, constituem os núcleos dos átomos), a distâncias muito curtas, torna-se tão fraca que os quarks se comportam como partículas livres, enquanto que, aumentando a distância, ganha intensidade, impedindo que existam partículas isoladas. Passa-se algo de semelhante com a força elástica que actua numa mola: quanto mais esticada, maior é a força exercida. Quando os dois pólos de atracção tendem para uma vizinhança máxima, quando quase se tocam, a força forte torna-se fraca.13

Estamos mesmo é andando em círculos”, escreve Aleixo em outro poema14 — “andando em círculos/ crentes/ de que se seguirmos/ em linha reta/ olhos fixos no pleno branco vazio cegante/ como temos feito/ desde o começo/ deixaremos de andar em círculos”.

As complexas relações entre distância e proximidade, força e fraqueza, atração e repulsa ganham corpo de pergunta e exercício de resposta na arte de Ricardo Aleixo, que confessa simpatia pelo dito latino festina lente, “apressa-te lentamente”, paradoxo que sentimos evocado na explicação acerca das partículas constitutivas do átomo.

A autora Sónia Duarte ressalta que o curioso, na descoberta dos cientistas, é que o comportamento das partículas, no caso em questão, “é contrário ao das outras três forças fundamentais: gravitacional, electromagnética e fraca (responsável pela radioactividade)”. E arrisca a extendermo-nos do sentido físico-atômico para uma dimensão filosófica, com reflexos sobre a liberdade e o desejo:

A “liberdade assimptótica”, extrapolada da dimensão subatómica para a dimensão molar, numa assumida apropriação filosófica de um postulado científico, coloca várias questões sobre a liberdade. Somos mais livres na esfera da intimidade, isto é, em relação aos que nos são mais próximos, e somos propensos a sermos atraídos com mais força e intensidade para o que está mais longe de alcançar? A liberdade implica sacrificar ou restringir o espaço do seu território, fazer recuar o limite da sua propriedade ou privacidade? A excessiva proximidade provoca o enfraquecimento do desejo (fenómeno do orgasmo)? Para o fortalecimento do desejo contribui a distância relativamente ao pólo da atracção (fenómeno da saudade), numa relação directamente proporcional? O amável (atracção) à distância pode tornar-se detestável (repulsão) na intimidade? A liberdade e a força do desejo são grandezas inversamente proporcionais?

Pode ser que as perguntas se multipliquem e nos transportem para muito longe do inicialmente proposto (uma leitura de Modelos vivos; o poema “Desvio”; o lance de Pelé e Mazurkiewcs), mas, seguramente, a trilha circular do comportamento vivo nos desviará de volta a um novo centro, puxando-nos pelo corpo, com delicadeza e força, para o acerto e para a errância, para o acaso e a procura, para um encontro com a poesia do ser — também chamada humanidade, também chamada transcendência.

fev./2013

*

Notas

1 Aleixo, Ricardo. Modelos vivos. Belo Horizonte: Crisálida, 2010.

2 Aleixo, Ricardo. Op. cit., pp. 133-44.

3 Idem, p. 93.

4 Idem, p. 105.

5 Idem, orelhas do livro.

6 Idem, p. 12.

7 Ouaknin, Marc-Alain. Biblioterapia. São Paulo: Loyola, 1996, p. 122. Tradução de Nicolás Niymi Campanário.

8 Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 11.

9 Idem, pp. 120-1.

10 Derrida, Jacques. Ulysses Gramophone. Deux mots pour Joyce. Galilée, Paris, 1987, p. 29. In: Ouaknin, Marc-Alain. Biblioterapia, op. cit., p. 139.

11 Cf., em Modelos vivos, o poema visual “Babel adormecida”, cuja leitura linear é: “Babel adormecida agora sonha novas línguas como que mortas”. In: Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 123.

12 A partir deste ponto, reporto-me ao texto “Da liberdade assimptótica”, de Sónia Duarte. Disponível neste link. Acesso em: 15 fev. 2013.

13 Duarte, Sónia. Cit.

14 Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 100.

“Minhas suas curvas”, Mariangela Andrade

MINHAS SUAS CURVAS
— Mariangela Andrade

na voz de Sílvio Diogo

eu gosto da intimidade. gosto de deixar a roupa no chão… esparramada, o corpo nu e o cabelo solto. gosto de te ver do lado, em qualquer movimento, ainda que só de pensamento. gosto dessa sua mão nos arredores das minhas curvas, que já aprenderam que são suas… minhas suas curvas. gosto do gosto que tem a chuva quando insiste em prender a gente aqui dentro, pra que o momento perdure. me senti estranha e engraçada naquele espelho do teto. lá, naquele reflexo, era eu e era só uma imagem, era a possibilidade de duplicar a sensação… do olho que vê também aquele outro ângulo refletido. gosto do espelho. gosto de, de repente, gostar daquilo que está lá na ilusão, que é feito pra ser admirado. meu corpo no espelho, seu corpo no meu… e os sentidos todos, por todos os lados. é que somos tidas como objeto do desejo alheio… é estranho estar no lugar de observador, ainda mais de si mesma. estranho e bom, eu gosto.

*

Mariangela Andrade nasceu em Brasília a 25 de julho de 1980. É doutoranda em literatura na Universidade de Brasília (UnB), com um estudo sobre conexões entre escrita, diários, corpo e performance. Graduada em direito pelo UniCEUB e em tradução (inglês) pela UnB, cursou especialização em relações internacionais e mestrado em literatura: em sua dissertação, abordou questões em torno da escritura joyceana. É analista no Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura (MinC). Prepara, no momento, o seu primeiro livro.

*

Foto da autora: Daniel Campos

O buquê

Ontem recebi um pedido de casamento, ops, ato falho, um convite para ir a um casamento em maio próximo, mês nupcial por excelência.

O amigo, tão chegado, embora hoje distante (em quilometragem), telefonou-me logo de manhã e trocamos boas novidades, coisa incrível, ótimas notícias da vida cotidiana e, pasmem, esperanças alvissareiras para o ano.

Só espero de meu camarada (nós nos tratamos carinhosamente, um ao outro, pelo nome de bân-di-do, acentuando a primeira sílaba da palavra) que ele relembre a ética da bandidagem e não tenha vergonha de, no casório, arremessar o buquê.

Isso de arremessar o buquê carrega uma beleza de que não deveríamos abrir mão. E assim desde já me comprometo a disputá-lo avidamente.

“A menina avoada”, Manoel de Barros

A MENINA AVOADA
poema de Manoel de Barros —

na voz de Sílvio Diogo

Foi na fazenda de meu pai antigamente.
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.
Meu irmão pregava no caixote duas rodas de lata de goiabada.
A gente ia viajar.
As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar as rodas se abriam para o lado de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote com as perninhas encolhidas.
Imitava estar viajando.
Meu irmão puxava o caixote por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.
Eu comandava os bois:
— Puxa, Maravilha!
— Avança, Redomão!
Meu irmão falava que eu tomasse cuidado porque Redomão era coiceiro.
As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade —
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.
No caminho, antes, a gente precisava de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.
Sempre a gente só chegava no fim do quintal.
E meu irmão nunca via a namorada dele —
Que diz-que dava febre em seu corpo.

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Do livro Exercícios de ser criança (1999). In: Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

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Manoel de Barros nasceu em Cuiabá a 19 de dezembro de 1916. Passou a infância no Mato Grosso do Sul, primeiro numa fazenda próxima a Corumbá, depois num internato em Campo Grande. Aos doze anos, foi matriculado no Colégio São José, no Rio de Janeiro — cidade onde viveu por mais de trinta anos, antes de voltar ao Mato Grosso do Sul. Seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, é de 1937. É autor de dezoito livros de poesia — como Compêndio para uso dos pássaros (1960), O livro das ignorãças (1993) e Livro sobre nada (1996) —, além de livros infantis e relatos autobiográficos. Faleceu em novembro de 2014, aos 97 anos.

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Agradeço, mais uma vez, a Maria Elisa Almeida pela indicação do poema.