Desvio e transcendência em Modelos vivos, de Ricardo Aleixo

Sílvio Diogo

O que se busca é a vida da língua para produzir vida.
(
Marc-Alain Ouaknin)

I

Venho devolver, com gratidão, uma palavra minha a Ricardo Aleixo, a partir da leitura de seu Modelos vivos1. A ação de inscrever o livro neste tempo nosso é de louvar e saudar. Dediquei-me à obra como a um álbum (o “objeto intersígnico” que o autor menciona), e cada letra, cada imagem, cada sonoridade ali dispostas transparecem muito bem cuidadas, trabalhadas, buriladas; elas constroem, especialmente, um caminho de leitura que atinge, no conjunto, uma coesão fortíssima, tendo como eixo o título (Modelos vivos), tão rico em possibilidades. A disposição dos poemas ao longo do livro é extremamente feliz, em termos visuais e de sentido. Bom de tocar, estimulante alimento. Ressalte-se o primoroso trabalho de Bruno Brum na editoração e na composição gráfica, em conjunto com o autor.

Modelar a matéria visual, a matéria tátil, a matéria sonora, esta arte fronteiriça da poesia (e da poesia de Aleixo) requer uma pesquisa de linguagem que não prescindirá dos modelos, que os homenageará textual e implicitamente, amando-os, vivos. Eles e elas, modelares, são evocados, incorporados, mas não se confundem com a corporalidade da escrita e da voz do autor — maduras, vigorosas. Modelos vivos, tal como se diz no cinema, é “livro de autor”.

A arte anda no livro qual aranha na teia: vai compondo, desde o corpo em direção ao ambiente, a linha tênue, torta, perigosa, onde, no entanto, mora o chão firme. A arte também está presente de outros ângulos, problematizada como mercadoria (uma a mais entre as outras todas?), neste mundo desumanidade. O livro, assim o li, ao desejar “devolver o dansarino à dansa”2, deseja captar/provocar/faiscar em nós (em nosso ser modelo-máquina-autômato-vivente) a humanidade-arte, a vida pulsante, a pele, o manto, “a impossível proeza”3.

Modelar (desta vez como adjetivo) é também a vida em família, o estar entre outros, é mirar-se nos modelos da mãe e do pai, é entender-se filho e, depois, também pai. Irmão, artista. Redescobrir-se humano, ser de palavra, corpo a ser lido, segredo a decifrar. Os vivos do título criam, nas entrelinhas e nas entrelínguas, um bom embate com a morte: “atrapalhar o trabalho da morte”4 é também saber que, além e aquém da morte, somos fisgados por outros tantos tipos de silêncio e enclausuramento, mais graves, talvez, do que ela própria. A imagem da captura do peixe, da captura do humano — a imagem do rapto da imagem — eis a poesia.

Leio o poema-par “tem que ter palavra para ser humano” / “tem que ser humano para ter palavra”5 serpenteando por todo o livro, cutucando as noções de fixidez e abertura. A firmeza ética do “ter palavra” não significa ter palavra fixa, ter uma palavra, uma palavra rígida.

Manter a palavra. Romper com a palavra. Justamente essa abertura, a possibilidade e o desejo de “ainda um dia poder ver”6, tocou-me de modo pungente e me evocou um trecho do livro Biblioterapia, do rabino francês Marc-Alain Ouaknin: “Por que lemos? Por que interpretamos? A resposta é clara: para fazer com que o ‘ser infinitivo’ não se transforme em ‘ser definitivo’, para fazer com que a existência possa ainda ser entendida como transcendência”7.

Que nenhum “impulso de desistência”8, a fantasmar a vida e o trabalho do poeta, possa pulsar mais do que a imperiosa transcendência.

*

“Desvio”, poema de Ricardo Aleixo em ‘Modelos vivos’

II

Quis incluir um apontamento no correr das linhas anteriores, mas o tema exigiu a criação de um item à parte. Ele refere-se, em princípio, ao poema-objeto “Desvio”, mas deságua sobre Modelos vivos e sobre questões de arte e ciência. Sobre a vida. Ricardo Aleixo constrói, em “Desvio”, uma estrutura circular, formada por colagens em que se repetem as palavras do poema:

pelé encontra mazurkiewcs. num átimo, o gol feito que, ainda hoje, o demo desfaz, ou melhor, desvia para o círculo dos erros perfeitos.9

Um dos mais belos gols não feitos da história do futebol, o lance de Pelé e Mazurkiewcs na Copa do Mundo de 1970, visto à distância ou ainda bem de perto, dança entre o erro e o acerto, a via e o desvio. Ricardo Aleixo, modelando com linha e círculo, impede que a bolinha do olhar do leitor encontre a meta do fim da frase. A estrutura visual do poema assemelha-se a uma concha ou a um funil — mergulha-se em um buraco que é como o de nosso ouvido ou o de um gramofone.

Em Ulysses Gramophone, Jacques Derrida escreve acerca do James Joyce de Finnegans wake:

Ele [Joyce] repete, mobiliza e babeliza a totalidade assimptótica do equívoco. Faz dele ao mesmo tempo seu tema e sua operação. Ele tenta nivelar à maior sincronia possível, a toda velocidade, o maior poder das significações, contidas em cada fragmento silábico, fundindo cada átomo de escrita para sobrecarregar o inconsciente com toda a memória do homem: mitologias, religiões, filosofias, ciências, psicanálise, literaturas. E a operação desconstrói a hierarquia que, em um sentido ou outro, ordena essas últimas categorias a uma ou outra delas. Esse equívoco generalizado não traduz uma língua em outra a partir do senso comum. Ele fala várias línguas ao mesmo tempo.”10 [grifo nosso]

Se aqui cito a passagem, faço-o menos para tecer uma comparação entre os escritores, e mais para frisar uma certa relação de procedimentos11. A expressão “totalidade assimptótica do equívoco” ficou a reverberar em mim e levou-me a sendas antes inexploradas. No ano de 2004, o prêmio Nobel de Física foi concedido a três pesquisadores (David J. Gross, Frank Wilczek e H. David Politzer) “pela descoberta/invenção da chamada ‘liberdade assimptótica’, em artigos publicados na ‘Physical Review Letters’ que datam desde 1973”12.

Etimologicamente, “assimptótico” vem do grego asúmptótos, ‘que não se reduz, não coincidente’. Segundo Sónia Duarte — em texto publicado no interessantíssimo sítio Flutuante:

A “liberdade assimptótica” consiste numa relação não intuitiva […] em que a força dita forte (que mantém a coesão entre os quarks, partículas constituintes do protão e do neutrão, os quais, por sua vez, constituem os núcleos dos átomos), a distâncias muito curtas, torna-se tão fraca que os quarks se comportam como partículas livres, enquanto que, aumentando a distância, ganha intensidade, impedindo que existam partículas isoladas. Passa-se algo de semelhante com a força elástica que actua numa mola: quanto mais esticada, maior é a força exercida. Quando os dois pólos de atracção tendem para uma vizinhança máxima, quando quase se tocam, a força forte torna-se fraca.13

Estamos mesmo é andando em círculos”, escreve Aleixo em outro poema14 — “andando em círculos/ crentes/ de que se seguirmos/ em linha reta/ olhos fixos no pleno branco vazio cegante/ como temos feito/ desde o começo/ deixaremos de andar em círculos”.

As complexas relações entre distância e proximidade, força e fraqueza, atração e repulsa ganham corpo de pergunta e exercício de resposta na arte de Ricardo Aleixo, que confessa simpatia pelo dito latino festina lente, “apressa-te lentamente”, paradoxo que sentimos evocado na explicação acerca das partículas constitutivas do átomo.

A autora Sónia Duarte ressalta que o curioso, na descoberta dos cientistas, é que o comportamento das partículas, no caso em questão, “é contrário ao das outras três forças fundamentais: gravitacional, electromagnética e fraca (responsável pela radioactividade)”. E arrisca a extendermo-nos do sentido físico-atômico para uma dimensão filosófica, com reflexos sobre a liberdade e o desejo:

A “liberdade assimptótica”, extrapolada da dimensão subatómica para a dimensão molar, numa assumida apropriação filosófica de um postulado científico, coloca várias questões sobre a liberdade. Somos mais livres na esfera da intimidade, isto é, em relação aos que nos são mais próximos, e somos propensos a sermos atraídos com mais força e intensidade para o que está mais longe de alcançar? A liberdade implica sacrificar ou restringir o espaço do seu território, fazer recuar o limite da sua propriedade ou privacidade? A excessiva proximidade provoca o enfraquecimento do desejo (fenómeno do orgasmo)? Para o fortalecimento do desejo contribui a distância relativamente ao pólo da atracção (fenómeno da saudade), numa relação directamente proporcional? O amável (atracção) à distância pode tornar-se detestável (repulsão) na intimidade? A liberdade e a força do desejo são grandezas inversamente proporcionais?

Pode ser que as perguntas se multipliquem e nos transportem para muito longe do inicialmente proposto (uma leitura de Modelos vivos; o poema “Desvio”; o lance de Pelé e Mazurkiewcs), mas, seguramente, a trilha circular do comportamento vivo nos desviará de volta a um novo centro, puxando-nos pelo corpo, com delicadeza e força, para o acerto e para a errância, para o acaso e a procura, para um encontro com a poesia do ser — também chamada humanidade, também chamada transcendência.

fev./2013

*

Notas

1 Aleixo, Ricardo. Modelos vivos. Belo Horizonte: Crisálida, 2010.

2 Aleixo, Ricardo. Op. cit., pp. 133-44.

3 Idem, p. 93.

4 Idem, p. 105.

5 Idem, orelhas do livro.

6 Idem, p. 12.

7 Ouaknin, Marc-Alain. Biblioterapia. São Paulo: Loyola, 1996, p. 122. Tradução de Nicolás Niymi Campanário.

8 Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 11.

9 Idem, pp. 120-1.

10 Derrida, Jacques. Ulysses Gramophone. Deux mots pour Joyce. Galilée, Paris, 1987, p. 29. In: Ouaknin, Marc-Alain. Biblioterapia, op. cit., p. 139.

11 Cf., em Modelos vivos, o poema visual “Babel adormecida”, cuja leitura linear é: “Babel adormecida agora sonha novas línguas como que mortas”. In: Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 123.

12 A partir deste ponto, reporto-me ao texto “Da liberdade assimptótica”, de Sónia Duarte. Disponível neste link. Acesso em: 15 fev. 2013.

13 Duarte, Sónia. Cit.

14 Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 100.

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