“Música para modelos vivos movidos a moedas”, Ricardo Aleixo

MÚSICA PARA MODELOS VIVOS MOVIDOS A MOEDAS
poema de Ricardo Aleixo —

na voz de Sílvio Diogo

Há muito já estão mortos os modelos vivos que, no
passado, apenas posavam para os artistas e, do oito

centos em diante, também para os fotógrafos que,
em seus estúdios, consideravam-se artistas. Os modelos

vivos da atualidade, além de mais vivos que os do
passado, fazem mais que posar impassíveis diante de

pincéis cinzéis ou lentes. Recortam o ar com pequenos
gestos de falso, grácil nô, a intervalos irregulares, regidos

pelo barulho das moedas que um ou outro passante
atira dentro das latas que eles, os hodiernos modelos vivos,

postam a seus pés quando se integram estáticos, mudos,
metonímicos, metamímicos, cobertos de tinta até o rosto,

à quase sempre feia paisagem das praças e esquinas
das cidades brasileiras de médio e grande porte por onde

desandarilham. Nada representam, nenhum papel. Presentam
-se. São o medium e a mensagem. Fingem submeter-se ao

comando dos lançadores de moedas, e aí expira sua arte
que nem mesmo aspira à condição de arte e começa a dos

pagantes. Pergunto-me, como se perguntava Heinrich
Kleist sobre os manipuladores de marionetes que tanto

encantavam o amigo a quem devia o despertar do interesse
pelos mistérios daquela arte de rua, se os passantes

pagantes conhecem os mecanismos que movem os modelos
vivos; se possuem pelo menos uma ideia do belo na dança.

*

Do livro Modelos vivos. Belo Horizonte: Crisálida, 2010.

*

Ricardo Aleixo nasceu em Belo Horizonte a 14 de setembro de 1960. Poeta, artista visual, sonoro, performador, cantor, compositor, ensaísta e editor. Publicou, entre outros, os livros Antiboi (2017), Impossível como nunca ter tido um rosto (2015), Modelos vivos (2010), Máquina zero (2004), Trívio (2001) e Festim (1992). Como solista ou integrante da Cia. SeráQuê e do Combo de Artes Afins Bananeira-ciência, já performou na Alemanha, na Argentina, nos Estados Unidos, na França, em Portugal e na Suíça. Concentra seus projetos de criação e pesquisa no Laboratório Interartes Ricardo Aleixo (Lira), no bairro Campo Alegre, em Belo Horizonte.

*

Foto do autor: Timo Berger

*

Neste link, é possível visualizar o poema em PDF.

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