“Túnel”, Sónia Duarte

TÚNEL
poema de Sónia Duarte —

na voz de Sílvio Diogo

Nem todos os corpos são anzóis.
É preciso perceber como respiram
— o ritmo a que sopram arvoradamente —
perceber como devoram e retêm prazer
e de que sons são feitos
para com eles formar uma frase.

Nem todos os corpos esperam úlceras.
Há aqueles que abrem as mãos
e aceitam o inimigo
(trocar pegadas, jogar xadrez)
em vez de irem
debaixo de fantasias
encontrar um inferno
que nunca foi outro
senão eu.

Nem todos os corpos se adiantam
à cinza nocturna e frágil.
Há o desejo do consumo do desejo
a rebentar na boca da viagem.

*

Sónia Duarte nasceu num porto chamado Portugal, onde aportou no ano dos três Papas, quando a Terra se encontrava no solstício de verão, a Lua no plenilúnio e o Sol no zénite, ou seja, três Mães em uníssono. Fora o momento singular do nascimento, nada mais é digno de menção, a título biográfico, salvo, é claro, o instante da morte: essa aconteceu subitamente, no ponto culminante do trigésimo aniversário («in media vita, in morte sumus»), como se a um ser humano não fosse dado viver nem mais um segundo. Desde então, como alguém que morreu antes da própria morte, sente-se mais desperta para tudo o que dá sinal de ainda viver.

*

Imagem: O Ciclope, Odilon Redon (c. 1914)

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“Tal Deus”, Wilson Bueno

TAL DEUS
— Wilson Bueno

na voz de Sílvio Diogo

Descubro Deus, pasmo de horror, pelas esquinas e quebradas; suas asas me guardam, ainda que a vida desafine e me jogue na agrura, cascalho ao sol.

A vida e Deus somos dois entes que se completam e se entreolham com gravidade, quase solenes, sem perder a curiosidade jamais.

Como Deus existe, nem sequer o dia é ateu com a sua luz e a manhã profana.

O meu Deus, por exemplo, é assim, e leva a noite nas costas como o prisioneiro em um campo-de-concentração.

No fundo do copo, na madrugada tchecoviana, no trânsito da cidade, no corpo que cai no Xaxim, no sangue do sagrado vivo, o meu Deus é estupendo e exalta as coisas, todas as coisas, com aspereza quase incompreensível — não fosse ele o Deus e eu, a sua criatura.

Salvo dos escombros, esse Deus não dá mostra de que tenha sofrido um viaduto sobre os ossos martirizados. A sua humildade, sendo altiva, chega a parecer quase insolente; o seu manto me concede a sombra; e o mistério me dá o Norte da estrela-do-paraíso.

É ele quem vai, a barba por fazer, moído de cansaço, mal aponte a manhã, é ele quem vai atrás do rabo do arco-íris. E não dá bom-dia a quem passa, este ser alheado e cheio de dúvida.

O meu Deus é tão surpreendente que pode exibir, como prova de seu destino rude, as mãos, as grandes mãos de minha avó bugra com nome de imperatriz — Maria Rosa Custódia de Cenes — e, ao mesmo tempo, levar-me, tugúrio adentro, ao doloroso encontro com a minha cara que o tempo, a machadadas, se incumbiu de esculpir. Sulcos, queixos, arestas. É uma cara enorme e dois olhos esbugalhados.

Nunca que tenha morado comigo um Deus gentil, pois, se assim fosse, certamente eu não o teria percebido, e, creio, nem ele a mim — de tal forma carecemos um do outro, muita vez desavergonhadamente. Mas como seja ele o dono de tudo, sou eu quem me calo — com pudor.

Egresso da noite dos enforcados, tal Deus não se emociona com o que o dia possa parecer estragado pelo veneno de um novo dia, e, atormentado pelo dom da fuga, como o encarcerado de uma galera portuguesa, inventa logo um crepúsculo — brusco rompante de sua inquietação aturdida.

Não que eu seja um crente; ele é que é espantoso, esse Deus construído pra que não se morra diante do alto risco de viver.

*

Do livro Bolero’s Bar. Curitiba: Criar Edições, 1986 (1ª ed.); Travessa dos Editores, 2007 (2ª ed.).

*

Wilson Bueno nasceu em Jaguapitã (PR) a 13 de março de 1949. Ainda jovem, mudou-se para Curitiba. Publicou, entre outros livros, Bolero’s Bar (1986), Manual de zoofilia (1991), Mar paraguayo (1992), Pequeno tratado de brinquedos (1996), Meu tio Roseno, a cavalo (2000), Amar-te a ti nem sei se com carícias (2004), Cachorros do céu (2005) e Diário vagau (2007). Foi um dos criadores e também editor do suplemento de ideias Nicolau e colaborou com diversos jornais, como O Estado de S. Paulo e O Estado do Paraná. Foi assassinado em sua casa, em Curitiba, no dia 31 de maio de 2010.

“anúncio”, Edimilson de Almeida Pereira

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poema de Edimilson de Almeida Pereira —

na voz de Sílvio Diogo

o lazáro se apalpa, depois de tantas mudas,
não é
a pele
que o abriga.

vindo pela rua,
distrai nossa atenção de outros cadáveres.

nessa freguesia, à margem do rio
das velhas, velhas não se querem bordados
de penélope.

aviam o que se move sob a crosta,
fortuna
e miséria
para delírio dos amordaçados.

o lázaro pertence à espécie das coisas invisíveis.

nenhum de nós o conhece sem a mácula.
— vingai a mácula e a carroceria
que a transporta.

o lázaro administra esse legado e outros
disfarçados em matrimônio.

o lázaro
apazigua os carneiros com a coragem de quem
escala o monte de vênus.

no lázaro a dor se inocenta e prova a semente
prometida.

não se humilha, o lázaro.
o que se diz sobre ele, ele mesmo no que diz,
é duplo.
se o separassem, a sombra e a moça padeceriam,
obedientes às parcas.

não se deem ao lázaro.
sua funilaria deixou de funcionar, o timbre
em suas arcadas não.

*

Do livro qvasi: segundo caderno. São Paulo: Editora 34, 2017.

*

Edimilson de Almeida Pereira nasceu em Juiz de Fora, MG, em 1963. É poeta, ensaísta e professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Possui uma obra extensa e múltipla, com publicações nas áreas de poesia, literatura infanto-juvenil e ensaio, na qual se destacam: Zeosório blues (2002), Lugares ares (2003), Casa da palavra (2003) e As coisas arcas (2003), Relva (2015), maginot, o (2015) e Guelras (2016) — poesia; Os reizinhos de Congo (2004) e O primeiro menino (2013) — infanto-juvenil; Malungos na escola: questões sobre culturas afrodescendentes e educação (2007) e Entre Orfe(x)u e Exunouveau: análise de uma estética de base afrodiaspórica na literatura brasileira (2017) — ensaio.

*

Foto do autor: Carlos Mendonça / Juiz de Fora, 2017

“chamada de jornal”, Jeanne Callegari

chamada de jornal
poema de Jeanne Callegari —

na voz de Sílvio Diogo

ninguém a matou
ela é que morreu
foi encontrada morta
em seu apartamento

ele não a estrangulou
não montou sobre ela na cama
e quando viu
“já estava feito”

ela é que morreu
e seu corpo tinha sinais
de violência
e os vizinhos chamaram a polícia
dois dias depois
quando sentiram o cheiro

ele não matou
no máximo confessou o crime
chorou, tentou o suicídio
com veneno de rato
sem efeito

ela, ela disse que queria vê-lo morto
ela não o deixava ver as mensagens
no celular

ele se mostrou arrependido
chorou e pediu para que sua família
e a dela o perdoassem

ele não a matou
ela é quem foi encontrada morta
em seu apartamento

*

Jeanne Callegari é poeta. Nasceu em Uberaba, MG, em 1981. Escreveu Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável (Seoman, 2008), perfil biográfico do autor gaúcho, e Miolos frescos (Patuá, 2015), livro de poemas. Teve textos publicados nas antologias É que os Hussardos chegam hoje (Patuá, 2014), Sierra tropicalia: poesía contemporánea de Brasil y México (Cielo Abierto, 2016), Golpe: antologia-manifesto (Nosotros, 2017) e em revistas como Vagón de Ostras (Argentina), Lavoura, Escamandro, Modo de Usar & Co., Raimundo e Pessoa. Faz parte do grupo de autores que criou o projeto Escritores na Estrada, que rodou algumas capitais do país com leituras e oficinas, e também do grupo que organizou o festival [eu sou poeta], voltado à produção poética feminina. Junto a Reuben da Rocha, organiza o Macrofonia!, noite mensal voltada ao cruzamento entre palavra, som e imagem. Com Raul Costa Duarte, tem o projeto poético-sonoro Botões, que investiga as relações entre poesia, ruído e paisagens sonoras.

*

Foto da autora: Liliane Callegari