A moça do box

Sonhei com a moça do box. Não reconheci o seu rosto. Havia a névoa quente ao redor dela, e permaneci à porta. Havia o vapor do sonho.

Foi assim: eu chegara a uma casa circundada por árvores, de aspecto simples, pintura descascando, com varanda e quintal. Estava aberta. Não dava ares de abandono, ao contrário, os móveis, as plantas, os utensílios indicavam que era habitada.

A curiosidade conduzia-me pelos espaços da casa, e quando pressenti que a qualquer momento poderia chegar gente, elas efetivamente apareceram. Eram mulheres. Entraram falantes e não demonstraram surpresa com a minha presença. Traziam sacolas e já se iam esparramando pelos cômodos.

Foi uma menina que veio até mim. Pediu-me que alcançasse uma caixa de brinquedos no alto da estante. E me apontava detalhes do ambiente enquanto brincávamos. Era estranha a naturalidade de tudo.

Passado algum tempo, em que se fez silêncio na casa, a menina me guiou para um corredor que principiava à esquerda da sala onde estávamos. Caminhei por ele, à meia-luz, até a última porta à direita. Estava aberta também.

E eis que me encontro com a imagem da moça do box, no banho. Além dela, uma outra mulher completava o quadro. E creio que foi por causa da presença tranquila desta última, sentada junto à entrada, que permaneci parado à porta. Com a espontaneidade própria dos acontecimentos do sonho, a moça do box pôs-se a falar comigo, a conversar sobre assuntos que eram de meu conhecimento e interesse. Eu não a reconhecia. Ela falava e falava, no meio do vapor.

Foi assim que pude saber da localização da casa, dos arredores, de como havia ido parar ali. Não havia hesitação nas palavras da moça. Ouvi com atenção tudo o que me contou, e só fui ser provocado pela interrogação sobre a sua identidade quando acordei.

AR-

Onze de dezembro, domingo, fui ao Museu Tipografia Pão de Santo Antônio para imprimir uma nova leva do poema (sem título, até então) que havia composto no ateliê aberto do dia anterior, na programação da Semana do Patrimônio Tipográfico.

No momento de puxar o bloco de tipos, cometi um erro de principiante: deixei escorregar algumas das peças de chumbo, amarradas com barbante, e precisei então reencaixá-las.

Daí veio o erro seguinte: a sílaba “ar-”, da palavra “arrancar”, saiu invertida na composição. E não me dei conta disso até que as vinte cópias do poema passassem pela prensa. Pois bem: lá estava eu com vinte folhinhas de “ra-rancar” rindo da minha cara.

A nova e última emenda, passadas algumas semanas, foi recortar as letrinhas, inverter as cores dos papéis, e batizar o poema de “AR-”, com o hífen movimentando a inspiração e a expiração.
 

 

Um bom crime chileno

rubem-braga
Rubem Braga

Quando eu era editor pensei em fazer um livro — ou mais de um — sem nenhuma literatura, apenas com narrativas de crimes verdadeiros. É difícil de explicar, mas inegável a atração que isso exerce sobre o leitor. Aqui vai um crime acontecido em 1903 no Chile.

O caso é que uma bela noite um incêndio destruiu o edifício da Legação da Alemanha. No meio dos destroços fumegantes havia um cadáver. O Ministro, barão Hans von Boden, não teve dificuldades em reconhecer o corpo do conselheiro da Legação, Wilhelm Beckert, mesmo porque na mão esquerda estava a aliança de casamento. Além de Beckert, devia estar na Legação, na hora do incêndio, o jovem porteiro Tapia, chileno. Inutilmente se procurou o seu corpo; não foi encontrado em parte alguma. A mulher de Tapia informou que ele não aparecera em casa.

Examinando com mais atenção o cadáver de Beckert, os médicos chegaram à conclusão de que ele havia sido assassinado antes do incêndio, recebendo golpes na cabeça e no coração. O Ministro revelou que dinheiro e valores consideráveis tinham sido roubados.

Sabia-se que Beckert tinha sido ameaçado por jovens nacionalistas chilenos; ele contara isso a alguns amigos. Entre seus papéis particulares foi encontrada uma carta anônima contendo ameaças a sua vida, e uma carta escrita por ele próprio, endereçada ao presidente da República do Chile, para ser aberta em caso de morte. Essa carta não tinha nenhuma revelação interessante; apenas ele protestava contra acusações que lhe eram feitas de exercer atividades contrárias aos interesses dos chilenos e acabava pedindo clemência para seu assassino, que só poderia ser um moço fanático. A emoção pública foi enorme, e as altas autoridades foram ao enterro do conselheiro. O discurso feito pelo Ministro continha ameaças veladas ao governo chileno, caso o criminoso não fosse punido.

Tapia é procurado em todo o Chile pela polícia e pela população sem resultado. É a essa altura que aparece um judeu de certa idade, relojoeiro, que procurou o juiz encarregado do processo para contar o seguinte: que vira o conselheiro Beckert na noite do incêndio e, pelos seus cálculos, depois do incêndio. O juiz perguntou se ele tinha certeza de que era Beckert. Disse que sim, pois o conhecia muito bem. Mas falara com ele? O relojoeiro disse que o cumprimentara em alemão, e Beckert, que ia tomando um carro de praça, respondera em castelhano, dizendo que não o conhecia. Essa conversa do relojoeiro não seria levada muito a sério, se um jornalista desses sensacionalistas não a publicasse com certo escândalo. Ao dar a entrevista, o relojoeiro negou-se a admitir que se tivesse enganado na pessoa e na hora. Gabava-se de ser um excelente fisionomista e, apesar de a rua estar meio escura, reconhecera perfeitamente Beckert. Quanto à hora, também tinha certeza, pois era um homem de horários precisos: um relojoeiro.

Essas declarações animaram um dentista, que vira o corpo queimado, a declarar que os dentes pareciam os de um homem muito jovem, e não de um senhor da idade de Beckert. A coisa estava ficando mais séria, e apesar da grande irritação do Ministro da Alemanha, o juiz acabou ordenando a exumação do corpo. O dentista de Beckert foi chamado e declarou que aquela boca não era de seu cliente. A mulher de Tapia disse que este tinha dentes perfeitos, só uma pequena cárie. E lá estava a cárie.

Beckert foi preso no sul do país, quando tentava atravessar a fronteira para a Argentina. Ainda tinha muito dinheiro no bolso, e seus documentos, com outro nome, eram perfeitos. Foi condenado à morte e, enquanto esperava a execução, confessou que seu grande consolo, no meio daquele tremendo golpe errado, era reler os belos elogios que lhe fizera, no discurso à beira-túmulo, o seu ex-chefe, o barão Hans von Boden, Ministro do Kaiser.

Janeiro, 1990

*

Um cartão de Paris. / Rubem Braga; [seleção: Domício Proença Filho]. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1997.

Da profissão do poeta

Da profissão do poeta (1956)
— Geir Campos

A Paulo Mendes Campos

Da Consolidação das leis do trabalho:
“Não haverá distinção relativa à espécie de emprego ou à condição do trabalho, seja intelectual ou manual ou técnico”.

 

Da Identificação Profissional

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.

 

Do Contrato de Trabalho

Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio do meu canto.
Embora a dor ilhada ou coletiva
me doa, antes celebro as coisas belas
que movem o sol e as demais estrelas
— antigos temas que parecem novos
de tão gratos ao meu e aos outros povos.

 

Da Relação com Vários Ofícios

Meu verso tine como prata boa
pesando na confiança dos bancários;
os empregados no comércio bem
sabem como atender aos que encomendo
e recomendo mais do que ninguém;
aos que se ligam em telefonia
com ou sem fio, rádio, a esses também
sei dizer à distância ou de mais perto
a cifra e o texto no minuto certo;
para os músicos profissionais,
sem castigar o timbre das palavras
modulo frases quase musicais;
para os operadores de cinema
meu verso é filme bom que a luz não queima;
trilho também as estradas de ferro
e chego ao coração dos ferroviários
como um trem sempre exato nos horários;
às equipagens das embarcações
de mares ou de lagos ou de rios
meu verso fala doce e grave como
doce e grave é a taboca dos navios;
nos frigoríficos derrete o gelo
da apatia, se é para derretê-lo,
meu canto a circular nas serpentinas;
à boca da escotilha ou nas esquinas
do cais, o meu recado é força viva
guindando a atenção dos homens da estiva;
desço cantando aos subsolos e às minas
onde outros operários desenterram
o minério de suas artérias finas;
a outros, que dão sua têmpera aos metais,
meu canto ajuda feito um sopro a mais
aflando o fogo em flâmulas vermelhas;
aos colegas que lidam nos jornais
boas noticias dou e, mais do que isso,
jeito de as repetir e divulgar
quando o patrão quisera ser omisso;
à gente miúda, pronta a ser maior,
passo lições de um magistério puro
e o que é dever escrevo a giz no muro;
para os químicos sei fórmulas novas
que os mártires elaboram nas covas…
e a todos que trabalham vai assim
meu canto sugerindo meio e fim.

 

Do Horário do Trabalho

Marcadas as minhas horas de ofício,
de dia em sombras pelo chão e à noite
no rútilo diagrama das estrelas,
só quem ama o trabalho sabe vê-las.

 

Dos Períodos de Descanso

Seja domingo ou dia de semana,
mais do que as horas neutras do repouso
confortam-me os encargos rotineiros;
meu descanso é confiar nos companheiros.

 

Do Direito a Férias

Nunca me participam por escrito
ou verbalmente os ócios que mereço,
mas sempre gozo bem o merecido:
pois o ócio não é ofício pelo avesso?
É quando fio o verso; depois teço.

 

Da Remuneração das Férias

Em férias tenho a paga de saber
lembrado o verso meu por quem o inspira;
é como se outra mão tangesse a lira

 

Do Salário Mínimo

Laborando entre os pontos cardinais,
de norte a sul, de leste a oeste, vou
cobrando aqui e ali quanto me basta:
o privilégio de seguir cantando.
(Imposto é cuidar onde e como e quando.)

 

Do Expediente Noturno

Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
sem se tornar com isso menos pura
a voz sobe uma oitava na mistura.

 

Da Segurança do Trabalho

Mesmo no escuro, canto. Ao vento e à chuva,
canto. Perigo à vista, canto sempre;
e é clara luz e um ar nunca viciado
e sol no inverno e fresca no verão,
meu canto, e sabe a flores se é de flores
e a frutos se é de frutos a estação.
Só não me esforço à luz artificial
com que a má fé de alguns aos mais deslumbra
servindo-lhes por luz o que é penumbra;
também quando o ar parece rarefeito
a lira engasga, o verso perde o jeito.

 

Da Higiene do Trabalho

Não canto onde não seja o sonho livre,
onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito;
para enganar o tempo ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto…
Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança.

 

Da Alteração de Contrato Etc.

Meu ofício é cantando revelar
a palavra que serve aos companheiros;
mas se preciso for calar o canto
e em fainas diferentes me aplicar
unindo a outros meu braço prevenido,
mais serviço que houver será servido.

*

CAMPOS, Geir. Da profissão do poeta. 1ª ed. Rio de Janeiro, Philobiblion e Civilização Brasileira, 1956. Xilogravuras de Manuel Segalá. Tiragem de 500 exemplares.

Rebelde

Juana de Ibarbourou

Caronte: serei escândalo na tua barca.
Que as outras sombras rezem, gemam, chorem,
E sob os teus olhares de sinistro patriarca
As tímidas e tristes, em baixo timbre, orem…

Eu irei como calandra cantando pelo rio
E à tua barca levarei o meu olor selvagem,
E irradiarei nas ondas do córrego sombrio
Alguma azul lanterna que alumbre a viagem.

Por mais que tu não queiras, e um piscar de horror
Me lancem teus dois olhos, mestres no terror,
Caronte, eu na tua barca serei como um escândalo.

E exausta de sombra, de préstimo, de frio,
Quando quiseres me deixar na margem do rio
Serão os braços teus a me soltar: conquista de vândalo.

*

[tradução: S.D.]

Propósito de ano novo

Gioconda Belli

Nasce o ano demandando de mim o retorno ao meu ser.
Que regressem as profundas palavras
as leituras, os milagres perpétuos
Deixar o efêmero, as fotos divertidas, as notícias insólitas
fora de mim
Minha vida desprevenida encheu-se de ruído
A solidão já não encontra a quietude dos amplos salões
A prazerosa cerimônia das boas-vindas
Agora é preciso buscá-la qual uma dama extraviada
Alçar fossos para preservá-la do assédio.
A moderna invasão de todo minuto que sobra
converteu a vida em voragem, impressões, fogos fátuos, rostos
como rastros leves nas multidões, nas feiras, nas leituras.
Conversa-se com apuro, em parênteses, antes de se voltar à notícia, ao texto,
ao comentário, ao “curtir” — ilusório prazer do pobre cérebro embotado —
Em nossas mãos puseram a fascinação dos labirintos,
túneis abertos de vento por onde o tempo escapa veloz
sem que mal escutemos a sonoridade da tarde ou do dia, idos para sempre.
Quero, neste ano que nasce, recordar que uma manhã é insubstituível
Jamais haverá outra manhã com a mesma data que ESTA.
Tantas opções, porém as mãos se inquietam,
acendem as telas. Perde-se então o instante do qual emergiria
a solução dos enigmas. Isto e muito mais se perde.
Prometo caminhar mais este ano. Caminhar sem música, sem fones de ouvido, sem escutar livros.
Empenhar-me no diálogo com o vento, com as minhas lembranças, com os retalhos de
conversas que continuaram reverberando; recordarei o que disse com os amigos.
A insondável particularidade dos filhos. A farra dos netos.
Revisarei a biblioteca, a fonoteca, a videoteca da minha mente, os seus segredos e
projetos. Dosarei as redes, os aplicativos, o celular
Retornarei ao silêncio, às sombras da gruta,
à densidade do sangue
ao subterrâneo com os seus instigantes baús
Me esconderei com o tempo
Pentearei os cabelos brancos
E sentirei o seu perfume
Mimarei, para que não se dissipe,
para gozá-la e desdobrá-la, cada fenda
para me deliciar e retornar ao assombro
ao íntimo espaço onde flutuam quietos
planetas sem explorar,
constelações.

— 7 de janeiro de 2017

[tradução: S.D.]