Casório

Casório é o nome do meu próximo livro, uma narrativa ficcional em versos, composta de sete capítulos. Do ponto de vista do tema, o enredo centra-se na semana de preparativos para um casamento, na localidade de Ventura. Dispõe-se temporalmente entre o domingo anterior ao matrimônio e o sábado da cerimônia. Cada capítulo atém-se a um dia da semana, com a especificidade de o segundo, correspondente à segunda-feira, referir-se a um tempo anterior ao dos acontecimentos. A trama desenrola-se na cidade fictícia embora boa parte das personagens ali esteja apenas temporariamente. O que reúne e dá sentido à sequência das ações é a realização do casamento. A família da noiva (Tereza Bessa) mora em Ventura, mas tanto ela como o noivo (Xavier Volante) vivem em São Sebastião do Morro Castelo. Por um anseio próprio de Tereza, eles decidem casar-se na pequena cidade, onde a protagonista passou a infância e parte da juventude, antes de se mudar. Os dias de véspera das núpcias e acontecimentos da adolescência da protagonista compõem os dois eixos que estruturam a narrativa.

Do ponto de vista da forma, toda a narração é apresentada em versos, sem rima, com uma estrutura rítmica constante: há uma cesura, não explícita, verso por verso, que marca a divisão cadenciada de duas redondilhas menores (p. ex., “Menina fazia/ carinho no rosto”, “Sem chuva, Thomázia/ varria poeira”). Os diálogos presentes no texto, na maior parte das vezes em verso livre (p. ex., “— Mas dói, vô?”), constituem a exceção ao modelo de metrificação adotado. Sete pequenos resumos introduzem o(a) leitor(a) nas circunstâncias que se desenvolvem em cada capítulo.

O Casório alimenta-se de uma tradição brasileira, tanto literária quanto oral, da narrativa ritmada, e busca transitar nas fronteiras entre a voz e o texto, o erudito e o popular, o feminino e o masculino, o sonho e o ato. Por esse caminho, o arquétipo do casamento encontraria ressonância também do ponto de vista da forma. “Casório” pode ser lido como uma coleção de casos, de causos; e Ventura, o terreno poético em que se permitem e se casam a invenção e a aventura. 

Tereza Bessa, a protagonista / Ilustração de Carolina Tiemi Teixeira

 

Reproduzo abaixo o primeiro capítulo do livro, “A menina Musa”.
(Observação: os asteriscos indicam as mudanças de página.)

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1. A MENINA MUSA

Em uma cidade chamada Ventura, há preparativos para o casamento. Nasceu lá a noiva, a moça Tereza. Vem acompanhada por tia e tio. Quem fez o almoço foi a Djanira, que é filha de André (também mãe de Musa). Prazer conhecê-los.

*

— Dói, vô?

Menina fazia carinho no rosto.
Menina e o vô e hoje é domingo.
Em uma das faces do homem curtido
havia um buraco, no rumo do queixo.

— Chama cicatriz — vô André dizia.

A mão pequenina de dedos macios,
menina amorosa era curiosa:

— Mas dói, vô?

Pergunta de novo, de novo pergunta;
os dois de manhã na velha Estação.
Cuidado de neta não é implicância.
O vô entendia e, assim, demorava
até explicar o que ela queria:

— Tem horas que dói.

— Que horas?

*

Aquela manhã iriam chegar,
de São Sebastião do Morro Castelo,
a noiva e a irmã, a tia e o tio
(o povo que tinha inventado o casório),
pois já era hora dos últimos toques:
dali a seis dias seria o enlace,
os preparativos estavam no fim.

Menina, porém, curtia avoar
no tempo de agora: o ensaio de tarde
com o grupo de Lira — que é o nome do mestre;
a expectativa do som do instrumento
de cada pessoa mais a brincadeira!
O vô, percebendo que a neta ia longe,
sem se afastar muito dali perto dela,
de leve sorriu e foi dar um giro.

*

Domingo em Ventura mexia-se a feira:
corria no Largo, chegava à Estação.
Andina, Olaria e outros vilarejos
bem cedo baixavam, buscavam-se erguer,
acender os olhos, abrir horizontes,
sonhar misturado, pisar pé no chão.

No espaço de tempo do andado de André,
menina notava o par das façanhas:
Azeitona vinha com a sacola cheia,
ao lado da Uruca de Zé Pururuca.
Conversa dos dois? Só provocação.
Disfarce: via-se que se admiravam.
Quem compreendesse detalhes da dupla
imaginaria o quê da bagagem.
Ele se gabava mexendo a mochila:

— Óóó… nove garrafas!

— Mas finhas ou fonas? —
retruca a Uruca, u’azinha na cuca.

*

— Fiiinhas… —
murmura Azeitona, um ombro no ouvido.

Menina, de olho no que acontecia,
a menina Musa (assim se chamava)
pensou, um instante, no seu próprio nome,
mas como se fosse o de outra pessoa,
alguma mulher antiga ou distante.

Quando vô André já vinha de volta,
menina avistou por trás o veículo,
sentiu toda a gente bulir na Estação;
o ônibus cheio parou devagar:
quem desceu primeiro foi uma senhora,
que a menina viu e reconheceu —
no brilho do rosto se felicitaram.
Era Ludovina, vizinha de vó.
Demais viajantes surgiram depois.

*

Tereza vistosa enfim despontou;
mais tia Eunice, o tio Raimundo
e Estela também, irmã de Tereza.
Traziam as malas, falavam ruidosos,
com praticidade e sem cerimônia.

Vô André e Musa seguiam à espera.

A noiva Tereza os cumprimentou,
as mãos ocupadas num gesto inquieto.
Ia perguntando, ao passo que André
tentava ajudar, pegava os pertences.
Tereza estranhou: por que os seus pais
não estavam ali para o desembarque?
Josué Conrado (o pai de Tereza)
havia pedido ao irmão André
que fosse à Estação, porque no domingo
estaria fora com a esposa Zenaide.

*

De madrugadinha tomaram a estrada;
providenciavam quitutes da festa
com Ana Estrelinha, na vila Bucaina.
Musa concluiu dizendo aos parentes
que o almoço seria em casa de mãe —
esta, Djanira, caçula de André.

Tereza e Estela, Eunice e Raimundo,
sedentos de um banho, a fome apertando,
sem muito argumento os acompanharam;
não era tão longe, e foram a pé.

Menina escondia um pouco de pressa —
fizera o convite pois tinha motivo:
um amigo dela, o menino Êpa,
se achava a caminho por aquela hora.
Quem sabe até mesmo tivesse chegado
também para o almoço, antes de irem
juntos tocar em Balbeque, no meio da tarde.

*

Quase atravessando o pátio da frente,
ela o escutou já lá no quintal;
em volta dum banco inventava moda:

— Paizim reclamô! Durmi mei’ do mato!
Medo num sinhô! Bicho corro e cato!

Nisso perseguia o cão Camarão,
pelo arrepiado atacando o ar;
as feras batiam-se, os dois ofegantes,
giravam no jogo, na luta e na terra.

Ao se aperceber de novas presenças,
Êpa deu um tempo, catou Camarão…
Pessoal entrava pousando suas coisas;
Djanira foi dar um abraço na noiva,
fez votos à prima e beijou-lhe a testa,
saudou os restantes, indo a cada um.
Ofereceu água e pediu para a filha
preparar um suco, que logo a comida
ficaria pronta: não se incomodassem.

*

Eunice, no entanto, foi para o fogão,
se pôs a ajudar, enquanto Raimundo
pitava um cigarro beirando a janela.

Menina saiu a panhar limão;
gostou de ver Êpa zanzar o terreiro.
Colheram os frutos, Camarão na cola.
Aí que o menino retornou à casa,
André dera um jeito de sair calado;
Estela no banho, Tereza no quarto,
Raimundo soltou, em tom escarninho,
a pergunta em riste, destinada a Êpa:

— Você é o cachorro?

Camarão no ato lançou um latido,
empinou o corpo e as duas orelhas.
Não acharam graça no dito do homem.

*

Visto que o menino se mantinha sério,
aquela chacota ficou no vazio,
mas deixou no clima algum pó de atrito.

A dona da casa então recordou
um ingrediente do agrado de Êpa:
chamou-o mais perto, mostrou só a ele,
na fresta do pote… farinha de milho!

À orla da pia, em sumo e semente,
menina espremia e, às vezes, passava
arteira na língua o gomo azedinho:
postura catita à prova de mágoas.

De lado, Raimundo mexia uns palitos;
no fogo, no ponto, tutu de feijão.
Êpa retirou as coisas da mesa
e foi estendido o forro estampado.
As irmãs vieram de vestido novo.
Fervura do cheiro puxava às panelas.

*

Pediu-se licença; todos se serviram.
Depois, o silêncio provou como estava
supimpa o regalo: o arroz com galinha,
a couve, o tutu, a pimenta bode,
vinagrete, alface, farinha amarela;
limonada e gelo no jarro de vidro.
Os de boca boa até repetiram.
Camarão parado (à espreita) na porta.
Um, se recostando, rumou para a rede;
Djanira tratava de trazer os doces
de cidra e de leite, colheres e pires:

— Hummm!

Menina entoava junto do menino
batidas do ensaio, cantigas e toques.
Sentia vontade de experimentar
nas mãos a sanfona que Lira estalava —
Musa era movida por mola de música.

*

A mãe da menina cuidava na escuta
e enchia a vasilha do cão com capricho.
Filha se saía melhor no pandeiro;
ousava na caixa e tinha um chocalho.
De menos tarimba na roda de Lira,
Êpa começara pelo maracá;
sondava a calimba, sonhava o tambor,
assim como Anselmo, o do reco-reco —
os mais empolgados dos principiantes.

Conforme o compasso do assunto rendia,
Djanira e Eunice fazendo perguntas
sobre as peripécias da trupe mirim,
aquilo deixou Tereza ciumosa —
viola, crianças, a banda, Ventura;
o palavreado parecia um só:
não se dava trela ao seu casamento!

Por onde andaria madre Monalize?

*

Mirou ao redor em busca de Estela:
a irmã percorria a horta do fundo,
pensando quais mudas iria pedir.
Camarão, deitado, a olhava de longe.
A noiva acenou para Estela entrar.

Tempo dos pequenos traçarem sua rota;
breve se aprontarem, tratarem os dentes,
o abraço pulinho correndo canela.
Mãe recomendava juízo, juízo:

— Vocês vão com Deus…

Tereza, por fim, passou a narrar
o veludo vinho do terno do noivo
(estilo exclusivo que ela desenhara),
corte na medida no tecido certo.
Xavier Volante, garrido nas bodas,
cairia bem com o clima da noite —
meados de julho o frio deslizava.

*

Mulheres ouviam caso que ia ser;
limpavam cozinha e lavavam louça.
Na rua, um barulho anunciou gente.
Vendo um movimento no esfregar do chão,
Tereza por dentro inteira tremeu —
como que sumia o peso do corpo.

O cão Camarão saltou num disparo.
Aos poucos, a moça tornava do transe;
os recém-chegados eram mãe e pai
de Tereza Bessa, ainda confusa
das recordações em seu infinito.

Algum estopim trouxera a avalanche
de muitos caminhos em um dia antigo
de segunda-feira, quando era uma vez.

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Clareiras do bosque


Apresento aqui uma passagem da versão em português do livro Claros del bosque, de María Zambrano. A circunstância da tradução de uma obra escrita por uma filósofa, em linguagem dotada de forte sentido poético — a fronteira tênue em que Zambrano constrói conceitos e metáforas —, estabelece desafios para o exercício do trânsito entre idiomas.

O intenso diálogo da filosofia com a poesia marca toda a trajetória intelectual de María Zambrano (1904-91). Sobre a singularidade de Claros del bosque, publicado em 1977, assim se expressa a própria pensadora: “Creio portanto que, como livro, é o que mais responde a essa ‘ideia’ há tempos formulada de que ‘pensar é antes de tudo — como raiz, como ato — decifrar o que se sente’, entendendo por sentir o ‘sentir originário’, expressão usada por mim já há muito anos”.

O excerto a seguir está no quinto capítulo do livro, “La metáfora del corazón”.

*

CLAREIRAS DO BOSQUE
— A metáfora do coração

É profeta o coração, tal como aquilo que se encontra no centro e num confim, sempre na iminência de ir ainda mais além do que já foi. Está a ponto de romper a falar, de que o seu reiterado som se articule nesses instantes em que quase se detém para recobrar o alento. O novo que habita no homem, a palavra; mas não as que dissemos, ou no mínimo como as dissemos; uma palavra que fosse nova apenas porque brotasse, porque nos surpreendesse como o alvor da palavra. Visto que o homem padece por não haver assistido à sua própria criação. E à criação de todo o universo conhecido e desconhecido. A sua ânsia de conhecer parece ter precisamente como fonte essa ânsia de não haver assistido à criação em sua totalidade, desde a luz primeira, desde antes: desde as trevas não dilaceradas. A teologia das grandes religiões — e também a filosofia, de modo mais circunspecto — dá testemunho do caráter ineludível desta revelação.

E não parece que se tenha considerado suficientemente este grande ressentimento, este ressentimento “fundamental” que o ser humano leva no seu coração, como raiz de todos os ressentimentos que o povoam: não haver assistido — e seria, por sinal, testemunha única — ao ato criador. Se tomamos por base o relato sagrado do Gênesis, o homem sucumbiu à sedução promissora do futuro: “Sereis como deuses”, não em apetite de felicidade, mas, ao contrário, saindo da felicidade que o inundava para ir buscar uma criação própria, de algo que ele fizesse; não se restringindo a contemplar o que se lhe oferecia, para fugir da pura presença dos seres de quem sabia o nome, mas não o segredo. Todavia, a palavra que não chega a sair do coração não se perde, essa palavra nova na qual resplandeceria, com claridade inextinguível, o novo da palavra. A palavra diáfana, virginal, sem pecado de intelecto, nem de vontade, nem de memória. E a sua claridade teria o que nenhuma palavra nos dá certeza de alcançar: ser inextinguível. Não se perde, desata-se em voz, uma voz que suspira sozinha e, tal como o suspiro, eleva-se atravessando angústia e espera; transcendendo.

E é a voz que se infiltra em certas palavras de uso cotidiano e, com ainda maior ênfase, nas mais simples, as que dão certeza. E se não se tornam por isso inextinguíveis, têm uma espécie de firmeza e até de fórmula sagrada.

E é a voz interior que se identifica com algumas vozes, com algumas palavras que se escutam não se sabe bem se dentro ou fora, porque se escutam do íntimo. E ao sair para escutá-las, é de si mesmo que se sai. E entre dentro e fora, todo o ânimo fica suspenso, como fica sempre em toda identificação de algo que pulsa no coração e algo que existe objetivamente. É o terror supremo que se precipita ao escutar como certo aquilo que se teme. E o total esquecimento de si, quando se escuta o que nem sequer se sabia estar aguardando. E nesta feliz situação dá-se a música perfeita: o canto.

*

Tradução: Sílvio Diogo

*

Em dezembro do ano passado, a revista Caliban publicou um ensaio que compus sobre a pensadora espanhola: Escritos, mulher, escritos: a minha descoberta de María Zambrano”.

“Ficar em silêncio e caminhar são hoje em dia duas formas de resistência política”

David Le Breton, sociólogo

David Le Breton (Le Mans, 1953) na última terça-feira, 17 de outubro, em Málaga, durante a entrevista / Foto de Javier Albiñana

*

O pensador francês, autor de livros como El silencio e Elogio del caminar, descreve o seu ideário nesta entrevista concedida ao Grupo Joly, antes de pronunciar uma conferência em La Térmica.

*

Por Pablo Bujalance
Málaga, 19 de outubro de 2017
[artigo publicado originalmente no ‘Diario de Sevilla’]

Doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII e professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Ciências Humanas Marc Bloch, de Estrasburgo, o pensador francês David Le Breton (Le Mans, 1953) encarna como poucos de seus contemporâneos a melhor tradição intelectual de seu país. Na Espanha, publicou com êxito livros como El silencio, Elogio del caminar e Desaparecer de sí: una tentación contemporánea, com os quais aposta em formas concretas de resistência diante da desumanização do presente. Nesta semana pronunciou uma conferência em La Térmica, o centro de cultura contemporânea da Assembleia Legislativa de Málaga, antes da qual concedeu esta entrevista.

*

Permita-me uma pergunta um tanto primária para começar: você defende o silêncio como forma de resistência, mas de onde nasce o ruído?
Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século XX como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica. Neste contexto, o silêncio implica uma forma de resistência, uma maneira de manter a salvo uma dimensão interior frente às agressões externas. O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio. O maior problema, provavelmente, é que a comunicação eliminou os mecanismos próprios da conversação e se tornou altamente utilitarista com base nos dispositivos portáteis. E a pressão psicológica que suportamos para os armazenarmos é enorme.

É mais fácil cultivar e fomentar o silêncio no Oriente, em relação à Europa e aos Estados Unidos, por exemplo?
Sim, na tradição japonesa existe uma noção muito importante de disciplina interior, cristalizada em sistemas de pensamento como a filosofia zen. Digamos que no Oriente há muito caminho percorrido, mas as invasões contra as quais convém opor resistência já são as mesmas.

O que você responderia a quem sustentasse que o silêncio é uma confissão de ignorância?
O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.

Sobre o desaparecer de si, penso na psicologia construtivista e em autores como Jean Piaget. Seria possível formular uma psicologia da desconstrução para a personalidade?
Sim, é possível chegar a isso por meio de uma disciplina, de um exercitar-se no silêncio. Como disse antes, no Japão esta disciplina é algo muito comum. Podemos ir abrindo na nossa rotina diária espaços para o silêncio, para meditar, para nos encontrarmos com nós mesmos, e com a disciplina adequada esses espaços serão cada vez maiores. A minha melhor experiência nesse sentido, a definitiva, foi no Caminho de Santiago: quando cheguei enfim a Compostela, compreendi que eu havia me transformado completamente, depois de numerosos dias em marcha e em absoluto silêncio. Foi um renascimento.

Na França, vocês possuem uma grande tradição do caminhar com Balzac e a figura do flâneur.
Sim, o caminhar nas cidades, o vagar sem uma meta concreta. Não apenas Balzac, também Flaubert o defendia. E para os situacionistas, isso se converteu num assunto fundamental. Caminhar é outra forma de tomar consciência de si, de reparar no próprio corpo, na respiração, no silêncio interior. Na Idade Média havia aqueles que se dispunham intensamente a caminhar no deserto. Porém, a prática do caminhar nas cidades encerra conotações relacionadas ao prazer. Trata-se de desfrutar daquilo que você percebe, de se deleitar com os atrativos que a cidade lhe oferece pelos sentidos. É uma atividade hedonista. Jean Baudrillard e os intelectuais de orientação sartriana também o definiram assim, como uma prática contrária ao puritanismo.

É por essa qualidade de resistência que se tacha de louco quem caminha sem rumo?
Sim, é o que acontece. E por isso o caminhar, como o silêncio, é uma forma de resistência política. No momento de sair de casa, de movimentar-se, você de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente aonde você deve ir, por qual caminho e por qual meio. Caminhar porque sim, eliminando da prática qualquer tipo de apreciação útil, com uma intenção decidida de contemplação, implica uma resistência contra esse utilitarismo e, ocasionalmente, também contra o racionalismo, que é o seu principal benfeitor. A marcha lhe permite advertir como é bonita a Catedral, como é brincalhão o gato que se esconde por ali, as cores do pôr-do-sol, sem qualquer finalidade, porque toda sua finalidade é esta: a contemplação do mundo. Frente a um utilitarismo que concebe o mundo como um meio para a produção, o caminhante assimila o mundo que as cidades contêm como um fim em si mesmo. E isso, claro, é contrário à lógica imperante. Daí a vinculação com a loucura.

Entretanto, com a sua transformação em centros comerciais, e penso no próprio coração de Málaga, as cidades não se tornaram os piores inimigos dos caminhantes?
Sim, você tem razão. De fato, todas as grandes cidades, seja Paris ou Tóquio, já se transformaram em superfícies comerciais. É muito importante que as cidades encontrem um equilíbrio entre os recursos que garantam a sua prosperidade e a qualidade de vida dos que nelas residem. De outra maneira, as cidades tornam-se entidades desumanizadoras. O fato de caminhar por suas ruas sem nenhum interesse em comprar ou em gastar dinheiro, somente em vagar sem rumo, daqui até ali, porque sim, também é uma forma de deixá-las mais humanas, de rebelar-se contra as ordens que convertem todas e cada uma das interações humanas num processo econômico.

De volta ao silêncio: a indústria cultural não foi um dos principais canais do ruído no último meio século?
Sim, é isso. Estou de acordo. Em meu livro El silencio me ocupava desse assunto. Porque, afinal de contas, a indústria cultural vem a ser uma forma do poder político. Uma atividade cultural teria de estar encaminhada para que cada um se encontrasse consigo mesmo, se reconhecesse em seu interior e iniciasse um diálogo íntimo sem sair de si, valendo-se dos instrumentos que a cultura deveria pôr ao seu alcance. Contudo, em vez disso, temos uma cultura que é cada vez mais de massas e menos de pessoas, na qual é impossível se reconhecer. Também é importante opor resistência às formas invasivas da cultura que permeiam o silêncio.

*

Tradução: Sílvio Diogo

*

Um agradecimento à professora Ana Maria Domingues de Oliveira, que divulgou em seu mural no Facebook a entrevista em espanhol.

O ingresso

Neste escrito de 1965, a pensadora espanhola María Zambrano levanta questões sobre o ingresso de estudantes advindos de escolas públicas e de classes desprivilegiadas nas universidades e, de modo mais geral, sobre a travessia dos estudos na vida das pessoas. Vale muito a reflexão, até mesmo — e especialmente — por aquilo que há de datado em seu ensaio.

*


María Zambrano

*

O INGRESSO

Era mais brusco e também mais solene, em outras épocas, o trânsito da Escola Primária aos estudos do bacharelado em relação ao que se verifica hoje da Primária à “High School” ou aos Liceus de Ensino Médio. Diversas razões contribuem para isso: a primeira parece ser a democratização do ensino médio, para o qual afluem, cada [vez] em maior número, os estudantes de um e de outro sexo. Antes, especialmente no “velho mundo”, o acesso ao Liceu ou ao Instituto era reservado a uma certa classe social, e era indício quase certo do prosseguimento dos estudos até à Universidade ou às Escolas Superiores. Ingressar, pois, no Instituto ou na High School significava o primeiro passo de uma longa carreira que, alcançada, conservaria os seus seguidores dentro do recinto dessa classe social tão ampla denominada burguesia, ou os incluiria dentro dela, no caso — não muito frequente — de quem a ela não pertencesse.

Se por acaso o garoto que ingressava, mediante exame, no estabelecimento de ensino médio havia cursado o básico em uma escola pública, e não em um desses colégios chamados “particulares”, sentia-se separado dos seus companheiros que ficavam porventura ainda mais um ano nos bancos da Primária ou que, ingressando no seio de sua própria família, começavam a trabalhar em um ofício. Desses companheiros e amigos da infância, um abismo separava o afortunado estudante. Ele já era de outra classe, de outro mundo: ele estudava em vez de trabalhar para ganhar a vida. Seguia educando-se; educando-se e não somente estudando, ao passo que aqueles outros que não haviam ingressado no ensino médio davam por terminada a sua educação junto com os seus estudos. Daquele momento em diante, só os ensinaria a vida, a dura experiência da vida. E era também como se de repente tivessem que se fazer homens; como se todas as suas férias houvessem para sempre terminado; como se somente as rudes alegrias saíssem ao encontro deles, com sua perigosa dupla face. Como se de repente o [que] se chama “a realidade da vida” se lhes precipitasse totalmente.

O que é então seguir estudando sabendo que será por muitos anos seguir educando-se? Se fosse perguntado ao privilegiado que se separava de seus companheiros da infância para “elevar-se” por meio do estudo a outra categoria social, a outro modo de vida: Que modo de vida é este do estudante, acaso não tem a ver com a realidade da vida — o que seria o mesmo que dizer que é algo irreal? Não exatamente: o estudante ingressa num modo de viver que tem contato com a realidade da vida; o que faz é real, real e às vezes heroico o esforço. Resulta porém que a realidade desses estudos, dessa prosseguida educação, produzirá o seu fruto em um longínquo amanhã. Será quando acabe a carreira, quando se encontre lançado à realidade da vida — tal como se vê hoje o companheiro pobre que não pôde seguir uma carreira. E se tais reflexões se fizesse, ingressaria desde o primeiro momento no Estabelecimento de Ensino Médio com a grave alegria de quem se sabe privilegiado, de quem recebe um dom que obriga, e que talvez mereça menos que outros que não o receberam. O privilégio de preparar-se, de ir-se preparando para essa rude, esquiva realidade da vida. O ir familiarizando-se com ela passo a passo, seguindo uma ordem. Conduzido, guiado. As procissões acadêmicas têm esse sentido; ser a representação da vida mesma das aulas; os jovens iniciandos conduzidos e guiados pelos iniciadores que lhes evitam obstáculos, quedas, duras experiências, riscos sem fim; que lhes mostram o caminho do labirinto antes de deixá-los sozinhos em seu centro.

— Fevereiro de 1965

*

Tradução: Sílvio Diogo

Filosofía y educación: manuscritos. Málaga, Ágora, 2007 (Org.: Ángel Casado e Juana Sánchez-Gey).

Água para o Brumadinho

— um apelo em poesia

No sítio que é dos Cantares,
convivo com um problema:
o drama comunitário
com que construo o poema.

É um apelo, confesso,
nascido da impaciência.
A formalidade, há anos,
não resultou em sucesso.

Nas terras do Brumadinho,
luminoso lugarejo,
falta a água, imprescindível
para todos os vizinhos.

Protocolamos ofícios,
procuramos Copanor,
tentamos a Prefeitura;
toda sorte de artifícios.

Não há água na torneira.
Ninguém possui o registro.
Até o Ministério Público
conhece bem tudo isto.

Reuniões se sucederam,
cálculos foram feitos.
Compromissos no papel
mostraram-se sem proveito.

O Brumadinho, no Guinda,
é um formoso povoado:
dia de névoas e sol;
noite de céu estrelado.

As corujas esvoaçam
e algum coelho aparece.
Aranhas, rãs e calangos
a sua morada tecem.

Variedades de rochas
fascinam estudiosos;
os coloridos cascalhos
indicam bens preciosos.

Conglomerados antigos
afloram por muitos lados.
Incontáveis diamantes
extraíram-se aos bocados.

Nesse lugar pioneiro,
relata-nos a história,
garimpeiros cavucaram
a joia dentro da rocha.

O garimpo, todavia,
escasseou com o tempo.
Abandonaram-se as lavras,
sobraram grandes crateras.

Duros blocos de rochedos,
mais despesas do que lucro:
vidas duras de sustento
no horizonte do Tejuco.

Na bravura, os moradores
fixaram residência
nos terrenos descuidados
(meio de subsistência).

Um monte de cangas rubras
chamado Paiol de Pedra
já guardou muito tesouro.
E hoje é nome de rua.

Preservar o Brumadinho,
sua história e geologia,
é olhar para o Cerrado,
suas mínguas, sua magia.

Um ponto dos mais difíceis
é o acesso às fontes hídricas.
Os mananciais, já raros,
na estiagem dão o mínimo.

E se cada domicílio
pudesse contar enfim
com o fluir da água potável,
própria para ser bebida?

A vida vicejaria
na horta regada, forte;
no frescor dos alimentos;
no banho com mais conforto.

Partilhamos do princípio
de que a água é um tema público.
Querelas ambientais
são repletas de conflitos.

Por isso, é indispensável
que o diálogo aconteça,
que a omissão se desfaça,
que se escutem as queixas.

Sabemos que a crise hídrica
não é privilégio nosso.
A sede atravessa o século,
o mundo de injustas posses.

Torna-se prioridade
procurar alternativas
que contemplem os saberes
do povo e dos cientistas.

No bioma do Cerrado,
as plantas medicinais
são força das benzedeiras
que espantam o mau-olhado.

Brincar de subir em árvore.
Andar atrás das formigas.
Pular de peito no rio.
Artes de criança antiga?

Pois bem, temos as lições
do passado e do presente
para estrear a estação
que acenda os sonhos da gente.

A distância é pouquinha.
A caixa-d’água do Guinda
está só a um quilômetro
do núcleo do Brumadinho.

E há um leve declive
ao longo do chão da estrada
que facilita o traçado
de uma nova rede hidráulica.

O empenho da Prefeitura
no cadastro dos imóveis
será vital ao projeto
de tudo quanto almejamos.

O município aprovou
um regimento específico
voltado a áreas rurais
com aspectos urbanos.

Espera-se que esta lei
proporcione os registros
e as certidões de número
para cada moradia.

Um Brumadinho com água,
entre o campo e a cidade,
é sonho que cultivamos.
E a vida é sonho. E é árvore.

Candeia, ipê, jatobá,
samambaia, quaresmeira,
gameleira, gabiroba,
goiaba, jequitibá.

De galho em galho voamos
na utopia, na fé.
A gente enfim quer bebida,
quer diversão e balé.

Sílvio Diogo
— primavera de 2017

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Nota: Inspirado no morador de Brasília — Luiz Carlos Garcia — que converteu a sua indignação com um vazamento de água num longo poema reivindicatório, tentei traduzir em versos o apelo em defesa da implantação do abastecimento de água no povoado do Brumadinho, distrito do Guinda, em Diamantina. A questão me toca diretamente, pois ali venho construindo uma casa, o Sítio dos Cantares. Agradeço ao amigo Renato Oliveira, vizinho de Brum’s, por provocar-me à escrita.

Calhe, grafia, cale

A trabalhadora equipe do Ateliê Tipográfico — que faz parte do Centro Editorial e Gráfico da Universidade Federal de Goiás (Cegraf/UFG), coordenado pelo professor Antón C. Quintela —, acabou de imprimir, de forma artesanal, a antologia Calhe, grafia, cale, com vinte poemas de minha autoria.

Fiquei muito feliz com a edição. Foi uma revisita a escritos originalmente publicados nos livros Respingos e clamores (2005) e Desenho do chão (2008), ambos lançados pelas edições Toró, em São Paulo, nos tempos trovejantes do movimento de literatura periférica, que floresceu na rua, na calçada, no bar, na fuga-procura por novos horizontes, no quintal, na sombra, na escola, na praça, no calor, na madrugada, no abraço, na pergunta, na amizade, no amor. Onde ali no coletivo tanto aprendi e onde também tive a oportunidade do erro e da errância.

Agora os poemas, do manuscrito à tipografia, encontram nova disposição, alguma palavra que se trocou por outra, sem que se perdesse o aspecto aprendiz-tateante de uma linguagem que à época se tentava escutar e se ousava tocar.

Os exemplares de Calhe, grafia, cale podem ser encomendados diretamente ao Cegraf/UFG, pelo e-mail: <estoque.cegraf@gmail.com>. (Valor: 20,00 reais. Formas de pagamento: cartão de crédito ou boleto bancário.)

Também podem ser adquiridos pelo sítio da Editora da UFG (todo o catálogo está com desconto de 50%), neste link.

Ou ainda nas livrarias físicas da UFG, por este link.

“O sentido se sente com o corpo”, Josely Vianna Baptista

Li em voz alta, pelo celular, um poema mui envolvente de Josely Vianna Baptista, “O sentido se sente com o corpo”. Palavra rente à pele, som de querer perto. “Como se diz o que está por um triz?” Aprocheguem-se…

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O sentido se sente com o corpo
— Josely Vianna Baptista

“o sentido se sente com o corpo, como o olho se molha quando chora. o sentido é quente como o corpo, como o olho que brilha quando gosta. o sentido se pensa com o corpo, que pressente esse sentir que não mente. (como se diz o que nunca se diz? o que se desdiz? como se diz o que se diz a esmo? como se diz mesmo?) o sentido se dobra como o corpo que sente outro corpo rente ao corpo, se veste com o corpo que desveste os véus de seus segredos e seus medos. vai-se lendo bem lento, em silêncio, quando quase do avesso me convenço. (como se diz o que nunca se diz? como se quis o que nunca se fez? como se faz o que nunca se quis? como se diz o que está por um triz?) o silêncio vai-se lendo em silêncio, quando quase do avesso me convenço. vai-se lendo sentido no silêncio, vai-se vendo, do avesso me convenço. o silêncio vai dizendo ao silêncio: assim se diz o que se diz mesmo. assim que diz o que se quer — desejo”

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Do livro “AR”. São Paulo: Iluminuras; Fundação Cultural de Curitiba, 1991.

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Fotografia das estrelas: Elisa Borges