Um bom crime chileno

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Rubem Braga

Quando eu era editor pensei em fazer um livro — ou mais de um — sem nenhuma literatura, apenas com narrativas de crimes verdadeiros. É difícil de explicar, mas inegável a atração que isso exerce sobre o leitor. Aqui vai um crime acontecido em 1903 no Chile.

O caso é que uma bela noite um incêndio destruiu o edifício da Legação da Alemanha. No meio dos destroços fumegantes havia um cadáver. O Ministro, barão Hans von Boden, não teve dificuldades em reconhecer o corpo do conselheiro da Legação, Wilhelm Beckert, mesmo porque na mão esquerda estava a aliança de casamento. Além de Beckert, devia estar na Legação, na hora do incêndio, o jovem porteiro Tapia, chileno. Inutilmente se procurou o seu corpo; não foi encontrado em parte alguma. A mulher de Tapia informou que ele não aparecera em casa.

Examinando com mais atenção o cadáver de Beckert, os médicos chegaram à conclusão de que ele havia sido assassinado antes do incêndio, recebendo golpes na cabeça e no coração. O Ministro revelou que dinheiro e valores consideráveis tinham sido roubados.

Sabia-se que Beckert tinha sido ameaçado por jovens nacionalistas chilenos; ele contara isso a alguns amigos. Entre seus papéis particulares foi encontrada uma carta anônima contendo ameaças a sua vida, e uma carta escrita por ele próprio, endereçada ao presidente da República do Chile, para ser aberta em caso de morte. Essa carta não tinha nenhuma revelação interessante; apenas ele protestava contra acusações que lhe eram feitas de exercer atividades contrárias aos interesses dos chilenos e acabava pedindo clemência para seu assassino, que só poderia ser um moço fanático. A emoção pública foi enorme, e as altas autoridades foram ao enterro do conselheiro. O discurso feito pelo Ministro continha ameaças veladas ao governo chileno, caso o criminoso não fosse punido.

Tapia é procurado em todo o Chile pela polícia e pela população sem resultado. É a essa altura que aparece um judeu de certa idade, relojoeiro, que procurou o juiz encarregado do processo para contar o seguinte: que vira o conselheiro Beckert na noite do incêndio e, pelos seus cálculos, depois do incêndio. O juiz perguntou se ele tinha certeza de que era Beckert. Disse que sim, pois o conhecia muito bem. Mas falara com ele? O relojoeiro disse que o cumprimentara em alemão, e Beckert, que ia tomando um carro de praça, respondera em castelhano, dizendo que não o conhecia. Essa conversa do relojoeiro não seria levada muito a sério, se um jornalista desses sensacionalistas não a publicasse com certo escândalo. Ao dar a entrevista, o relojoeiro negou-se a admitir que se tivesse enganado na pessoa e na hora. Gabava-se de ser um excelente fisionomista e, apesar de a rua estar meio escura, reconhecera perfeitamente Beckert. Quanto à hora, também tinha certeza, pois era um homem de horários precisos: um relojoeiro.

Essas declarações animaram um dentista, que vira o corpo queimado, a declarar que os dentes pareciam os de um homem muito jovem, e não de um senhor da idade de Beckert. A coisa estava ficando mais séria, e apesar da grande irritação do Ministro da Alemanha, o juiz acabou ordenando a exumação do corpo. O dentista de Beckert foi chamado e declarou que aquela boca não era de seu cliente. A mulher de Tapia disse que este tinha dentes perfeitos, só uma pequena cárie. E lá estava a cárie.

Beckert foi preso no sul do país, quando tentava atravessar a fronteira para a Argentina. Ainda tinha muito dinheiro no bolso, e seus documentos, com outro nome, eram perfeitos. Foi condenado à morte e, enquanto esperava a execução, confessou que seu grande consolo, no meio daquele tremendo golpe errado, era reler os belos elogios que lhe fizera, no discurso à beira-túmulo, o seu ex-chefe, o barão Hans von Boden, Ministro do Kaiser.

Janeiro, 1990

*

Um cartão de Paris. / Rubem Braga; [seleção: Domício Proença Filho]. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1997.

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Terapia dos brotos

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Leonardo Fróes

 

Nesse tempo de incertezas,
confiscos e estripulias,
o chuchu já está brotando
em menos de cinco dias.
Também a mandioca brava,
a cana e a melancia
começam no mês de agosto
a enraizar com energia.
A bem dizer, qualquer pau
metido na terra fria
vai pegar e botar folhas
sem relutância ou porfia.
O tempo, se por um lado
produz enchente e agonia,
por outro convém às plantas
que saem da letargia.
Até a cebola brota
no aço inox da pia
quando acaba o sono verde
que a primavera anuncia.
Se for o caso, comprove:
pegue o bulbo que irradia,
coloque-o num vaso fértil
e espere a flor com alegria.
Nesse tempo, o desespero,
a ideia de moratória,
fez de cada brasileiro
um descrente na vitória.
Ninguém olhou para o chão
onde se escreve uma história
pequena, de tegumentos
e seivas que irão à glória.
Ninguém viu que uma semente
explode sem nostalgia
para dar à terra exausta
mais alento e outra harmonia.
Isso no entanto acontece
no lado claro da via
pelo qual também passamos
sem saber aonde se ia.
A semente, um broto novo,
a ideia que se teria,
a casca velha que fende
e morre no que ela cria,
tudo isso são momentos
de uma estranha parceria
que abaixa a crista do homem
e depois logo o extasia.
A vida é maior que a gente
e mais do que a gente espia,
pensando que ao ver de fora
a gente se torna um guia.
A vida contém esterco,
fungos de melancolia,
gestos doidos que florescem
entre amor e antipatia.
Mas também contém os galhos
que abraçam quem se desfia
procurando uma razão
de dar o que pretendia.
Contém, é claro, essas greves
e a inflação sem garantia,
salários de manga curta
com brigas de algaravia.
Mas também contém os berros
do instante de quem procria
e, em se tratando de plantas,
é a imersão na afonia.
O silêncio, sua carga
de interior teimosia,
e a capacidade lenta
de entregar cada fatia.
A natureza é engraçada,
dá sem trégua e principia
a gerar tudo de novo,
avessa à monotonia.
Hoje mesmo ela desperta
de sua breve dormência
para dar à humanidade
uma sensual inocência.
Dá os seios da beterraba
no vão das línguas macias,
o achado de um chuchu murcho
que aponta melhores dias
e ainda o repolho e suas
múltiplas orelhas sadias.
Ouça pois esse conselho
de quem fez o que podia,
pegando na enxada para
dar corpo ao que não se via.
Aproveite bem a hora
e plante, por terapia,
ou para matar a fome,
entre os homens, de empatia.

*

Argumentos invisíveis. Rio de Janeiro: Rocco, 1995

Fotografia de Leonardo Fróes: revista Modo de Usar & Co.

Com os seus próprios olhos

Luiz Vilela

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Houve um batido fraco na porta.

— Entre — disse o diretor.

A porta abriu, e um menino entrou.

O diretor estava sentado à mesa, com um livro aberto.

— O senhor mandou me chamar?

— Mandei. Sente-se; pegue essa cadeira aí.

O menino pegou a cadeira e sentou-se.

O diretor cruzou as mãos e recostou-se.

— Como vão seus estudos, Ivo?

— Bem, obrigado.

— Você vai ser o primeiro outra vez, esse mês?

— Quero ser… — o menino sorriu.

— Você será. Você é estudioso e, além disso, muito inteligente…

O menino olhou para o chão e ficou mexendo no tapete com a ponta do pé.

— Você sabe para quê que eu mandei te chamar?

— Não senhor.

— Faz alguma ideia?

— Não.

— Nem imagina mais ou menos?

— Não senhor.

O diretor ficou um instante em silêncio.

— Ou imagina e não quer falar?

— Não senhor, não imagino.

O menino olhava para o chão.

O diretor levantou-se e foi até a janela. Ficou olhando para fora, de costas para o menino.

— Tenho umas coisas para conversar com você, Ivo — disse sem se voltar. — Foi para isso que mandei te chamar.

Sentado, o menino olhava atento para ele.

— Você foi sempre um menino sincero. Desde que você entrou para aqui, você foi um dos meninos que mais admirei; não só pela inteligência, mas também pela educação que você tem, e pela coragem de dizer sempre a verdade, mesmo quando isso possa ser pior para você, te trazer algum castigo. Lembra aquela vez que vocês se esconderam no vestiário?

— Lembro sim senhor.

— Quando eu disse que se eu descobrisse o autor daquilo, ele ia pagar caro.

— Lembro.

— E quê que você fez?

— Eu confessei que era eu.

— E eu, quê que eu fiz?

— O senhor me perdoou.

— E o que eu disse, você lembra?

— Lembro sim senhor.

— Quê que eu disse?

— O senhor disse que o prêmio que eu merecia por ter dito a verdade era maior do que o castigo que eu merecia por aquela pilantragem.

— “Pilantragem”… — o diretor sorriu. — Você tem a memória boa…

Continuana imóvel, e o menino, sentado na cadeira, olhava para ele.

— Foi isso mesmo… — sacudiu a cabeça devagar. — Pois muito bem; e se eu te perguntasse agora algumas coisas: você responderia só a verdade?

— Responderia.

— Você não mentiria nem um pouco?

— Não senhor.

— Nem uma só vez?

— Não senhor.

O diretor ficou em silêncio. Cruzou as mãos atrás. O menino esperava, olhando atento para ele.

— Está bem. É o seguinte: você saiu de casa ontem à noite?

— Saí sim senhor.

— Onde que você foi?

— Na minha avó.

— Ela mora perto da igreja, não é?

— É sim senhor.

— Quer dizer que você tem que passar pelo Jardim Velho?

— Tenho.

— Então você passou lá, ontem à noite?

— Passei.

— Passou?

— Passei sim senhor.

O diretor ficou em silêncio. Continuava de costas para o menino.

— Então era você mesmo — disse, numa voz mais baixa.

O menino não falou.

— Era?

— Senhor?

— Era você mesmo que passou lá ontem à noite?

O diretor voltara-se para ele. O menino olhou para o chão.

— Era?

— Era sim senhor.

— E você me viu, não viu?

O menino sacudiu a cabeça.

— Viu?

— Vi.

— Você reconheceu que era eu?

— O menino sacudiu a cabeça.

— Sim; eu sei que você me reconheceu.

O diretor voltou a olhar para fora.

— E você viu com quem eu estava?

Vi sim senhor.

O menino, encolhido na cadeira, olhava para o chão.

— Com quem eu estava, Ivo?

O menino olhou para ele:

— Com quem? Não, com quem eu não conheci não.

Não — disse o diretor, com um gesto de impaciência. — Não é isso. Não é isso que estou perguntando. Era uma mulher que estava comigo?

— Mulher? Não senhor.

— Quem era então?

— Quem?

— Quem estava comigo?

— Um menino.

— Você tem certeza?

— Tenho, eu vi.

— Você viu. Quer dizer que você viu também o que eu estava fazendo com ele; o que nós estávamos fazendo.

— Como?

— Você viu se nós estávamos fazendo alguma coisa?

O menino ficou olhando para o chão.

— Viu?

O menino não respondeu.

O diretor voltou-se para ele:

— Você não disse que responderia ao que eu perguntasse?… Viu ou não viu?

— Vi.

— O que era? Você sabe o que era aquilo?

— Sei.

— Sabe mesmo?

O menino sacudiu a cabeça.

— Jura que você sabe, ou você está respondendo à toa?

— Não senhor.

— Você sabe?

— Sei.

— Você entendeu o que era aquilo?

O menino sacudiu a cabeça.

— Quer dizer que você viu mesmo o que eu estava fazendo com ele?

Sacudiu a cabeça.

— Você viu que eu estava abraçado com ele?

— Vi.

— E que eu estava passando a mão nos cabelos dele e no rosto dele, você viu?

Sacudiu a cabeça.

— Viu?

Sacudiu a cabeça.

— Diga.

— Vi.

— Tudo isso que te falei?

O menino sacudiu a cabeça.

— Com os seus próprios olhos? Jura? Você quer cair morto aqui agora, se está mentindo?

Sacudiu a cabeça.

O diretor parou de falar. O menino ficou olhando para o chão, tentando fixar os olhos no tapete, que parecia ondular e afundar.

O diretor voltara à janela. Agora tinha enfiado as mãos nos bolsos do paletó.

Lá fora ia escurecendo, e o gabinete já estava na penumbra. Gritos apagados vinham do campo de futebol, onde os meninos aquela hora treinavam.

— Você sabe o que significa isso, Ivo? Você pode imaginar o que significa para um homem como eu o fato de um menino como você ter visto o que viu ontem?

O menino estava olhando para o chão.

— Quantos anos você tem? Onze?

— Dez.

— Dez… Você acha que eu já tinha feito aquilo antes, Ivo? Que eu já tinha procedido daquele jeito outras vezes, como você viu ontem?

— Não senhor.

O diretor voltou-se para ele:

— Não mesmo? Ou acha?… Pode dizer…

— Não senhor.

— É verdade. Eu nunca tinha feito assim, nem uma só vez em toda a minha vida… nunca tinha feito isso…

O diretor ficou em silêncio.

— Você sabe que eu sou casado, não sabe? Que eu tenho três filhos. O menor, uma menina, é da sua idade…

— Eu sei.

— E minha idade?

— Cinquenta anos, o senhor vai fazer; em setembro. Nós até vamos fazer uma festa para o senhor.

— Festa?

— É, o senhor não sabia? Todas as turmas juntas; vamos fazer uma festa para o senhor em setembro.

O diretor abaixou a cabeça.

Caminhou de volta para a mesa e tornou a sentar-se. Ficou olhando para o livro.

Olhou para o menino:

— Vou te perguntar só mais uma coisa; depois você poderá ir embora.

— Sim senhor.

— Você contou para alguém?

— A festa?

— Não, ontem.

— Não senhor.

— Vai contar?

— Não senhor.

— Por quê, Ivo?

O menino olhou para o chão.

— Por que você não vai contar?…

— Eu… Eu não quero…

— Sei; compreendo… Eu sabia que você não contaria. Você é um menino bom…

O diretor ficou algum tempo olhando para o livro.

Olhou de novo para o menino:

— Mas você nunca vai esquecer isso, não é?

O menino não respondeu.

— Pode ir — disse o diretor. — Era só isso.

O menino despediu-se e saiu.

O diretor ficou só no gabinete, os olhos fixos no ar.

*

Tarde da noite (contos), 1970

Edifício

EDIFÍCIO
— Geir Campos

CantoClaro

(Fala dos Senhorios)

É favor conservar as portas fechadas,
fechadas se possível igualmente as janelas:
deste modo evitareis que o vizinho bisbilhote
vosso intencionalmente apartado apartamento
e sobretudo evitareis a visão do vizinho,
esse inevitável e incômodo acompanhamento.
É favor conservar fechadas as portas;
e que o edifício pareça um refúgio de presenças mortas,
embora em cada aposento germine o ódio num ersatz de horta.
Não tereis quem vos dê nem a quem devais dar
— Bom dia! Boa noite! Boa sorte!
Os dias não serão bons, as noites menos,
e a sorte nunca, se alguém falar;
fale o rádio, somente, e só a ele ouvireis.
Se há ansiedade nos olhos, a televisão em cores
tudo vos mostrará — o grande mundo, sem seus maus odores;
outrossim podeis pôr nas paredes, nos móveis, nas mesas,
esculturas e quadros de preferência os mais abstratos
que vos consolem com sua mortíssima natureza.
Na hora própria fareis colocar a um canto fora da porta
o litro vazio e o exato dinheiro
para o leiteiro madrugador e o padeiro
que zelosos vos servem e a quem tampouco vereis
com seus sapatos batidos, a roupa gasta, mas a face corada
que vos faria invejar-lhes a vida tão natural.
Cartas, se vos chegarem, hão de vir pela caixa postal.
Demais, se há mais problemas, resolvem-se pelo telefone
a cujo bocal direis claro o endereço e mastigadamente o nome.
Para receber encomendas e tratar eventuais serviços
recomendamos a admissão formal de um criado
bastante esperto para dar boa conta de tudo isso
e não se imiscuir em vossos desassuntos privados.
Parentes nem amigos! Aconselhamos, em vez, a adoção
de algum bicho pequeno e dócil — um gato ou um cão;
o ideal seriam plantas e entre as plantas ideal um cacto,
um cacto em miniatura faz as vezes de muitas criaturas.
Assim, com um criado e no máximo um cão ou um gato,
se possível um cacto… vivereis a calma dos retratos.
Mas para tanto é mister não compactuardes jamais
com certos arquitetos e seus equívocos de cimento:
porta e janela não são para a-p-a-r-t-a-m-e-n-t-o-s!
Porta ou janela aberta é sempre tentação para o olhar
e olhando havíeis de ver outros olhos perto
e em seguida à janela e à porta sonharíeis abrir
também a vossa boca, e logo após a boca a vossa alma,
e afinal vos entenderíeis (pois falando assim de alma aberta)
e desse entendimento entre as pessoas e as famílias e os povos
cedo ou tarde brotariam novos planos e projetos novos
de um mundo com jardins, grandes praças e parques, pomares,
túneis e estradas, aeroportos e pontes, portos de mar e pontes
reduzindo à unidade o que antes eram fragmentários horizontes,
e de um lado para outro o pão indo e vindo,
e de um lado para outro o sonho indo e vindo
— lançadeiras da paz tecida e necessária…
E o que seria de nós, da indústria contrária?

*

(Canto claro e poemas anteriores. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957)

Manifesto para não ser lido

Moacir Chotguis
Moacir Chotguis

 

Os versos são experiências e é preciso ter vivido muito para escrever um só verso.

RAINER MARIA RILKE

 

Deveria existir maior variedade de empreendimentos e experiências de que todos participassem. Não sendo assim, as influências que a alguns educam para senhores educariam a outros para escravos. E a experiência de cada uma das partes perde em significação quando não existe o livre entrelaçamento das várias atividades da vida. Uma separação entre a classe privilegiada e a classe submetida impede a endosmose da experiência. Os males que por essa causa afetam a classe superior são menos materiais e menos perceptíveis, mas igualmente reais. Sua cultura tende a tornar-se estéril, a voltar-se para se alimentar de si mesma; sua arte torna-se uma ostentação espetaculosa e artificial; sua riqueza se transmuda em luxo; seus conhecimentos super-especializam-se; e seus modos e hábitos se tornam mais artificiais do que humanos.

JOHN DEWEY

 

O vivo interesse que em mim despertam os acontecimentos que se preparam, e particularmente a situação da Rússia, me afasta das preocupações literárias. Certamente, acabo de reler ANDRÔMACA de Racine com indivisível encanto, porém, no novo estado em que habita o meu pensamento, esses esquisitos jogos não terão mais razão para existir. Eu me repito a mim mesmo sem cessar que a época em que poderiam florescer a literatura e as artes já passou.

ANDRÉ GIDE

 

… eu me domo, o pé sobre a garganta de minha própria canção.

MAIAKOVSKI

 

… toda a época moderna, desde o Renascimento, revela-se um período de decadência da cultura cristã e de transição para uma nova cultura, mal perceptível ainda em suas linhas gerais, e que poderíamos, qualquer que venha a ser a sua forma definitiva, (democracia social, nacional-socialismo, comunismo, Encíclica Rerum Novarum etc.) denominar cultura socialista.
… Estamos em cheio no período de aculturação, de desintegração cultural. Que se perdeu nesse contato entre a civilização cristã moribunda e a cultura em gestação que não sabemos ainda exatamente como será? Perdemos as regras da vida, a moral, a confiança em nós, a certeza da eficiência de nossas soluções. Que veio substituir isso tudo? A consciência da contradição entre a nossa moral e a realidade do mundo, a evidência da hipocrisia da regra do jogo, o ceticismo e o cinismo. À margem das duas culturas, observando o panorama da confusão, percebendo-o, mas ao mesmo tempo incapazes de alterar a marcha. do terrível processo desintegrador e integrador, os homens marginais se desligam dia a dia de sua sociedade.
… Observei a que ponto, ao atingir-se o período impressionista, a arte perdeu por completo, na forma e no espírito, a sua função comunicativa, a sua função de linguagem dentro do grupo. Mostrei que de meio utilitário de comunicação passou a exprimir apenas os sentimentos de subgrupos, a posição marginal destes na sociedade. Essa função restrita, dia a dia menos universal, vai afastar ainda mais a arte de seu objetivo primeiro. Mesmo nos subgrupos ela deixará de ser entendida por todos, ela passará pouco a pouco a instrumento de expressão individual, de nenhuma utilidade para os demais membros do todo social. Observei também que na medida em que essa perda de representatividade se verifica, as preocupações técnicas aumentam, o desprezo pelo assunto se manifesta, e o pintor se isola dentro de limites impossíveis de se transpor pelos não iniciados.
… Talvez já nos encontremos em plena subida para o novo clima social… Tudo leva a crer que assim seja. O artista sensível, antes marginal, assume agora a liderança e fala numa nova linguagem que ainda não conhece gramáticas. Do México e dos Estados Unidos, da Espanha e da Rússia vêm-nos exemplos de um muralismo triunfante, perfeitamente funcional através do qual se dizem ao povo coisas importantes e de um modo acessível a qualquer sensibilidade e a qualquer educação. Coisas sobretudo que representam um sentir igual, uma ambição comum, preocupações e angústias coletivas. A pintura deixa de ser CHOCHET grã-fino dos salões mundanos e se transforma na rude afirmação de força construtiva, de fé numa nova moral e numa nova ciência. Enquanto os velhos estetas se desprendem da vida, os novos pintores recolocam a vida em sua arte. Já não se vislumbram entre os NOVOS aquele desdém SUPERIOR ao assunto, aquele desprezo infantil ao inteligível, aquela propensão para um esoterismo barato de folhinha astrológica… Isso significa apenas volta ao princípio essencial da arte, à expressão.

SÉRGIO MILLIET

 

Os futuros historiadores chamarão, talvez, à nossa época: o SÉCULO DO SUBCONSCIENTE.
Reconhecemos no movimento histórico uma revolução perpétua, vagarosa, sem barulho revolucionário, mas inelutável; reconhecemos que a dialética, instrumento de compreensão, é, ao mesmo tempo, instrumento de ação; e chegamos à conclusão de Ernst Cysarz: HISTÓRIA É UM ATO PRÁTICO. Isto é o fio condutor para a compreensão da história contemporânea. O novo continente do subconsciente, apesar da sua descoberta (ou redescoberta) recente, não pertence ao mundo de amanhã, mas ao mundo de ontem. Estou convencido de que a crítica literária reconhecerá no mundo literário de Joyce e Wolf não a aurora de uma nova literatura, mas o último produto, requintado e malogrado, de uma literatura muito velha. E esse reconhecimento literário produz conclusões transcendentes. A HISTÓRIA É UM ATO PRÁTICO. Acabamos de DESCOBRIR UM NOVO UNIVERSO; agora trata-se de dominá-lo. Quanto à literatura, novas transformações estilísticas estão a postos. E as transformações integrais do estilo literário têm sempre um sentido profundo.

OTTO MARIA CARPEAUX

 

Em verdade, eu tenho demoradamente refletido sobre o pedido de Griffin a respeito de uma EXPOSIÇÃO DE PRINCÍPIOS relativos a arte dos versos, etc. E pude tirar de minha consciência somente esta conclusão: Tudo é belo e bom quando é belo e bom, venha de onde vier e tenha sido obtido pelo processo que for. Clássicos, românticos, decadentes, símbolos, assonantes ou como direi? incompreensíveis, desde que eles me comovam ou simplesmente me encantem, mesmo e talvez sobretudo sem que, como o Dindon de Florian, eu não saiba bem por que, todos eles me são caros. Vamos, poetas que somos, amemo-nos uns aos outros, esta máxima é tão bela em arte como na moral, e eu creio que a ela nos devemos ater. Tal é a minha teoria, maduramente assente.

PAUL VERLAINE

(Joaquim: Curitiba, nº 1, abril de 1946.)

 

* Manifesto (colagem de textos teóricos) da revista Joaquim, Curitiba, de abril de 1946. Segundo Cassiano L. de Lacerda Carollo, é de “autoria” de Erasmo Pilotto, um dos diretores da revista fundada por Dalton Trevisan.

 

In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 até hoje. Petrópolis: Vozes; Brasília: INL, 1976, 3ª ed, pp. 312-15

As mulheres do mercado

Luci Collin

I.

dir-lhes-ei coisas no ouvido
mas pensarão que então grito
mas pensarão que replico
sons e o orvalho
que veste a noite do ínfimo imenso
sentido

vozes das lavadeiras
(cuidai)
vozes das mulheres que anunciam
os melhores peixes
neste mercado de
caixas       passos       promessas
musicarei teu olhar

os melhores homens são feitos
de espaço
entre siso e nada
as melhores frases
daquilo que sempre se disse
ficado no ar
os melhores vinhos
são tempo e sol
certos
e desse banquete
nada descreverei
porque o que me interessa
são os sinos
porque o que me impressiona
é o que contas ter visto

talvez babel
feita de comos

como se fosse o porquê
dir-te-ei duplos sentidos
como lâmina duplo corte
como dupla pele
como aqui e lá

mas aquele que compreende
os vermelhos
vigia                 cala
viscera num ato de
perguntar
QUANDO

………………………….QUANDO ESTÁ

 

II.

de cor palavras bonitas
de cor o preço das noites
de cor palavras canção

já nas primeiras horas
mecanismos se desenrolam
nem enredos
só está cantilena
só a descrição pura
do que é máximo
vale ventriloquia?

aço de um ventre estéril
o eternizável aqui

senhor eu vendo melancolia
portanto ficai longe
mira-me por detrás de portões
de grossas paredes apenas ouve
mira-me alto em altares
muito superiores
mira-me em silêncio e nada conclui

vendo esquinas obscuras
vielas
único sentido        única mão

quero ver-te por dentro
mas estou aqui
para o anúncio
que cumpro como
missão

rasgarás folhas
espalhar-se-ão destinos
e o mar
é melhor que nem se fale
já que não compreendo as figuras
que me assaltam
nesse azul pisado e liso
nem sólido nem oficioso
nem único

tentarei conceber a carta
onde peço            onde imploro

intento a melhor letra
e por fim no lacre
revela-se o sinete

gritem mulheres
que o peixe é fresquíssimo

gritem que o corpo gosta e precisa
de sempre muito e mais
gritem que os olhos se procuram

e que o brilho
que se empresta do orvalho
à escuridão é quase rito
que os silêncios se gastam
que os saldos ressuscitam
úmida e impressionante
ilusão em muito
…………………………… MUITO MAIS

 

III.

e depois gritem os homens

no teu ouvido deposito
a cantoria dos gatos
rasgando lento essa noite

sob um fio
sob um único fio
de teia ali
mínimo
como se forma o inseto
a presa                 a gota
a palavra certa que é
quando

os versos que sabes
de cor
semelham asas
e adentras janelas
frestas           fendas
feridas curas
e te renderão tratados
que desprezarás
porque não colecionas
ocos

senhor voz
tu que sabes
que as dobras da escuridão
vaticinam brancos
diga-nos voltarás a abrir
a porta
para os mapas que a mão
tremendo
entregou
vidas todas de gatos
de ti
o nada que eu sei
fez-se o meu
nada
e aqui as vozes
verbo depurado
o duplo e a dobra

nessa ocasião
pássaros reivindicam
para si a cena
e anunciam nova
manhã

uma manhã sem preço
onde só as vozes
dizendo que sim
no ouvido
da multidão

*

(Trato de silêncios. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)

Divagação sobre as ilhas

Drummond

Carlos Drummond de Andrade

Quando me acontecer alguma pecúnia, passante de um milhão de cruzeiros, compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto, também, que de lá possa eu aspirar a fumaça e a graxa do porto. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante) ficará no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto dos ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente. Porque esta é a ciência e, direi, a arte do bem viver; uma fuga relativa, e uma não muito estouvada confraternização.

De há muito sonho esta ilha, se é que não a sonhei sempre. Se é que a não sonhamos sempre, inclusive os mais agudos participantes. Objetais-me: “Como podemos amar as ilhas, se buscamos o centro mesmo da ação?” Engajados, vosso engajamento é a vossa ilha, dissimulada e transportável. Por onde fordes, ela irá convosco. Significa a evasão daquilo para que toda alma necessariamente tende, ou seja, a gratuidade dos gestos naturais, o cultivo das formas espontâneas, o gosto de ser um com os bichos, as espécies vegetais, os fenômenos atmosféricos. Substitui, sem anular. Que miragens vê o iluminado no fundo de sua iluminação?… Supõe-se político, e é um visionário. Abomina o espírito de fantasia, sendo dos que mais o possuem. Nessa ilha tão irreal, ao cabo, como as da literatura, ele constrói a sua cidade de ouro, e nela reside por efeito da imaginação, administra-a, e até mesmo a tiraniza. Seu mito vale o da liberdade nas ilhas. E, contentor do mundo burguês, que outra coisa faz senão aplicar a técnica do sonho, com que os sensíveis dentre os burgueses que se acomodam à realidade, elidindo-a?

A ilha que traço agora a lápis neste papel é materialmente uma ilha, e orgulha-se de sê-lo. Pode ser abordada. Não pode ser convertida em continente. Emerge do pélago com a graça de uma flor criada para produzir-se sobre a água. Marca assim o seu isolamento, e como não tem bocas de fogo nem expedientes astuciosos para rechaçar o estrangeiro, sucede que este isolamento não é inumano. Inumano seria desejar, aqui, dos morros litorâneos, um cataclismo que sovertesse tão amena, repousante, discreta e digna forma natural, inventada para as necessidades de ser no momento exato em que se farta de seus espelhos, amigos como inimigos.

E por que nos seduz a ilha? As composições de sombra e luz, o esmalte da relva, a cristalinidade dos regatos — tudo isso existe fora das ilhas, não é privilégio dela. A mesma solidão existe, com diferentes pressões, nos mais diversos locais, inclusive os de população densa, em terra firme e longa. Resta ainda o argumento da felicidade — “aqui eu não sou feliz”, declara o poeta, para enaltecer, pelo contraste, a sua Pasárgada: mas será que se procura realmente nas ilhas uma ocasião de ser feliz, ou um modo de sê-lo? E só se alcançaria tal mercê, de índole extremamente subjetiva, no regaço de uma ilha, e não igualmente em terra comum?

Quando penso em comprar uma ilha, nenhuma dessas excelências me seduz mais que as outras, nem todas juntas constituem a razão de meu desejo. Sou pouco afeiçoado à natureza, que em mim se reduz quase que a uma paisagem moral, íntima, em dois ou três tons, só que latejante em todas as partículas. A solidão, carrego-a no bolso, e nunca me faltou menos do que quando, por obrigações de ofício, me debruçava incessantemente sobre a vida dos outros. E felicidade não é em rigor o que eu procuro. Não. Procuro uma ilha, como já procurei uma noiva.

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A ilha me satisfaz por ser uma porção curta de terra (falo de ilhas individuais, não me tentam aventuras marajoaras), um resumo prático, substantivo, dos estirões deste vasto mundo, sem os inconvenientes dele, e com a vantagem de ser quase ficção sem deixar de constituir uma realidade. A casa de campo é diferente. A continuidade do solo torna-a um pobre complemento dessas propriedades individuais ou coletivas, públicas ou particulares, em que todo o desgosto, toda a execrabilidade, toda a mesquinhez da coisa possuída, taxada, fiscalizada, trafegada, beneficiada, herdada, conspurcada, se nos apresenta antes que a vista repare em qualquer de seus eventuais encantos. A casa junto ao mar, que já foi razoável delícia, passou a ser um pecado, depois que se desinventou a relação entre homem, paisagem e moradia. Tudo forma uma cidade só, torpe e triste, mais triste talvez que torpe. O progresso técnico teve isto de retrógrado: esqueceu-se completamente do fim a que se propusera, ou devia ter-se proposto. Acabou com qualquer veleidade de amar a vida, que ele tornou muito confortável, mas invisível. Fez-se numa escala de massas, esquecendo-se do indivíduo, e nenhuma central elétrica de milhões de kw será capaz de produzir aquilo de que precisamente cada um de nós carece na cidade excessivamente iluminada: uma certa penumbra. O progresso nos dá tanta coisa, que não nos sobra nada nem para pedir nem para desejar nem para jogar fora. Tudo é inútil e atravancador. A ilha sugere uma negação disto.

A ilha deve ser o quantum satis selvagem, sem bichos superiores à força e ao medo do homem. Mas precisa ter bichos, principalmente os de plumagem gloriosa, com alguns exemplares mais meigos. As cores do cinema enjoam-nos do colorido, e só uma cura de autenticidade nos reconciliará com os nossos olhos doentes. Já que não há mais vestidos de cores puras e naturais (de que má pintura moderna se vestem as mulheres do nosso tempo?), peçamos a araras e periquitos, e a algum suave pássaro de colo mimoso, que nos propiciem as sensações delicadas de uma vista voluptuosa, minudente e repousada.

Para esta ilha sóbria não se levará bíblia nem se carregarão discos. Algum amigo que saiba contar histórias está naturalmente convidado. Bem como alguma amiga de voz doce ou quente, que não abuse muito dessa prenda. Haverá pedras à mão — cascalho miúdo — que se possa lançar ao céu, a título de advertência, quando demasiada arte puser em perigo o ruminar bucólico da ilha. Não vejo inconveniente na entrada subreptícia de jornais. Servem para embrulho, e nas costas do noticiário político ou esportivos há sempre um anúncio de filme em reprise, invocativo, ou qualquer vaga menção a algum vago evento que, por obscuro mecanismo, desperte em nós fundas e gratas emoções retrospectivas. Nossa vida interior tende à inércia. E bem-vinda é a provocação que lhe avive a sensibilidade, impelindo-a aos devaneios que formam uma crônica particular do homem, passada muitas vezes dentro dele, somente, mas compensando em variedade ou em profundeza o medíocre da vida social.

Serão admitidos poetas? Em que número? Se foram proscritos das repúblicas ideais e das outras, pareceria cruel bani-los também da ilha de recreio. Contudo, devem comportar-se como se poetas não fossem: pondo de lado os tiques profissionais, o tecnicismo, a excessiva preocupação literária, o misto de esteticismo e frialdade que costuma necrosar os artistas. Sejam homens razoáveis, carentes, humildes, inclinados à pesca e à corrida a pé, saibam fazer alguma coisa simples para o estômago, no fogão improvisado. Não levem para a ilha os problemas de hegemonia e ciúme.

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Por aí se observa que a ilha mais paradisíaca pede regulamentação e que os perigos da convivência urbana estão presentes. Tanto melhor, porque não se quer uma ilha perfeita, senão um modesto território banhado de água por todos os lados e onde não seja obrigatório salvar o mundo.

A idéia de fuga tem sido alvo de crítica severa e indiscriminada nos últimos anos, como se fosse ignominioso, por exemplo, fugir de um perigo, de um sofrimento, de uma caceteação. Como se devesse o homem consumir-se numa fogueira perene, sem carinho para com as partes cândidas ou pueris dele mesmo, que cumpre preservar principalmente em vista de uma possível felicidade coletivista no futuro. Se se trata de harmonizar o homem com o mundo, não se vê porque essa harmonia só será obtida através do extermínio generalizado e da autopunição dos melhores. Pois afinal, o que se recomenda aos homens é apenas isto: “Sejam infelizes, aborreçam o mais possível aos seus semelhantes, recusem-se a qualquer comiseração, façam do ódio um motor político. Assim atingirão o amor.” Obtida a esse preço a cidade futura, nela já não haveria o que amar.

Chega-se a um ponto em que convém fugir menos da malignidade dos homens do que da sua bondade incandescente. Por bondade abstrata nos tornamos atrozes. E o pensamento de salvar o mundo é dos que acarretam as mais copiosas — e inúteis — carnificinas.

Estas reflexões descosidas procuram apenas recordar que há motivos para ir às ilhas, quando menos para não participar de crimes e equívocos mentais generalizados. São motivos éticos, tão respeitáveis quanto os que impelem à ação o temperamento sôfrego. A ilha é meditação despojada, renúncia ao desejo de influir e de atrair. Por ser muitas vezes uma desilusão, paga-se relativamente caro. Mas todo o peso dos ataques desfechados contra o pequeno Robinson moderno, que se alongou das rixas miúdas, significa tão-somente que ele tinha razão em não contribuir para agravá-las. Em geral, não se pedem companheiros, mas cúmplices. E este é o risco da convivência ideológica. Por outro lado, há um certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.

A ilha é, afinal de contas, o refúgio último da liberdade, que em toda parte se busca destruir. Amemos a ilha.

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(Passeios na ilha: divagações sobre a vida literária e outras matérias. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1975, pp. 3-7)