Um bom crime chileno

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Rubem Braga

Quando eu era editor pensei em fazer um livro — ou mais de um — sem nenhuma literatura, apenas com narrativas de crimes verdadeiros. É difícil de explicar, mas inegável a atração que isso exerce sobre o leitor. Aqui vai um crime acontecido em 1903 no Chile.

O caso é que uma bela noite um incêndio destruiu o edifício da Legação da Alemanha. No meio dos destroços fumegantes havia um cadáver. O Ministro, barão Hans von Boden, não teve dificuldades em reconhecer o corpo do conselheiro da Legação, Wilhelm Beckert, mesmo porque na mão esquerda estava a aliança de casamento. Além de Beckert, devia estar na Legação, na hora do incêndio, o jovem porteiro Tapia, chileno. Inutilmente se procurou o seu corpo; não foi encontrado em parte alguma. A mulher de Tapia informou que ele não aparecera em casa.

Examinando com mais atenção o cadáver de Beckert, os médicos chegaram à conclusão de que ele havia sido assassinado antes do incêndio, recebendo golpes na cabeça e no coração. O Ministro revelou que dinheiro e valores consideráveis tinham sido roubados.

Sabia-se que Beckert tinha sido ameaçado por jovens nacionalistas chilenos; ele contara isso a alguns amigos. Entre seus papéis particulares foi encontrada uma carta anônima contendo ameaças a sua vida, e uma carta escrita por ele próprio, endereçada ao presidente da República do Chile, para ser aberta em caso de morte. Essa carta não tinha nenhuma revelação interessante; apenas ele protestava contra acusações que lhe eram feitas de exercer atividades contrárias aos interesses dos chilenos e acabava pedindo clemência para seu assassino, que só poderia ser um moço fanático. A emoção pública foi enorme, e as altas autoridades foram ao enterro do conselheiro. O discurso feito pelo Ministro continha ameaças veladas ao governo chileno, caso o criminoso não fosse punido.

Tapia é procurado em todo o Chile pela polícia e pela população sem resultado. É a essa altura que aparece um judeu de certa idade, relojoeiro, que procurou o juiz encarregado do processo para contar o seguinte: que vira o conselheiro Beckert na noite do incêndio e, pelos seus cálculos, depois do incêndio. O juiz perguntou se ele tinha certeza de que era Beckert. Disse que sim, pois o conhecia muito bem. Mas falara com ele? O relojoeiro disse que o cumprimentara em alemão, e Beckert, que ia tomando um carro de praça, respondera em castelhano, dizendo que não o conhecia. Essa conversa do relojoeiro não seria levada muito a sério, se um jornalista desses sensacionalistas não a publicasse com certo escândalo. Ao dar a entrevista, o relojoeiro negou-se a admitir que se tivesse enganado na pessoa e na hora. Gabava-se de ser um excelente fisionomista e, apesar de a rua estar meio escura, reconhecera perfeitamente Beckert. Quanto à hora, também tinha certeza, pois era um homem de horários precisos: um relojoeiro.

Essas declarações animaram um dentista, que vira o corpo queimado, a declarar que os dentes pareciam os de um homem muito jovem, e não de um senhor da idade de Beckert. A coisa estava ficando mais séria, e apesar da grande irritação do Ministro da Alemanha, o juiz acabou ordenando a exumação do corpo. O dentista de Beckert foi chamado e declarou que aquela boca não era de seu cliente. A mulher de Tapia disse que este tinha dentes perfeitos, só uma pequena cárie. E lá estava a cárie.

Beckert foi preso no sul do país, quando tentava atravessar a fronteira para a Argentina. Ainda tinha muito dinheiro no bolso, e seus documentos, com outro nome, eram perfeitos. Foi condenado à morte e, enquanto esperava a execução, confessou que seu grande consolo, no meio daquele tremendo golpe errado, era reler os belos elogios que lhe fizera, no discurso à beira-túmulo, o seu ex-chefe, o barão Hans von Boden, Ministro do Kaiser.

Janeiro, 1990

*

Um cartão de Paris. / Rubem Braga; [seleção: Domício Proença Filho]. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1997.

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Propósito de ano novo

Gioconda Belli

Nasce o ano demandando de mim o retorno ao meu ser.
Que regressem as profundas palavras
as leituras, os milagres perpétuos
Deixar o efêmero, as fotos divertidas, as notícias insólitas
fora de mim
Minha vida desprevenida encheu-se de ruído
A solidão já não encontra a quietude dos amplos salões
A prazerosa cerimônia das boas-vindas
Agora é preciso buscá-la qual uma dama extraviada
Alçar fossos para preservá-la do assédio.
A moderna invasão de todo minuto que sobra
converteu a vida em voragem, impressões, fogos fátuos, rostos
como rastros leves nas multidões, nas feiras, nas leituras.
Conversa-se com apuro, em parênteses, antes de se voltar à notícia, ao texto,
ao comentário, ao “curtir” — ilusório prazer do pobre cérebro embotado —
Em nossas mãos puseram a fascinação dos labirintos,
túneis abertos de vento por onde o tempo escapa veloz
sem que mal escutemos a sonoridade da tarde ou do dia, idos para sempre.
Quero, neste ano que nasce, recordar que uma manhã é insubstituível
Jamais haverá outra manhã com a mesma data que ESTA.
Tantas opções, porém as mãos se inquietam,
acendem as telas. Perde-se então o instante do qual emergiria
a solução dos enigmas. Isto e muito mais se perde.
Prometo caminhar mais este ano. Caminhar sem música, sem fones de ouvido, sem escutar livros.
Empenhar-me no diálogo com o vento, com as minhas lembranças, com os retalhos de
conversas que continuaram reverberando; recordarei o que disse com os amigos.
A insondável particularidade dos filhos. A farra dos netos.
Revisarei a biblioteca, a fonoteca, a videoteca da minha mente, os seus segredos e
projetos. Dosarei as redes, os aplicativos, o celular
Retornarei ao silêncio, às sombras da gruta,
à densidade do sangue
ao subterrâneo com os seus instigantes baús
Me esconderei com o tempo
Pentearei os cabelos brancos
E sentirei o seu perfume
Mimarei, para que não se dissipe,
para gozá-la e desdobrá-la, cada fenda
para me deliciar e retornar ao assombro
ao íntimo espaço onde flutuam quietos
planetas sem explorar,
constelações.

— 7 de janeiro de 2017

[tradução: S.D.]

Terapia dos brotos

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Leonardo Fróes

 

Nesse tempo de incertezas,
confiscos e estripulias,
o chuchu já está brotando
em menos de cinco dias.
Também a mandioca brava,
a cana e a melancia
começam no mês de agosto
a enraizar com energia.
A bem dizer, qualquer pau
metido na terra fria
vai pegar e botar folhas
sem relutância ou porfia.
O tempo, se por um lado
produz enchente e agonia,
por outro convém às plantas
que saem da letargia.
Até a cebola brota
no aço inox da pia
quando acaba o sono verde
que a primavera anuncia.
Se for o caso, comprove:
pegue o bulbo que irradia,
coloque-o num vaso fértil
e espere a flor com alegria.
Nesse tempo, o desespero,
a ideia de moratória,
fez de cada brasileiro
um descrente na vitória.
Ninguém olhou para o chão
onde se escreve uma história
pequena, de tegumentos
e seivas que irão à glória.
Ninguém viu que uma semente
explode sem nostalgia
para dar à terra exausta
mais alento e outra harmonia.
Isso no entanto acontece
no lado claro da via
pelo qual também passamos
sem saber aonde se ia.
A semente, um broto novo,
a ideia que se teria,
a casca velha que fende
e morre no que ela cria,
tudo isso são momentos
de uma estranha parceria
que abaixa a crista do homem
e depois logo o extasia.
A vida é maior que a gente
e mais do que a gente espia,
pensando que ao ver de fora
a gente se torna um guia.
A vida contém esterco,
fungos de melancolia,
gestos doidos que florescem
entre amor e antipatia.
Mas também contém os galhos
que abraçam quem se desfia
procurando uma razão
de dar o que pretendia.
Contém, é claro, essas greves
e a inflação sem garantia,
salários de manga curta
com brigas de algaravia.
Mas também contém os berros
do instante de quem procria
e, em se tratando de plantas,
é a imersão na afonia.
O silêncio, sua carga
de interior teimosia,
e a capacidade lenta
de entregar cada fatia.
A natureza é engraçada,
dá sem trégua e principia
a gerar tudo de novo,
avessa à monotonia.
Hoje mesmo ela desperta
de sua breve dormência
para dar à humanidade
uma sensual inocência.
Dá os seios da beterraba
no vão das línguas macias,
o achado de um chuchu murcho
que aponta melhores dias
e ainda o repolho e suas
múltiplas orelhas sadias.
Ouça pois esse conselho
de quem fez o que podia,
pegando na enxada para
dar corpo ao que não se via.
Aproveite bem a hora
e plante, por terapia,
ou para matar a fome,
entre os homens, de empatia.

*

Argumentos invisíveis. Rio de Janeiro: Rocco, 1995

Fotografia de Leonardo Fróes: revista Modo de Usar & Co.

Com os seus próprios olhos

Luiz Vilela

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Houve um batido fraco na porta.

— Entre — disse o diretor.

A porta abriu, e um menino entrou.

O diretor estava sentado à mesa, com um livro aberto.

— O senhor mandou me chamar?

— Mandei. Sente-se; pegue essa cadeira aí.

O menino pegou a cadeira e sentou-se.

O diretor cruzou as mãos e recostou-se.

— Como vão seus estudos, Ivo?

— Bem, obrigado.

— Você vai ser o primeiro outra vez, esse mês?

— Quero ser… — o menino sorriu.

— Você será. Você é estudioso e, além disso, muito inteligente…

O menino olhou para o chão e ficou mexendo no tapete com a ponta do pé.

— Você sabe para quê que eu mandei te chamar?

— Não senhor.

— Faz alguma ideia?

— Não.

— Nem imagina mais ou menos?

— Não senhor.

O diretor ficou um instante em silêncio.

— Ou imagina e não quer falar?

— Não senhor, não imagino.

O menino olhava para o chão.

O diretor levantou-se e foi até a janela. Ficou olhando para fora, de costas para o menino.

— Tenho umas coisas para conversar com você, Ivo — disse sem se voltar. — Foi para isso que mandei te chamar.

Sentado, o menino olhava atento para ele.

— Você foi sempre um menino sincero. Desde que você entrou para aqui, você foi um dos meninos que mais admirei; não só pela inteligência, mas também pela educação que você tem, e pela coragem de dizer sempre a verdade, mesmo quando isso possa ser pior para você, te trazer algum castigo. Lembra aquela vez que vocês se esconderam no vestiário?

— Lembro sim senhor.

— Quando eu disse que se eu descobrisse o autor daquilo, ele ia pagar caro.

— Lembro.

— E quê que você fez?

— Eu confessei que era eu.

— E eu, quê que eu fiz?

— O senhor me perdoou.

— E o que eu disse, você lembra?

— Lembro sim senhor.

— Quê que eu disse?

— O senhor disse que o prêmio que eu merecia por ter dito a verdade era maior do que o castigo que eu merecia por aquela pilantragem.

— “Pilantragem”… — o diretor sorriu. — Você tem a memória boa…

Continuana imóvel, e o menino, sentado na cadeira, olhava para ele.

— Foi isso mesmo… — sacudiu a cabeça devagar. — Pois muito bem; e se eu te perguntasse agora algumas coisas: você responderia só a verdade?

— Responderia.

— Você não mentiria nem um pouco?

— Não senhor.

— Nem uma só vez?

— Não senhor.

O diretor ficou em silêncio. Cruzou as mãos atrás. O menino esperava, olhando atento para ele.

— Está bem. É o seguinte: você saiu de casa ontem à noite?

— Saí sim senhor.

— Onde que você foi?

— Na minha avó.

— Ela mora perto da igreja, não é?

— É sim senhor.

— Quer dizer que você tem que passar pelo Jardim Velho?

— Tenho.

— Então você passou lá, ontem à noite?

— Passei.

— Passou?

— Passei sim senhor.

O diretor ficou em silêncio. Continuava de costas para o menino.

— Então era você mesmo — disse, numa voz mais baixa.

O menino não falou.

— Era?

— Senhor?

— Era você mesmo que passou lá ontem à noite?

O diretor voltara-se para ele. O menino olhou para o chão.

— Era?

— Era sim senhor.

— E você me viu, não viu?

O menino sacudiu a cabeça.

— Viu?

— Vi.

— Você reconheceu que era eu?

— O menino sacudiu a cabeça.

— Sim; eu sei que você me reconheceu.

O diretor voltou a olhar para fora.

— E você viu com quem eu estava?

Vi sim senhor.

O menino, encolhido na cadeira, olhava para o chão.

— Com quem eu estava, Ivo?

O menino olhou para ele:

— Com quem? Não, com quem eu não conheci não.

Não — disse o diretor, com um gesto de impaciência. — Não é isso. Não é isso que estou perguntando. Era uma mulher que estava comigo?

— Mulher? Não senhor.

— Quem era então?

— Quem?

— Quem estava comigo?

— Um menino.

— Você tem certeza?

— Tenho, eu vi.

— Você viu. Quer dizer que você viu também o que eu estava fazendo com ele; o que nós estávamos fazendo.

— Como?

— Você viu se nós estávamos fazendo alguma coisa?

O menino ficou olhando para o chão.

— Viu?

O menino não respondeu.

O diretor voltou-se para ele:

— Você não disse que responderia ao que eu perguntasse?… Viu ou não viu?

— Vi.

— O que era? Você sabe o que era aquilo?

— Sei.

— Sabe mesmo?

O menino sacudiu a cabeça.

— Jura que você sabe, ou você está respondendo à toa?

— Não senhor.

— Você sabe?

— Sei.

— Você entendeu o que era aquilo?

O menino sacudiu a cabeça.

— Quer dizer que você viu mesmo o que eu estava fazendo com ele?

Sacudiu a cabeça.

— Você viu que eu estava abraçado com ele?

— Vi.

— E que eu estava passando a mão nos cabelos dele e no rosto dele, você viu?

Sacudiu a cabeça.

— Viu?

Sacudiu a cabeça.

— Diga.

— Vi.

— Tudo isso que te falei?

O menino sacudiu a cabeça.

— Com os seus próprios olhos? Jura? Você quer cair morto aqui agora, se está mentindo?

Sacudiu a cabeça.

O diretor parou de falar. O menino ficou olhando para o chão, tentando fixar os olhos no tapete, que parecia ondular e afundar.

O diretor voltara à janela. Agora tinha enfiado as mãos nos bolsos do paletó.

Lá fora ia escurecendo, e o gabinete já estava na penumbra. Gritos apagados vinham do campo de futebol, onde os meninos aquela hora treinavam.

— Você sabe o que significa isso, Ivo? Você pode imaginar o que significa para um homem como eu o fato de um menino como você ter visto o que viu ontem?

O menino estava olhando para o chão.

— Quantos anos você tem? Onze?

— Dez.

— Dez… Você acha que eu já tinha feito aquilo antes, Ivo? Que eu já tinha procedido daquele jeito outras vezes, como você viu ontem?

— Não senhor.

O diretor voltou-se para ele:

— Não mesmo? Ou acha?… Pode dizer…

— Não senhor.

— É verdade. Eu nunca tinha feito assim, nem uma só vez em toda a minha vida… nunca tinha feito isso…

O diretor ficou em silêncio.

— Você sabe que eu sou casado, não sabe? Que eu tenho três filhos. O menor, uma menina, é da sua idade…

— Eu sei.

— E minha idade?

— Cinquenta anos, o senhor vai fazer; em setembro. Nós até vamos fazer uma festa para o senhor.

— Festa?

— É, o senhor não sabia? Todas as turmas juntas; vamos fazer uma festa para o senhor em setembro.

O diretor abaixou a cabeça.

Caminhou de volta para a mesa e tornou a sentar-se. Ficou olhando para o livro.

Olhou para o menino:

— Vou te perguntar só mais uma coisa; depois você poderá ir embora.

— Sim senhor.

— Você contou para alguém?

— A festa?

— Não, ontem.

— Não senhor.

— Vai contar?

— Não senhor.

— Por quê, Ivo?

O menino olhou para o chão.

— Por que você não vai contar?…

— Eu… Eu não quero…

— Sei; compreendo… Eu sabia que você não contaria. Você é um menino bom…

O diretor ficou algum tempo olhando para o livro.

Olhou de novo para o menino:

— Mas você nunca vai esquecer isso, não é?

O menino não respondeu.

— Pode ir — disse o diretor. — Era só isso.

O menino despediu-se e saiu.

O diretor ficou só no gabinete, os olhos fixos no ar.

*

Tarde da noite (contos), 1970

Casc’ de ferida

Sempre achei graça nessa expressão que os meus primos usam para se cumprimentar:

— Eaê, Casc’ de Ferida!

Assim, sem a vogal, uma palavra emendando na outra, quase sendo arrancada a ponta da casc’…

Nos últimos dias não me sai da mente a imagem: a democracia é uma casquinha na ferida da vida histórica.

E quem há de negar que ela é imprescindível à cicatrização?

Edifício

EDIFÍCIO
— Geir Campos

CantoClaro

(Fala dos Senhorios)

É favor conservar as portas fechadas,
fechadas se possível igualmente as janelas:
deste modo evitareis que o vizinho bisbilhote
vosso intencionalmente apartado apartamento
e sobretudo evitareis a visão do vizinho,
esse inevitável e incômodo acompanhamento.
É favor conservar fechadas as portas;
e que o edifício pareça um refúgio de presenças mortas,
embora em cada aposento germine o ódio num ersatz de horta.
Não tereis quem vos dê nem a quem devais dar
— Bom dia! Boa noite! Boa sorte!
Os dias não serão bons, as noites menos,
e a sorte nunca, se alguém falar;
fale o rádio, somente, e só a ele ouvireis.
Se há ansiedade nos olhos, a televisão em cores
tudo vos mostrará — o grande mundo, sem seus maus odores;
outrossim podeis pôr nas paredes, nos móveis, nas mesas,
esculturas e quadros de preferência os mais abstratos
que vos consolem com sua mortíssima natureza.
Na hora própria fareis colocar a um canto fora da porta
o litro vazio e o exato dinheiro
para o leiteiro madrugador e o padeiro
que zelosos vos servem e a quem tampouco vereis
com seus sapatos batidos, a roupa gasta, mas a face corada
que vos faria invejar-lhes a vida tão natural.
Cartas, se vos chegarem, hão de vir pela caixa postal.
Demais, se há mais problemas, resolvem-se pelo telefone
a cujo bocal direis claro o endereço e mastigadamente o nome.
Para receber encomendas e tratar eventuais serviços
recomendamos a admissão formal de um criado
bastante esperto para dar boa conta de tudo isso
e não se imiscuir em vossos desassuntos privados.
Parentes nem amigos! Aconselhamos, em vez, a adoção
de algum bicho pequeno e dócil — um gato ou um cão;
o ideal seriam plantas e entre as plantas ideal um cacto,
um cacto em miniatura faz as vezes de muitas criaturas.
Assim, com um criado e no máximo um cão ou um gato,
se possível um cacto… vivereis a calma dos retratos.
Mas para tanto é mister não compactuardes jamais
com certos arquitetos e seus equívocos de cimento:
porta e janela não são para a-p-a-r-t-a-m-e-n-t-o-s!
Porta ou janela aberta é sempre tentação para o olhar
e olhando havíeis de ver outros olhos perto
e em seguida à janela e à porta sonharíeis abrir
também a vossa boca, e logo após a boca a vossa alma,
e afinal vos entenderíeis (pois falando assim de alma aberta)
e desse entendimento entre as pessoas e as famílias e os povos
cedo ou tarde brotariam novos planos e projetos novos
de um mundo com jardins, grandes praças e parques, pomares,
túneis e estradas, aeroportos e pontes, portos de mar e pontes
reduzindo à unidade o que antes eram fragmentários horizontes,
e de um lado para outro o pão indo e vindo,
e de um lado para outro o sonho indo e vindo
— lançadeiras da paz tecida e necessária…
E o que seria de nós, da indústria contrária?

*

(Canto claro e poemas anteriores. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957)

Manifesto para não ser lido

Moacir Chotguis
Moacir Chotguis

 

Os versos são experiências e é preciso ter vivido muito para escrever um só verso.

RAINER MARIA RILKE

 

Deveria existir maior variedade de empreendimentos e experiências de que todos participassem. Não sendo assim, as influências que a alguns educam para senhores educariam a outros para escravos. E a experiência de cada uma das partes perde em significação quando não existe o livre entrelaçamento das várias atividades da vida. Uma separação entre a classe privilegiada e a classe submetida impede a endosmose da experiência. Os males que por essa causa afetam a classe superior são menos materiais e menos perceptíveis, mas igualmente reais. Sua cultura tende a tornar-se estéril, a voltar-se para se alimentar de si mesma; sua arte torna-se uma ostentação espetaculosa e artificial; sua riqueza se transmuda em luxo; seus conhecimentos super-especializam-se; e seus modos e hábitos se tornam mais artificiais do que humanos.

JOHN DEWEY

 

O vivo interesse que em mim despertam os acontecimentos que se preparam, e particularmente a situação da Rússia, me afasta das preocupações literárias. Certamente, acabo de reler ANDRÔMACA de Racine com indivisível encanto, porém, no novo estado em que habita o meu pensamento, esses esquisitos jogos não terão mais razão para existir. Eu me repito a mim mesmo sem cessar que a época em que poderiam florescer a literatura e as artes já passou.

ANDRÉ GIDE

 

… eu me domo, o pé sobre a garganta de minha própria canção.

MAIAKOVSKI

 

… toda a época moderna, desde o Renascimento, revela-se um período de decadência da cultura cristã e de transição para uma nova cultura, mal perceptível ainda em suas linhas gerais, e que poderíamos, qualquer que venha a ser a sua forma definitiva, (democracia social, nacional-socialismo, comunismo, Encíclica Rerum Novarum etc.) denominar cultura socialista.
… Estamos em cheio no período de aculturação, de desintegração cultural. Que se perdeu nesse contato entre a civilização cristã moribunda e a cultura em gestação que não sabemos ainda exatamente como será? Perdemos as regras da vida, a moral, a confiança em nós, a certeza da eficiência de nossas soluções. Que veio substituir isso tudo? A consciência da contradição entre a nossa moral e a realidade do mundo, a evidência da hipocrisia da regra do jogo, o ceticismo e o cinismo. À margem das duas culturas, observando o panorama da confusão, percebendo-o, mas ao mesmo tempo incapazes de alterar a marcha. do terrível processo desintegrador e integrador, os homens marginais se desligam dia a dia de sua sociedade.
… Observei a que ponto, ao atingir-se o período impressionista, a arte perdeu por completo, na forma e no espírito, a sua função comunicativa, a sua função de linguagem dentro do grupo. Mostrei que de meio utilitário de comunicação passou a exprimir apenas os sentimentos de subgrupos, a posição marginal destes na sociedade. Essa função restrita, dia a dia menos universal, vai afastar ainda mais a arte de seu objetivo primeiro. Mesmo nos subgrupos ela deixará de ser entendida por todos, ela passará pouco a pouco a instrumento de expressão individual, de nenhuma utilidade para os demais membros do todo social. Observei também que na medida em que essa perda de representatividade se verifica, as preocupações técnicas aumentam, o desprezo pelo assunto se manifesta, e o pintor se isola dentro de limites impossíveis de se transpor pelos não iniciados.
… Talvez já nos encontremos em plena subida para o novo clima social… Tudo leva a crer que assim seja. O artista sensível, antes marginal, assume agora a liderança e fala numa nova linguagem que ainda não conhece gramáticas. Do México e dos Estados Unidos, da Espanha e da Rússia vêm-nos exemplos de um muralismo triunfante, perfeitamente funcional através do qual se dizem ao povo coisas importantes e de um modo acessível a qualquer sensibilidade e a qualquer educação. Coisas sobretudo que representam um sentir igual, uma ambição comum, preocupações e angústias coletivas. A pintura deixa de ser CHOCHET grã-fino dos salões mundanos e se transforma na rude afirmação de força construtiva, de fé numa nova moral e numa nova ciência. Enquanto os velhos estetas se desprendem da vida, os novos pintores recolocam a vida em sua arte. Já não se vislumbram entre os NOVOS aquele desdém SUPERIOR ao assunto, aquele desprezo infantil ao inteligível, aquela propensão para um esoterismo barato de folhinha astrológica… Isso significa apenas volta ao princípio essencial da arte, à expressão.

SÉRGIO MILLIET

 

Os futuros historiadores chamarão, talvez, à nossa época: o SÉCULO DO SUBCONSCIENTE.
Reconhecemos no movimento histórico uma revolução perpétua, vagarosa, sem barulho revolucionário, mas inelutável; reconhecemos que a dialética, instrumento de compreensão, é, ao mesmo tempo, instrumento de ação; e chegamos à conclusão de Ernst Cysarz: HISTÓRIA É UM ATO PRÁTICO. Isto é o fio condutor para a compreensão da história contemporânea. O novo continente do subconsciente, apesar da sua descoberta (ou redescoberta) recente, não pertence ao mundo de amanhã, mas ao mundo de ontem. Estou convencido de que a crítica literária reconhecerá no mundo literário de Joyce e Wolf não a aurora de uma nova literatura, mas o último produto, requintado e malogrado, de uma literatura muito velha. E esse reconhecimento literário produz conclusões transcendentes. A HISTÓRIA É UM ATO PRÁTICO. Acabamos de DESCOBRIR UM NOVO UNIVERSO; agora trata-se de dominá-lo. Quanto à literatura, novas transformações estilísticas estão a postos. E as transformações integrais do estilo literário têm sempre um sentido profundo.

OTTO MARIA CARPEAUX

 

Em verdade, eu tenho demoradamente refletido sobre o pedido de Griffin a respeito de uma EXPOSIÇÃO DE PRINCÍPIOS relativos a arte dos versos, etc. E pude tirar de minha consciência somente esta conclusão: Tudo é belo e bom quando é belo e bom, venha de onde vier e tenha sido obtido pelo processo que for. Clássicos, românticos, decadentes, símbolos, assonantes ou como direi? incompreensíveis, desde que eles me comovam ou simplesmente me encantem, mesmo e talvez sobretudo sem que, como o Dindon de Florian, eu não saiba bem por que, todos eles me são caros. Vamos, poetas que somos, amemo-nos uns aos outros, esta máxima é tão bela em arte como na moral, e eu creio que a ela nos devemos ater. Tal é a minha teoria, maduramente assente.

PAUL VERLAINE

(Joaquim: Curitiba, nº 1, abril de 1946.)

 

* Manifesto (colagem de textos teóricos) da revista Joaquim, Curitiba, de abril de 1946. Segundo Cassiano L. de Lacerda Carollo, é de “autoria” de Erasmo Pilotto, um dos diretores da revista fundada por Dalton Trevisan.

 

In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 até hoje. Petrópolis: Vozes; Brasília: INL, 1976, 3ª ed, pp. 312-15