“meditação (I e II)”, Diana Junkes

Ilustração (guache): Ricardo Bezerra

meditação I

as botinas são um amuleto
para quem anda agora
no telhado à procura das telhas
trincadas e das calhas cheias

tateia explora os sons
das telhas das calhas cheias
do alto pensa no mundo
que desafina sob suas
botinas:

projetos empacotados
contas a pagar
uma panela que ferve
devagar lá embaixo
na cozinha
à sua espera

*

meditação II

a faca é um amuleto
para quem corta agora
as cebolas o alho e vai
refogá-los até dourarem

aspira explora os sons
de ciranda da cebola do alho
no interior da panela
de seu posto pensa no mundo
que desafina sob a lâmina da faca:

projetos já empacotados
contas a pagar
botinas que andam
apressadas lá em cima
no telhado
e têm fome

*


Diana Junkes. sol quando agora. Ilustrações: Ricardo Bezerra; composições: Rogério Botter Maio. Bragança Paulista: Urutau, 2018.
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Três trilhas rumo a chãos de dentro

Sílvio Diogo

Coincidiu de eu terminar, quase ao mesmo tempo, a leitura de três livros de ficção escritos por autores brasileiros contemporâneos. Não sei se em virtude dessa circunstância de leitura, ou dos pontos de contato entre os temas abordados, a verdade é que fui desenhando ao longo da travessia diálogos de uma obra a outra. Os livros são os seguintes: Um estranho sonho de futuro (2004), de Daniel Munduruku; Zumbi assombra quem? (2017), de Allan da Rosa; e Duração (2017), de Luís Novais.

Daniel Munduruku. ‘Um estranho sonho de futuro’. Ilustrado por Andrés Sandoval. 1. ed. São Paulo: FTD, 2004.

Ritos de passagem: eis o termo que me ocorre para sintetizar a ligação entre as narrativas. Daniel Munduruku conta a viagem que empreendeu em companhia do garoto Lucas, um adolescente paulistano (ou um pariwat, palavra usada pelo povo Munduruku para designar os não índios), em direção à aldeia Katõ, no Estado do Pará, local de nascimento do escritor. O livro parte, portanto, de um acontecimento real, recriado literariamente. A longa travessia inclui não só as etapas do avião, dos barcos, da espera, dos contratempos da viagem, do momento da volta, mas também o progressivo envolvimento de Lucas com os indígenas — especialmente com as crianças, embora não apenas com elas — e a própria experiência de regresso do “homem feito” Daniel Munduruku à sua aldeia natal. A conexão dos indígenas com os espíritos ancestrais será, para o menino Lucas, um misto de hesitação, encanto e reeducação do olhar; e, para o autor-narrador, uma espécie de reencontro ritual. O sonho de futuro evocado no título guiará personagens e leitores pelos caminhos da floresta.

Allan da Rosa. ‘Zumbi assombra quem?’ Ilustrações: Edson Ikê. 1. ed. São Paulo: Editora Nós, 2017.

Faltou dizer, sobre Um estranho sonho de futuro, que se trata de uma ficção voltada ao público infanto-juvenil, tal como Zumbi assombra quem?, de Allan da Rosa. Neste último livro, contudo, o cotidiano e a memória estão entrelaçados de tal forma na tessitura literária que é mais difícil definir as linhas entre real e imaginário. Cabajuara é uma forma de dizer Jabaquara, bairro da zona sul de São Paulo marcado por forte presença negra. A fórmula das perguntas e respostas, do enigma, da sabedoria ancestral que se desvenda aos poucos a partir do quintal e do terreiro, marcará os dialógos do menino Candê com o Tio Prabin. O livro divide-se em 19 capítulos, que poderíamos chamar de episódios ou cenas, já que a cada passo o narrador propõe a nós, leitores(as), um ângulo diverso de mirada. Lê-se melhor Zumbi em voz alta, não só porque a oralidade se entranha na escrita de Allan da Rosa, mas pela evocação de um saber da experiência: Candê, “aquele menino grande de sete anos”, vai traduzindo o que ouve — dos adultos e das outras crianças — para a sua própria língua, os seus lábios, a sua pele. Se Zumbi não é um morto-vivo, um fantasma, uma alma penada, como Tio Prabin ensina, por que então Candê e outras crianças negras continuam a ser chamadas de sujas? De onde vêm a chacota, o distanciamento, a repulsa? A mãe de Candê, Manta, também conta histórias; também ama, erra, sorri, desanima e levanta-se. Conheceremos dona Cota Irene, Andinho, Germano, Nívea e alguns dos frequentadores do bar de Manta. Ouviremos aos pouquinhos, tal como Candê, as peripécias, bravuras e voos de Zumbi dos Palmares. Ouviremos tal como os pernilongos, porque o livro nos pega de jeito: “Os pernilongos sentaram na beira na cama, cruzaram suas pernas e firmaram não picar o guri se a história que começava fosse bacana”.

Luís Novais. ‘Duração’. 1. ed. São José dos Campos: Do autor, 2017.

Duração, de Luís Novais, não é uma ficção infanto-juvenil; tampouco é uma narrativa que se classifique facilmente quanto ao gênero. Na página de créditos lemos que o livro consiste numa “miscelânea”, mas mesmo esta indicação não nos parece muito segura. Somos levados a acompanhar, a cada mancha breve de texto sobre a página, tensões entre escrita e silêncio, fragmento e inteireza, o instante e a duração. O caráter fragmentário que rege a composição manifesta-se nas imagens do estilhaço, do mosaico, das “mil luzes que iluminam o chão”. E o narrador não deixará de problematizar a própria relação com o leitor: dirá sobre a rasura, a resposta, a falta de resposta, o “gesto de despedida sem destinatário”, mas dirá também sobre fios, redes, sonhos e danças, sobre palavras em chama, sobre a contemplação, o rio e o amor. Dividido em sete partes, Duração nos deixará ver que um rito de passagem corre subterraneamente pela matéria textual: a experiência do luto, ou mais especificamente, a perda do pai. Se logo de início — no primeiro fragmento, “Mãos úmidas” — tomamos contato com a morte do pai, só aos poucos teremos a experiência do estado de gestação, da duração, e para isso precisaremos mobilizar os nossos próprios ritos, os nossos desejos e dúvidas, em suma, a travessia da leitura, que nos permitirá aceder aos “pequenos milagres que toda e qualquer pessoa pode realizar assim, por equívoco”.

Eis, portanto, algumas das ligações que a leitura dos três livros traz à tona: a figura do pai, do tio, do guia ou mentor espiritual; a longa duração do saber que vem da experiência; a travessia da dor, da perda, da saudade; as “janelas que podem dar acesso ao sagrado” em Duração; “o canto sussurado” que chama “a saúde pro amanhã”, o amor que “dilui a raiva” e “esmigalha a bruteza” em Zumbi assombra quem?; o voo dos pássaros “que é como uma escrita” em Um estranho sonho de futuro.

Heloisa Prieto, na apresentação ao livro de Daniel Munduruku, escreve que “adoecer é sinônimo de perder a conexão com os espíritos ancestrais”. Que a travessia pelas luminosas trilhas rumo a chãos de dentro — desvendadas por Daniel, Allan e Luís — fortaleça nossa compreensão acerca dos segredos do tempo, do convívio com a diferença, do respeito pelas coisas invisíveis e do simples prazer de não pensar em nada (coisas não muito fáceis nos dias que correm, diga-se de passagem).

*

Daniel Munduruku. Um estranho sonho de futuro. Ilustrado por Andrés Sandoval. 1. ed. São Paulo: FTD, 2004. / 112 p.
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Allan da Rosa. Zumbi assombra quem? Ilustrações: Edson Ikê. 1. ed. São Paulo: Editora Nós, 2017. / 96 p.
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Luís Novais. Duração. 1. ed. São José dos Campos: Do autor, 2017. / 92 p.
Para adquirir o livro, escreva diretamente ao autor pelo e-mail novais.vqfe@gmail.com

Poesia e historicidade

Alfredo Bosi

(…)

Qual fase da história foi vivida só de instantes presentes, pura e abstrata contemporaneidade sem memória nem projeto, sem as sombras ou as luzes do passado, sem as luzes ou as sombras do futuro? A pergunta ganha toda pertinência quando se trata de história da cultura e, mais ainda, de história de uma prática simbólica tão densa como a poesia.

Contextualizar o poema não é simplesmente datá-lo: é inserir as suas imagens e pensamentos em uma trama já em si mesma multidimensional; uma trama em que o eu lírico vive ora experiências novas, ora lembranças de infância, ora valores tradicionais, ora anseios de mudança, ora suspensão desoladora de crenças e esperanças. A poesia pertence à História Geral, mas é preciso conhecer qual é a história peculiar imanente e operante em cada poema.

Que experiência calada no sujeito terá suscitado esta e não aquela imagem metafórica? No caso do texto narrativo, que lembranças ou que sonhos deram vida àquela personagem? Terá sido um emoção que tomou corpo em uma figura. Ou a memória de uma situação sofrida há anos, se não quase perdida na infância. Ou a leitura empática de outro texto que serviu de estímulo à nova escrita. Ou a necessidade de amarrar com o fio da alegoria um nó existencial recorrente. Ou, enfim, mais de uma dessas possibilidades chamadas a se atualizar na palavra ficcional.

O fato de essas várias pistas serem pertinentes leva o intérprete a assumir uma posição de cautela na hora sempre arriscada de historiar a gênese de um texto que traz em si marcas de tempos diversos convergentes na sua produção. Só uma concepção de historicidade da prática simbólica pode dar conta das imbricações de sujeito e trama social, mesmo porque o que chamamos genericamente de ‘sociedade’ entra no sujeito na medida em que o sujeito se forma e se transforma no drama das relações com outros sujeitos e consigo mesmo.

(…)

*

A.B.
1/1/2000

*

BOSI, Alfredo. “Prefácio: Poesia e historicidade”. In: O ser e o tempo da poesia. 6ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp. 13-4.

A voz longínqua de um romance de Clarice

Sílvio Diogo

Uma coisa leva a outra. Nesta semana gravei em áudio a leitura de um trecho do romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector, publicado em 1969. Escolhi o livro — e, especificamente, um trecho do capítulo “Luminescência” — pois nele se encontra a epígrafe de meu recém-lançado livro de poemas Cambalhota.

As circunstâncias da gravação despertaram-me a curiosidade para outra passagem do romance, em que Clarice menciona uma canção intitulada “Voz longínqua”, da Tchecoslováquia (obs.: o país seria desmembrado, a partir de 1º de janeiro de 1993, em República Tcheca e República Eslovaca).

Pois bem: Clarice transcreve os versos da canção em português — não em tcheco —, menciona que a letra é de autoria de Zdenek Rytir, e que a música é de Karel Svoboda. Como não sei nada da língua tcheca, levei a expressão “Voz longínqua” para o Google Tradutor, selecionei a conversão do idioma do português para o tcheco, e o resultado foi “Vzdálený hlas”. Joguei as informações que tinha no YouTube, e consegui ter acesso a um clipe da música na versão de Helena Vondráčková.

Entre os comentários do vídeo no YouTube — em tcheco (e, portanto, novamente Google Tradutor) —, encontro a informação de que a música foi composta por Karel Svoboda para um Festival no Rio de Janeiro em 1967.

Sim, confirmado. A canção foi uma das finalistas do 2º Festival Internacional da Canção Popular do Rio, em 1967. Helena Vondráčková tinha vinte anos e foi eleita a “Miss Festival”. A música vencedora, na categoria internacional, foi a italiana “Per una donna”, composição de Marcello di Martino, Giulio Perretta e Corrado Mantoni, na interpretação de Jimmy Fontana.

No sítio web comemorativo dos cinquenta anos de carreira de Helena Vondráčková, encontramos o cartaz do Festival, o diploma de participação de Helena e a imagem do prêmio Galo de Ouro como uma das finalistas do concurso.

Algumas questões ainda me intrigavam. No trecho em que menciona a canção, Clarice Lispector escreve (referindo-se à protagonista Lóri, ou Loreley): “No jornal de domingo [Lóri] viu reproduzida a letra de uma canção da Tchecoslováquia”.

Que jornal seria esse? Haveria o jornal ou seria apenas um artifício da ficção? Os dedos ávidos e a internet levaram-me à Hemeroteca Digital Brasileira, da Fundação Biblioteca Nacional. No fim de semana em que seria escolhida a música vencedora do Festival, jornais do Rio reproduziram a letra de cada uma das vinte canções concorrentes. O Jornal do Brasil e o Correio da Manhã estamparam as letras na edição de sábado, 28 de outubro de 1967, e o Diário de Notícias as reproduziu no domingo, 29 de outubro, data de encerramento do Festival e da disputa da final internacional, no Maracanãzinho.

Assim, é bem provável que Clarice tenha feito referência à edição de domingo do Diário de Notícias.

Diário de Notícias (RJ), 29 de outubro de 1967, pág. 14, 1ª seção / Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira — Fundação Biblioteca Nacional

Dúvidas ainda permanecem. De quem seria a tradução da letra, já que os jornais a reproduziram em português, e não em tcheco? Clarice Lispector menciona que a protagonista Lóri “jamais viria a ouvir” a música de Karel Svoboda. Será que a própria Clarice conheceu apenas a letra da canção e não a música?

Em seu sítio web, Helena Vondráčková menciona que cantou “Vzdálený hlas” para uma multidão de 40 mil pessoas no “longínquo” Rio de Janeiro (não sei se foi um trocadilho de Helena ou do Google Tradutor). A canção foi gravada em vinil naquele ano por Helena, com a Orquestra Karla Krautgartnera, sob regência de Josef Vobruba.

Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres foi publicado em 1969. Teria ido Clarice ao Maracanãzinho? Teria tido acesso ao vinil gravado na Tchecoslováquia? Alguma rádio do Rio de Janeiro teria reproduzido as canções finalistas do Festival? Se as respostas forem negativas, é bem provável que a escritora só tenha conhecido a letra da canção, e não a música — tal como Lóri, a protagonista.

De todo modo, é sempre bom desconfiar. Sabe-se que fragmentos de crônicas publicadas no Jornal do Brasil por Clarice Lispector aparecem em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, “sem que se possa afirmar com certeza” — nas palavras da professora Fátima Cristina Dias Rocha, da Uerj — “se Clarice reescrevia os textos/crônicas para incluí-los no romance, ou se fazia o inverso, publicando no Jornal do Brasil fragmentos do livro que estava escrevendo” [link].

As fronteiras entre autora, narradora e personagens encontram-se problematizadas. Ainda segundo a professora Fátima Rocha, “interessa-nos, neste ponto, a verificação de que, na intensa circulação entre o material apresentado nas crônicas e nas páginas do romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, as impressões ‘de Clarice’ nas crônicas transferem-se para Lóri, ou mesmo para Ulisses. Ou seria o inverso, e a escritora, nas crônicas, ‘fingiria’ serem suas as impressões dos protagonistas do romance?”.

Uma coisa leva a outra, a muitas outras. Fiquemos, por enquanto, com as perguntas. E com o eco da voz longíngua. Como adverte Clarice Lispector, “ela [Lóri] sabia que não devia pedir o impossível: a resposta não se pede. A grande resposta não nos era dada. É perigoso mexer com a grande resposta”.

* * *

Transcrevo a seguir a passagem do romance de Clarice Lispector em que a canção é mencionada.

“Todos lutavam pela liberdade — assim via pelos jornais, e alegrava-se de que enfim não suportasse mais as injustiças. No jornal de domingo viu reproduzida a letra de uma canção da Tchecoslováquia. Copiou-a com a letra mais linda de professora que tinha, e deu-a a Ulisses. Chamava-se ‘Voz longínqua’ e era assim:

Baixa e longínqua
É a voz que ouço. De onde vem,
Fraca e vaga?
Aprisiona-me nas palavras,
Custa-me entender
As coisas pelas quais pergunta
Não sei e não sei
Como responder-lhe-ei.

Só o vento sabe,
Só o sol sábio conhece.
Pássaros pensativos,
O amor é belo,
Me insinuam algo.
E o mais
Só o vento sabe,
Só o sol conhece.

Por que, ao longe, erguem-se as rochas,
Por que vem o amor?
As pessoas são indiferentes,
Por que tudo lhes sai bem?
Por que eu não posso mudar o mundo?
Por que não sei beijar?
Não sei e não sei
Talvez um dia compreenda.

Só o vento sabe,
Só o sol sábio conhece.
Pássaros pensativos,
O amor belo,
Me insinuam algo.
E o mais,
Só o vento sabe,
Só o sol conhece.

A letra da música era de um nome que a encantava com sua estranheza e ela pediu a Ulisses que o pronunciasse, o que ele fez com facilidade: Zdenek Rytir. E a música, que ela jamais viria a ouvir, era de Karel Svoboda.

— É bonito, Loreley, é de uma tristeza bonita e aceita.”

*

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. 6ª ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978, pp. 129-31.

Cambalhota, Sílvio Diogo

Capa: aquarela de Carolina Teixeira (Itzá)

Cambalhota, o giro corporal sobre a própria cabeça, uma mudança súbita, uma volta repentina, uma acrobacia. Ao jogar com diferentes significados possíveis de uma palavra, ou com palavras que soam próximas, mas com sentidos diversos, o autor desarma formulações preconcebidas e desvenda conexões entre o aspecto pensante da personalidade e o que se passa nos meandros do corpo. A toada emotiva, as vidas intrincadas, as fricções da liberdade com a domesticação, da dor com o cuidar, desenham ousados arranjos de som e de imagem. O brincar e a infância, presentes como temática e como linguagem, embaralham as fronteiras entre seriedade e humor. O livro compõe-se de 38 poemas escritos de 2007 a 2017.

*

Ficha técnica

Título: Cambalhota
Autor: Sílvio Diogo
Capa e contracapa: aquarelas de Carolina Teixeira (Itzá)
Páginas: 64
Formato: 14,0 x 21,0 cm
Peso: 150 g
Lançamento: 26/05/2018
ISBN: 978-85-65410-05-2
Diamantina: Arte Desemboque Casa Editorial, 2018

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Como adquirir o livro

A partir de 14 de maio, pedidos poderão ser feitos pelo endereço eletrônico cambalhota.poesia@gmail.com / pagamento por depósito ou transferência bancária (Caixa Econômica Federal).

Valor: 28,00 (livro) + 6,00 (frete) = 34,00 reais

O livro também estará à venda na Estante Virtual. Nesse caso, há as opções de pagamento por cartão de crédito e por boleto bancário.

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Ouça dois poemas do livro na voz do autor:

Essa lei

O menino e o gigante

Desvio e transcendência em Modelos vivos, de Ricardo Aleixo

Sílvio Diogo

O que se busca é a vida da língua para produzir vida.
(
Marc-Alain Ouaknin)

I

Venho devolver, com gratidão, uma palavra minha a Ricardo Aleixo, a partir da leitura de seu Modelos vivos1. A ação de inscrever o livro neste tempo nosso é de louvar e saudar. Dediquei-me à obra como a um álbum (o “objeto intersígnico” que o autor menciona), e cada letra, cada imagem, cada sonoridade ali dispostas transparecem muito bem cuidadas, trabalhadas, buriladas; elas constroem, especialmente, um caminho de leitura que atinge, no conjunto, uma coesão fortíssima, tendo como eixo o título (Modelos vivos), tão rico em possibilidades. A disposição dos poemas ao longo do livro é extremamente feliz, em termos visuais e de sentido. Bom de tocar, estimulante alimento. Ressalte-se o primoroso trabalho de Bruno Brum na editoração e na composição gráfica, em conjunto com o autor.

Modelar a matéria visual, a matéria tátil, a matéria sonora, esta arte fronteiriça da poesia (e da poesia de Aleixo) requer uma pesquisa de linguagem que não prescindirá dos modelos, que os homenageará textual e implicitamente, amando-os, vivos. Eles e elas, modelares, são evocados, incorporados, mas não se confundem com a corporalidade da escrita e da voz do autor — maduras, vigorosas. Modelos vivos, tal como se diz no cinema, é “livro de autor”.

A arte anda no livro qual aranha na teia: vai compondo, desde o corpo em direção ao ambiente, a linha tênue, torta, perigosa, onde, no entanto, mora o chão firme. A arte também está presente de outros ângulos, problematizada como mercadoria (uma a mais entre as outras todas?), neste mundo desumanidade. O livro, assim o li, ao desejar “devolver o dansarino à dansa”2, deseja captar/provocar/faiscar em nós (em nosso ser modelo-máquina-autômato-vivente) a humanidade-arte, a vida pulsante, a pele, o manto, “a impossível proeza”3.

Modelar (desta vez como adjetivo) é também a vida em família, o estar entre outros, é mirar-se nos modelos da mãe e do pai, é entender-se filho e, depois, também pai. Irmão, artista. Redescobrir-se humano, ser de palavra, corpo a ser lido, segredo a decifrar. Os vivos do título criam, nas entrelinhas e nas entrelínguas, um bom embate com a morte: “atrapalhar o trabalho da morte”4 é também saber que, além e aquém da morte, somos fisgados por outros tantos tipos de silêncio e enclausuramento, mais graves, talvez, do que ela própria. A imagem da captura do peixe, da captura do humano — a imagem do rapto da imagem — eis a poesia.

Leio o poema-par “tem que ter palavra para ser humano” / “tem que ser humano para ter palavra”5 serpenteando por todo o livro, cutucando as noções de fixidez e abertura. A firmeza ética do “ter palavra” não significa ter palavra fixa, ter uma palavra, uma palavra rígida.

Manter a palavra. Romper com a palavra. Justamente essa abertura, a possibilidade e o desejo de “ainda um dia poder ver”6, tocou-me de modo pungente e me evocou um trecho do livro Biblioterapia, do rabino francês Marc-Alain Ouaknin: “Por que lemos? Por que interpretamos? A resposta é clara: para fazer com que o ‘ser infinitivo’ não se transforme em ‘ser definitivo’, para fazer com que a existência possa ainda ser entendida como transcendência”7.

Que nenhum “impulso de desistência”8, a fantasmar a vida e o trabalho do poeta, possa pulsar mais do que a imperiosa transcendência.

*

“Desvio”, poema de Ricardo Aleixo em ‘Modelos vivos’

II

Quis incluir um apontamento no correr das linhas anteriores, mas o tema exigiu a criação de um item à parte. Ele refere-se, em princípio, ao poema-objeto “Desvio”, mas deságua sobre Modelos vivos e sobre questões de arte e ciência. Sobre a vida. Ricardo Aleixo constrói, em “Desvio”, uma estrutura circular, formada por colagens em que se repetem as palavras do poema:

pelé encontra mazurkiewcs. num átimo, o gol feito que, ainda hoje, o demo desfaz, ou melhor, desvia para o círculo dos erros perfeitos.9

Um dos mais belos gols não feitos da história do futebol, o lance de Pelé e Mazurkiewcs na Copa do Mundo de 1970, visto à distância ou ainda bem de perto, dança entre o erro e o acerto, a via e o desvio. Ricardo Aleixo, modelando com linha e círculo, impede que a bolinha do olhar do leitor encontre a meta do fim da frase. A estrutura visual do poema assemelha-se a uma concha ou a um funil — mergulha-se em um buraco que é como o de nosso ouvido ou o de um gramofone.

Em Ulysses Gramophone, Jacques Derrida escreve acerca do James Joyce de Finnegans wake:

Ele [Joyce] repete, mobiliza e babeliza a totalidade assimptótica do equívoco. Faz dele ao mesmo tempo seu tema e sua operação. Ele tenta nivelar à maior sincronia possível, a toda velocidade, o maior poder das significações, contidas em cada fragmento silábico, fundindo cada átomo de escrita para sobrecarregar o inconsciente com toda a memória do homem: mitologias, religiões, filosofias, ciências, psicanálise, literaturas. E a operação desconstrói a hierarquia que, em um sentido ou outro, ordena essas últimas categorias a uma ou outra delas. Esse equívoco generalizado não traduz uma língua em outra a partir do senso comum. Ele fala várias línguas ao mesmo tempo.”10 [grifo nosso]

Se aqui cito a passagem, faço-o menos para tecer uma comparação entre os escritores, e mais para frisar uma certa relação de procedimentos11. A expressão “totalidade assimptótica do equívoco” ficou a reverberar em mim e levou-me a sendas antes inexploradas. No ano de 2004, o prêmio Nobel de Física foi concedido a três pesquisadores (David J. Gross, Frank Wilczek e H. David Politzer) “pela descoberta/invenção da chamada ‘liberdade assimptótica’, em artigos publicados na ‘Physical Review Letters’ que datam desde 1973”12.

Etimologicamente, “assimptótico” vem do grego asúmptótos, ‘que não se reduz, não coincidente’. Segundo Sónia Duarte — em texto publicado no interessantíssimo sítio Flutuante:

A “liberdade assimptótica” consiste numa relação não intuitiva […] em que a força dita forte (que mantém a coesão entre os quarks, partículas constituintes do protão e do neutrão, os quais, por sua vez, constituem os núcleos dos átomos), a distâncias muito curtas, torna-se tão fraca que os quarks se comportam como partículas livres, enquanto que, aumentando a distância, ganha intensidade, impedindo que existam partículas isoladas. Passa-se algo de semelhante com a força elástica que actua numa mola: quanto mais esticada, maior é a força exercida. Quando os dois pólos de atracção tendem para uma vizinhança máxima, quando quase se tocam, a força forte torna-se fraca.13

Estamos mesmo é andando em círculos”, escreve Aleixo em outro poema14 — “andando em círculos/ crentes/ de que se seguirmos/ em linha reta/ olhos fixos no pleno branco vazio cegante/ como temos feito/ desde o começo/ deixaremos de andar em círculos”.

As complexas relações entre distância e proximidade, força e fraqueza, atração e repulsa ganham corpo de pergunta e exercício de resposta na arte de Ricardo Aleixo, que confessa simpatia pelo dito latino festina lente, “apressa-te lentamente”, paradoxo que sentimos evocado na explicação acerca das partículas constitutivas do átomo.

A autora Sónia Duarte ressalta que o curioso, na descoberta dos cientistas, é que o comportamento das partículas, no caso em questão, “é contrário ao das outras três forças fundamentais: gravitacional, electromagnética e fraca (responsável pela radioactividade)”. E arrisca a extendermo-nos do sentido físico-atômico para uma dimensão filosófica, com reflexos sobre a liberdade e o desejo:

A “liberdade assimptótica”, extrapolada da dimensão subatómica para a dimensão molar, numa assumida apropriação filosófica de um postulado científico, coloca várias questões sobre a liberdade. Somos mais livres na esfera da intimidade, isto é, em relação aos que nos são mais próximos, e somos propensos a sermos atraídos com mais força e intensidade para o que está mais longe de alcançar? A liberdade implica sacrificar ou restringir o espaço do seu território, fazer recuar o limite da sua propriedade ou privacidade? A excessiva proximidade provoca o enfraquecimento do desejo (fenómeno do orgasmo)? Para o fortalecimento do desejo contribui a distância relativamente ao pólo da atracção (fenómeno da saudade), numa relação directamente proporcional? O amável (atracção) à distância pode tornar-se detestável (repulsão) na intimidade? A liberdade e a força do desejo são grandezas inversamente proporcionais?

Pode ser que as perguntas se multipliquem e nos transportem para muito longe do inicialmente proposto (uma leitura de Modelos vivos; o poema “Desvio”; o lance de Pelé e Mazurkiewcs), mas, seguramente, a trilha circular do comportamento vivo nos desviará de volta a um novo centro, puxando-nos pelo corpo, com delicadeza e força, para o acerto e para a errância, para o acaso e a procura, para um encontro com a poesia do ser — também chamada humanidade, também chamada transcendência.

fev./2013

*

Notas

1 Aleixo, Ricardo. Modelos vivos. Belo Horizonte: Crisálida, 2010.

2 Aleixo, Ricardo. Op. cit., pp. 133-44.

3 Idem, p. 93.

4 Idem, p. 105.

5 Idem, orelhas do livro.

6 Idem, p. 12.

7 Ouaknin, Marc-Alain. Biblioterapia. São Paulo: Loyola, 1996, p. 122. Tradução de Nicolás Niymi Campanário.

8 Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 11.

9 Idem, pp. 120-1.

10 Derrida, Jacques. Ulysses Gramophone. Deux mots pour Joyce. Galilée, Paris, 1987, p. 29. In: Ouaknin, Marc-Alain. Biblioterapia, op. cit., p. 139.

11 Cf., em Modelos vivos, o poema visual “Babel adormecida”, cuja leitura linear é: “Babel adormecida agora sonha novas línguas como que mortas”. In: Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 123.

12 A partir deste ponto, reporto-me ao texto “Da liberdade assimptótica”, de Sónia Duarte. Disponível neste link. Acesso em: 15 fev. 2013.

13 Duarte, Sónia. Cit.

14 Aleixo, Ricardo. Op. cit., p. 100.