“O homem azul do deserto”, Cidinha da Silva

O HOMEM AZUL DO DESERTO
crônica de Cidinha da Silva —

na voz de Sílvio Diogo

Bodô, meu irmão, descobri sua origem. Você é Tuareg! Tuareg do Vale do Jequitinhonha.

Como descobri? Por um acaso estelar. Pera que te conto. Escrevi o livro do Manu, um menino que pescava estrelas no céu do Mali, do Burkina Faso, do Níger, de algum lugar por ali. Coisa que para nós, de Minas, gente que não tinha mar antes da lama em Mariana, era a invenção mais natural do mundo. Pois bem, o desejo de Manu pescar estrelas foi inspirado por lenda do povo Tuareg, que diz que os Homens Azuis do Deserto quando se perdem nas areias profundas do Norte da África espetam uma estrela com a lança e ela os guia no caminho de volta.

Tá! Não entendeu ainda por que você é um Tuareg e ainda menos por que eles são azuis? Calma, moço! Já explico. É o seguinte, os Tuareg são um povo nômade que vive na região onde se passa a história do Manu. Eles usam aquela túnica comprida de mil e uma utilidades que protege do calor escaldante durante o dia e do frio cortante das madrugadas no deserto. A túnica é azul e quando o usuário transpira, umedece a tinta, uma espécie de anil. A cor impregna a pele, deixando-a com tom azulado. Por isso, há séculos, eles são conhecidos como os Homens Azuis do Deserto.

Agora, você é um Tuareg porque encontrei outro Tuareg que é idêntico a você. A mesma pele acobreada, os mesmos lábios de café, os cílios grandes e espessos que dão um charme especialíssimo ao olhar. Sério, mano! Vocês parecem gêmeos.

(…)

*

“O homem azul do deserto” (fragmento). Do livro O homem azul do deserto. Rio de Janeiro: Malê, 2018.

*

Cidinha da Silva é mineira, prosadora e dramaturga. Autora de 14 livros autorais. Um Exu em Nova York e O homem azul do deserto são os mais recentes. No teatro destaca Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas. Tem textos traduzidos para o francês, espanhol, inglês e italiano. Organizou o livro Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil.

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“Mimo”, poema de Sílvio Diogo na voz de Joana Antolin Lourenço

MIMO
poema de Sílvio Diogo —

na voz de sua filha, Joana Antolin Lourenço

Eu guardo dentro do ninho
O que não posso mostrar
Dentro do ninho está
Pois tem hora de voar
Eu guardo dentro do ninho…
— Filhote de passarinho!

*

Do livro Cambalhota. Diamantina: Arte Desemboque, 2018.

*

Foto: Sílvio Diogo (set./2014)

*

Trilha: “Olha o passarinho, domine!”, de Heitor Villa-Lobos (Guia Prático IV, nº 3)
Sonia Rubinsky, piano

“Luminescência”, Clarice Lispector

LUMINESCÊNCIA
— Clarice Lispector —

na voz de Sílvio Diogo

(…)

Pedir? Como é que se pede? E o que se pede?
Pede-se vida?
Pede-se vida.
Mas já não se está tendo vida?
Existe uma mais real.
O que é real?

E ela não sabia como responder. Às cegas teria que pedir. Mas ela queria que, se fosse às cegas, pelo menos entendesse o que pedisse. Ela sabia que não devia pedir o impossível: a resposta não se pede. A grande resposta não nos era dada. É perigoso mexer com a grande resposta. Ela preferia pedir humilde, e não à sua altura que era enorme: Lóri sentia que era um enorme ser humano. E que devia tomar cuidado. Ou não devia? A vida inteira tomara cuidado em não ser grande dentro de si para não ter dor.

Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

*

Do livro Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. 6ª ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978.

*

Clarice Lispector foi romancista, contista, cronista, tradutora e jornalista. Nasceu em Tchetchelnik, aldeia da Ucrânia, então pertencente à Rússia, a 10 de dezembro de 1920. Foi registrada como Haia Lispector, terceira filha do comerciante Pinkouss e de Mania Lispector. A família chega a Maceió em março de 1922. No Brasil adotam novos nomes. O pai se torna Pedro; Mania, Marieta; Leia (a irmã mais velha) se transforma em Elisa; e Haia — que significa vida, ou clara —, em Clarice. Em 1925 a família muda-se para Recife. Sua mãe morre em 21 de setembro de 1930, aos 41 anos. Os Lispector mudam-se para o Rio de Janeiro em 1935. Em 1939 Clarice começa o curso superior na Faculdade Nacional de Direito. No dia 23 de janeiro de 1943, em cerimônia civil, casa-se com Maury Gurgel Valente. No final do ano, conclui, com o marido, o curso de direito. Seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, elaborado entre março a novembro de 1942, é publicado em 1943. A partir de 1944, em companhia do marido, diplomata, vive durante 15 anos em países como Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, onde escreve os seus primeiros livros. Em 1959, após seu divórcio, volta a residir no Brasil e publica alguns de seus livros principais, como Laços de família (1960), A paixão segundo G.H. (1964), Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres (1969), Água viva (1973) e A hora da estrela (1977). No Rio de Janeiro, atua como jornalista no Jornal do Brasil, no Correio da Manhã e no Diário da Noite, escrevendo crônicas e artigos sobre moda, beleza e comportamento. Em 1976, recebe o primeiro prêmio do 10º Concurso Literário Nacional, de Brasília, pelo conjunto de sua obra. Morre no dia 9 de dezembro de 1977, véspera de seu aniversário de 57 anos.

*

Foto: Clarice Lispector por Maureen Bisilliat. Agosto de 1969. / Acervo IMS

“Pequeno Gênesis”, Paulo Nunes

PEQUENO GÊNESIS
poema de Paulo Nunes —

na voz de Sílvio Diogo

I

No começo era
o substantivo.

Palavra, palavra,
coisa.

O rio não corria:
era um rio.

As estrelas eram
maiores,
sem nebulosas,
isto é, adjetivos.

E o menino tinha
olhos.

II

Soube então
que o rio queria
chegar ao mar.

Que a ave gostava
de pousar
na árvore.

E que embaixo
da árvore
havia pedras.

Criou-se assim
a conjunção.

E o rio chegou
ao mar.

III

Mas havia
uma coisa
em movimento
que era o
próprio movimento:

era o vento.

Então percebeu
que as coisas todas
eram em movimento.
As coisas todas:
o momento.

E o verbo
se fez tempo.

Pois desde então
ventava.

IV

Mas já
naquele tempo
o menino
pensava.

E passou a achar
que as coisas
em si
eram poucas,

que as coisas
careciam
de outras palavras.

O menino então
teve alma.

E o adjetivo
turvou
a face das águas.

V

E fez-se
o escuro.

E o vento
na árvore
inventou
a interjeição.

Inventou
o substantivo
abstrato:

o medo!

E o nada passou
a ser Deus
— incomunicável.

*

(1991, inédito em livro)

*

Paulo Nunes nasceu em Patos de Minas a 21 de maio de 1965. Vive em São Paulo. Poeta e letrista musical, formado em filosofia pela USP, tem textos publicados em diversas revistas e jornais literários. O corpo no escuro, seu primeiro livro de poemas, foi lançado em 2014 pela Companhia das Letras. Editou, em 2001, a obra Meu canto é saudade, que reúne a produção de Juca da Angélica, expoente da poesia oral do interior de Minas Gerais. Como letrista, compôs, com diversos parceiros, mais de duas centenas de canções. Entre os discos que resultaram dessas parcerias, estão Canções que Ouvi na Lua, de Eduardo Barcelos (1999); Mano Sinistra, da banda homônima (2013); Desaboio, de Saulo Alves (2014); Nossa Ciranda, de Victor Mendes (2017); Alta Velocidade Parada, de Danilo Gonzaga Moura (2018). É integrante do Circuito de Música Dércio Marques — Dandô —, projeto idealizado por Kátya Teixeira. Criou há três anos, em São Paulo, o Instituto Juca de Cultura (IJC), que produz shows, saraus, palestras, oficinas, gastronomia, entre outras atividades.

*

Foto do autor: Sandra Daniela Mora

*

Trilha: “Rio Manso”, de Victor Mendes
(Victor Mendes: viola; Thomas Rohrer: rabeca)
Do CD Nossa Ciranda (2017), de Victor Mendes

“Processos”, Ana Elisa Ribeiro

PROCESSOS
poema de Ana Elisa Ribeiro —

na voz de Sílvio Diogo

O amor é um processo químico.
O amor é um processo biológico.
O amor é explicável pela história,
com implicações geoespaciais.
O amor é uma questão híbrida.

A fotografia é um processo químico.
A fotografia é um processo físico.
A fotografia é uma questão artística,
jornalística e tecnológica,
com implicações éticas e financeiras.
A fotografia é uma questão híbrida.

O que dizer de nossas fotografias rasgadas?
O que dizer destas fotos em que não estamos
lado a lado, e nem podemos nos tocar?
O que dizer das fotos que não tiramos
daqueles dias de amor nascente?
E destas fotos em que estamos
com os pares errados?

O que não é fotografia
dependerá da memória.

A memória é um processo químico.
A memória é um processo biológico.
A memória é uma questão para nós,
com implicações para o futuro.

O amor é um processo.
A fotografia é um processo.
A memória não é confiável.
O amor é sempre um processo.
A fotografia, não.
Olhar minuciosamente a fotografia
é um processo híbrido.
A memória é um processo que falha.
Resta confiar na ciência e no amor.

*

Do livro Álbum. Belo Horizonte: Relicário, 2018.

*

Ana Elisa Ribeiro, 1975, é mineira de Belo Horizonte. Autora de Poesinha (BH: Pandora, 1997), Perversa (SP: Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (BH: InterDitado, 2008), Anzol de pescar infernos (SP: Patuá, 2013), Xadrez (BH: Scriptum, 2015), Marmelada (BH: Coleção Leve um Livro, com Bruno Brum, 2015), Por um triz (BH: RHJ, 2016). Além desses livros de poesia, tem outros de crônica, conto e infantojuvenis publicados por diversas editoras brasileiras. Participou de antologias, revistas e jornais no Brasil, em Portugal, na França, no México, na Colômbia e nos Estados Unidos. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, professora e pesquisadora de Edição no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG).

*

Foto da autora (com a mãe, Maria Carmen): Sílvio Diogo

“tor e a dor”, Waldemar Euzébio Pereira

tor e a dor
poema de Waldemar Euzébio Pereira —

na voz de Sílvio Diogo

às vezes me pacifico
assim
imperceptível
fico quieta
hiber nada
nula de movimentos
só o cérebro ferv ilha

em redondilhas
sevilha
em redondilhas
sevilha

enquanto dançamos
maravilhas de bailados
a roda da vida rodopia
e uma vertigem lassa
me alcança e me
abraça

em redondilhas
sev ilha
em redondilhas
sev ilha

antes que me deem por morta
agarro um touro à unha e
já estou pronta pra outra

*

Do livro 25 boleros entre sambas. Belo Horizonte: Mazza, 2014.

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Waldemar Euzébio Pereira nasceu em Montes Claros, norte de Minas Gerais, a 25 de junho de 1946. O pai, Geraldo Euzébio, que tocava violão, bandolim e cavaquinho, trouxe as primeiras referências musicais. Aos 15 anos, compunha e tocava violão. Concluiu o curso de violino no Conservatório Lorenzo Fernandez, em 1970. Integrou o Grupo Banzé de danças folclóricas e, como ator, atuou em diversas peças teatrais em sua cidade natal. Em junho de 1971, mudou-se para Belo Horizonte, onde constituiu família, formou-se em Direito na UFMG e, ainda hoje, reside. Prosoema, seu livro de estreia, foi lançado em 1976 (edição do autor). Pela Mazza Edições publicou, em 1993, Do cinza ao negro (poemas); em 2004, Achados (contos); e, em 2014, 25 boleros entre sambas (poemas).

waldemas.com

*

Trilha: “Nosotros”, bolero do cubano Pedro Junco (1916-39), na versão de Omara Portuondo com a Orquestra Todos Estrellas — da série de CDs 5 Leyendas, 2005.

Imagem: sobreposição de fotos de Jorge Quintão