“O sentido se sente com o corpo”, Josely Vianna Baptista

Li em voz alta, pelo celular, um poema mui envolvente de Josely Vianna Baptista, “O sentido se sente com o corpo”. Palavra rente à pele, som de querer perto. “Como se diz o que está por um triz?” Aprocheguem-se…

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O sentido se sente com o corpo
— Josely Vianna Baptista

“o sentido se sente com o corpo, como o olho se molha quando chora. o sentido é quente como o corpo, como o olho que brilha quando gosta. o sentido se pensa com o corpo, que pressente esse sentir que não mente. (como se diz o que nunca se diz? o que se desdiz? como se diz o que se diz a esmo? como se diz mesmo?) o sentido se dobra como o corpo que sente outro corpo rente ao corpo, se veste com o corpo que desveste os véus de seus segredos e seus medos. vai-se lendo bem lento, em silêncio, quando quase do avesso me convenço. (como se diz o que nunca se diz? como se quis o que nunca se fez? como se faz o que nunca se quis? como se diz o que está por um triz?) o silêncio vai-se lendo em silêncio, quando quase do avesso me convenço. vai-se lendo sentido no silêncio, vai-se vendo, do avesso me convenço. o silêncio vai dizendo ao silêncio: assim se diz o que se diz mesmo. assim que diz o que se quer — desejo”

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Do livro “AR”. São Paulo: Iluminuras; Fundação Cultural de Curitiba, 1991.

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Fotografia das estrelas: Elisa Borges

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Da profissão do poeta

Da profissão do poeta (1956)
— Geir Campos

A Paulo Mendes Campos

Da Consolidação das leis do trabalho:
“Não haverá distinção relativa à espécie de emprego ou à condição do trabalho, seja intelectual ou manual ou técnico”.

 

Da Identificação Profissional

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.

 

Do Contrato de Trabalho

Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio do meu canto.
Embora a dor ilhada ou coletiva
me doa, antes celebro as coisas belas
que movem o sol e as demais estrelas
— antigos temas que parecem novos
de tão gratos ao meu e aos outros povos.

 

Da Relação com Vários Ofícios

Meu verso tine como prata boa
pesando na confiança dos bancários;
os empregados no comércio bem
sabem como atender aos que encomendo
e recomendo mais do que ninguém;
aos que se ligam em telefonia
com ou sem fio, rádio, a esses também
sei dizer à distância ou de mais perto
a cifra e o texto no minuto certo;
para os músicos profissionais,
sem castigar o timbre das palavras
modulo frases quase musicais;
para os operadores de cinema
meu verso é filme bom que a luz não queima;
trilho também as estradas de ferro
e chego ao coração dos ferroviários
como um trem sempre exato nos horários;
às equipagens das embarcações
de mares ou de lagos ou de rios
meu verso fala doce e grave como
doce e grave é a taboca dos navios;
nos frigoríficos derrete o gelo
da apatia, se é para derretê-lo,
meu canto a circular nas serpentinas;
à boca da escotilha ou nas esquinas
do cais, o meu recado é força viva
guindando a atenção dos homens da estiva;
desço cantando aos subsolos e às minas
onde outros operários desenterram
o minério de suas artérias finas;
a outros, que dão sua têmpera aos metais,
meu canto ajuda feito um sopro a mais
aflando o fogo em flâmulas vermelhas;
aos colegas que lidam nos jornais
boas noticias dou e, mais do que isso,
jeito de as repetir e divulgar
quando o patrão quisera ser omisso;
à gente miúda, pronta a ser maior,
passo lições de um magistério puro
e o que é dever escrevo a giz no muro;
para os químicos sei fórmulas novas
que os mártires elaboram nas covas…
e a todos que trabalham vai assim
meu canto sugerindo meio e fim.

 

Do Horário do Trabalho

Marcadas as minhas horas de ofício,
de dia em sombras pelo chão e à noite
no rútilo diagrama das estrelas,
só quem ama o trabalho sabe vê-las.

 

Dos Períodos de Descanso

Seja domingo ou dia de semana,
mais do que as horas neutras do repouso
confortam-me os encargos rotineiros;
meu descanso é confiar nos companheiros.

 

Do Direito a Férias

Nunca me participam por escrito
ou verbalmente os ócios que mereço,
mas sempre gozo bem o merecido:
pois o ócio não é ofício pelo avesso?
É quando fio o verso; depois teço.

 

Da Remuneração das Férias

Em férias tenho a paga de saber
lembrado o verso meu por quem o inspira;
é como se outra mão tangesse a lira

 

Do Salário Mínimo

Laborando entre os pontos cardinais,
de norte a sul, de leste a oeste, vou
cobrando aqui e ali quanto me basta:
o privilégio de seguir cantando.
(Imposto é cuidar onde e como e quando.)

 

Do Expediente Noturno

Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
sem se tornar com isso menos pura
a voz sobe uma oitava na mistura.

 

Da Segurança do Trabalho

Mesmo no escuro, canto. Ao vento e à chuva,
canto. Perigo à vista, canto sempre;
e é clara luz e um ar nunca viciado
e sol no inverno e fresca no verão,
meu canto, e sabe a flores se é de flores
e a frutos se é de frutos a estação.
Só não me esforço à luz artificial
com que a má fé de alguns aos mais deslumbra
servindo-lhes por luz o que é penumbra;
também quando o ar parece rarefeito
a lira engasga, o verso perde o jeito.

 

Da Higiene do Trabalho

Não canto onde não seja o sonho livre,
onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito;
para enganar o tempo ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto…
Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança.

 

Da Alteração de Contrato Etc.

Meu ofício é cantando revelar
a palavra que serve aos companheiros;
mas se preciso for calar o canto
e em fainas diferentes me aplicar
unindo a outros meu braço prevenido,
mais serviço que houver será servido.

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CAMPOS, Geir. Da profissão do poeta. 1ª ed. Rio de Janeiro, Philobiblion e Civilização Brasileira, 1956. Xilogravuras de Manuel Segalá. Tiragem de 500 exemplares.

Essa lei

Com o poema “Essa lei”, de minha autoria, começo a dar voz à leitura de escritos vários – um propósito que vinha há tempos acalentando e que agora se inaugura. Desenho do ar. Do chão. Do som. Bora lá, se acheguem…

 

ESSA LEI
— Sílvio Diogo

Essa lei me escapa.
Ela confunde.
Essa lei escolhe.
Essa lei encolhe.
Ela quase some.
Não, nela não há desespero,
há/à espera:
de que a gente esqueça,
de que a gente espere
que ela dê as caras,
que ela dê as cartas.
Essa lei pacífica
bate continência.
Ela é fazendária.
Essa lei arrenda.
Ela fala em público!
Essa lei assombra.
É o degrau de cima.
Essa lei assola.
Essa lei assusta.
Ela desacorda.
Essa lei sintética
vira o nosso Juízo.