“Pode ligar o chuveiro?”, Allan da Rosa

PODE LIGAR O CHUVEIRO?
conto de Allan da Rosa —

na voz de Sílvio Diogo

*

(…)

Alguém me abre o chuveiro aqui, por favor?

Pedreiro considerado foi o bisavô, Seu Tebas de Jenê. Nenhuma casa que fez há 30 anos precisou reforma. Furava cada tijolinho dos muros e chapiscava dentro. Não tem degrau de escada feito por sua colher que tenha rachado, procure quem quiser. Dizem as noras que construção hoje, com dois meses de feitura, o cimento já lascou tudo na ponta, fiação umedeceu, é um tal de porta empenada e empoçamento, fácil. Pra voltar e cobrar conserto. Muro dura nem três anos e bambeia, trinca ou arreia. Três temporais de validade.

Ele sabia manejar o clima nos cômodos, deixar aquecido na invernia e fresquinho quando brasava o verão. Dominava lápis, alicate e peneira, até arquiteto pedia sua opinião. Alguns ainda vêm e convencem a sair, empurram sua cadeira de rodas pelas praças antigas do bairro do Catalônia, ninguém mexe não… tá com o bisa, tá com o ganga. E também rodam lá pela nobreza do Parque Granola. Quarteirões inteiros onde qualquer parede caiada teve estudo e toque do bisavô. Tantos bangalôs, tantas mansões assinadas por escritório de arquitetura…

A tia Ceci era menininha ainda e ruminava o nojo de beijar sua mão na porta da escola, de pedir bença encardida. Um dia confessou, pura, tadinha. Pediu pra não acarinhar a cabeça também, sua unha de encher laje era a comédia das amiguinhas. Peão. Porqueira. Vergonha do esmalte de cimento.

Don Tebas de Jenê pesquisou sabão, campeou xampu que dissolvesse o vexame escombroso da sua filha… uma semana sem ler sobre construção. E chegou mesmo foi no sabão de coco. Mais a ponta de canivete futricando unha debaixo da água quente.

Restou esse descabelo de esfregar os dedos até sangrar. Se tivesse força… mas nem alho hoje pica mais, nem casinha de baralho sua tremura güenta montar. E esse sestro não perdeu.

Desligar pras crianças tomar banho. Única infiltração em sua viga é a querença de trabalhar, corrosão no tédio que espeta a costela.

Bonito a erezada brincando. Don Tebas escuta a inocência e filtra ali o verdadeiro da passagem. Tem hora que pouco importa quem vai lhe dar o comprimido e limpar seu fraldão.

Mas limpar minha bunda e minha ferida na perna eu faço sozinho!

(…)

*

“Pode ligar o chuveiro?” (fragmento). Do livro Reza de mãe. São Paulo: Editora Nós, 2016.

*

Allan da Rosa nasceu em São Paulo, a 10 de abril de 1976. Escritor e educador, publicou Vão (2005), Da Cabula (2006), Zagaia (2007), Pedagoginga, autonomia e mocambagem (2013), Reza de mãe (2016), Zumbi assombra quem? (2017), entre outros livros. Criou em São Paulo, em 2005, o selo Edições Toró, ligado ao movimento de literatura periférica da cidade. Cursou graduação em história na Universidade de São Paulo, onde em seguida fez mestrado em educação. Atualmente é doutorando também na Faculdade de Educação da USP.

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“Aula de desenho”, Maria Esther Maciel

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AULA DE DESENHO
poema de Maria Esther Maciel —

na voz de Sílvio Diogo

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Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.

*

Do livro Triz. Belo Horizonte: Orobó Edições, 1998.

*

Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas, a 1º de fevereiro de 1963. Vive em Belo Horizonte desde 1981. Escritora, ensaísta, professora na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicou, entre outros, Dos haveres do corpo (poesia, 1985), Triz (poesia, 1998), O livro de Zenóbia (ficção, 2004), O livro dos nomes (ficção, 2008), As ironias da ordem: coleções, inventários e enciclopédias ficcionais (ensaio, 2010), A vida ao redor (crônicas, 2014), Literatura e animalidade (ensaio, 2016).

*

Fotografia da autora: Rubner de Abreu.

*

Agradecimentos a Maria Elisa Almeida pela indicação do poema.

“Nascente”, Cuti

Bom dia, 2018. Bem-vindo seja.
Na aurora deste tempo, volto-me à mina d’água da escrita do mestre Cuti.
Com alegria li em voz alta o seu poema “Nascente”.
Feliz Ano Novo! Axé!

*

NASCENTE
poema de Cuti —

na voz de Sílvio Diogo

*

o broto brota sob a bota
que pisa
a gente cala por enquanto
porque precisa
a nossa fala que o tambor fala
é brisa
do novo que há de ver
a palma
a calma trancada e reprimida
a trama já tramada que está verde
a verde verdade preta amadurece
ama e cresce sob a bota
imagem dum pilão que mói que soca

o broto sob a bota brota
que pisa
o broto brotalvorada
e nova rota
e grita

o broto é negro como o riso-terra
e espera apenas que outros
bebam do suor dos rios.

*

CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

*

Cuti é pseudônimo de Luiz Silva. Nasceu em Ourinhos (SP), a 31 de outubro de 1951. Formou-se em letras (português/francês) na Universidade de São Paulo, em 1980. Mestre em teoria da literatura e doutor em literatura brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (1999/2005). Foi um dos fundadores e membro do Quilombhoje/Literatura, de 1983 a 1994, e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros, de 1978 a 1993.

www.cuti.com.br

“A máquina do mundo”, Carlos Drummond de Andrade

Arrisquei ler em voz alta o poema “A máquina do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.

“… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo…”

 

A MÁQUINA DO MUNDO

poema de Carlos Drummond de Andrade —

na voz de Sílvio Diogo

*

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

*

Do livro Claro Enigma (1951)

“O sentido se sente com o corpo”, Josely Vianna Baptista

Li em voz alta, pelo celular, um poema mui envolvente de Josely Vianna Baptista, “O sentido se sente com o corpo”. Palavra rente à pele, som de querer perto. “Como se diz o que está por um triz?” Aprocheguem-se…

*

O sentido se sente com o corpo
— Josely Vianna Baptista

“o sentido se sente com o corpo, como o olho se molha quando chora. o sentido é quente como o corpo, como o olho que brilha quando gosta. o sentido se pensa com o corpo, que pressente esse sentir que não mente. (como se diz o que nunca se diz? o que se desdiz? como se diz o que se diz a esmo? como se diz mesmo?) o sentido se dobra como o corpo que sente outro corpo rente ao corpo, se veste com o corpo que desveste os véus de seus segredos e seus medos. vai-se lendo bem lento, em silêncio, quando quase do avesso me convenço. (como se diz o que nunca se diz? como se quis o que nunca se fez? como se faz o que nunca se quis? como se diz o que está por um triz?) o silêncio vai-se lendo em silêncio, quando quase do avesso me convenço. vai-se lendo sentido no silêncio, vai-se vendo, do avesso me convenço. o silêncio vai dizendo ao silêncio: assim se diz o que se diz mesmo. assim que diz o que se quer — desejo”

*

Do livro “AR”. São Paulo: Iluminuras; Fundação Cultural de Curitiba, 1991.

*

Fotografia da autora: Francisco Faria

“Da profissão do poeta”, Geir Campos

Da profissão do poeta (1956)
— Geir Campos

A Paulo Mendes Campos

Da Consolidação das leis do trabalho:
“Não haverá distinção relativa à espécie de emprego ou à condição do trabalho, seja intelectual ou manual ou técnico”.

 

Da Identificação Profissional

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.

 

Do Contrato de Trabalho

Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio do meu canto.
Embora a dor ilhada ou coletiva
me doa, antes celebro as coisas belas
que movem o sol e as demais estrelas
— antigos temas que parecem novos
de tão gratos ao meu e aos outros povos.

 

Da Relação com Vários Ofícios

Meu verso tine como prata boa
pesando na confiança dos bancários;
os empregados no comércio bem
sabem como atender aos que encomendo
e recomendo mais do que ninguém;
aos que se ligam em telefonia
com ou sem fio, rádio, a esses também
sei dizer à distância ou de mais perto
a cifra e o texto no minuto certo;
para os músicos profissionais,
sem castigar o timbre das palavras
modulo frases quase musicais;
para os operadores de cinema
meu verso é filme bom que a luz não queima;
trilho também as estradas de ferro
e chego ao coração dos ferroviários
como um trem sempre exato nos horários;
às equipagens das embarcações
de mares ou de lagos ou de rios
meu verso fala doce e grave como
doce e grave é a taboca dos navios;
nos frigoríficos derrete o gelo
da apatia, se é para derretê-lo,
meu canto a circular nas serpentinas;
à boca da escotilha ou nas esquinas
do cais, o meu recado é força viva
guindando a atenção dos homens da estiva;
desço cantando aos subsolos e às minas
onde outros operários desenterram
o minério de suas artérias finas;
a outros, que dão sua têmpera aos metais,
meu canto ajuda feito um sopro a mais
aflando o fogo em flâmulas vermelhas;
aos colegas que lidam nos jornais
boas noticias dou e, mais do que isso,
jeito de as repetir e divulgar
quando o patrão quisera ser omisso;
à gente miúda, pronta a ser maior,
passo lições de um magistério puro
e o que é dever escrevo a giz no muro;
para os químicos sei fórmulas novas
que os mártires elaboram nas covas…
e a todos que trabalham vai assim
meu canto sugerindo meio e fim.

 

Do Horário do Trabalho

Marcadas as minhas horas de ofício,
de dia em sombras pelo chão e à noite
no rútilo diagrama das estrelas,
só quem ama o trabalho sabe vê-las.

 

Dos Períodos de Descanso

Seja domingo ou dia de semana,
mais do que as horas neutras do repouso
confortam-me os encargos rotineiros;
meu descanso é confiar nos companheiros.

 

Do Direito a Férias

Nunca me participam por escrito
ou verbalmente os ócios que mereço,
mas sempre gozo bem o merecido:
pois o ócio não é ofício pelo avesso?
É quando fio o verso; depois teço.

 

Da Remuneração das Férias

Em férias tenho a paga de saber
lembrado o verso meu por quem o inspira;
é como se outra mão tangesse a lira

 

Do Salário Mínimo

Laborando entre os pontos cardinais,
de norte a sul, de leste a oeste, vou
cobrando aqui e ali quanto me basta:
o privilégio de seguir cantando.
(Imposto é cuidar onde e como e quando.)

 

Do Expediente Noturno

Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
sem se tornar com isso menos pura
a voz sobe uma oitava na mistura.

 

Da Segurança do Trabalho

Mesmo no escuro, canto. Ao vento e à chuva,
canto. Perigo à vista, canto sempre;
e é clara luz e um ar nunca viciado
e sol no inverno e fresca no verão,
meu canto, e sabe a flores se é de flores
e a frutos se é de frutos a estação.
Só não me esforço à luz artificial
com que a má fé de alguns aos mais deslumbra
servindo-lhes por luz o que é penumbra;
também quando o ar parece rarefeito
a lira engasga, o verso perde o jeito.

 

Da Higiene do Trabalho

Não canto onde não seja o sonho livre,
onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito;
para enganar o tempo ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto…
Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança.

 

Da Alteração de Contrato Etc.

Meu ofício é cantando revelar
a palavra que serve aos companheiros;
mas se preciso for calar o canto
e em fainas diferentes me aplicar
unindo a outros meu braço prevenido,
mais serviço que houver será servido.

*

CAMPOS, Geir. Da profissão do poeta. 1ª ed. Rio de Janeiro, Philobiblion e Civilização Brasileira, 1956. Xilogravuras de Manuel Segalá. Tiragem de 500 exemplares.

Essa lei

Com o poema “Essa lei”, de minha autoria, começo a dar voz à leitura de escritos vários – um propósito que vinha há tempos acalentando e que agora se inaugura. Desenho do ar. Do chão. Do som. Bora lá, se acheguem…

 

ESSA LEI
— Sílvio Diogo

Essa lei me escapa.
Ela confunde.
Essa lei escolhe.
Essa lei encolhe.
Ela quase some.
Não, nela não há desespero,
há/à espera:
de que a gente esqueça,
de que a gente espere
que ela dê as caras,
que ela dê as cartas.
Essa lei pacífica
bate continência.
Ela é fazendária.
Essa lei arrenda.
Ela fala em público!
Essa lei assombra.
É o degrau de cima.
Essa lei assola.
Essa lei assusta.
Ela desacorda.
Essa lei sintética
vira o nosso Juízo.