Formação de discoteca, Murilo Mendes (VIII)

Murilo Mendes

Capa: Marina Mayumi Watanabe / Ilustração: Olivier Toni (1926-2017)

VIII

Schubert, se não é um caso de precocidade tão notável quanto a de Mozart, pois começou a compor aos quatorze anos, é um caso de genialidade que o aproxima do autor da Flauta Mágica. Tendo morrido aos trinta anos, deixou uma obra espantosamente grande, sabendo-se que escreveu mais de seiscentos lieder, afora uma quantidade de peças para piano, quartetos, trios, quintetos, sinfonias etc. A importância histórica de Schubert consiste em ter dado o mais amplo desenvolvimento à forma particular da canção alemã, que ele conseguiu elevar à universalidade. Mas em Schubert não existe apenas sentimento, graça e fantasia: existe por vezes uma força dramática de rara intensidade, trágica mesmo, como por exemplo nas Canções do moleiro, na Viagem Invernal, na trágica Sinfonia em Dó, nº 7 etc. A importância de Schubert como compositor é tal que se pode afirmar que a harmonia de Schumann e de Liszt provêm diretamente dele. Na qualidade de compositor instrumental, a crítica dá-lhe um lugar logo atrás de Beethoven, sendo um músico dotado de grande beleza melódica.

Schubert reflete o lado mais simpático da alma alemã, o lado sonhador e visionário; e nos seus lieder realizou um verdadeiro equilíbrio entre fantasia e sentimento. O valor de sua experiência espiritual e humana pode ser bem aquilatado nos admiráveis lieder que chamaremos, em versão aproximada para a nossa língua: Olhar distante, supremo, magnífico; Cronos; Pôr-de-sol; Nostalgia do lar; Tu não me amas; e que em alemão se chamam respectivamente: Weite, hohe, herrliche Blick [Weit, hoch, herrlich der Blick]; Schwager Kronos [An Schwager Kronos]; Abendrot [Im Abendrot]; Heimweh [Das Heimweh]; Du liebst mich nicht.

Recomendo também ao amador interessado qualquer destas obras de elevada categoria artística: Quartetos em Lá Menor e em Ré Menor; os Quintetos para cordas e piano, os Trios com piano em Si Bemol; a já citada Sinfonia nº 7 em Dó e a “Inacabada” em Si Menor, que, embora popularíssima, é de primeira ordem, com um lançamento do tema sinistro, digno de Beethoven.

*

Creio que poderia me dispensar de falar sobre discos de Chopin, tal é o conhecimento que todos têm de sua obra, difundida, martelada e deformada até o excesso, até o crime, por milhões de pessoas. Mas como é possível que haja algum amador que ainda não tenha resolvido o “caso Chopin” do ponto de vista de seleção de discos, quero registrar aqui uma sugestão: aquele que não quiser comprar Chopin às toneladas escolha uma obra representativa do seu gênio, e não a toque de manhã à noite, para não acabar enjoando… Escolha, por exemplo, o monumento dos vinte e quatro PRELÚDIOS, ou então os Scherzi, ou as quatro Baladas, ou as duas Sonatas. Entre os inumeráveis Estudos, como decidir, se todos admiráveis? E as Mazurcas de incomparável beleza e refinamento? (De passagem, indico um pequeno disco maravilhoso: Mazurca em Dó Sustenido Menor, na interpretação de Vladimir Horowitz, disco Victor 1327.)

A propósito de Chopin, há o difícil problema da eleição do pianista. Os amigos já devem ter percebido que não acendo velas a Brailovski — o que não quer dizer que lhe negue grandes qualidades. Apenas acho que seu Chopin é mais brailovskiano do que chopiniano… Qual intérprete, portanto, escolher? É preciso notar que só me refiro a discos que se tenha probabilidade de adquirir no momento. Indicaria, portanto, Cortot, Rubinstein, Horowitz, Louis Kentner, até que chegue o dia milagroso que o nosso André Gide se resolva a gravar para a cera, já que, segundo nos revelou em um dos seus livros, ele é o único intérprete autorizado de Chopin que existe neste mundo…

Qual o critério que deve presidir à confecção de uma antologia? Apesar dos pesares, com todos os defeitos e falhas que surgem, ainda o critério de gosto pessoal é o que prevalece — “et pour cause”… No caso da organização desta antologia sonora que é uma discoteca, o leitor já deve ter notado que omiti muitos nomes, e nomes ilustres. Quero pois frisar que além de motivo de gosto e inclinações pessoais, encarei a hipótese de uma discoteca particular de proporções nada vastas — digamos entre trezentos e quinhentos discos. Previsto este plano, como encaixar certos autores que têm importância na história geral da música, mas que não incluímos no primeiro plano de nosso agrado? Não desconheço, por exemplo, o papel histórico de Weber, no desenvolvimento da ópera alemã; sei muito bem que ele deu (helás!) a mão a Wagner, sei que em Freichütz e Oberon há passagens deliciosas; mas confesso que posso passar perfeitamente sem Weber. Como posso passar muito bem sem o correto Mendelssohn, se bem que encontre grandes belezas no oratório Elias, no Octeto, op. 20, nos Romances sem palavras e em outras obras significativas da literatura pianística, como as peças de op. 7 e op. 54 etc.

Também não me diz muito o fato de Berlioz ter grande importância histórica devido a ter inaugurado a música de programa; o que não quer dizer que não reconheça o grandioso plano de concepção da Sinfonia Fantástica e de certos trechos da Danação de Fausto e de outras óperas. Se vamos por este caminho, até em Carlos Gomes encontraremos alguma coisa muito boa…

Nao. A tal discoteca deverá ser muito selecionada e o lado “documentário” não lhe interessa muito. Pensemos principalmente nos músicos fundamentais. Agora, no caso de uma discoteca pública para fins de divulgação da história geral da música, é claro que seria imperdoável a exclusão, por exemplo, de Leocavallo, Mascagni e “tutti quanti”…

(“Letras e Artes”, domingo, 8/setembro/1946.)

*

MENDES, Murilo. Formação de discoteca e outros artigos sobre música. São Paulo: Giordano/Loyola/Edusp, 1993, pp. 37-41.

*

Franz Schubert (1797-1828)

Schubert: Die schöne Müllerin, Thomas Quasthoff, Justus Zeyen
2005, 20 faixas, 1h1min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

Schubert: Die schöne Müllerin, James Gilchrist, Anna Tilbrook
2009, 20 faixas, 1h5min
Orchid Classics
Spotify – link

Schubert: Winterreise, Gerald Moore, Dietrich Fischer-Dieskau
2003, 24 faixas, 1h11min
EMI Music
Spotify – link

Schubert: The “Great” C Major Symphony, Orchestra Mozart, Claudio Abbado
2015, 4 faixas, 1h2min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

Schubert: Lieder, Christoph Prégardien, Michael Gees
1996, 24 faixas, 1h14min
EMI Records Ltd. / EMI Electrola GmbH
Spotify – link

Schubert: Lieder, Mitsuko Shirai, Hartmut Höll
1988, 19 faixas, 1h5min
Capriccio
Spotify – link

Schubert: Lieder, Elly Ameling, Dalton Baldwin
1974, 16 faixas, 45min
Universal International Music B.V. / Decca Music Group Limited
Spotify – link

Schubert: Lieder (1952-54), Elisabeth Schwarzkopf, Edwin Fischer, Herbert von Karajan
2008, 16 faixas, 1h12min
Naxos
Spotify – link

Schubert: String Quartets nº 14 in D minor, D 810 (“Death and the Maiden”) & nº 13 in A minor, D 804 (“Rosamunde”), Alban Berg Quartett
2013, 8 faixas, 1h12min
EMI Records Ltd.
Spotify – link

Franz Schubert: Quintets D 956 & D 8, Quatuor Sine Nomine, François Guye & Michael Wolf
2000, 6 faixas, 1h6min
Claves Records
Spotify – link

*

Frédéric Chopin (1810-49)

Chopin: Preludes, op. 28 (Original album 1946), Arthur Rubinstein
2012, 24 faixas, 36min
Crates Digger Music Group
Spotify – link

Chopin: Préludes, Impromptus, Barcarolle, Berceuse, Alfred Cortot
1934, 31 faixas, 1h8min
EMI Records Ltd.
Spotify – link

Chopin: Ballades, Scherzi, Tarantelle (Rubinstein Collection, vol. 45), Arthur Rubinstein
1999, 9 faixas, 1h14min
BMG Entertainment
Spotify – link

Chopin: Piano Sonata nº 2 in B-Flat Minor, op. 35 & nº 3 in B Minor, op. 58, Arthur Rubinstein
1961, 8 faixas, 47min
Sony Music Entertainment
Spotify – link

Chopin: Sonatas opp. 4, 35, 58, Howard Shelley
2015, 12 faixas, 1h19min
Narodowy Instytut Fryderyka Chopina / The Fryderyk Chopin Institute
Spotify – link

Horowitz: Favorite Chopin
1963, 20 faixas, 1h17min
Sony BMG Music Entertainment
Spotify – link

Chopin: Piano Sonata nº 3; Études, op. 25, Nelson Freire
2002, 19 faixas, 59min
Decca Music Group Limited
Spotify – link

Chopin: Études (complete), Zlata Chochieva
2014, 27 faixas, 1h4min
Piano Classics Ltd.
Spotify – link

The Complete Chopin Mazurkas, Joanna MacGregor
2017, 57 faixas, 2h16min
SoundCircus
Spotify – link

Chopin: Mazurkas, Masako Ezaki
2006, 57 faixas, 2h27min
Octavia Records Inc.
Spotify – link

Chopin: Ballades, Mazurkas, Polonaises, Piotr Anderszewski
2003, 11 faixas, 1h
EMI Records Ltd. / Virgin Classics
Spotify – link

Anúncios

Formação de discoteca, Murilo Mendes (VII)

Murilo Mendes

Capa: Marina Mayumi Watanabe / Ilustração: Olivier Toni (1926-2017)

VII

Insisti na crônica anterior sobre a alta categoria dos Quartetos de Beethoven, preferindo situá-los, antes de tudo, no plano da pura musicalidade, já que sua interpretação pode ser marcada ad libitum, desde que se compreenda a atmosfera de gravidade e transcendência em que todos eles se situam; atmosfera, repito, que é própria, mais do que a qualquer outra, à nossa geração. Porque na verdade nós herdamos de nossos maiores a angústia, o desajusamento entre o interior e o exterior, que se acentuaram nos últimos três séculos e que chegam à culminância no momento em que vivemos. Por isso participamos vivamente da consciência de Beethoven, embora ele muitas vezes nos oprima com essa atmosfera especial de terror e desconsolo, pelo que procuramos os caminhos de libertação de Bach, Mozart, Haendel ou Debussy, menos duros a pessoas já naturalmente castigadas pela vida como todos nós agora.

O que não se deve é particularizar a interpretação dos Quartetos. O próprio Beethoven já advertia os pósteros a respeito do sentido da Sinfonia Pastoral: que ninguém procurasse ali uma cópia da natureza: “Deixo ao ouvinte o cuidado de achar a situação…” Se nessa Sinfonia, onde se poderia descobrir sem dificuldade uma intenção pictórica, Beethoven se recusa a fazer música imitativa, com muito menos razão encontraremos intenções didáticas nos Quartetos. O que eles querem dizer, cada um captará de acordo com os elementos próprios, certo, entretanto, a priori, de que eles se inscrevem sob o signo da gravidade da condição humana.

Assinalemos, também, que o amador disposto a ouvir e assimilar todos os Quartetos estará mais apto a abordar a música moderna, essa pobre música moderna de que se fala tanto mal, e que nos fins das contas não é moderna: é música. Se continuarem a sujeitar a arte ao critério do tempo, a confusão será geral…

*

Continuando a passar em revista, embora muito sucintamente, os Quartetos, chegamos a uma das produções mais atraentes do segundo período de Beethoven: o Quarteto em Mi Bemol Maior, op. 74, também chamado Quarteto das Harpas. Entretanto, não se cuide que Beethoven teve em mira imitar, pelos “pizzicatti” dos instrumentos próprios do Quarteto, o som da harpa. Terá sido mera coincidência. Mais uma vez devemos nos precaver dos perigos da arte imitativa.

Este Quarteto, embora afirmativo e forte, não possui a violência dos demais do segundo e terceiro períodos. Desenvolve-se numa atmosfera especial de lirismo, e em muitas passagens a sombra de Mozart se interpõe até chegarmos às maravilhosas variações do último movimento.

O Quarteto em Fá Menor, op. 95, composto em 1810, encerra o terceiro período. Quarteto de menores proporções que os outros mas, talvez por isso mesmo, de uma trama cerrada, apresentando uma visível compressão de matéria sonora. O famoso primeiro movimento “allegro con brio”, por si só, constitui um retrato espiritual de Beethoven, enérgico e violento: o homem atacando seu próprio destino, na consciência da força de seu antagonista. Mais uma das muitas explosões desse grande Espanhol que é Beethoven…

*

Durante quatorze anos o Mestre não produzia Quartetos. Já o terceiro período vai adiantado… e aqui fazemos um pequeno parêntese. A teoria de W. de Lenz é hoje mais ou menos aceita em toda parte; entretanto, é possível que sofra revisões, pois uma obra como o Quarteto Rasumovski nº 3, pelo seu espírito, poderia talvez figurar dignamente na lista do terceiro período… Mas não estamos aqui para discutir teorias musicais. Segue a música. Dizíamos que já o terceiro período ia adiantado, quando Beethoven subitamente retorna aos Quartetos, com o extraordinário Quarteto em Mi Bemol Maior, op. 127. Meu reino (ou um pão!) por este Quarteto, ai meu Deus! se não existisse o 131… O Quarteto op. 127 logo de início abala o ouvinte, preparando-o para o sublime “adagio ma no troppo e molto cantabile”, oração musical com o seu tema que é um eco do Benedictus da Missa Solene.

Passamos ao Quarteto em Si Bemol Maior, op. 130, que Vincent d’Indy chama de monumental — como se os outros também não o fossem. Chamo a atenção para o andante deste Quarteto, aparentemente monótono, mas que contém expressões que é lícito julgar das mais íntimas de Beethoven.

O Quarteto em Dó Sustenido Menor, op. 131, é uma das obras mais elevadas do espírito humano, e representa uma síntese prodigiosa de toda a arte de Beethoven, sendo o mais revolucionário de todos, pois — excento num único movimento — foge à antiga forma-sonata. A um amador que desejasse ter um só dos Quartetos, e a obra talvez mais representativa do gênio de Beethoven, eu indicaria este sem hesitação. O adágio inicial é, segundo Wagner, a página mais melancólica que jamais foi escrita. Mas a desforra vem no incomparável final, verdadeira dança de furor, entusiasmo, terror sagrado, sofrimento, sei lá mais o quê…

O Quarteto em Lá Menor, op. 132, tornou-se famoso na literatura devido ao romance Counterpoint, de Huxley. É no terceiro movimento que se encontra o Canto de Ação de Graças a Deus por um Convalescente, onde o espírito religioso de Beethoven atinge talvez o seu momento máximo.

A Grande Fuga, op. 133, é o primitivo final do Quarteto op. 130. Todo o drama da nossa época está contido nessa página extraordinária, que às vezes nos produz um terrível mal-estar.

O último Quarteto, em Fá Menor, op. 135, não apresenta a mesma grandeza dos precedentes. É visível a repetição do processo, o cansaço do Mestre. Mas isto não quer dizer que não contenha passagens admiráveis, dignas dos outros. Quanto aos intérpretes dos Quartetos, mencionaremos pela ordem de nossas preferências pessoais: Quarteto Busch, Quarteto de Budapest, Quarteto Lener.

(O cronista dirige-se à eletrola e faz passar os discos do extraordinário QUARTETO EM FÁ MAIOR, OP. 59, Nº 1 — RASUMOVSKI —, pelo Quarteto Busch.)

(“Letras e Artes”, domingo, 18/agosto/1946.)

*

MENDES, Murilo. Formação de discoteca e outros artigos sobre música. São Paulo: Giordano/Loyola/Edusp, 1993, pp. 32-36.

*

Ludwig van Beethoven (1770-1827)

Beethoven: String Quartets opp. 74 & 95, Fine Arts Quartet
1965, 8 faixas, 50min
Countdown Media / BMG Rights Management (US) LLC
Spotify – link

Beethoven: Late String Quartets opp. 127, 130, 131, 132, 135, 133, Yale String Quartet
2006, 27 faixas, 3h11min
Musical Concepts
Spotify – link

Beethoven: The Late Quartets, opp. 127-135, Quatuor Mosaïques, Erich Höbarth, Andrea Bischof
2017, 26 faixas, 3h9min
Naïve, a Label of Believe Group
Spotify – link

Beethoven: String Quartets nº 14, op. 131, Jasper String Quartet
2014, 7 faixas, 36min
Sono Luminus
Spotify – link

The Busch Quartet plays Beethoven (opp. 59, 131, 95, 132)
2006, 20 faixas, 2h11min
Preiser Records
Spotify – link

Beethoven: The Late String Quartets, The Budapest String Quartet
1997, 27 faixas, 3h8min
Bridge Records, Inc.
Spotify – link

Formação de discoteca, Murilo Mendes (VI)

Murilo Mendes

Capa: Marina Mayumi Watanabe / Ilustração: Olivier Toni (1926-2017)

VI

Conta-se que certa senhora, após ouvir num salão Beethoven tocar uma de suas sonatas, dirigiu-se ao mestre e perguntou-lhe como ele próprio interpretava aquela obra, isto é, qual a significação que lhe atribuía. Beethoven dirigiu-se outra vez ao piano e tornou a tocar a sonata, acrescentando no fim: “Eis a interpretação que lhe dou.”

Relembrei este episódio a propósito dos Quartetos de Beethoven, cuja significação é tão discutida. Na verdade, esses Quartetos — cumes da música universal — espantam os auditores comuns que já têm o espírito prevenido pelo que já leram em manuais de música. O amador comum vê em qualquer Quarteto de Beethoven um autêntico papão musical. Alguns, mais corajosos, declararam: “Chegarei até lá, mas v. compreende… é preciso iniciação.” De fato, para tudo é preciso iniciação…

Criou-se em torno dos Quartetos de Beethoven uma aura de hermetismo, uma atmosfera de penumbra que no fim de contas só vem servir aos teósofos. Muitos críticos afirmam esse hermetismo, mais por hábito e espírito de rotina. Os Quartetos de Beethoven participam, sem dúvida, do hermetismo que é próprio a muitas obras de arte tidas como claras e acessíveis a qualquer pessoa. Se quisermos carregar na interpretação, se quisermos esmiuçar o conteúdo de uma obra, poderemos extrair, por exemplo, das Baladas de Chopin, aparentemente tão fáceis, três ou quatro sentidos — inclusive o metafísico.

Evidentemente se o nosso propósito fosse o de Degas — o de “décourager les arts” — poderíamos insistir no hermetismo dos Quartetos e de muitas outras importantes produções musicais. Mas o nosso propósito, se bem que modesto, é o ajudar alguns a se elevarem; e ajudar os elevados a se elevarem mais ainda. Diremos, pois, que a linguagem sonora dos Quartetos de Beethoven é a linguagem universal do indivíduo cultivado, isto é, saiu da individualidade complexa e poderosa de Beethoven e, como tal, marca uma fisionomia que é própria do grande mestre; e ao mesmo tempo pode servir a todos os homens cultivados no esclarecimento de seus mais íntimos e mais fortes problemas morais e espirituais. Ouvindo-os, meditando-os e assimilando-os, não só participareis das lutas, dos sofrimentos, das derrotas e da esperança de Beethoven, como também Beethoven participará de vossos sofrimentos, vossas lutas, vossas derrotas e vossa esperança. O homem de mediana cultura que não encontrar, em certas passagens dos Quartetos, muito de si mesmo, de seus problemas, de suas dúvidas e afirmações, é um homem para quem a vida é um acidente casual e não pode ter a profunda e transcendente significação que de fato tem; é um homem que não viveu e passa como uma sombra.

Abordar os Quartetos de Beethoven é um dever precípuo de todo homem que deseja elevar o seu nível cultural. Que o amador comum, isto é, o leigo, não se espante nem desanime com a lenda do hermetismo que se estabeleceu em torno deles. Ao contrário do que escreveu Pierre Jean Jouve, não vemos em Beethoven apenas o homem da Revolução Francesa, o filho espiritual de Rousseau. Sua linguagem sonora parece-nos particularmente própria (sobretudo nos Quartetos) a exprimir a vida moral e espiritual do homem da nossa época, comprimido entre guerras e revoluções, com os nervos à flor da pele diante das contínuas notícias que chegavam (e chegam…) sobre campos de tortura, gritos de terror, existências sufocadas, legiões de homens em marcha para a treva, o desconhecido, o abismo.

Nos Quartetos de Beethoven, muito mais do que nas Sinfonias, Sonatas e Concertos, observa-se o abandono das concessões, a perda dos detalhes decorativos. Apesar do aparente transbordamento, na verdade a matéria sonora adquire uma gravidade de que apenas se tem a antecipação em certos Quartetos muito maduros de Haydn ou de Mozart. É preciso acentuar, para encorajar os desanimados, que os processos técnicos de Beethoven, em última análise, obedecem, em princípio, às disposições clássicas; isto é, seguem o tipo da antiga forma-sonata, exceto no Quarteto op. 131; a diferença mais sensível reside no desenvolvimento temático, quando surgem em combinação três ideias diversas, ao invés da antiga forma, cujo desenvolvimento era muito menos amplo.

Ao amador que se interesse em conhecer e cultivar os Quartetos de Beethoven, recomendo o livro especializado de J. de Marliave, ilustre militar que se imortalizou com essa obra extraordinária de carinho, compreensão e amor: monumento imperecível erguido à glória do grande Mestre.

*

Quanto aos discos, cumpre assinalar que se acham gravados todos os Quartetos de Beethoven. O amador poderá começar pelos seis da primeira série op. 18, que guardam relação mais próxima com os de Haydn e Mozart. O melhor é mesmo seguir os Quartetos pela ordem cronológica. Depois de “ruminar”, como dizia Santo Agostinho, os seis primeiros, ao amador tomará conhecimento dos três dedicados ao Príncipe Rasumovski: op. 59, nº 1, 2 e 3. Nunca poderei dizer qual deles é o melhor. O amador será arrastado no turbilhão do nº 1, deter-se-á no sublime adágio noturno do nº 2, no andante do nº 3 com seus famosos “pizzicati”, em que parece pulsar o coração de Beethoven, isto é, do próprio Homem…

Como o espaço está minguando, completarei as notas sobre os Quartetos na próxima crônica.

(“Letras e Artes”, domingo, 11/agosto/1946.)

*

MENDES, Murilo. Formação de discoteca e outros artigos sobre música. São Paulo: Giordano/Loyola/Edusp, 1993, pp. 27-31.

*

Ludwig van Beethoven (1770-1827)

Beethoven: String Quartets, op. 18, 1-6, Tokyo String Quartet
2007, 24 faixas, 2h26min
Harmonia Mundi
Spotify – link

Beethoven: String Quartets, op. 59, Razumovsky, String Quintet, op. 29, Kujiken Quartet
2011, 16 faixas, 2h17min
Challenge Classics
Spotify – link

Beethoven: String Quartets, op. 131 & op. 135, The Lindsays
1992, 11 faixas, 1h7min
Sanctuary Records Group Ltd. / BMG Company
Spotify – link

Formação de discoteca, Murilo Mendes (V)

Murilo Mendes

Capa: Marina Mayumi Watanabe / Ilustração: Olivier Toni (1926-2017)

V

O grande Haydn merece todo o carinho e atenção ao tratarmos da escolha de seus discos. Pela sua maravilhosa inteligência ordenadora, pela sábia elaboração de seus Quartetos e Sinfonias, pela rara generosidade de sua natureza, pela influência poderosa que exerceu na formação de músicos como Mozart e Beethoven; por ter fixado, de acordo com o ideal moderno, antigas formas musicais, determinando mesmo, segundo pensam críticos autorizados, a transição entre a época clássica e a romântica, conforme atestam seus Quartetos de 1773, denunciadores de uma verdadeira crise de romantismo — por tudo isto, e por mais outros motivos — Haydn ocupa um lugar de relevo entre os mais importantes criadores musicais. É preciso insistir neste aspecto da força ordenadora e reguladora de sua inteligência, pois anda por aí, bastante espalhada, a lenda da “bobice” de Haydn. Ele teve muito tempo para trabalhar: sua produção, enorme, se estende durante uns sessenta anos; mas sua primeira sinfonia conhecida foi escrita já aos vinte e sete anos. Essa fabulosa produção caracteriza-se por uma ânsia constante de aprimoramento dos meios técnicos. Alfredo Einstein, o eminente musicólogo, assim se refere a respeito dos métodos haydnianos: “Havia nele força e gravidade; suas criações surgem da experiência, de acontecimentos vividos, são figuras de um programa secreto.”

O lado vienense, o lado “humour” da natureza de Haydn oculta aos olhos (e aos ouvidos…) de muitos sua grandeza e profundidade. O mesmo aconteceu ao seu amigo Mozart. “Suas criações surgem da experiência”: na verdade Haydn acumulou experiência sobre experiência no vasto laboratório do palácio Esterhazy. De suas façanhas, não foi a menos ilustre a que conduziu ao desenvolvimento do trabalho temático para maior extensão das partes da forma-sonata. E quando do quarteto, Haydn inventa uma nova aplicação do contraponto, produz um desdobramento temático que confere maior riqueza e independência dos membros da composição. Ao mesmo tempo que lhe confere maior unidade. Tendo-se elevado muito acima de seus antecessores no quarteto, sob o ponto de vista da dignidade da linguagem musical e da amplitude das formas, Haydn abre as portas a Mozart e Beethoven, que atingiram o máximo na realização do quarteto… Se bem que um enriquecimento dessa forma musical se tem ainda verificado, com o único exemplar do gênero, saído muitos anos depois da pena genial de Debussy!

*

Gostaria de despertar no espírito de alguém que ainda não a conhece o interesse pela música de Haydn, que nunca é deprimente; ao contrário, é exaltante e emprega diversas vezes a linguagem do fogo. Seu “humour”, repito, não o impede de ser grave e severo em muitas ocasiões.

Quanto aos discos, no momento não é muito fácil encontrá-los por aqui, salvo no que diz respeito a sinfonias. Das cento e vinte, mais ou menos reconhecidas como autênticas, é com renovado prazer que sempre ouviremos qualquer destas, que se acham gravadas: Milagre — nº 96, em Ré Maior; Salomão nº 1; nº 98, em Si Bemol; nº 100 (Militar), em Sol Maior; nº 101 (Relógio); nº 102, em Si Bemol; nº 104 (Londres).

Dos quartetos, menciono qualquer uma das séries op. 20 e op. 33; e também o último, nº 83, op. 103. Qualquer dos “quartetos russos” poderá ser igualmente adquirido sem medo.

Indico ainda a admirável Sonata para Piano nº 1, em Mi Bemol — na bela interpretação de Horowitz — e o Concerto de Cravo, op. 21, magnificamente executado na parte de solo, por Wanda Landowska. O que aí está apontado basta para dar uma ideia bem nítida da grandeza de Haydn.

*

Beethoven é hoje, depois de Chopin, o músico mais conhecido e difundido no mundo inteiro. Talvez, por isso, fosse supérfluo fazer aqui a indicação de discos do grande mestre. Mas de qualquer maneira, não se pode deixar de mencioná-los, mesmo porque, se Beethoven é, definitivamente, um dos maiores, o critério de preferências está longe de ser fixo. O amador comum atira-se vorazmente às Sinfonias: não o criticarei por isso. As Sinfonias já passaram em julgado e já se sabe que são obras das mais importantes da música universal. Entretanto, no plano de uma discoteca de trezentos ou quatrocentos discos, eu não aconselharia a compra da Terceira ou Nona, por exemplo: além de terem proporções muito vastas, o que dificulta sua audição contínua, são obras que, pela sua natureza própria, exigem contágio coletivo; além disso são continuamente transmitidas pelo rádio. Indicaria antes a Quarta, em Si Bemol, op. 60, ou a Oitava, em Fá, op. 93.

Das Sonatas para Piano, o amador comum voa logo para a Apassionata, a dita Ao Luar ou a dita Aurora, e ainda aqui lhe dou razão, pois se trata, é claro, de obras-primas, mas, aos que as conhecem, aponto algumas Sonatas mais “escondidas”; por exemplo, em Fá, op. 54; e outra também em Fá, op. 78, esta, injustamente tachada de insípida por Vincent d’Indy. Ao amador de grande classe será preciso lembrar as últimas, op. 109, 110 e 111, ou esse prodigioso poema de solidão e despojamento que é a Sonata em Si Bemol Maior, op. 96?… (Confesso minhas preferências por esta Hammerklavier Sonata). E será preciso relembrar também as extraordinárias “33 Variações sobre uma Valsa de Diabelli, op. 120”?…

Dos cinco Concertos de Piano, apesar da merecida fama do majestoso e batizado “Imperador”, minhas preferências inclinam-se para o nº 4 em Sol Maior, op. 58. O terceiro Concerto é também soberbo.

Não se esqueça o incomparável Trio em Si Bemol, op. 97, Ao Arquiduque, uma das obras mais representativas do gênio de Beethoven.

Propositadamente deixei para a próxima crônica as referências às produções mais elevadas e sublimes de Beethoven, as menos populares: OS QUARTETOS.

(“Letras e Artes”, domingo, 28/julho/1946.)

*

MENDES, Murilo. Formação de discoteca e outros artigos sobre música. São Paulo: Giordano/Loyola/Edusp, 1993, pp. 22-26.

*

Joseph Haydn (1732-1809)

Sinfonias

Haydn: Symphonies 93, 96 ‘Miracle’ & 98, English Chamber Orchestra, Jeffrey Tate
1992, 12 faixas, 1h15min
EMI Records Ltd.
Spotify – link

Haydn: Symphony in G Major, Hob. I: 100, Military; Symphony in B-flat major, Hob. I: 102; Symphony in D Major, Hob. I: 104, London, Leonard Bernstein
1959, 12 faixas, 1h15min
Sony Music Entertainment Inc.
Spotify – link

Haydn: Symphonies nº 93 & nº 101, “The Clock”, Chamber Orchestra of Europe, Claudio Abbado
1990, 8 faixas, 48min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

Quartetos

Haydn: String Quartets, vol. 1 – op. 20 – 1-3, Kocian Quartet
2016, 12 faixas, 1h
Orfeo
Spotify – link

Haydn: Quatuors, op. 33, Quatuor Mosaïques, Erich Höbarth, Andrea Bischof
1997, 24 faixas, 2h1min
Auvidis France
Spotify – link

Haydn: String Quartets opp. 77, 42 & 103, The Lindsays
2006, 14 faixas, 1h15min
Sanctuary Records Group Ltd. / BMG Company
Spotify – link

Interpretações de Vladimir Horowitz e Wanda Landowska

Haydn: Piano Sonatas; Clementi: Piano Sonatas; Adagio sostenuto in F Major & Adagio in A minor (volume 7), Vladimir Horowitz
1967, 12 faixas, 1h1min
Spotify – link

Joseph Haydn, Wanda Landowska
2008, 12 faixas, 1h2min
M.A.T. Music Theme Licensing Ltd.
Spotify – link

*

Ludwig van Beethoven (1770-1827)

Sinfonias

Beethoven: Symphony nº 4, op. 60 & Leonore Overture, op. 72 (Remastered), George Szell, Cleveland Orchestra
2018, 5 faixas, 45min
Sony Music Entertainment
Spotify – link

Beethoven: Symphony nº 8 in F Major, op. 93, Stuttgart Radio Symphony Orchestra, Hans Müller-Kray
2014, 4 faixas, 25min
SWR Classic Archive
Spotify – link

Sonatas para piano

Beethoven: Piano Sonatas op. 57, “Apassionata”; op. 27, 2, “Moonlight”; & op. 53, “Waldstein”, Vladimir Horowitz
2004, 9 faixas, 1h3min
Sony Music Entertainment
Spotify – link

Beethoven: Sonatas opp. 53, 54, 57, Richard Goode
1995, 8 faixas, 57min
Nonesuch
Spotify – link

Beethoven: Piano Sonatas opp. 79, 79, 14, 49, Mari Kodama
2010, 15 faixas, 1h7min
PentaTone
Spotify – link

Beethoven: Sonatas opp. 109, 110 & 111, Antti Siirala
2012, 8 faixas, 1h5min
Bayerischer Rundfunk / Avi-Service for music, Cologne/Germany
Spotify – link

Beethoven: Violin Sonatas nº 9, op. 47, & nº 10, op. 96, Gidon Kremer, Martha Argerich
1995, 7 faixas, 1h5min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

Beethoven: Diabelli Variations, op. 120, Yameng Huang
2016, 34 faixas, 52min
Nightberry
Spotify – link

Concertos de piano

Beethoven: Piano Concerto nº 4 in G Major, op. 58, Van Cliburn
1963, 3 faixas, 33min
Sony Music Entertainment
Spotify – link

Beethoven: Concerto nº 5, “Emperor”; Piano Sonata nº 28, Hélène Grimaud, Staatskapelle Dresden, Vladimir Jurowski
2007, 8 faixas, 1h5min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

Beethoven: Piano Concertos nº 3 & nº 4, Royal Concertgebouw, Mitsuko Uchida, Kurt Sanderling
1996, 6 faixas, 1h11min
Universal International Music B.V.
Spotify – link

Trio de pianos

Beethoven: Piano Trio nº 7, op. 97; Piano Trio nº 4, op. 11, Pablo Casals
2008, 8 faixas, 1h16min
Classic Themes
Spotify – link

Formação de discoteca, Murilo Mendes (IV)

Murilo Mendes

Capa: Marina Mayumi Watanabe / Ilustração: Olivier Toni (1926-2017)

IV

IV

Mozart é um dos autores mais gravados em discos. É verdade que deixou uma obra enorme, e ainda falta muita coisa importante dele a ser reproduzida na cera. Mas o fato é que o amador que se dispuser a iniciar sua “mozarteana” não poderá deixar de se sentir muito embaraçado.

Porque Mozart fascina de maneira singular todos os que penetram esse universo que é o seu espírito musical, onde tantas são as moradas.

Das suas óperas, quatro da maior importância, cumes do drama lírico, estão gravadas: Don Giovanni, A Flauta Mágica, Bodas de Fígaro e Così fan tutte. Se me pedissem para escolher entre as quatro, eu escolheria Don Giovanni. Não que seja mais perfeita que as Bodas, por exemplo; é que representa no conjunto das obras de Mozart uma experiência grandiosa, de proporções verdadeiramente cósmicas. É ouvindo, sentindo e assimilando esse incomparável drama — “dramma giocoso” —, que se poderá melhor compreender a verdadeira natureza de Mozart, que teria ouvido todos os segredos do céu e do “inferno”. Stendhal escreveu que, para ouvir Don Giovanni, não hesitaria em caminhar duas léguas atolado na lama — o que ele mais detestava no mundo. Eis um dos belos pensamentos de Stendhal sobre Mozart: “La science de l’Harmonie peut faire tous les progrès qu’on voudra supposer, on verra toujours avec étonnement que Mozart est allé au bout de toutes les routes. Ainsi, quant à la partie mécanique de son art, il ne sera jamais vaincu.”

Quem não puder comprar os discos das quatro óperas citadas, contente-se com as aberturas e algumas árias.

*

Resolvida a questão da escolha das óperas (ou de trechos das mesmas), acha-se o amador diante de uma lista imensa de discos de música de câmara e música sinfônica de Mozart: quintetos, quartetos, concertos de piano e orquestra, sinfonias, missas, trios, divertimentos, concertos e sonatas para diversos instrumentos, enfim… é um mundo de sugestões que se abre diante do pobre cidadão, alucinado com tanta música, tanta grandeza, tão grande variedade de aspectos num único homem, num único artista.

Guiando-o nessa complicada via, indicarei ao amador, mais ou menos por ordem de importância, as seguintes obras, todas representativas, em alto grau, do grande Wolfgang. Os quintetos resumem a intimidade, por assim dizer, do espírito mozartiano: Quinteto para cordas em Dó Maior, K. 515; em Sol Menor, K. 516; em Ré Maior, K. 593; Quinteto para clarinete e cordas, em Lá Maior, K. 581. Infelizmente não se acha gravado o famoso Quinteto dos pássaros (em Mi Bemol, K. 614); mas, se por um feliz acaso, souberem amanhã da sua existência em discos, atirem-se a ele com furor…

Vem a seguir a imortal série de obras-primas, os SEIS QUARTETOS DEDICADOS A JOSEF HAYDN (em Sol Maior, K. 387; em Ré Menor, K. 421; em Mi Bemol, K. 428; em Si Bemol, K. 458; em Lá Maior, K. 464; e em Dó Maior, K. 465).

O amador que adquirisse somente estas seis obras — nada mais de vinte discos — poderia estar certo de possuir um monumento definitivo da arte mozartiana, e de toda a arte musical. E se eu tivesse de escolher dois dentre os seis Quartetos, decidir-me ia pelo segundo, em Ré Menor, K. 421 — e o nº 6, em Dó Maior, K. 465, também chamado “dissonante”. É verdade que a partitura do Quarteto em Lá — K. 464 — foi copiada pela mão do próprio Beethoven, que escreveu à margem: “Eis uma obra. Eis um homem. Eis o que Mozart poderia dar sempre ao mundo — se este o quisesse.” Enfim, qualquer dos seis poderá ser comprado no escuro, pois todos são admiráveis.

Da extensa lista de sinfonias, é obrigatória a citação das quatro últimas: em Ré Maior, K. 504 — Praga; em Mi Bemol, K. 543; em Sol Menor, K. 550; em Dó Maior, K. 551 — Júpiter. Das quatro, minha preferência pessoal oscila entre Praga e “Sol Menor”; se bem que o final prodigioso de Júpiter… Das outras sinfonias de menores proporções, indico a em Si Bemol Maior, K. 319, obra de encanto, de segurança matemática; e a Sinfonia-serenata em Ré Maior — K. 385.

Mas passemos depressa aos Concertos de piano, refúgio da fantasia poética mais refinada, diálogos prodigiosos entre o piano e orquestra, fonte perene de surpresas e deslumbramentos! Indico estes três maravilhosos concertos de câmara: em Lá Maior, K. 414; em Mi Bemol, K. 449; em Sol Menor, K. 453. Entre os de maiores proporções, o Concerto em Dó Maior, K. 467, e o em Dó Menor, K. 491. Mas, como deixar de lado essas três “feéries” que se ouvem com prazer único — os Concertos em Fá Maior, K. 459; Lá Maior, K. 488, e em Mi Bemol, para dois pianos, K. 365?… Entre as Sonatas de piano, cumpre salientar a Sonata-fantasia em Dó Menor (K. 475 e K. 457) e a em Lá Menor (K. 310). Entre os Concertos de violino, indico o nº 3, em Sol, K. 216. Entre as Sonatas de piano e violino, as em Si Bemol, K. 378, em Mi Bemol, K. 380, e em Lá Maior, K. 526.

Os “divertimentos” se estendem durante muitos anos da produção de Mozart. Entre os mais importantes, é digno de menção o Divertimento para seis instrumentos, em Si Bemol, K. 287. E se eu tivesse de indicar uma única obra representativa, em alto grau do espírito, do coração e da técnica musical de Mozart, esta seria o Divertimento em Mi Bemol Maior, para trio de cordas, K. 563. É uma peça incomparável de princípio a fim, como beleza de ideias e desenvolvimento temático. Na música de câmara há poucas coisas que se lhe possam comparar.

No domínio da música religiosa, é forçosa a citação do Requiem (K. 626) e da Missa em Dó Menor (K. 427). Em outros setores, não podemos, de forma alguma, deixar de lado do extraordinário Adágio e Fuga em Dó Menor (K. 546) e a Fantasia para piano solo, em Dó Menor, K. 396.

Quem quiser saber mais a respeito de Mozart pode me consultar pelo Correio, pois o espaço do jornal não dá para mais nada… Até domingo, se Deus quiser.

(“Letras e Artes”, domingo, 21/07/1946.)

*

MENDES, Murilo. Formação de discoteca e outros artigos sobre música. São Paulo: Giordano/Loyola/Edusp, 1993, pp. 17-21.

*

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-91)

As Bodas de Fígaro (1786)

Mozart: Le nozze di Figaro, Wiener Philharmoniker, Claudio Abbado
1994, 81 faixas, 2h48min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

Don Giovanni (1787)

Mozart: Don Giovanni, Philharmonia Orchestra, Carlo Maria Giulini
1961, 74 faixas, 2h42min
EMI Records Ltd.
Spotify – link

Così fan tutte (1790)

Mozart: Così fan tutte, Wiener Pilharmoniker, Karl Böhm
1990, 44 faixas, 2h34min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

A Flauta Mágica (1791)

Mozart: Die Zauberflöte (Recorded 1937), Berlin Pilharmonica Orchestra, Sir Thomas Beecham
1956, 36 faixas, 2h13min
Nimbus Records Limited
Spotify – link

Quinteto para cordas em Dó Maior, K. 515; e em Sol Menor, K. 516

Mozart: String Quintets Nº. 3 in C Major, K. 515 & Nº 4 in G Minor, K. 516, Jascha Heifetz
1963, 8 faixas, 58min
Sony Music Entertainment
Spotify – link

Quinteto para cordas em Ré Maior, K. 593; Quinteto dos pássaros (em Mi Bemol, K. 614)

Mozart: String Quintets, K. 593 & K. 614, Chilingirian Quartet, Yuko Inoue
2016, 10 faixas, 1h1min
CRD Records Ltd.
Spotify – link

Seis quartetos dedicados a Joseph Haydn

Mozart: String Quartets K. 387 & K. 421, Smithson String Quartet
1994, 8 faixas, 1h6min
EMI Records Ltd. / Virgin Classics
Spotify – link

Mozart: Six Quartets Dedicated to Haydn, Guarneri Quartet
2004, 24 faixas, 2h40min
BMG Music
Spotify – link

Sinfonias

Mozart: Symphonies, K. 504, K. 543, K. 550, K. 551, Mozart Akademie Amsterdam, Jaap Ter Linden
2007, 15 faixas, 2h8min
Brilliant Classics
Spotify – link

Mozart: Symphony nº 33 in B-Flat Major, K. 319, Bamberger Pilharmonic, Hans Swarowsky
2014, 21min
Essential Media Group LLC
Spotify – link

Mozart: Sinfonía nº 35 in D Major, K. 385, “Haffner-Sinfonie”, Orquesta Filarmonica de Alemania, Wilèm Oderich
1978, 3 faixas, 15min
Marfer, Discos Lollilop S. L.
Spotify – link

Concertos de piano

Mozart: Piano concertos nº 21, K. 467, e nº 12, K. 414, Paul Badura-Skoda, Prague Chamber Orchestra
2007, 6 faixas, 51min
Don Hunstein / Transart
Spotify – link

Mozart: Piano Concerto nº 14 in E-Flat Major, K. 449, Christoph Soldan, Silesian Chamber Soloists
2015, 3 faixas, 19min
K&K Verlagsanstalt
Spotify – link

Mozart: Concerto de piano en sol majeur, K. 453, Wilfried Bottcher
2011, 3 faixas, 28min
Astorg Classical
Spotify – link

Mozart: Piano Concerto nº 24 in C Minor, K. 491, & Rondo in A Minor, K. 511, Josef Krips, Arthur Rubinstein
1961, 4 faixas, 39min
Sony Music Entertainment
Spotify – link

Mozart: Piano Concerto nº 19 in F Major, K. 459, Piano Concerto nº 24 in C Minor, K. 491, Clara Haskil, Orchestre de Chambre de Lausanne & Victor Desarzens
2007, 6 faixas, 56min
Claves Records
Spotify – link

Mozart: Piano Concerto nº 23 in A Major, K. 488, Piano Concerto nº 24 in C Minor, K. 488, Philharmonia Orchestra, Walter Gieseking, Herbert von Karajan
2015, 6 faixas, 57min
RHI / THAI Records
Spotify – link

Mozart: Concerto for 2 Pianos, K. 365 / Sinfonia Concertante, K. 364, Håvard Gimse, Vebjørn Anvik, Iona Brown & Norwegian Chamber Orchestra
2009, 6 faixas, 53min
Chandos
Spotify – link

Sonatas de piano

Mozart: Piano Sonatas K. 457 & K. 331, Fantasias K. 475 & K. 397, Maria João Pires
1990, 8 faixas, 1h2min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

Mozart: Piano Sonata nº 8 in A Minor, K. 310, Stefano Seghedoni
2018, 3 faixas, 15min
Idyllium
Spotify – link

Concertos de violino

Mozart: Violin Concertos, K. 216 & K. 218; Eine Kleine Nachtmusik; Serenade, K. 525, Bruno Walter
1955, 10 faixas, 1h6min
Sony Music Entertainment Inc.
Spotify – link

Sonatas de piano e violino

Mozart: Violin Sonatas, K. 301, K. 378, K. 380 and K. 526, Ani Kavafian, Jorge Federico Osorio
2006, 11 faixas, 1h13min
Artek
Spotify – link

Divertimentos

Mozart: Divertimento K. 287 & Serenade K. 525, Ensemble Wien
1996, 10 faixas, 59min
Koch International
Spotify – link

Mozart: Divertimento K. 563, Gidon Kremer, Kim Kashkashian, Yo-Yo Ma
1985, 6 faixas, 49min
Sony Music Entertainment
Spotify – link

Música religiosa

Mozart: Requiem in D Minor, K. 626, Carlo Maria Giulini
1990, 17 faixas, 1h6min
Sony Music Entertainment
Spotify – link

Mozart: Mass in C Minor, K. 427 (417a), Berliner Philharmoniker, Claudio Abbado
1991, 13 faixas, 52min
Sony BMG Music Entertainment
Spotify – link

Adágio e Fuga em Dó Menor (K. 546)

Mozart: String Quartets, K. 387, K. 465 & Adagio & Fugue in C Minor, K. 546, Quatuor Sine Nomine
1999, 9 faixas, 1h5min
Claves Records
Spotify – link

Fantasia para piano solo

Mozart: Fantasie in C Minor, K. 396; Piano Sonata nº 10 in C Major, K. 330; Piano Sonata nº 13 in B Flat, K. 333, Daniel Barenboim
1968, 7 faixas, 50min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link

Formação de discoteca, Murilo Mendes (II)

Murilo Mendes

Capa: Marina Mayumi Watanabe / Ilustração: Olivier Toni (1926-2017)

II

A formação de uma discoteca levanta, conforme assinalei na crônica anterior, problemas de escolha e opção. É preciso distinguir o amador esclarecido de música do colecionador de discos. Lembro-me de ter sido convidado, alguns anos atrás, a visitar uma discoteca particular famosa. No fim de duas horas eu estava exausto, com raiva do colecionador, dos fabricantes de discos e quase até da música. O homenzinho, implacável, possuidor de nada menos de quatro mil discos, fazia questão de mostrar todas as maravilhas da solução, em que havia de tudo, um sortimento completo, inclusive dezenas dos mais banais tangos argentinos; a música de salão recebia as mesmas homenagens devidas a Bach, Mozart e Beethoven. Era alucinante. Quase foram necessários os socorros da Assistência1.

Há certas peças musicais — e das maiores — cuja audição perde muito, a meu ver, dentro de um pequeno aposento para uma, duas ou três pessoas. A Paixão segundo São Mateus, de Bach; a Nona Sinfonia, de Beethoven, por exemplo, são obras de expressão coletivista e monumental, obras destinadas e produzir contágio de ideias e sentimentos elevados entre os homens; requerem a atmosfera de uma igreja, de um auditório, de um teatro. Entretanto, o amador que possui uma pequena discoteca poderá comprar duas ou três peças destacadas de cada uma, se bem que eu pessoalmente seja, em princípio, contra a mutilação das obras musicais. Mas, na verdade, dentro da agitada vida moderna, como arranjar tempo para ouvir sempre a Paixão segundo São Mateus, cuja execução dura três horas e meia?…

*

O problema da hierarquia, de uma prioridade de valores e de preferências, coloca-se inevitavelmente diante de toda a pessoa que inicia a formação de uma discoteca com duzentos ou trezentos discos. O critério mais certo consiste em começar pelos músicos essenciais, fundamentais: Palestrina — Bach — Haendel — Mozart — Beethoven — aos quais vem se juntar, entre os modernos, Debussy.

Por exemplo: Mendelssohn, Liszt, Tchaikovsky, são bons músicos, mas trazê-los para casa, e deixar de lado Bach e os outros que apontei, será um abominável “sacrilégio”.

O critério de universalidade choca-se com o de ecletismo. Confesso que posso passar perfeitamente sem Mendelssohn, Liszt, Tchaikovsky e tantos outros; mas sem o “pão cotidiano” de Bach ou Mozart a vida torna-se quase irrespirável… Agora, todo o indivíduo que pretende fazer sua instrução e educação musical terá que conhecer aqueles músicos, secundários muitos, outros mesmo inferiores. Mas isto já é outra história.

*

Da outra vez citamos algumas peças importantes da música clássica. Desta vez quero chamar a atenção dos amadores de boa vontade para a obra de dois músicos da época clássica inglesa: William Byrd e Henry Purcell. A Inglaterra, que é tão fértil em grandes poetas, não o é em grandes músicos. Mas os dois nomes citados asseguram-lhe, por si sós, um posto de honra entre os países que contribuem para a música mundial.

De vez em quando aparecem por aqui discos com trechos de missas, com “chaconnes”, pavanas e “gagliardas” de William Byrd. Comprem, srs. amadores, comprem tudo que encontrarem! Serão transportados de novo a esse lugar de inocência que tanto amam as crianças, os santos e os poetas; a esse “vert paradis des amours enfantines”, “l’innocent paradis, plein de plaisirs furtifs”, que Baudelaire celebrou num poema para sempre famoso, e que a música nos reconstitui melhor que em nenhuma outra arte, dando-nos uma antecipação da Promessa.

Na minha opinião, uma das coisas mais belas que existem em música é Dido e Enéas de Purcell. Esse espécie de oratório ou ópera, como quiserem, é uma das mais perfeitas réussites do gênero. Autolirismo e força de expressão dramática, riqueza de conteúdo, representação da paixão amorosa, um senso exato da economia de proporções da ópera, que já anuncia Mozart — com o qual possui Purcell mais de um ponto de contato — tudo isso faz de Dido e Enéas uma peça da mais alta importância, que não deve faltar na discoteca de um amador esclarecido — já que, felizmente, para o nosso prazer, ela está gravada.

Ainda de Purcell poderá ser encontrada, com relativa facilidade, a célebre Golden Sonata, para dois violinos e cravo. E por falar em cravo, convém tomar nota da obra de dois cravistas franceses, principalmente Couperin e Rameau. A influência desses dois grandes homens sobre músicos consideráveis está hoje definitivamente estabelecida, sobretudo a influência de Couperin sobre Bach e a de Rameau sobre Debussy — o que não é falar pouco…

Voltarei ao assunto em crônicas posteriores.

(“Letras e Artes”, domingo, 23/junho/1946.)

 

Nota:
1 Entenda-se: ambulância. (N. do E.)

*

MENDES, Murilo. Formação de discoteca e outros artigos sobre música. São Paulo: Giordano/Loyola/Edusp, 1993, pp. 8-11.

*

William Byrd (1539/40-1623)

Byrd: Harpsichord Works, Ursula Dütschler
1990, 13 faixas, 1h9min
Claves Records
Spotify – link

William Byrd: Harpsichord Music, Colin Tilney
1974, 10 faixas, 51min
EMI Electrola
YouTube – link

*

Henry Purcell (1659-1695), Dido e Enéas
Dido and Aeneas (c. 1683-88)

Purcell: Dido and Aeneas, Geraint Jones, Nahum Tate, Kirsten Flagstad, Warwick Braithwaites
1949, 40 faixas, 1h4min
EMI Records Ltd.
Spotify – link

Purcell: Dido and Aeneas, Choir and Orchestra of the Age of Enlightenment, Steven Devine, Elizabeth Kenny
2009, 31 faixas, 1h9min
Chandos
Spotify – link
YouTube – link

*

Henry Purcell, Golden Sonata
Sonata Nº 9 in F major, Z. 810 (c. 1680)

Purcell: 10 Sonatas in Four Parts, Catherine Mackintosh, Monica Hugget, Christophe Coin, Christopher Hogwood
1982, 10 faixas, 1h2min
Decca Music Group Limited
Spotify – link

Henry Purcell: Sonata Nº 9 in F major, Z. 810, The King’s Consort
27 a 29 de novembro de 2013, The Menuhin Hall (Surrey, Inglaterra)
YouTube – link

*

François Couperin (1668-1733)

Couperin: Ordres pour Clavecin, Violaine Cochard
2005, 50 faixas, 2h3min
Sound Arts AG, Ambroisie
Spotify – link

François Couperin: Pièces de Clavecin, Rafael Puyana, Christopher Hogwood
1969/70, 18 faixas, 1h7min
Philips Classics Productions
YouTube – link

*

Jean-Philippe Rameau (1683-1764)

Rameau: Pièces de clavecin, Viviane Chassot
2011, 18 faixas, 1h6min
Genuin
Spotify – link

Rameau: Les Indes Galantes (Transcriptions originales pour clavecin), Kenneth Gilbert
1979, 43min
Harmonia Mundi
YouTube – link

*

Johann Sebastian Bach (1685-1750), A Paixão Segundo São Mateus
Matthäus-Passion (1727)

Bach: Matthäus-Passion, Concentus Musicus Wien, Nikolaus Harnoncourt
2001, 68 faixas, 2h42min
Teldec Classics International
Spotify – link

Bach: St. John Passion, John Eliot Gardiner & The English Baroque Soloists
2016, 2h54min
YouTube – link

*

Georg Friedrich Händel (1685-1759)

George Frideric Handel: Water Music, The English Concert, Trevor Pinnock
1983, 19 faixas, 54min
Deutsche Grammophon GmbH, Berlin
Spotify – link
Youtube – link

*

Ludwig van Beethoven (1770-1827), Nona Sinfonia
Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 (1824)

Beethoven: Symphony No. 9, ‘Choral’, Wilhelm Furtwängler
2006, 11 faixas, 1h14min
Naxos
Spotify – link
Youtube – link

*

Claude Debussy (1862-1918)

Debussy: Clair de Lune, Suite Bergamasque, Philippe Entremont
1961, 19 faixas, 1h12min
Sony Music Entertainment Inc.
Spotify – link

Debussy: Suite Bergamasque, Seong-Jin Cho
15 de abril de 2016, Kumho Art Hall (Seul, Coreia do Sul)
Youtube – link

O cantor que conduz um carro feito de sons

Sílvio Diogo

‘Alta velocidade parada’ (2018), álbum de estreia de Danilo Gonzaga Moura / Arte gráfica da capa: Rafael Cintra; fotografia: Diógenes S. Miranda

A voz de Danilo Gonzaga Moura parece ser o principal dos instrumentos em seu disco de estreia, Alta velocidade parada. A ambiência, o tom, os movimentos que ressoam de canção a canção encontram um ponto de convergência no timbre do artista. A dança da voz desenha um percurso marcado por diferentes sonoridades e influências estilísticas, tendo por eixo o que se costuma chamar de música popular brasileira, em diálogo com ritmos dolentes e sincopados da canção em língua espanhola, sobretudo latino-americana.

O álbum, produzido pelo próprio músico juntamente com a cantora argentina Paola Albano, é fruto de um especial diálogo com a poesia, seja nas composições de Danilo em parceria com o poeta e letrista Paulo Nunes, seja nos poemas de Cassiano Ricardo musicados por Joca Freire, ou ainda nos versos do espanhol Vicente Cerveras Salinas recriados na melodia de Wagner Dias e Rodrigo Rosa.

Esse diálogo com a poesia não é uma casualidade; pelo contrário, revela uma unidade conceitual que percorre o disco de ponta a ponta, tecendo gradualmente uma narrativa musical fértil em significados e caminhos. Em tempos de audição fragmentada, aleatória, Danilo Gonzaga Moura não se furta ao desafio de conceber um álbum, no melhor sentido da palavra.

Poderíamos dizer que o argumento do disco, por analogia com o roteiro cinematográfico, são as relações entre o abandono e a proximidade, entre a solidão e o estar em companhia das outras pessoas, entre a infância e a idade adulta, especialmente nos espaços da grande cidade.

Em “Alta velocidade parada”, tema que abre o disco e norteia a sua concepção, com arranjo de Lisandro Massa, os versos de Paulo Nunes compõem a imagem do automóvel (feito para deslocar-se velozmente, mas forçado ao imobilismo, ao congestionamento) como alegoria de um desacerto existencial, um imaginário carrossel que gira em torno de si, movendo-se e permanecendo estático ao mesmo tempo.

O cantor que nos conduz nesse carro constituído de sons está à procura de sentidos, de direções; abre a sua bússola e o seu mapa e convida-nos a viajar juntos. O ambiente sonoro do disco, uma trilha melódica e territorial, descortina-se no encontro criativo com músicos, instrumentistas e arranjadores de variadas tendências e geografias.

O percussionista Andre Rass teve importante participação na construção das ideias rítmicas do álbum, juntamente com o contrabaixista Pedro Macedo. Com o acordeom, Thadeu Romano criou o arranjo da valsa-circense “Na lona”, em que se brinca na corda bamba entre a alegria e os leões, entre o sorriso e o globo da morte. O violonista e compositor portenho Roberto Calvo compôs um arranjo de tango para “Queixa Antiga”, música de Joca Freire sobre poema de Cassiano Ricardo; numa atmosfera de salão, Danilo Gonzaga Moura solta a voz em versos potentes como “minhas longas raízes ficaram/ no chão duro de onde fui arrancado”.

A levada das congas e das maracas, na linguagem da música caribenha, guia a canção “El segundo viaje”, poema de Vicente Cerveras Salinas musicado por Wagner Dias e Rodrigo Rosa. “Chuva fina”, de Sérgio Sampaio, é interpretada em forma de choro-canção, com arranjo de Gabriel Deodato no violão de sete cordas.

O disco também conta com a participação do pianista mineiro Rafa Castro (em “Competição”, “Mais perto” e “Sem tempo”) e da pianista argentina Silvana Albano, que trabalhou no arranjo da música “Arquivado” (composição de Saulo Alves e Paulo Nunes) e como instrumentista em “Manhãs eternas”.

A voz de Danilo Gonzaga Moura ganha força precisamente no encontro com outras vozes. Em “Esencia”, composição dele em parceria com Paola Albano, o timbre delicado passeia pelas interrogações em língua espanhola, em conversa melódica com os sopros da gaita de Victor Lopes: “Donde quedó lo que éramos/ Antes de ser nosotros?”.

“Última canção”, música de Danilo e letra de Paulo Nunes, fecha lindamente o disco, na singeleza da voz e do violão: um desenlace tanto do ponto de vista estético quanto conceitual. Chama a atenção a forma como o compositor tece as ligações e as pausas dos versos em espiral, não deixando, em momento algum, a canção cair.

*

Alta velocidade parada, Danilo Gonzaga Moura
2018, 12 faixas, 41min
Spotify – link
YouTube – link
Deezer – link

*

Para comprar o CD e obter mais informações sobre o disco e o artista, acesse a página de Danilo Gonzaga Moura