Calhe, grafia, cale

A trabalhadora equipe do Ateliê Tipográfico — que faz parte do Centro Editorial e Gráfico da Universidade Federal de Goiás (Cegraf/UFG), coordenado pelo professor Antón C. Quintela —, acabou de imprimir, de forma artesanal, a antologia Calhe, grafia, cale, com vinte poemas de minha autoria.

Fiquei muito feliz com a edição. Foi uma revisita a escritos originalmente publicados nos livros Respingos e clamores (2005) e Desenho do chão (2008), ambos lançados pelas edições Toró, em São Paulo, nos tempos trovejantes do movimento de literatura periférica, que floresceu na rua, na calçada, no bar, na fuga-procura por novos horizontes, no quintal, na sombra, na escola, na praça, no calor, na madrugada, no abraço, na pergunta, na amizade, no amor. Onde ali no coletivo tanto aprendi e onde também tive a oportunidade do erro e da errância.

Agora os poemas, do manuscrito à tipografia, encontram nova disposição, alguma palavra que se trocou por outra, sem que se perdesse o aspecto aprendiz-tateante de uma linguagem que à época se tentava escutar e se ousava tocar.

Os exemplares de Calhe, grafia, cale podem ser encomendados diretamente ao Cegraf/UFG, pelo e-mail: <estoque.cegraf@gmail.com>. (Valor: 20,00 reais. Formas de pagamento: cartão de crédito ou boleto bancário.)

Também podem ser adquiridos pelo sítio da Editora da UFG (todo o catálogo está com desconto de 50%), neste link.

Ou ainda nas livrarias físicas da UFG, por este link.

Masculina coragem


Sílvio Diogo

a Gioconda Belli

Necessita-se de homens corajosos;
homens que olhem nos olhos
e aprimorem o jeito de alegrar as mulheres,
calentar as mulheres.
E alertar-se.
Homens que assumam as próprias imperfeições
e as enfrentem com o ímpeto de que são dotados.
Que percebam, sim, os marasmos da amada
e busquem nos segredos da convivência
os pontos precisos, os momentos precisos
de falar e agir.
Homens que sejam tocados pelo desejo
de estarem felizes consigo,
com os amigos, o trabalho, os sonhos, a vida.
Necessita-se de homens corajosos
para lidar com a casa, as necessidades, as perdas;
os assuntos fortes e delicados.
Homens que procurem cuidar
das carências do corpo,
da saúde do coração.
Necessita-se de novos homens.
E de experiência, também, necessita-se.
Em proveito dos gêneros
(muitos mais do que dois)
é dirigido este anúncio.
Necessita-se, por certo,
de mulheres atentas
a essas tantas
necessidades.

*

Ilustração: — Sílvio Diogo, 2008
(grafite, papel, lápis de cor, tesoura)
[desenho do logotipo das Edições Toró (2005), versão colorida para o livro “Um segredo no céu da boca: pra nossa mulecada”. São Paulo: Edições Toró, 2008]

Pausa para refletir

Espelho mágico,
ó estilhaçado ser
que nos devolve
o escárnio do povo,
a triste figura!

Diante de ti,
irmão fractal,
aos despedaços,
não saímos:
iludidos de ótica.

Arriscas provar
que a vaidade
é o nosso feitiço,
olhar o excesso
em excesso.

Espelho esperto,
espantalho da paz,
queres fazer crer
que somos só
a feia aflição.

Alucinados,
trocamos de pele
e nos vestimos
do lado do avesso
para te agradar.

Ousemos, enfim,
impor uma pausa
à tua presença,
à tua própria imagem
dessemelhante.

Mãos que se achegam
procuram-se ver.
Aos olhos dos outros
(se não forem o inferno)
é que nos descobrimos.

Música das máquinas

Adentrar, menino, a marcenaria;
vasculhar o mundo do marceneiro
de nome Minaré.

— Minaré! Minaré!

Desvendar, no tempo de após,
o maquinário e a memória,
a palavra desenhada,
a datilografia do som,
a melodia sob a agulha,
a revelação da luz.

— E clique! E clique!

Eriçar a ponta dos dedos:
abrir as portas do voo
com o toque da voz.

Contar histórias de um tempo
em que marceneiro e menino
dividem pó de oficina
e canção de motor.

— Minaré! Minaré!

AR-

Onze de dezembro, domingo, fui ao Museu Tipografia Pão de Santo Antônio para imprimir uma nova leva do poema (sem título, até então) que havia composto no ateliê aberto do dia anterior, na programação da Semana do Patrimônio Tipográfico.

No momento de puxar o bloco de tipos, cometi um erro de principiante: deixei escorregar algumas das peças de chumbo, amarradas com barbante, e precisei então reencaixá-las.

Daí veio o erro seguinte: a sílaba “ar-”, da palavra “arrancar”, saiu invertida na composição. E não me dei conta disso até que as vinte cópias do poema passassem pela prensa. Pois bem: lá estava eu com vinte folhinhas de “ra-rancar” rindo da minha cara.

A nova e última emenda, passadas algumas semanas, foi recortar as letrinhas, inverter as cores dos papéis, e batizar o poema de “AR-”, com o hífen movimentando a inspiração e a expiração.
 

 

Chega, o corpo

Nada piora, nada disso
piora. No lugar do corpo onde doeria,
os poros fecharam. Quem foi, poesia,
que o corpo mandou?

Mandou fechar o portão,
cansado de ficar lá
espiando o mecanismo próprio
de inventar futrica.

Inventa que não está,
copia a palavra estrela
e deita, não quer saber.

Joga alto quando se ri
dum anúncio de jazigo
no cemitério fulano.

Não se mandou correndo,
corpo franzino que era
quando mandaram correr.

Esperou todos saírem,
todos se embrutecerem.
E, da cortina, espreita
com os muitos olhos que tem.

O que tinha de piorar
ele não vê, não tem mais.
O corpo é a boca aberta.
Já disse tudo ao dizer
que chega.

*

Do livro Desenho do chão; São Paulo: Edições Toró, 2008