Refugiadas

a que guarda o mistério do casulo

a que me mostrou Fellini
a que lia poemas comigo
a que falava sempre do Recife
a que me trouxe de volta

a que tinha licores de pequi
a que já amava os piás
a que revelou as fotos
a que me levava ao acampamento

a que ouvia o tilintar da chuva
a que ia à noite aos trilhos do trem
a que batia caixa e cantava
a que me ensinou o silêncio

a que não poupava o mínimo riso
a que previa perigos
a que faz e desfaz planos
a que está a caminho

a que permanece estática
a que singra o medo
a que se sente só
a que espreita

a que aguarda o mistério do casulo

*

Sílvio Diogo, 18 de julho de 2018

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Casório

Casório é o nome do meu próximo livro, uma narrativa ficcional em versos, composta de sete capítulos. Do ponto de vista do tema, o enredo centra-se na semana de preparativos para um casamento, na localidade de Ventura. Dispõe-se temporalmente entre o domingo anterior ao matrimônio e o sábado da cerimônia. Cada capítulo atém-se a um dia da semana, com a especificidade de o segundo, correspondente à segunda-feira, referir-se a um tempo anterior ao dos acontecimentos. A trama desenrola-se na cidade fictícia embora boa parte das personagens ali esteja apenas temporariamente. O que reúne e dá sentido à sequência das ações é a realização do casamento. A família da noiva (Tereza Bessa) mora em Ventura, mas tanto ela como o noivo (Xavier Volante) vivem em São Sebastião do Morro Castelo. Por um anseio próprio de Tereza, eles decidem casar-se na pequena cidade, onde a protagonista passou a infância e parte da juventude, antes de se mudar. Os dias de véspera das núpcias e acontecimentos da adolescência da protagonista compõem os dois eixos que estruturam a narrativa.

Do ponto de vista da forma, toda a narração é apresentada em versos, sem rima, com uma estrutura rítmica constante: há uma cesura, não explícita, verso por verso, que marca a divisão cadenciada de duas redondilhas menores (p. ex., “Menina fazia/ carinho no rosto”, “Sem chuva, Thomázia/ varria poeira”). Os diálogos presentes no texto, na maior parte das vezes em verso livre (p. ex., “— Mas dói, vô?”), constituem a exceção ao modelo de metrificação adotado. Sete pequenos resumos introduzem o(a) leitor(a) nas circunstâncias que se desenvolvem em cada capítulo.

O Casório alimenta-se de uma tradição brasileira, tanto literária quanto oral, da narrativa ritmada, e busca transitar nas fronteiras entre a voz e o texto, o erudito e o popular, o feminino e o masculino, o sonho e o ato. Por esse caminho, o arquétipo do casamento encontraria ressonância também do ponto de vista da forma. “Casório” pode ser lido como uma coleção de casos, de causos; e Ventura, o terreno poético em que se permitem e se casam a invenção e a aventura. 

Tereza Bessa, a protagonista / Ilustração de Carolina Tiemi Teixeira

*

Para baixar o arquivo em PDF do primeiro capítulo do livro, clique aqui.

Água para o Brumadinho

— um apelo em poesia

No sítio que é dos Cantares,
convivo com um problema:
o drama comunitário
com que construo o poema.

É um apelo, confesso,
nascido da impaciência.
A formalidade, há anos,
não resultou em sucesso.

Nas terras do Brumadinho,
luminoso lugarejo,
falta a água, imprescindível
para todos os vizinhos.

Protocolamos ofícios,
procuramos Copanor,
tentamos a Prefeitura;
toda sorte de artifícios.

Não há água na torneira.
Ninguém possui o registro.
Até o Ministério Público
conhece bem tudo isto.

Reuniões se sucederam,
cálculos foram feitos.
Compromissos no papel
mostraram-se sem proveito.

O Brumadinho, no Guinda,
é um formoso povoado:
dia de névoas e sol;
noite de céu estrelado.

As corujas esvoaçam
e algum coelho aparece.
Aranhas, rãs e calangos
a sua morada tecem.

Variedades de rochas
fascinam estudiosos;
os coloridos cascalhos
indicam bens preciosos.

Conglomerados antigos
afloram por muitos lados.
Incontáveis diamantes
extraíram-se aos bocados.

Nesse lugar pioneiro,
relata-nos a história,
garimpeiros cavucaram
a joia dentro da rocha.

O garimpo, todavia,
escasseou com o tempo.
Abandonaram-se as lavras,
sobraram grandes crateras.

Duros blocos de rochedos,
mais despesas do que lucro:
vidas duras de sustento
no horizonte do Tejuco.

Na bravura, os moradores
fixaram residência
nos terrenos descuidados
(meio de subsistência).

Um monte de cangas rubras
chamado Paiol de Pedra
já guardou muito tesouro.
E hoje é nome de rua.

Preservar o Brumadinho,
sua história e geologia,
é olhar para o Cerrado,
suas mínguas, sua magia.

Um ponto dos mais difíceis
é o acesso às fontes hídricas.
Os mananciais, já raros,
na estiagem dão o mínimo.

E se cada domicílio
pudesse contar enfim
com o fluir da água potável,
própria para ser bebida?

A vida vicejaria
na horta regada, forte;
no frescor dos alimentos;
no banho com mais conforto.

Partilhamos do princípio
de que a água é um tema público.
Querelas ambientais
são repletas de conflitos.

Por isso, é indispensável
que o diálogo aconteça,
que a omissão se desfaça,
que se escutem as queixas.

Sabemos que a crise hídrica
não é privilégio nosso.
A sede atravessa o século,
o mundo de injustas posses.

Torna-se prioridade
procurar alternativas
que contemplem os saberes
do povo e dos cientistas.

No bioma do Cerrado,
as plantas medicinais
são força das benzedeiras
que espantam o mau-olhado.

Brincar de subir em árvore.
Andar atrás das formigas.
Pular de peito no rio.
Artes de criança antiga?

Pois bem, temos as lições
do passado e do presente
para estrear a estação
que acenda os sonhos da gente.

A distância é pouquinha.
A caixa-d’água do Guinda
está só a um quilômetro
do núcleo do Brumadinho.

E há um leve declive
ao longo do chão da estrada
que facilita o traçado
de uma nova rede hidráulica.

O empenho da Prefeitura
no cadastro dos imóveis
será vital ao projeto
de tudo quanto almejamos.

O município aprovou
um regimento específico
voltado a áreas rurais
com aspectos urbanos.

Espera-se que esta lei
proporcione os registros
e as certidões de número
para cada moradia.

Um Brumadinho com água,
entre o campo e a cidade,
é sonho que cultivamos.
E a vida é sonho. E é árvore.

Candeia, ipê, jatobá,
samambaia, quaresmeira,
gameleira, gabiroba,
goiaba, jequitibá.

De galho em galho voamos
na utopia, na fé.
A gente enfim quer bebida,
quer diversão e balé.

Sílvio Diogo
— primavera de 2017

*

Nota: Inspirado no morador de Brasília — Luiz Carlos Garcia — que converteu a sua indignação com um vazamento de água num longo poema reivindicatório, tentei traduzir em versos o apelo em defesa da implantação do abastecimento de água no povoado do Brumadinho, distrito do Guinda, em Diamantina. A questão me toca diretamente, pois ali venho construindo uma casa, o Sítio dos Cantares. Agradeço ao amigo Renato Oliveira, vizinho de Brum’s, por provocar-me à escrita.

AR-

Onze de dezembro, domingo, fui ao Museu Tipografia Pão de Santo Antônio para imprimir uma nova leva do poema (sem título, até então) que havia composto no ateliê aberto do dia anterior, na programação da Semana do Patrimônio Tipográfico.

No momento de puxar o bloco de tipos, cometi um erro de principiante: deixei escorregar algumas das peças de chumbo, amarradas com barbante, e precisei então reencaixá-las.

Daí veio o erro seguinte: a sílaba “ar-”, da palavra “arrancar”, saiu invertida na composição. E não me dei conta disso até que as vinte cópias do poema passassem pela prensa. Pois bem: lá estava eu com vinte folhinhas de “ra-rancar” rindo da minha cara.

A nova e última emenda, passadas algumas semanas, foi recortar as letrinhas, inverter as cores dos papéis, e batizar o poema de “AR-”, com o hífen movimentando a inspiração e a expiração.
 

 

Chega, o corpo

Nada piora, nada disso
piora. No lugar do corpo onde doeria,
os poros fecharam. Quem foi, poesia,
que o corpo mandou?

Mandou fechar o portão,
cansado de ficar lá
espiando o mecanismo próprio
de inventar futrica.

Inventa que não está,
copia a palavra estrela
e deita, não quer saber.

Joga alto quando se ri
dum anúncio de jazigo
no cemitério fulano.

Não se mandou correndo,
corpo franzino que era
quando mandaram correr.

Esperou todos saírem,
todos se embrutecerem.
E, da cortina, espreita
com os muitos olhos que tem.

O que tinha de piorar
ele não vê, não tem mais.
O corpo é a boca aberta.
Já disse tudo ao dizer
que chega.

*

Do livro Desenho do chão. São Paulo: Edições Toró, 2008