AR-

Onze de dezembro, domingo, fui ao Museu Tipografia Pão de Santo Antônio para imprimir uma nova leva do poema (sem título, até então) que havia composto no ateliê aberto do dia anterior, na programação da Semana do Patrimônio Tipográfico.

No momento de puxar o bloco de tipos, cometi um erro de principiante: deixei escorregar algumas das peças de chumbo, amarradas com barbante, e precisei então reencaixá-las.

Daí veio o erro seguinte: a sílaba “ar-”, da palavra “arrancar”, saiu invertida na composição. E não me dei conta disso até que as vinte cópias do poema passassem pela prensa. Pois bem: lá estava eu com vinte folhinhas de “ra-rancar” rindo da minha cara.

A nova e última emenda, passadas algumas semanas, foi recortar as letrinhas, inverter as cores dos papéis, e batizar o poema de “AR-”, com o hífen movimentando a inspiração e a expiração.
 

 

Chega, o corpo

Nada piora, nada disso
piora. No lugar do corpo onde doeria,
os poros fecharam. Quem foi, poesia,
que o corpo mandou?

Mandou fechar o portão,
cansado de ficar lá
espiando o mecanismo próprio
de inventar futrica.

Inventa que não está,
copia a palavra estrela
e deita, não quer saber.

Joga alto quando se ri
dum anúncio de jazigo
no cemitério fulano.

Não se mandou correndo,
corpo franzino que era
quando mandaram correr.

Esperou todos saírem,
todos se embrutecerem.
E, da cortina, espreita
com os muitos olhos que tem.

O que tinha de piorar
ele não vê, não tem mais.
O corpo é a boca aberta.
Já disse tudo ao dizer
que chega.

*

Do livro Desenho do chão; São Paulo: Edições Toró, 2008