A moça do box

Sonhei com a moça do box. Não reconheci o seu rosto. Havia a névoa quente ao redor dela, e permaneci à porta. Havia o vapor do sonho.

Foi assim: eu chegara a uma casa circundada por árvores, de aspecto simples, pintura descascando, com varanda e quintal. Estava aberta. Não dava ares de abandono, ao contrário, os móveis, as plantas, os utensílios indicavam que era habitada.

A curiosidade conduzia-me pelos espaços da casa, e quando pressenti que a qualquer momento poderia chegar gente, elas efetivamente apareceram. Eram mulheres. Entraram falantes e não demonstraram surpresa com a minha presença. Traziam sacolas e já se iam esparramando pelos cômodos.

Foi uma menina que veio até mim. Pediu-me que alcançasse uma caixa de brinquedos no alto da estante. E me apontava detalhes do ambiente enquanto brincávamos. Era estranha a naturalidade de tudo.

Passado algum tempo, em que se fez silêncio na casa, a menina me guiou para um corredor que principiava à esquerda da sala onde estávamos. Caminhei por ele, à meia-luz, até a última porta à direita. Estava aberta também.

E eis que me encontro com a imagem da moça do box, no banho. Além dela, uma outra mulher completava o quadro. E creio que foi por causa da presença tranquila desta última, sentada junto à entrada, que permaneci parado à porta. Com a espontaneidade própria dos acontecimentos do sonho, a moça do box pôs-se a falar comigo, a conversar sobre assuntos que eram de meu conhecimento e interesse. Eu não a reconhecia. Ela falava e falava, no meio do vapor.

Foi assim que pude saber da localização da casa, dos arredores, de como havia ido parar ali. Não havia hesitação nas palavras da moça. Ouvi com atenção tudo o que me contou, e só fui ser provocado pela interrogação sobre a sua identidade quando acordei.

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Calada

O tema desta historieta é tão velho quanto andar para trás. Como só fazemos andar para trás na atual temporada, vamos lá. Há uma pessoa que me conta as cenas e aqui simplesmente as transcrevo. Pode-se resumir tudo nos versos de Cacaso: “O amor que não dá certo sempre está por perto”.

O ano é 1991. Patrícia é funcionária do departamento de odontologia da universidade e apaixona-se por um estudante, Felipe, pouco mais jovem do que ela. Tenta de todo jeito contornar ou evitar o embaraço, mas em vão. Passa então a contornar o próprio Felipe, a dar-se à vista do moço, a demorar-se nos poucos toques que trocam, mas em vão. O curso dele se esvai, Felipe se forma. Ela não lhe diz o interdito.

A turma toda sabe do amor de Patrícia. Felipe, não. Ou faz que não.

Passada a primeira fase de turvo desengano — ele já longe —, Patrícia quer materializar o sentimento, por incerto que seja, platônico ou o escambau, num ato concreto. Como não é simpática a lampejos de fúria, decide compor uma música. Não tem ideia de que elementos é feita uma música. Quer porque quer.

Ensaia em casa, escreve versos, arrisca uma melodia. Canta por muitas manhãs. Quando considera estar razoável, aluga uma hora de estúdio, deixa tudo planejado com um conjunto de instrumentistas; ela própria se dispõe a gravar a voz. No dia marcado, o conjunto não aparece. O técnico do estúdio vê-se premido por duas circunstâncias: o tormento da mulher (de mistura à falta de traquejo) e o pulsar do relógio na parede revestida com isolamento acústico. Sugere-lhe assim que vá para casa, tente adaptar a letra à melodia de uma canção já existente e retorne no dia seguinte.

Patrícia escolhe na madrugada “Gravity of love”, do projeto Enigma. Sua letra chama-se “Calada”.

O técnico, solícito à causa, faz o que pode na mistura. E Patrícia vê o quanto, num estúdio, uma hora é pouquíssimo. Consegue sair, feliz da vida, com três cópias em CD. É a sua música!

Faz-se necessário contar que já estamos em 2001 e que nossa protagonista está casada. Quase não se faz presente a imagem de Felipe, a vida toma rumos estáveis. Na universidade, ela trabalha há tempos em outro departamento. É nos corredores do prédio de odontologia, contudo, que encontra um colega dos tempos antigos que lhe dá notícias, após um caloroso abraço, sobre Felipe: “ele anda aqui perto, para um congresso”.

“O quê?!”

Sem esperar o término do expediente, a mulher inventa pelo telefone qualquer desculpa ao marido, passa rápido em casa, recolhe um dos três empoeirados CDs, guardados entre papéis, e viaja de carro à cidade vizinha. O périplo por pousadas, hotéis e chácaras não a leva a congresso algum. Interroga, conversa, manobra, orienta-se, retorna, inventa novas histórias. Senta-se sozinha às vinte e uma horas de sexta e pede uma cerveja na calçada do bar.

Em frente, a rádio comunitária evangélica anuncia promoções da farmácia. Ela se perde em devaneios vários e, é óbvio, na incômoda pergunta sobre o porquê de estar ali àquela altura da noite, do ano, da vida. No intervalo desses pensamentos ou, quem sabe, em uma das interrupções do som alto contíguo, ocorre-lhe a ideia de ir à rádio e pedir que toquem sua música para toda a cidade. O programador que lhe recebe pede apenas, em troca, a cópia do CD. Não sem relutar um tempo e explicar que se trata tão-somente de um plágio do projeto Enigma, Patrícia cede. E assim se dá a estreia de “Calada”.

Felipe continua personagem ausente. Estamos em 2013. Patrícia, divorciada, procura com os funcionários da odonto o endereço original do ex-aluno, entre os registros de arquivo. Dirige-se com um amigo até as imediações da residência ali informada. E depois de inventar outra história na vizinhança consegue saber que, desde o término do curso, ele mora em Brasília. Em um quase amanhecer da mesma semana de investigações, ela quer pixar uma frase para Felipe na fachada da casa onde ainda vive a mãe do homem.

Por motivos de segurança e por sigilo acordado com a pessoa que me narra a história, não informo a localização da casa. Posso dizer que a tentativa do recado no muro é frustrada por dois policiais que rondam o bairro; e que Patrícia só não é presa com o amigo porque se decide a contar a versão real a eles. Como prova, entrega-lhes a segunda cópia do CD.

Infelizmente, não há mais a relatar. Patrícia está hoje disposta a esquecer Felipe. Quer sim melhorar a música, incrementá-la, gravá-la de novo e, de preferência, com instrumentistas de verdade. Ela própria frequenta aulas de canto.

Casc’ de ferida

Sempre achei graça nessa expressão que os meus primos usam para se cumprimentar:

— Eaê, Casc’ de Ferida!

Assim, sem a vogal, uma palavra emendando na outra, quase sendo arrancada a ponta da casc’…

Nos últimos dias não me sai da mente a imagem: a democracia é uma casquinha na ferida da vida histórica.

E quem há de negar que ela é imprescindível à cicatrização?

Um minuto

O equivalente, em película, a um minuto de filme: era este o material que os aspirantes a cineastas, estudantes de audiovisual, recebiam.

O trabalho era fazer caber, em um só minuto, ideia, roteiro, enredo, cena, personagem, poesia, narrativa, devaneio: o que quer que fosse.

A limitação técnica apresentava-se ao exercício criativo de modo determinante. Exigia esforços prévios, arquiteturais, projetivos. Desenhava-se.

Filmar ainda se assemelha a subir ao palco, a pôr em cena a vida, os corpos, a respiração.

Enceno a lembrança do minuto de película a fim de movimentar o foco rumo ao tempo de preparo, à gestação da arte, à memória dos instrumentos de ofício.

Quem, por exemplo, inventa jogos de caça às borboletas não ignora a travessia dos artífices.

Sem Nome

Sem Nome, cãozinho cambaio, passara a frequentar a garagem do prédio. Valia-se de sua magreleza para cruzar a grade em que os outros vira-latas ficavam enganchados. Assim, protegia-se do frio e podia receber o eventual alimento que os moradores lhe dispensavam. Só uma regra Sem Nome tinha de seguir: não engordar a ponto de ficar preso nos vãos da grade. Era simples.

A manicure

A manicure está de mãos trêmulas, ao tocar a extremidade machucada de outra mão. A manicure sabe que seria mais doído no Dia das Mães. Ali nas linhas de suas palmas a memória não produziu o alívio da perda de um destino. De um, não. De dois.

Levaram, do filho primogênito, aos vinte e três anos, um carro — e a vida. A esposa do rapaz estava grávida. Não deu conta do luto, e a neném que nasceu ficou com a avó, a manicure. A pequena crescia na casa entristecida.

O filho primogênito tinha uma irmã. Três anos depois dele, ela se foi, com chumbinho. Também aos vinte e três anos. A manicure não a encontrou mais, sobre a cama, ao chegar em casa. Era uma depressão incubada — foi o que disseram. Não havia mais os seus filhos.

Agora, neste Dia das Mães, a pequenineta está com oito aninhos. A vida segue com sorrisos menos expansivos.

Não sei bem onde, mas podia também existir manicure homem.

Quadrilha

Jeanne

Aline Crestani e Silvio Diogo

Adele em temporada de partida. Escobar não deseja Capitu. Encontram-se na noite do Velho Mercado, revestida de roupas brancas. Lua crescente. Provam-se petiscos e biritas, passos trançam o chão de pedras curtido. Puxam as rodas planos e danças. Segundas vozes se juntam e ensaiam harmonia com o canto desafinado que vem do palco.

Prova de que sonhos não envelhecem é a aparição, em pessoa, de Jeanne Moreau. Adele extasia-se. Olha para Escobar e lhe conduz ao close. Os demais trajes brancos perdem foco para o vestido preciso, o porte elegante, os olhos que sorriem. Na roda em que estão, partilham do encantamento com Cravo e Canela, o casal ruivo que ri muito.

Antes de pensarem na forma de aproximação, ocorre a Escobar que a mulher se parece com uma amiga sua, contadora de estórias. É a deixa para que ele, após instantes de hesitação e exclamação, decida ir ao encontro dela.

Em pé, à sua frente (a mulher está sentada entre amigos), pergunta se é parente da contadora de estórias. A resposta, muito sorridente, é não. Escobar sorri, puro de tão bobo, inventa mais algumas palavras inexpressivas e despede-se sem perguntar o nome de Jeanne Moreau.

No retorno à roda, Adele está inconformada com o relato. Cravo e Canela riem. Aproximam-se do grupo Hilda e Cigano. “— Prazer em conhecer”. Hilda pergunta a Escobar se tem parentesco com um outro Escobar da cidade. Este, bobo como sempre, devolve a pergunta: “— Isto é uma desculpa?”. Mais risos.

Chega Elza. Tem pressa. Ouve as querelas da roda, compreende, mas tem pressa. Há uma semana sabe quem quer. Seu desejo pertence a outra trupe, do outro lado do Oceano. Mas por acaso agora está próximo, à sua frente. O gesto de Elza é certeiro: aponta, chama e vai. Está perto de Benjamin. Logo, sem alvoroço, saem sozinhos os dois.

Escobar e Adele, uma vez que nem o mínimo sabem descobrir, resolvem sair em breve, a tempo. Em descompasso sobem os becos. Depois de cruzarem mesas, gente e ladeiras, certa moça encaracolada levanta-se com ânimo abrupto. Escobar, ainda bobo, confunde-a com uma surda e muda que conhece. Ao chegar mais perto, surpreende-se com o abraço falante: “— Oi. Noite linda, né?!”. Não é quem ele pensa. Adele, boquiaberta, monta o quebra-cabeça e sabe que essa moça é Quitanda. As duas sabiam-se, mesmo sem saber.

Segue o périplo. Vai-se fechando a noite, e ninguém sobe ao encontro deles.

Dois dias depois, reaparecem Quitanda e Jeanne Moreau.

*

[Imagem: “Jules e Jim”, François Truffaut (1962)]