Rebelde

Juana de Ibarbourou

Caronte: serei escândalo na tua barca.
Que as outras sombras rezem, gemam, chorem,
E sob os teus olhares de sinistro patriarca
As tímidas e tristes, em baixo timbre, orem…

Eu irei como calandra cantando pelo rio
E à tua barca levarei o meu olor selvagem,
E irradiarei nas ondas do córrego sombrio
Alguma azul lanterna que alumbre a viagem.

Por mais que tu não queiras, e um piscar de horror
Me lancem teus dois olhos, mestres no terror,
Caronte, eu na tua barca serei como um escândalo.

E exausta de sombra, de préstimo, de frio,
Quando quiseres me deixar na margem do rio
Serão os braços teus a me soltar: conquista de vândalo.

*

[tradução: S.D.]

‘A história das nuvens’: nove meditações

Com Marcela Abreu Guimarães, traduzi nove poemas de Hans Magnus Enzensberger, publicados em “A história das nuvens: 99 meditações”, livro inédito em português (Die Geschichte der Wolken. 99 Meditationen, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003). A transcriação teve suas idas e vindas, aprendizados, revisões, pausas e relampejos. Foi novo, nublado e numinoso. Esperamos que gostem.

*

— Hans Magnus Enzensberger

*

Memória do exato momento

A manhã do remorso que te atravessa os membros feito uma dor ciática;
o dia em que te fizestes ridículo para todo o sempre;
a tarde em que deitas no chão e o sangue te escorre do nariz;
a hora em que descobres que te iludistes durante quatorze anos, nove meses e duas semanas;
o minuto em que tua própria filha te olha como uma estranha;
o momento em que acreditas sentir nas costas a ponta da faca;
o instante em que encontras a carta de despedida sobre a mesa da cozinha;
o décimo de segundo em que a avalanche começa a se soltar sob teus pés;

e antes e depois os muitos instantes inimagináveis de sossego.

*

Inevitável

Mais um desses pares amorosos
que vagarosamente se dilaceram;
outra vez o homem com as piadas
das quais ninguém mais ri;
eis também a mulher com o cachorro
que late para todo o mundo;
o que fracassa na cama — oh sim, ele! —;
aquele outro com a cabeça quente
porque o escapamento enferruja;
o relutante que não quer pagar;
ou — chi! — o neto de voz fraquinha
com o lábio inferior caído cambado,
e, olhe só, o assassino!
como ele remorde a derrota que sofreu
naquele tempo, seiscentos anos atrás;
é o fervoroso embaraço relembrado,
o pavor da próxima cólica,
o tão esperado beijo de Judas,
tudo isso se eleva pontualmente,
como um joão-bobo, retorna,
como a conta de telefone e a lua.
Ai de nós! O choque desolador de sempre,
o malfadado reconhecimento,
quando a velha caixa de surpresas se abre
e o diabo de molas salta em nossa cara.

*

Divisão do trabalho

Tudo o que tu não podes:
aterrissar o Jumbo abarrotado,
provar o teorema de Mordell,
fazer tricô – que os outros façam por ti,
pouco prendado como és,
dependente do Sagrado São Floriano,
do diretor da cadeia, do homem
com os alicates isolantes, da mulher que lê a sorte,
do carroceiro com o lixo, do benzedor
e, não por último, da mamãe.
Todos podem trazer alguma coisa
para teu sustento, teu divertimento
e te fazer, quer queiras ou não,
companhia — e tu?

*

Metrô Wittenbergplatz

Aqueles que desabam contra ti, para baixo
no Hades cotidiano
na escada rolante, este homem velho,
todo envolvido em seu coração casmurro,
e a senhora enxovalhada
que murmura consigo alguma amargura —

eles também já se entusiasmaram,
outrora, um dia, esquecidos de si próprios,
fora de si, radiantes
de louca alegria, ou não?
Como se passou? Desde quando? E por quê?
Lá fora a neve também, mais uma vez,

virou lama.

*

Câmara obscura

Esta mulher à tua frente
à contraluz, indecifráveis
boca e olhos,
um espectro. Perguntas
a ti mesmo, apenas: quem, quando,
de onde vem,
o que silencia,
o que me censura?

Numa nuvem sombria
ali está, inabalável.
Ofuscado por tanta luz,
tanto esquecimento,
estás sentado diante dela
nessa cadeira nua.
Tu não vês.
Tu és visto.

*

Nu artístico

O trovão na noite de agosto despertou-me,
mas tu, no sono, arremessaste o lençol,
sem sonho, sem abalar-te pela torrente elétrica.
Raios de magnésio cegam tuas pálpebras fechadas.
Um branco violeta brilha em teus quadris que respiram,
enquanto, milhares de vezes, a água dançante matraqueia no telhado.

*

Temperaturas

Há temperaturas que nenhum termômetro mede,
apenas a pele pode distingui-las:
o morno vapor do bebê, que cheira a soro de leite,
o sopro fresco do pêssego, vindo da geladeira,
a avermelhada erupção da fúria, que o sarampo aflora em nossa face,
e a fria flor de gelo, que queima a língua curiosa da criança;
e, mais, o ardor febril do ciúme nas pontas dos dedos,
o acalorado pudor, que encharca o cérebro,
e o que nunca e em nenhum outro lugar ocorre em nossa galáxia:
as duas quenturas dos que, lado a lado, na cama, se aconchegam adormecidos.

*

À meia-luz

Quando ela está assim deitada, completamente de lado,
como uma vaca ou uma gata,
sem propósito ou arrependimento,
um halo à meia-luz rodeia
sua pele cintilante.

Tu podes perceber, tu sentes,
quando estás suficientemente perto dela,
essa suave radiação
no longínquo infravermelho.
Uma demonstração de Fourier
que ninguém decifra.

É somente um sopro,
que te toca mais
que o toque,
e que tu não sabes por quê;
é talvez a sorte.

*

Cadê?1

Ó,
teu sempre e muito ver o que se passa,
teu captar a tempo. Como esquecer
tuas miradas, teu olhar de apreensão,
faro infalível?
Um só inútil encrespar de mares,
trazê-lo à vista e esperar
até a pouco e pouco o sol se pôr
— tal paciência te faltava.

Eram bem outros teus anseios
e tempo algum para o arrepio
do passear dos dedos no cabelo.
O esquilinho cinza, extraviado
no metrô, nem te chamava a atenção.
E mesmo o aroma do amor,
que lento, lentamente se dissipa,
te deixou, para calar de todo
o tremeluzir de estrelas e
a loucura inteira que se insinua
por sobre a ponta dos pés.

Ó,
teu não ver mesmo o que se passa,
teu não notar coisa nenhuma.

 

1 Optou-se por traduzir este poema de modo mais livre em comparação com os anteriores. O título “Schade” (pena, lástima, pesar) foi vertido como “Cadê?”, sonoramente próximo ao original em alemão e, do ponto de vista dos tradutores, mais interessante para evocar o sentido e a situação do poema como um todo. Também a quebra de versos e de estrofes sofreu pequenas alterações na tradução, para reforçar a interjeição “Ó”.

 

*

Die_Geschichte_der_Wolken

*

Sobre os tradutores

Marcela Abreu Guimarães
Cursou graduação em Letras (Bacharelado em Alemão) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com pesquisa acerca das paisagens socioculturais na obra de Lima Barreto. Contato: abreumarcela@gmail.com
Sílvio Diogo
Cursou jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Publicou os livros de poemas “Respingos e clamores: libreto do fundo do peito liberto” (2005) e “Desenho do chão” (2008); além da tradução de “O olho da mulher”, poesia reunida de Gioconda Belli, da Nicarágua (2012). Contato: silviodiogo@yahoo.com.br

 

Pessoa e democracia: a história sacrificial

Maria_Zambrano

María Zambrano

É difícil que as pessoas entendam que um regime não seja uma espécie de estrutura fixa, de “coisa”, daí que exijam dele, acima de tudo, a quietude. E, mais, que confundam esta quietude com a ordem. A mente da maioria das pessoas é todavia estática e concebe a realidade como conjunto de coisas e a vida – até mesmo a própria – como conjunto de fatos, negando-se a ver que os fatos são “momentos” de um interminável processo, analogamente ao modo como as chamadas coisas são, segundo a física moderna, feixes de energia. Mesmo essas ideias não criaram imagens adequadas nem engendraram, portanto, um sentimento que lhes corresponda. Subsiste ainda a velha imagem da “materialidade” das coisas e do tempo plano, povoado de fatos da vida histórica. É o “materialismo” do qual temos que nos livrar – nós, os ocidentais.

A Democracia como regime há de ser a expressão, a resultante da sociedade democrática. Sociedade que se irá alcançando na medida em que a visão do homem vá adquirindo uma visão mais justa da sua própria realidade e, através dela, da realidade toda; lhe vá perdendo temor. Dir-se-ia então que a necessidade de descobrir o real e de defrontar-se com ele teve desde sempre que lutar com um pânico da realidade. Em todo homem preserva-se essa batalha, e em toda sociedade também. Até agora, o projeto da vida democrática é o que, entre todos, aparece mais livre desse temor ancestral da realidade.

Em todo absolutismo de pensamento e em todo despotismo jaz o medo da realidade humana e até da realidade, prévia à humana. Teme-se a riqueza, a multiplicidade, a mudança. Intui-se ou pressente-se a disciplina que é preciso ganhar para viver frente a uma realidade que se reconhece como movimento. Pois, se se crê que o real é imóvel, tende-se a ficar imóvel, ou melhor, quem o concebe move-se com a ingênua segurança das crianças que acreditam que a lua e as estrelas estão fixas. E ainda o afã da dominação: se tudo está quieto e só eu me movo, quero dizer que o posso dominar.

A confusão da ordem com a quietude funda as suas raízes num terror primário. E é um dos aspectos mais perigosos desse estatismo que ainda subsiste na mente ocidental. Pois não há razão para que a imagem seja a de um edifício, mais do que a de uma sinfonia. O motivo pelo qual para a maioria das pessoas seja assim pode ser, talvez, que o edifício esteja aí de uma vez por todas… enquanto dure. E a sinfonia temos de a escutar, atualizá-la a cada vez; temos de certa forma de a refazer, ou sustentar o seu fazer-se: é uma unidade, uma ordem que se faz diante de nós e em nós. Exige-nos participação. Temos de entrar nela para a receber.

A ordem de uma sociedade democrática está mais próxima da ordem musical do que da ordem arquitetônica. A história começa quando se erige uma construção; e, conforme dissemos, a imagem da vida histórica, até agora, é a de algo que se edifica. A transformação que há de se verificar talvez seja de modo a que, algum dia – felizmente –, a imagem da vida histórica, do fazer histórico, provenha da música; desta ordem que harmoniza as diferenças.

Pois a grande novidade da ordem democrática é que há de ser criada por todos. A ordem de algo que está em movimento não se faz presente se não entrarmos nela. Esta é a singularidade de uma ordem que só se revela a nós quando a ela nos incorporamos. Por isso, as pessoas hostis à democracia encontram-na sempre desordenada ou na iminência da desordem, muito embora os países onde ela existe, mesmo que de forma incipiente, mostrem maior estabilidade e equilíbrio do que os submetidos a regimes de “ordem e autoridade”. E ainda chegam alguns a justificar, e a agradecer ao céu, os milhões de mortes havidas para livrar um país da “desordem” de uma democracia que não custara vida humana alguma para se instaurar e que não executara sentença alguma de morte para se manter. Ao negar-se a participar de sua ordem, simplesmente confundem esta ordem vivente e fluida com o caos, como alguém cujo ouvido não pudesse seguir o fluir de uma melodia ou a complexidade do contraponto; alguém que quisesse encontrar a ordem e a harmonia no som contínuo de uma nota. É o quietismo do qual temos que nos livrar – nós, os ocidentais.

A ordem democrática se alcançará somente com a participação de todos como pessoas, o que corresponde à realidade humana. E a igualdade de todos os homens, “dogma” fundamental da fé democrática, é igualdade na condição de pessoas humanas, não em qualidades ou caracteres; igualdade não é uniformidade. Trata-se, pelo contrário, do pressuposto que permite aceitar as diferenças, a rica complexidade humana – não apenas a do presente, como também a do porvir. A fé no imprevisível.

Será utópico pensar que esta ordem, em lugar de excluir realidades, as irá incluindo todas? Ordem é limite, e limite é exclusão. Mas o limite, e o seu inevitável excluir, pode funcionar de outra maneira, numa situação futura que hoje somente podemos vislumbrar. No entanto, daquilo que se vislumbra podem nascer algumas indicações, como flechas que marcam uma direção.

Viver humanamente é ter que eleger entre as circunstâncias, disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, ao enunciar a Razão Vital. Mas há uma eleição prévia, decisiva entre todas: a que se faz de si mesmo. Sempre entendi a afortunada fórmula de Ortega – “somos necessariamente livres” – como equivalente a esta: “somos necessariamente pessoa”. Mas não é o mesmo, se para além de o ser necessariamente, se quer sê-lo, pois aí se coincide com o próprio ser livre. Atualiza-se a liberdade; só então a comum, a própria.

Nesta situação de liberdade atualizada, a realidade aparece de maneira diversa em relação a quando se é apenas “necessariamente livre”. Diferença que se mostra abissal quando se é livre sem o querer ser, quando se é pessoa apenas pelo fato do nascimento. A realidade deforma-se na mente de quem é pessoa “à força”; não há de ser outra a raiz do ato da calúnia. Quem é apenas necessariamente pessoa teme a realidade e a planifica: plana, esquelética, quase uma imagem de morte. Ao passo que a realidade se torna mais real à medida que se ordena, para quem tenha aceito a si próprio como pessoa. A realidade é vida para ele.

Porém, há um modo de se afirmar como pessoa, um modo trágico que é afirmar-se como personagem; o personagem é sempre trágico; sob ele geme a pessoa e, para um dia se libertar, precipita-se na tragédia, depois de ter precipitado aquilo que dela dependia. Se o homem ocidental retirar a sua máscara, renunciar a ser personagem na história, estará disponível para eleger-se como pessoa. E não é possível eleger-se a si mesmo como pessoa sem eleger, ao mesmo tempo, todos os demais. E os demais são todos os homens.

Com isso não se acaba o caminho; melhor, começa.

 

Roma, 23 de julho de 1956

 

[Persona y democracia: la historia sacrificial. Barcelona: Anthropos: 1992; trecho do capítulo “La función de la minoría y del pueblo en la democracia naciente”; pp. 162-5]

Tradução: Sílvio Diogo

A vida em crise

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María Zambrano

Não parece muito necessário justificar que acreditamos estar vivendo em crise; é já um lugar comum de nossos dias e, como tantos lugares comuns, leva-nos a correr o risco de que resvalemos sobre ele, sem nos adentrarmos. Porém, a acontecer assim, será como resvalar sobre nossa própria vida. E o grave é que tal coisa — resvalar sobre a própria vida, sem adentrar-se nela — pode ocorrer com suma facilidade. Por isso é necessário que tentemos desentranhar o que há dentro dessa realidade a que aludimos ao dizer crise. É necessário. E, no entanto, não nos podemos atrever a defini-la deveras. Só nos cabe fazer isso que não é fácil confessar que se faz, em virtude do indevido uso de uma palavra que foi, em outros tempos, humilde e expressiva como tantas outras. A atividade humana denominada meditação, de humilde expressão, não significa resultado algum a não ser simplesmente uma atividade, uma atitude quase, muito colada à vida de todos os dias, já que a meditação não é senão a preocupação que corre sem se revolver, um pouco domada por um certo leito; uma preocupação que se fundiu com nossa mente, incrustada em nossas horas. E tão colada à vida diária que, a exemplo desta última, não tem término fixo de antemão; não vai concluir em nenhuma obra ou resultado; e só vai se justificar modificando-se a si mesma, tornando-se, passo a passo, mais transparente, alcançando maior claridade. Algo, enfim, parecido a uma confissão. Buscamos saber o que vivemos; como se disse poeticamente, “vigiar o sonho”.

Viver em crise é viver em inquietude. Mas toda vida se vive em inquietude. Nenhuma vida, enquanto passa, alcança a quietude e o sossego, por muito que o anseie. Não será simplesmente a inquietude o que caracterize o viver em crise, mas sim, em todo caso, uma inquietude determinada, ou uma inquietude excessiva, além, ou no limite, do suportável.

Assim parece ser. Se repassamos os títulos das revistas literárias jovens e também dos livros de Poemas ou de Ensaios dos anos que vão de 1915 a 1930, a palavra “inquietude” ou “inquietudes” é a que com maior frequência aparece. E é sabido o quão delator é o fato de que uma palavra seja usada com preferência na expressão literária e, mais ainda, na expressão literária balbuciante.

Já desde o início deste século parece ter sido ultrapassada a margem de inquietude em que toda vida se desenvolve. Isso se fazia ostensível em múltiplos sintomas: no estilo arquitetônico chamado “modernista”, que imprimiu tremor à mais estável das artes, no afã das viagens, na própria abertura crescente das classes sociais. No entanto, não precisamos mais lançar mão de sintomas literários ou de formas artísticas para comprovar a tremenda inquietude que ameaça devorar nossa vida. A realidade superou uma vez mais a imaginação, e a inquietude em que as criaturas humanas estamos vivendo não parece que possa ir além, sobretudo para nós, os filhos desse inquieto continente chamado Europa. Porque a inquietude se tornou substância de nossa vida e o nosso único bem. Temos apenas inquietude e o esforço que realizamos para nos mantermos dentro dela.

Inquietude que não é a de outros tempos de vidas ricas em aventuras, por ser uma inquietude que suportamos, dentro da qual nos sentimos reclusos. É inquietude que nos vem de fora, não libertadora atividade que brote de dentro. O mais humilhante que existe para um ser humano é sentir-se levado e trazido, arrastado, como se lhe não restasse outra opção, como se lhe fosse impossível escolher ou tomar decisão alguma porque alguém, que não se presta a consultá-lo, já as está tomando todas por sua conta.

Tal passividade tem lugar na solidão mais tremenda. Ao mesmo tempo que inquietos, sentimo-nos submersos em uma “solidão sem descanso”. Com a solidão ocorre, porém, o mesmo que com a inquietude. Também a solidão é própria da vida de sempre; também está no fundo da vida humana. A solidão da época de crise é, todavia, bem distinta dessa solidão do homem desperto, pois não se deve a uma maior lucidez e pode até envolver uma maior confusão. É solidão causada pela inquietude, porque não sabemos nada, nem poderemos repousar em certeza alguma. Estamos tão sós porque estamos terrivelmente inquietos e perturbados.

A crise mostra as entranhas da vida humana, o desamparo do homem que ficou sem apoio, sem ponto de referência; de uma vida que não flui em direção a meta alguma e não encontra justificação. Assim, em meio a tanta desgraça, os que vivemos em crise temos talvez o privilégio de poder ver, mais claramente, colocada a descoberto por si mesma e não por nós, por revelação e não por descobrimento, a vida humana; a nossa vida. É a experiência peculiar da crise. E como a história nos parece dizer que se verificaram várias, teríamos que cada crise histórica torna manifesto um conflito essencial da vida humana, um conflito último, radical, um “pode ou não pode”. Isso porque a vida humana parece ser o território da possibilidade, das mais amplas possibilidades; e a história, o processo de as ir consumindo, até seu último extremo e raiz. Daí que, em momentos de crise histórica, existam sempre alguns mártires chamados vulgarmente “extremistas” e que são os encarregados de levar à sua última consequência, ao seu absurdo, as possibilidades da vida humana. E se houvéssemos de ser honestos conosco, a conclusão a tirar seria negativa sempre. Até agora, o que resulta de todas essas experiências é que a vida humana não é possível, ao que parece, de nenhuma maneira. E a pergunta que sempre renasce é: é possível ser homem?; como? Nos tempos de plenitude parece ter-se respondido afirmativamente de um modo determinado. O único modo de responder afirmativamente não é dizendo sim em abstrato, mas oferecendo uma forma de vida, uma figura da realidade dentro da qual o homem tem um determinado afazer; e toda a sua existência, um sentido. Nos instantes de crise, a vida aparece despida, no maior desamparo, a ponto de chegar a causar-nos rubor. Neles, o homem sente a vergonha de estar nu e a necessidade terrível de cobrir-se com o que quer que seja. Fuga e afã de encontrar figura que nos faz precipitar nos equívocos mais dolorosos. Faria falta simplesmente um pouco de valor para olhar, sem pressa, essa nudez; para vigiar já não o sonho, mas sim, mais honradamente, os próprios mananciais do sonho; ver o que dele nos resta, quando já não nos resta nada.

 

*

Fragmento de “La vida en crisis”, publicado em Hacia un saber sobre el alma (1950, 1. ed.)

Tradução: Silvio Diogo

Imagem: Rosa Mascarell Dauder, Infinito (da série Iluminaciones)

A atenção

Maria_ZambranoMaría Zambrano

A atenção não é senão a receptividade levada ao extremo, isto é, dirigida a um determinado campo da percepção ou do pensamento; isto é, dirigida ao mundo exterior ou, reflexivamente, ao mundo próprio.

Distinguem-se na atenção dois planos: o da atenção espontânea e o da voluntária. A atenção espontânea começa do grau mínimo em que se pode dizer que uma pessoa está desperta: é um estado de passividade em que a atenção, espécie de raio de luz, vai atraída de um lado para o outro de acordo com o estímulo que a chama. Claro está, no entanto, que a atenção não existe por si mesma; é o atributo da consciência e da alma de alguém. E assim, conforme seja este alguém, sua atenção espontânea será atraída por um tipo de estímulos. Um dos indícios mais seguros para conhecer uma pessoa é proporcionado pela direção que segue a sua atenção quando está abandonada a si mesma. Em geral, pode-se dizer que o que brilha atrai a atenção mais do que o opaco; que o que se move mais do que o que permanece quieto; o estranho e singular, mais do que o consuetudinário.

A atenção é um campo de claridade, de iluminação. É uma tensão, um esforço — e, como é natural, uma fonte, talvez a mais considerável, da fadiga. Este campo de claridade produz-se pelo interesse que a pessoa sente por um ou por outro aspecto do inesgotável, imenso, ilimitado campo da realidade, chamando realidade a toda presença, ainda que seja uma imagem ou um pensamento. A atenção é como a luz que se desprende [de] uma íntima combustão. A vida é, antes de tudo, e desde a sua origem até o final, uma combustão incessante, tanto física e psíquica, como do próprio pensamento. E, ao menos no ser humano, esta combustão se transforma em claridade, em luminosidade.

Costuma-se definir a atenção voluntária por uma concentração deliberada de todos os poderes de apreensão de que o homem dispõe, de acordo com a realidade a que se atente — já que em alguns casos os sentidos pouco ou nada têm a fazer. Essa operação, contudo, não é tão simples, pois vários inimigos estão à espreita de que se verifique adequadamente. Pois, paradoxalmente, trata-se antes de tudo de tirar, e não de pôr.

Dirige-se a atenção a um campo da realidade para captá-la, para obter dela o máximo de sua manifestação. A primeira ação, portanto, será uma espécie de inibição; paradoxalmente, uma retirada do próprio sujeito para permitir que ela, a realidade, se manifeste. E nesse ponto a atenção há de fazer uma espécie de limpeza da mente e do ânimo. Há de se ver com a imaginação. Com a imaginação e com o saber. A atenção há de levar o sujeito ao limite da ignorância, para não dizer da inocência.

Por isso não basta concentrar-se, como é costume crer, para que a atenção, com a sua invisível claridade, se produza. A atenção há de ser como um cristal quando está perfeitamente limpo e deixa de ser visível para deixar passar diafanamente o que está do outro lado. Se atentarmos intensamente a algo e lhe projetarmos os nossos saberes, os nossos juízos, as nossas imagens, uma espécie de capa espessa se formará e não permitirá a essa realidade manifestar-se. E isto encontra-se em conexão com o fato de que alguns importantíssimos descobrimentos tenham saltado à mente do descobridor quando estava distraído, porque então estava livre a sua mente. É bem verdade que tais casos sucederam a quem vinha, longa e fundamente, buscando, investigando, atentando, até mesmo em sonhos, ao que por fim, um dia, num instante, lhes apareceu, como por si próprio, à maneira de um prêmio.

O exercício da atenção é a base de toda atividade, é de certo modo a própria vida que se manifesta. Não atentar é não viver. Mas trata-se de um exercício complexo, de toda uma educação, da educação de todo o organismo e do ser humano, e não só da mente ou dos sentidos. Disso, para dizer a verdade, continua-se sabendo mais nas culturas do Oriente do que nas do Ocidente. Daí que a realização de certas proezas humanas, do ser humano apenas, sem o auxílio da técnica maquinista, seja coisa costumeira para os orientais, e para nós, ocidentais, incompreensíveis prodígios; no fundo, trata-se nada mais que da atenção, de uma atenção educada que exige por sua vez o conhecimento e o uso das subjacentes energias e poderes do ser humano, este que tanto se assemelha a um desconhecido continente.

Novembro de 1964

[tradução: Silvio Diogo]

Filosofía y educación: manuscritos. Málaga, Ágora, 2007 (Org.: Ángel Casado e Juana Sánchez-Gey).

Fotografia: Zambrano em Ponte Vechio (fonte: Fundación María Zambrano)

Entrevista com o clitóris: “Guardo ainda muitos segredos”

Rita Abundacia

Falamos com o único órgão humano dedicado única e exclusivamente a dar prazer, e que é exclusivo do gênero feminino

(artigo publicado originalmente no El País em 04/02/2014)

clitoris

Apesar de ter um nome universal, o mesmo em quase todas as línguas, esta parte da anatomia feminina tem sido a grande desconhecida; e é até mesmo perseguida culturalmente. Por estar parcialmente escondido, o seu protagonismo tem sido menor que o de seu homônimo masculino, o pênis. Contudo, o clitóris parece disposto a fazer-se ouvir e a conquistar o seu trono. A indústria dos brinquedos eróticos começa a considerá-lo e, recentemente, a ciência permitiu que o visualizássemos em toda a sua extensão e em 3D. Agora que o universo catódico nos deu uma lição de história sobre a importância do orgasmo clitoridiano (graças a Virginia Johnson e Bill Masters em Masters of Sex), conversamos com o clitóris para averiguar um pouco mais sobre este grande desconhecido.

 

Você é o único órgão humano encarregado única e exclusivamente de dar prazer e, no entanto, não tem sido reconhecido como merece. Isto é mais uma prova da tendência masoquista do ser humano?
O pênis tem muitos monumentos, uma corrente artística, quase um gênero — o fálico. A mim, foram feitas poucas estátuas, e deveria ser exatamente o contrário. O meu trabalho é totalmente altruísta e desinteressado. E, apesar disso, sou também o único órgão que deve pedir asilo político. Em alguns países cortam-nos a cabeça, e isto as próprias mães fazem com as filhas. Imagine-se um lugar onde fossem cerceadas as orelhas às crianças ao chegarem à puberdade! Seria uma loucura, mas com a gente continua acontecendo.

Imagino-o ressentido com a vagina, que lhe tirou ao longo da história todo o protagonismo…
O que se pode esperar de uma sociedade tradicionalmente machista e puritana?! A penetração vaginal tem uma função reprodutora, e a ordem durante séculos foi “crescei e multiplicai-vos”. Eu, ao contrário, não trago filhos ao mundo. Muita gente ainda identifica o órgão sexual masculino com o pênis, e o feminino com a vagina. Mas não, senhor. Sou eu. A vagina é muito menos sensível. Quando ainda ouço a diferença entre orgasmo vaginal e clitoridiano, começo a rir. Todos os orgasmos passam por mim. Os da vagina não são senão uma estimulação indireta da minha pessoa. Poder-se-ia dizer que sou como um iceberg, mostro apenas uma parte muito pequena de mim, a outra se ramifica por toda a pélvis.

E o que me diz do famoso ponto G?
Sim, vá lá, montou-se um marketing com esse halo de mistério que o rodeia e que flutua entre a realidade e a lenda. Mas a cada dia nascem mais pontos, o A, o U. Todo um alfabeto. De minha parte, vejo o ponto G como um plano B. Não é senão uma estimulação indireta de mim. A ciência ainda tem muito a descobrir a respeito. Ultimamente, começa-se a falar do complexo uretra-clitóris-vagina, uma zona de estimulação erótica e sensorial muito potente que ainda está por descobrir.

Os orgasmos que algumas mulheres podem experimentar manipulando os seios também passam por você?
Sempre se falou de uma ligação entre o mamilo e o clitóris, um fiozinho que une esses dois pontos e que algumas mulheres conhecem tão bem. Especialistas da Universidade de Rutgers, nos EUA, criaram em 2011 um mapa cerebral do prazer sexual feminino. Através de escâneres, os pesquisadores puderam identificar as áreas do cérebro implicadas na excitação dos genitais femininos. Os resultados, publicados no Journal of Sexual Medicine, revelaram que a estimulação do clitóris não é a única que ativa o córtex sensorial, como se pensava, mas que estimular a vagina, o colo do útero ou os mamilos também desencadeia respostas cerebrais. O biólogo Barry Komisaruk, principal autor do estudo, explicava ao diário argentino Perfil: “O inesperado foi que a autoestimulação do mamilo ativa as mesmas áreas cerebrais que a região genital anima”. O que explica que algumas mulheres possam chegar ao orgasmo somente com a masturbação dos seios.

A ciência não esteve muito interessada em você ao longo da história; de fato, sua anatomia completa foi vista pela primeira vez em 1998, graças aos estudos de imagem por ressonância magnética realizados pela uróloga australiana Helen O’Connell.
E faz somente quatro anos que os pesquisadores franceses Dr. Odile Buisson e Dr. Pierre Foldès criaram a primeira ultrassonografia completa em 3D do clitóris estimulado. Eu digo que nunca houve lá muito interesse em mim. Freud afirmou que eu era um pênis inacabado, e que a mulher que experimentava prazer apenas comigo não havia madurado o bastante. Só em minha parte externa possuo umas 8.000 terminações nervosas, o dobro que as do pênis, e estas se comunicam com mais outras 15.000 na região pélvica.

Entretanto, os estudos de Masters e Johnson deram-no a conhecer ao grande público, e até contribuíram para desenvolver um novo tipo de feminismo.
Sim, eles descobriram uma sexualidade feminina independente do coito com os homens. Os achados científicos sobre mim demonstravam que se podia prescindir do homem. “Com frequência a mulher não fica satisfeita com uma única experiência orgástica”, disseram Master e Johnson em seu livro A resposta sexual humana. As feministas mais radicais ficaram bem contentes com esses descobrimentos porque demonstravam a superioridade sexual da mulher, a qual, além de tudo, era multiorgástica. Enquanto isso, os conservadores viam o orgasmo clitorídeo como uma ameaça à heterossexualidade. Sem ir tão longe, nem ser tão apocalíptico, a verdade é que, graças a esses descobrimentos, muitas mulheres reformularam suas relações sexuais e começaram a tomar as rédeas de sua vida erótica. Posso presumir a minha contribuição ao feminismo.

Diz-se que você que aguenta melhor o passar do tempo que o pênis.
Muitas mulheres experimentam a sua plenitude sexual na maturidade, aos 40 e tantos, mas não é de todo certo que eu aguente o tempo tão bem. O meu mecanismo é muito similar ao do órgão masculino. Tenho ereções e ejaculo — às vezes da maneira masculina — e, como o pênis, sou um corpo cavernoso, e afetam-me a hipertensão e a diabetes. Os anos não me favorecem; o que ocorre é que muitas mulheres me descobrem tarde, e só então começam a me disfrutar, a viciar-se em sexo e a tentar recuperar o tempo perdido.

E o que me diz da sua fama de lento, de necessitar de mais tempo, de que se doure mais a pílula para começar a se pôr a trabalhar?
O que demora mais: fazer um frango empanado villeroy ou colocar uma pizza pré-cozida no forno? As coisas boas se fazem esperar, e o que chega rápido se vai ainda mais depressa. De todo modo, isso também é um mito. Um estudo realizado pela Universidade McGill, de Quebec, no Canadá, dirigido pelo Dr. Irv Binik, demonstrou que não existe diferença na quantidade de tempo que ambos os sexos requerem para alcançar o seu máximo nível de excitação. Binik e a sua equipe valeram-se da termografia, medindo a radiação, em termos de temperatura, que emitiam os genitais dos sujeitos da pesquisa enquanto contemplavam diferentes imagens, pornográficas ou não. Tanto os homens quanto as mulheres começavam a sentir excitação nos primeiros 30 segundos. Isso demonstra que, se estimulada adequadamente, a mulher pode chegar ao orgasmo tão rápido quanto o homem, mas, realmente, interessa correr tanto?

O problema parece ser que você é bastante esquisitinho, e encontrar o que lhe apetece não é tão fácil.
O que tem havido é muita incultura e desconhecimento. Se até muitas mulheres não estão muito familiarizadas comigo, que vamos pedir aos homens? Há aqueles que me ignoram totalmente e se dedicam a fazer espeleologia vaginal. Há os que, tão logo me veem, arremetem contra mim sem piedade e de forma bruta, isto me assusta e me retraio, pois sou bastante tímido. Abundam os que se creem especialistas com a boca e, em vez de lamber-me com cuidado, parece que estão fazendo a minha ablação. E depois estão aqueles que sabem me satisfazer, ainda que não se possa dizer que sejam uma legião. Peço apenas um pouco de tato e delicadeza, mas aí novamente criaram de mim uma fama que não mereço, a de não-me-toques. Como se o pênis também não tivesse os seus rompantes e os seus fracassos.

Como se deve tratá-lo então, para que se sinta à vontade?
Como merece uma parte da anatomia tão delicada e sensível. Para estimular a mulher, há que se começar a tatear as zonas erógenas secundárias, para em seguida ir às primárias. Uma vez na zona genital, eu devo ser o último a tocar. Deve-se iniciar pelo monte púbico, lábios maiores, menores, o espaço entre eles, para depois começar a tocar-me, primeiro indiretamente e, após, já diretamente. Às vezes será preciso retirar um pouco o capuz que me cobre. Gosto das lambidas e das sucções, mais lentas ou rápidas, e intercalando o ritmo. Cada mulher tem as suas preferências. Algumas vezes, abordar-me pela retaguarda é mais prazeroso que de frente. E uma ducha, bem dirigida, pode ser muito estimulante.

Tenho entendido que você gosta muito dos brinquedos, e que as vibrações o estimulam.
Sim, são como borbulhas de champanhe, e é preciso dizer que ultimamente quem mais se importa comigo é a indústria dos brinquedos eróticos. Quase todos os vibradores têm agora seus estimuladores do clitóris, cada vez mais anatômicos e sofisticados. Isto para não falar daqueles desenhados especialmente para nós. Meu empresário está buscando um patrocinador para mim e, por enquanto, não me foi permitido fazer publicidade, mas há verdadeiras maravilhas no mercado. Toda mulher deveria ter um pequeno kit de sobrevivência para as épocas de vacas magras e descobrir que, quando a colheita é ruim, também é possível ser autosuficiente.

No seu caso, o tamanho também importa?
Não para o meu perfeito funcionamento. E mais, se sou muito grande, acabo por complexar a minha dona, que vê a coisa pouco estética. O homem que tem um pênis grande, ao contrário, é muito orgulhoso dele. Ainda existem esses dois pesos, duas medidas.

O que me diz dos púbis depilados, é a favor ou contra?
Entre nós mesmos há diversos setores. Alguns preferem não estar rodeados de pelo, porque argumentam que assim são melhor localizados e que têm maior sensibilidade; mas também existem os da linha pró Mato Grosso, que defendem a naturalidade e o papel protetor da penugem dos genitais, que atua como barreira para evitar a entrada de vírus e infecções. Ter o púbis como o de uma atriz pornô exige a eliminação constante do pelo, causando a inflamação dos folículos pilosos e deixando feridas abertas microscópicas. Isto, combinado com o calor e o ambiente úmidos dos genitais, cria um caldo de cultura para as bactérias patogênicas. É uma questão de moda e, conforme li recentemente, já existem algumas defensoras do felpudo. Não me estranharia nada que voltasse a tendência dos genitais peludos. Muitas que fizeram a depilação a laser precisarão, nesse caso, recorrer aos postiços.

[tradução: Silvio Diogo]

[imagem: Laura Pacheco]

 

Clique aqui para assistir ao documentário “Clitóris, prazer proibido”, de Michèle Dominici (2003)

 

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Entre o ver e o escutar

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María Zambrano

Algo se forma entre o ver e o ouvir; entre o olhar e o escutar. Algo mais, como nas combinações químicas em que um corpo nasce da combinação entre dois elementos. A água, por exemplo.

E, para que algo novo nasça da combinação de dois ou mais elementos, hão de ser eles diferentes, ou conter, se são substâncias compostas, um elemento diferente que é liberado ao produzir-se a combinação. Ou seja, o que é igual se soma, e o que é diferente, combinando-se, dá origem a algo novo.

Não é coisa tão simples, contudo, buscar o que é que se produz quando dois sentidos combinam-se entre si, por se tratar de algo um tanto inapreensível, como o são, no limite, todas as coisas de nossa psique. Em primeiro lugar porque cada sentido tem o seu cortejo, os seus ajudantes, em outros sentidos revelados ou não. Acaso sabemos quantos sentidos temos de fato? Não existirão sentidos ainda desconhecidos, implicados em outros ou localizados em lugares do sistema nervoso não identificados ainda?

Não é de um ponto de vista fisiológico, e sim psicológico, que abordamos aqui os sentidos. E mais até que de uma consideração psicológica, em verdade se trata, nestas notas, de uma consideração modestamente fenomenológica, de uma reflexão sobre os dados do nosso sentir.

Pois, antes de mais nada, é do que sentimos que se trata. Decifrar o que se sente, perceber com certa nitidez o que se passa dentro de si mesmo, é uma exigência do ser pessoa. A vida que dentro de nós flui pede uma certa transparência.

Os sentidos, isto é, o que chega a nós através deles, recorta-se sobre um certo fundo. Um dado sensorial supõe e leva consigo todo um mundo, talvez o mundo todo. Mas de uma certa maneira. Um sentido é um caminho até a realidade, uma via de acesso a ela — o que acontece, sem dúvida, por ser inesgotável a realidade. E porque perdemos, se é que alguma vez o tivemos, o contato imediato com ela.

Visão e audição são os sentidos principais, os dois mais nobres, os mais diferenciados também, já que tato e paladar são como modulações de uma sensibilidade geral. O olfato aproxima-se um pouco da audição. Os dois recolhem-se dentro de uma cavidade sinuosa.

A audição recolhe os sons, é óbvio. Mas estes sons são sentidos como chamados, avisos, sinais que anunciam que algo vai chegar ou está partindo. Os rumores tendem a tornar-se sons dentro de uma atenção espontânea, que nos mostra mais que a atenção voluntária, o originário sentir que nos habita e nos move. Quantas vezes pensamos que nos chama uma voz quando se trata apenas de um som emitido por um ser sequer animado: uma porta que chia, um cristal que vibra. No vento discernimos lamentos, prantos, queixas. Os rumores, bem como os sons, tendem imediatamente a adquirir alma, como se o sentido da audição fosse um órgão conectado muito intimamente com ela, com seus secretos temores e esperanças. E assim, à beira do ouvido, dos erros que ele nos leva a cometer, podemos discernir essa última e secreta, indefinível esperança que nos habita de sermos chamados por nosso nome, por alguém ou, ainda, por algo que não conhecemos, de ouvir-nos chamar de uma vez por todas; uma voz que nos procure, a íntima certeza de saber-nos conhecidos, conhecidos de todo, inteiramente identificados por alguém ou por algo para além do cotidiano.

O que se ouve move o ânimo mais do que se vê. O grito da vítima é mais lancinante que a própria visão. E uma só palavra pode mais que a presença real de uma pessoa quando é o caso de acreditá-la, de acreditar nela. O que se ouve é mais prova de fé que o que se vê. O que não deixa de estar em relação com a definição tradicional da fé, que diz que fé é crer no que não vemos. Nessa mesma tradição, crê-se pela palavra escutada e guardada.

Entre o visto e quem vê existe uma distância. Uma distância não apenas física — que também existe no ouvir —, mas sobretudo de ânimo, na atitude do que vê; este, ainda que se aproxime fisicamente para ver melhor o objeto de sua mirada, está se distanciando ao mesmo tempo para dar-lhe espaço, lugar onde se recorte. E assim o que é visto converte-se ou tende a se converter em objeto. O que se ouve, ao contrário, adentra no ânimo, no interior. Quando se produz uma reação motora, um movimento, no caso do ver se trata de ir tocar o que é visto — quer se faça isso ou não —, e no caso do ouvir se trata também de ir, mas não para tocar; em princípio é um ir que é um acudir ou um apresentar-se. A não ser que na audição especificamente haja sinais de algo que é preciso ir ver. O que chega pelo ouvido chama à união — e assim Ulisses teve que tapar os ouvidos para não ouvir o canto das sereias. É a voz a portadora do destino. Mas será preciso seguir falando, já que não fizemos senão aflorar o imenso tema.

Outubro de 1964

[tradução: Silvio Diogo]

Filosofía y educación: manuscritos. Málaga, Ágora, 2007 (Org.: Ángel Casado e Juana Sánchez-Gey).

Fotografia de Zambrano: Miguel Hernández, 1936