Clareiras do bosque


Apresento aqui uma passagem da versão em português do livro Claros del bosque, de María Zambrano. A circunstância da tradução de uma obra escrita por uma filósofa, em linguagem dotada de forte sentido poético — a fronteira tênue em que Zambrano constrói conceitos e metáforas —, estabelece desafios para o exercício do trânsito entre idiomas.

O intenso diálogo da filosofia com a poesia marca toda a trajetória intelectual de María Zambrano (1904-91). Sobre a singularidade de Claros del bosque, publicado em 1977, assim se expressa a própria pensadora: “Creio portanto que, como livro, é o que mais responde a essa ‘ideia’ há tempos formulada de que ‘pensar é antes de tudo — como raiz, como ato — decifrar o que se sente’, entendendo por sentir o ‘sentir originário’, expressão usada por mim já há muito anos”.

O excerto a seguir está no quinto capítulo do livro, “La metáfora del corazón”.

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CLAREIRAS DO BOSQUE
— A metáfora do coração

É profeta o coração, tal como aquilo que se encontra no centro e num confim, sempre na iminência de ir ainda mais além do que já foi. Está a ponto de romper a falar, de que o seu reiterado som se articule nesses instantes em que quase se detém para recobrar o alento. O novo que habita no homem, a palavra; mas não as que dissemos, ou no mínimo como as dissemos; uma palavra que fosse nova apenas porque brotasse, porque nos surpreendesse como o alvor da palavra. Visto que o homem padece por não haver assistido à sua própria criação. E à criação de todo o universo conhecido e desconhecido. A sua ânsia de conhecer parece ter precisamente como fonte essa ânsia de não haver assistido à criação em sua totalidade, desde a luz primeira, desde antes: desde as trevas não dilaceradas. A teologia das grandes religiões — e também a filosofia, de modo mais circunspecto — dá testemunho do caráter ineludível desta revelação.

E não parece que se tenha considerado suficientemente este grande ressentimento, este ressentimento “fundamental” que o ser humano leva no seu coração, como raiz de todos os ressentimentos que o povoam: não haver assistido — e seria, por sinal, testemunha única — ao ato criador. Se tomamos por base o relato sagrado do Gênesis, o homem sucumbiu à sedução promissora do futuro: “Sereis como deuses”, não em apetite de felicidade, mas, ao contrário, saindo da felicidade que o inundava para ir buscar uma criação própria, de algo que ele fizesse; não se restringindo a contemplar o que se lhe oferecia, para fugir da pura presença dos seres de quem sabia o nome, mas não o segredo. Todavia, a palavra que não chega a sair do coração não se perde, essa palavra nova na qual resplandeceria, com claridade inextinguível, o novo da palavra. A palavra diáfana, virginal, sem pecado de intelecto, nem de vontade, nem de memória. E a sua claridade teria o que nenhuma palavra nos dá certeza de alcançar: ser inextinguível. Não se perde, desata-se em voz, uma voz que suspira sozinha e, tal como o suspiro, eleva-se atravessando angústia e espera; transcendendo.

E é a voz que se infiltra em certas palavras de uso cotidiano e, com ainda maior ênfase, nas mais simples, as que dão certeza. E se não se tornam por isso inextinguíveis, têm uma espécie de firmeza e até de fórmula sagrada.

E é a voz interior que se identifica com algumas vozes, com algumas palavras que se escutam não se sabe bem se dentro ou fora, porque se escutam do íntimo. E ao sair para escutá-las, é de si mesmo que se sai. E entre dentro e fora, todo o ânimo fica suspenso, como fica sempre em toda identificação de algo que pulsa no coração e algo que existe objetivamente. É o terror supremo que se precipita ao escutar como certo aquilo que se teme. E o total esquecimento de si, quando se escuta o que nem sequer se sabia estar aguardando. E nesta feliz situação dá-se a música perfeita: o canto.

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Tradução: Sílvio Diogo

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Em dezembro do ano passado, a revista Caliban publicou um ensaio que compus sobre a pensadora espanhola: Escritos, mulher, escritos: a minha descoberta de María Zambrano”.

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“Ficar em silêncio e caminhar são hoje em dia duas formas de resistência política”

David Le Breton, sociólogo

David Le Breton (Le Mans, 1953) na última terça-feira, 17 de outubro, em Málaga, durante a entrevista / Foto de Javier Albiñana

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O pensador francês, autor de livros como El silencio e Elogio del caminar, descreve o seu ideário nesta entrevista concedida ao Grupo Joly, antes de pronunciar uma conferência em La Térmica.

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Por Pablo Bujalance
Málaga, 19 de outubro de 2017
[artigo publicado originalmente no ‘Diario de Sevilla’]

Doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII e professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Ciências Humanas Marc Bloch, de Estrasburgo, o pensador francês David Le Breton (Le Mans, 1953) encarna como poucos de seus contemporâneos a melhor tradição intelectual de seu país. Na Espanha, publicou com êxito livros como El silencio, Elogio del caminar e Desaparecer de sí: una tentación contemporánea, com os quais aposta em formas concretas de resistência diante da desumanização do presente. Nesta semana pronunciou uma conferência em La Térmica, o centro de cultura contemporânea da Assembleia Legislativa de Málaga, antes da qual concedeu esta entrevista.

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Permita-me uma pergunta um tanto primária para começar: você defende o silêncio como forma de resistência, mas de onde nasce o ruído?
Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século XX como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica. Neste contexto, o silêncio implica uma forma de resistência, uma maneira de manter a salvo uma dimensão interior frente às agressões externas. O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio. O maior problema, provavelmente, é que a comunicação eliminou os mecanismos próprios da conversação e se tornou altamente utilitarista com base nos dispositivos portáteis. E a pressão psicológica que suportamos para os armazenarmos é enorme.

É mais fácil cultivar e fomentar o silêncio no Oriente, em relação à Europa e aos Estados Unidos, por exemplo?
Sim, na tradição japonesa existe uma noção muito importante de disciplina interior, cristalizada em sistemas de pensamento como a filosofia zen. Digamos que no Oriente há muito caminho percorrido, mas as invasões contra as quais convém opor resistência já são as mesmas.

O que você responderia a quem sustentasse que o silêncio é uma confissão de ignorância?
O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.

Sobre o desaparecer de si, penso na psicologia construtivista e em autores como Jean Piaget. Seria possível formular uma psicologia da desconstrução para a personalidade?
Sim, é possível chegar a isso por meio de uma disciplina, de um exercitar-se no silêncio. Como disse antes, no Japão esta disciplina é algo muito comum. Podemos ir abrindo na nossa rotina diária espaços para o silêncio, para meditar, para nos encontrarmos com nós mesmos, e com a disciplina adequada esses espaços serão cada vez maiores. A minha melhor experiência nesse sentido, a definitiva, foi no Caminho de Santiago: quando cheguei enfim a Compostela, compreendi que eu havia me transformado completamente, depois de numerosos dias em marcha e em absoluto silêncio. Foi um renascimento.

Na França, vocês possuem uma grande tradição do caminhar com Balzac e a figura do flâneur.
Sim, o caminhar nas cidades, o vagar sem uma meta concreta. Não apenas Balzac, também Flaubert o defendia. E para os situacionistas, isso se converteu num assunto fundamental. Caminhar é outra forma de tomar consciência de si, de reparar no próprio corpo, na respiração, no silêncio interior. Na Idade Média havia aqueles que se dispunham intensamente a caminhar no deserto. Porém, a prática do caminhar nas cidades encerra conotações relacionadas ao prazer. Trata-se de desfrutar daquilo que você percebe, de se deleitar com os atrativos que a cidade lhe oferece pelos sentidos. É uma atividade hedonista. Jean Baudrillard e os intelectuais de orientação sartriana também o definiram assim, como uma prática contrária ao puritanismo.

É por essa qualidade de resistência que se tacha de louco quem caminha sem rumo?
Sim, é o que acontece. E por isso o caminhar, como o silêncio, é uma forma de resistência política. No momento de sair de casa, de movimentar-se, você de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente aonde você deve ir, por qual caminho e por qual meio. Caminhar porque sim, eliminando da prática qualquer tipo de apreciação útil, com uma intenção decidida de contemplação, implica uma resistência contra esse utilitarismo e, ocasionalmente, também contra o racionalismo, que é o seu principal benfeitor. A marcha lhe permite advertir como é bonita a Catedral, como é brincalhão o gato que se esconde por ali, as cores do pôr-do-sol, sem qualquer finalidade, porque toda sua finalidade é esta: a contemplação do mundo. Frente a um utilitarismo que concebe o mundo como um meio para a produção, o caminhante assimila o mundo que as cidades contêm como um fim em si mesmo. E isso, claro, é contrário à lógica imperante. Daí a vinculação com a loucura.

Entretanto, com a sua transformação em centros comerciais, e penso no próprio coração de Málaga, as cidades não se tornaram os piores inimigos dos caminhantes?
Sim, você tem razão. De fato, todas as grandes cidades, seja Paris ou Tóquio, já se transformaram em superfícies comerciais. É muito importante que as cidades encontrem um equilíbrio entre os recursos que garantam a sua prosperidade e a qualidade de vida dos que nelas residem. De outra maneira, as cidades tornam-se entidades desumanizadoras. O fato de caminhar por suas ruas sem nenhum interesse em comprar ou em gastar dinheiro, somente em vagar sem rumo, daqui até ali, porque sim, também é uma forma de deixá-las mais humanas, de rebelar-se contra as ordens que convertem todas e cada uma das interações humanas num processo econômico.

De volta ao silêncio: a indústria cultural não foi um dos principais canais do ruído no último meio século?
Sim, é isso. Estou de acordo. Em meu livro El silencio me ocupava desse assunto. Porque, afinal de contas, a indústria cultural vem a ser uma forma do poder político. Uma atividade cultural teria de estar encaminhada para que cada um se encontrasse consigo mesmo, se reconhecesse em seu interior e iniciasse um diálogo íntimo sem sair de si, valendo-se dos instrumentos que a cultura deveria pôr ao seu alcance. Contudo, em vez disso, temos uma cultura que é cada vez mais de massas e menos de pessoas, na qual é impossível se reconhecer. Também é importante opor resistência às formas invasivas da cultura que permeiam o silêncio.

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Tradução: Sílvio Diogo

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Um agradecimento à professora Ana Maria Domingues de Oliveira, que divulgou em seu mural no Facebook a entrevista em espanhol.

O ingresso

Neste escrito de 1965, a pensadora espanhola María Zambrano levanta questões sobre o ingresso de estudantes advindos de escolas públicas e de classes desprivilegiadas nas universidades e, de modo mais geral, sobre a travessia dos estudos na vida das pessoas. Vale muito a reflexão, até mesmo — e especialmente — por aquilo que há de datado em seu ensaio.

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María Zambrano

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O INGRESSO

Era mais brusco e também mais solene, em outras épocas, o trânsito da Escola Primária aos estudos do bacharelado em relação ao que se verifica hoje da Primária à “High School” ou aos Liceus de Ensino Médio. Diversas razões contribuem para isso: a primeira parece ser a democratização do ensino médio, para o qual afluem, cada [vez] em maior número, os estudantes de um e de outro sexo. Antes, especialmente no “velho mundo”, o acesso ao Liceu ou ao Instituto era reservado a uma certa classe social, e era indício quase certo do prosseguimento dos estudos até à Universidade ou às Escolas Superiores. Ingressar, pois, no Instituto ou na High School significava o primeiro passo de uma longa carreira que, alcançada, conservaria os seus seguidores dentro do recinto dessa classe social tão ampla denominada burguesia, ou os incluiria dentro dela, no caso — não muito frequente — de quem a ela não pertencesse.

Se por acaso o garoto que ingressava, mediante exame, no estabelecimento de ensino médio havia cursado o básico em uma escola pública, e não em um desses colégios chamados “particulares”, sentia-se separado dos seus companheiros que ficavam porventura ainda mais um ano nos bancos da Primária ou que, ingressando no seio de sua própria família, começavam a trabalhar em um ofício. Desses companheiros e amigos da infância, um abismo separava o afortunado estudante. Ele já era de outra classe, de outro mundo: ele estudava em vez de trabalhar para ganhar a vida. Seguia educando-se; educando-se e não somente estudando, ao passo que aqueles outros que não haviam ingressado no ensino médio davam por terminada a sua educação junto com os seus estudos. Daquele momento em diante, só os ensinaria a vida, a dura experiência da vida. E era também como se de repente tivessem que se fazer homens; como se todas as suas férias houvessem para sempre terminado; como se somente as rudes alegrias saíssem ao encontro deles, com sua perigosa dupla face. Como se de repente o [que] se chama “a realidade da vida” se lhes precipitasse totalmente.

O que é então seguir estudando sabendo que será por muitos anos seguir educando-se? Se fosse perguntado ao privilegiado que se separava de seus companheiros da infância para “elevar-se” por meio do estudo a outra categoria social, a outro modo de vida: Que modo de vida é este do estudante, acaso não tem a ver com a realidade da vida — o que seria o mesmo que dizer que é algo irreal? Não exatamente: o estudante ingressa num modo de viver que tem contato com a realidade da vida; o que faz é real, real e às vezes heroico o esforço. Resulta porém que a realidade desses estudos, dessa prosseguida educação, produzirá o seu fruto em um longínquo amanhã. Será quando acabe a carreira, quando se encontre lançado à realidade da vida — tal como se vê hoje o companheiro pobre que não pôde seguir uma carreira. E se tais reflexões se fizesse, ingressaria desde o primeiro momento no Estabelecimento de Ensino Médio com a grave alegria de quem se sabe privilegiado, de quem recebe um dom que obriga, e que talvez mereça menos que outros que não o receberam. O privilégio de preparar-se, de ir-se preparando para essa rude, esquiva realidade da vida. O ir familiarizando-se com ela passo a passo, seguindo uma ordem. Conduzido, guiado. As procissões acadêmicas têm esse sentido; ser a representação da vida mesma das aulas; os jovens iniciandos conduzidos e guiados pelos iniciadores que lhes evitam obstáculos, quedas, duras experiências, riscos sem fim; que lhes mostram o caminho do labirinto antes de deixá-los sozinhos em seu centro.

— Fevereiro de 1965

*

Tradução: Sílvio Diogo

Filosofía y educación: manuscritos. Málaga, Ágora, 2007 (Org.: Ángel Casado e Juana Sánchez-Gey).

Rebelde

Juana de Ibarbourou

Caronte: serei escândalo na tua barca.
Que as outras sombras rezem, gemam, chorem,
E sob os teus olhares de sinistro patriarca
As tímidas e tristes, em baixo timbre, orem…

Eu irei como calandra cantando pelo rio
E à tua barca levarei o meu olor selvagem,
E irradiarei nas ondas do córrego sombrio
Alguma azul lanterna que alumbre a viagem.

Por mais que tu não queiras, e um piscar de horror
Me lancem teus dois olhos, mestres no terror,
Caronte, eu na tua barca serei como um escândalo.

E exausta de sombra, de préstimo, de frio,
Quando quiseres me deixar na margem do rio
Serão os braços teus a me soltar: conquista de vândalo.

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[tradução: S.D.]

Propósito de ano novo

Gioconda Belli

Nasce o ano demandando de mim o retorno ao meu ser.
Que regressem as profundas palavras
as leituras, os milagres perpétuos
Deixar o efêmero, as fotos divertidas, as notícias insólitas
fora de mim
Minha vida desprevenida encheu-se de ruído
A solidão já não encontra a quietude dos amplos salões
A prazerosa cerimônia das boas-vindas
Agora é preciso buscá-la qual uma dama extraviada
Alçar fossos para preservá-la do assédio.
A moderna invasão de todo minuto que sobra
converteu a vida em voragem, impressões, fogos fátuos, rostos
como rastros leves nas multidões, nas feiras, nas leituras.
Conversa-se com apuro, em parênteses, antes de se voltar à notícia, ao texto,
ao comentário, ao “curtir” — ilusório prazer do pobre cérebro embotado —
Em nossas mãos puseram a fascinação dos labirintos,
túneis abertos de vento por onde o tempo escapa veloz
sem que mal escutemos a sonoridade da tarde ou do dia, idos para sempre.
Quero, neste ano que nasce, recordar que uma manhã é insubstituível
Jamais haverá outra manhã com a mesma data que ESTA.
Tantas opções, porém as mãos se inquietam,
acendem as telas. Perde-se então o instante do qual emergiria
a solução dos enigmas. Isto e muito mais se perde.
Prometo caminhar mais este ano. Caminhar sem música, sem fones de ouvido, sem escutar livros.
Empenhar-me no diálogo com o vento, com as minhas lembranças, com os retalhos de
conversas que continuaram reverberando; recordarei o que disse com os amigos.
A insondável particularidade dos filhos. A farra dos netos.
Revisarei a biblioteca, a fonoteca, a videoteca da minha mente, os seus segredos e
projetos. Dosarei as redes, os aplicativos, o celular
Retornarei ao silêncio, às sombras da gruta,
à densidade do sangue
ao subterrâneo com os seus instigantes baús
Me esconderei com o tempo
Pentearei os cabelos brancos
E sentirei o seu perfume
Mimarei, para que não se dissipe,
para gozá-la e desdobrá-la, cada fenda
para me deliciar e retornar ao assombro
ao íntimo espaço onde flutuam quietos
planetas sem explorar,
constelações.

— 7 de janeiro de 2017

[tradução: S.D.]

‘A história das nuvens’: nove meditações

Com Marcela Abreu Guimarães, traduzi nove poemas de Hans Magnus Enzensberger, publicados em “A história das nuvens: 99 meditações”, livro inédito em português (Die Geschichte der Wolken. 99 Meditationen, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003). A transcriação teve suas idas e vindas, aprendizados, revisões, pausas e relampejos. Foi novo, nublado e numinoso. Esperamos que gostem.

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— Hans Magnus Enzensberger

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Memória do exato momento

A manhã do remorso que te atravessa os membros feito uma dor ciática;
o dia em que te fizestes ridículo para todo o sempre;
a tarde em que deitas no chão e o sangue te escorre do nariz;
a hora em que descobres que te iludistes durante quatorze anos, nove meses e duas semanas;
o minuto em que tua própria filha te olha como uma estranha;
o momento em que acreditas sentir nas costas a ponta da faca;
o instante em que encontras a carta de despedida sobre a mesa da cozinha;
o décimo de segundo em que a avalanche começa a se soltar sob teus pés;

e antes e depois os muitos instantes inimagináveis de sossego.

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Inevitável

Mais um desses pares amorosos
que vagarosamente se dilaceram;
outra vez o homem com as piadas
das quais ninguém mais ri;
eis também a mulher com o cachorro
que late para todo o mundo;
o que fracassa na cama — oh sim, ele! —;
aquele outro com a cabeça quente
porque o escapamento enferruja;
o relutante que não quer pagar;
ou — chi! — o neto de voz fraquinha
com o lábio inferior caído cambado,
e, olhe só, o assassino!
como ele remorde a derrota que sofreu
naquele tempo, seiscentos anos atrás;
é o fervoroso embaraço relembrado,
o pavor da próxima cólica,
o tão esperado beijo de Judas,
tudo isso se eleva pontualmente,
como um joão-bobo, retorna,
como a conta de telefone e a lua.
Ai de nós! O choque desolador de sempre,
o malfadado reconhecimento,
quando a velha caixa de surpresas se abre
e o diabo de molas salta em nossa cara.

*

Divisão do trabalho

Tudo o que tu não podes:
aterrissar o Jumbo abarrotado,
provar o teorema de Mordell,
fazer tricô – que os outros façam por ti,
pouco prendado como és,
dependente do Sagrado São Floriano,
do diretor da cadeia, do homem
com os alicates isolantes, da mulher que lê a sorte,
do carroceiro com o lixo, do benzedor
e, não por último, da mamãe.
Todos podem trazer alguma coisa
para teu sustento, teu divertimento
e te fazer, quer queiras ou não,
companhia — e tu?

*

Metrô Wittenbergplatz

Aqueles que desabam contra ti, para baixo
no Hades cotidiano
na escada rolante, este homem velho,
todo envolvido em seu coração casmurro,
e a senhora enxovalhada
que murmura consigo alguma amargura —

eles também já se entusiasmaram,
outrora, um dia, esquecidos de si próprios,
fora de si, radiantes
de louca alegria, ou não?
Como se passou? Desde quando? E por quê?
Lá fora a neve também, mais uma vez,

virou lama.

*

Câmara obscura

Esta mulher à tua frente
à contraluz, indecifráveis
boca e olhos,
um espectro. Perguntas
a ti mesmo, apenas: quem, quando,
de onde vem,
o que silencia,
o que me censura?

Numa nuvem sombria
ali está, inabalável.
Ofuscado por tanta luz,
tanto esquecimento,
estás sentado diante dela
nessa cadeira nua.
Tu não vês.
Tu és visto.

*

Nu artístico

O trovão na noite de agosto despertou-me,
mas tu, no sono, arremessaste o lençol,
sem sonho, sem abalar-te pela torrente elétrica.
Raios de magnésio cegam tuas pálpebras fechadas.
Um branco violeta brilha em teus quadris que respiram,
enquanto, milhares de vezes, a água dançante matraqueia no telhado.

*

Temperaturas

Há temperaturas que nenhum termômetro mede,
apenas a pele pode distingui-las:
o morno vapor do bebê, que cheira a soro de leite,
o sopro fresco do pêssego, vindo da geladeira,
a avermelhada erupção da fúria, que o sarampo aflora em nossa face,
e a fria flor de gelo, que queima a língua curiosa da criança;
e, mais, o ardor febril do ciúme nas pontas dos dedos,
o acalorado pudor, que encharca o cérebro,
e o que nunca e em nenhum outro lugar ocorre em nossa galáxia:
as duas quenturas dos que, lado a lado, na cama, se aconchegam adormecidos.

*

À meia-luz

Quando ela está assim deitada, completamente de lado,
como uma vaca ou uma gata,
sem propósito ou arrependimento,
um halo à meia-luz rodeia
sua pele cintilante.

Tu podes perceber, tu sentes,
quando estás suficientemente perto dela,
essa suave radiação
no longínquo infravermelho.
Uma demonstração de Fourier
que ninguém decifra.

É somente um sopro,
que te toca mais
que o toque,
e que tu não sabes por quê;
é talvez a sorte.

*

Cadê?1

Ó,
teu sempre e muito ver o que se passa,
teu captar a tempo. Como esquecer
tuas miradas, teu olhar de apreensão,
faro infalível?
Um só inútil encrespar de mares,
trazê-lo à vista e esperar
até a pouco e pouco o sol se pôr
— tal paciência te faltava.

Eram bem outros teus anseios
e tempo algum para o arrepio
do passear dos dedos no cabelo.
O esquilinho cinza, extraviado
no metrô, nem te chamava a atenção.
E mesmo o aroma do amor,
que lento, lentamente se dissipa,
te deixou, para calar de todo
o tremeluzir de estrelas e
a loucura inteira que se insinua
por sobre a ponta dos pés.

Ó,
teu não ver mesmo o que se passa,
teu não notar coisa nenhuma.

 

1 Optou-se por traduzir este poema de modo mais livre em comparação com os anteriores. O título “Schade” (pena, lástima, pesar) foi vertido como “Cadê?”, sonoramente próximo ao original em alemão e, do ponto de vista dos tradutores, mais interessante para evocar o sentido e a situação do poema como um todo. Também a quebra de versos e de estrofes sofreu pequenas alterações na tradução, para reforçar a interjeição “Ó”.

 

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Die_Geschichte_der_Wolken

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Sobre os tradutores

Marcela Abreu Guimarães
Cursou graduação em Letras (Bacharelado em Alemão) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com pesquisa acerca das paisagens socioculturais na obra de Lima Barreto. Contato: abreumarcela@gmail.com
Sílvio Diogo
Cursou jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Publicou os livros de poemas “Respingos e clamores: libreto do fundo do peito liberto” (2005) e “Desenho do chão” (2008); além da tradução de “O olho da mulher”, poesia reunida de Gioconda Belli, da Nicarágua (2012). Contato: silviodiogo@yahoo.com.br

 

Pessoa e democracia: a história sacrificial

Maria_Zambrano

María Zambrano

É difícil que as pessoas entendam que um regime não seja uma espécie de estrutura fixa, de “coisa”, daí que exijam dele, acima de tudo, a quietude. E, mais, que confundam esta quietude com a ordem. A mente da maioria das pessoas é todavia estática e concebe a realidade como conjunto de coisas e a vida – até mesmo a própria – como conjunto de fatos, negando-se a ver que os fatos são “momentos” de um interminável processo, analogamente ao modo como as chamadas coisas são, segundo a física moderna, feixes de energia. Mesmo essas ideias não criaram imagens adequadas nem engendraram, portanto, um sentimento que lhes corresponda. Subsiste ainda a velha imagem da “materialidade” das coisas e do tempo plano, povoado de fatos da vida histórica. É o “materialismo” do qual temos que nos livrar – nós, os ocidentais.

A Democracia como regime há de ser a expressão, a resultante da sociedade democrática. Sociedade que se irá alcançando na medida em que a visão do homem vá adquirindo uma visão mais justa da sua própria realidade e, através dela, da realidade toda; lhe vá perdendo temor. Dir-se-ia então que a necessidade de descobrir o real e de defrontar-se com ele teve desde sempre que lutar com um pânico da realidade. Em todo homem preserva-se essa batalha, e em toda sociedade também. Até agora, o projeto da vida democrática é o que, entre todos, aparece mais livre desse temor ancestral da realidade.

Em todo absolutismo de pensamento e em todo despotismo jaz o medo da realidade humana e até da realidade, prévia à humana. Teme-se a riqueza, a multiplicidade, a mudança. Intui-se ou pressente-se a disciplina que é preciso ganhar para viver frente a uma realidade que se reconhece como movimento. Pois, se se crê que o real é imóvel, tende-se a ficar imóvel, ou melhor, quem o concebe move-se com a ingênua segurança das crianças que acreditam que a lua e as estrelas estão fixas. E ainda o afã da dominação: se tudo está quieto e só eu me movo, quero dizer que o posso dominar.

A confusão da ordem com a quietude funda as suas raízes num terror primário. E é um dos aspectos mais perigosos desse estatismo que ainda subsiste na mente ocidental. Pois não há razão para que a imagem seja a de um edifício, mais do que a de uma sinfonia. O motivo pelo qual para a maioria das pessoas seja assim pode ser, talvez, que o edifício esteja aí de uma vez por todas… enquanto dure. E a sinfonia temos de a escutar, atualizá-la a cada vez; temos de certa forma de a refazer, ou sustentar o seu fazer-se: é uma unidade, uma ordem que se faz diante de nós e em nós. Exige-nos participação. Temos de entrar nela para a receber.

A ordem de uma sociedade democrática está mais próxima da ordem musical do que da ordem arquitetônica. A história começa quando se erige uma construção; e, conforme dissemos, a imagem da vida histórica, até agora, é a de algo que se edifica. A transformação que há de se verificar talvez seja de modo a que, algum dia – felizmente –, a imagem da vida histórica, do fazer histórico, provenha da música; desta ordem que harmoniza as diferenças.

Pois a grande novidade da ordem democrática é que há de ser criada por todos. A ordem de algo que está em movimento não se faz presente se não entrarmos nela. Esta é a singularidade de uma ordem que só se revela a nós quando a ela nos incorporamos. Por isso, as pessoas hostis à democracia encontram-na sempre desordenada ou na iminência da desordem, muito embora os países onde ela existe, mesmo que de forma incipiente, mostrem maior estabilidade e equilíbrio do que os submetidos a regimes de “ordem e autoridade”. E ainda chegam alguns a justificar, e a agradecer ao céu, os milhões de mortes havidas para livrar um país da “desordem” de uma democracia que não custara vida humana alguma para se instaurar e que não executara sentença alguma de morte para se manter. Ao negar-se a participar de sua ordem, simplesmente confundem esta ordem vivente e fluida com o caos, como alguém cujo ouvido não pudesse seguir o fluir de uma melodia ou a complexidade do contraponto; alguém que quisesse encontrar a ordem e a harmonia no som contínuo de uma nota. É o quietismo do qual temos que nos livrar – nós, os ocidentais.

A ordem democrática se alcançará somente com a participação de todos como pessoas, o que corresponde à realidade humana. E a igualdade de todos os homens, “dogma” fundamental da fé democrática, é igualdade na condição de pessoas humanas, não em qualidades ou caracteres; igualdade não é uniformidade. Trata-se, pelo contrário, do pressuposto que permite aceitar as diferenças, a rica complexidade humana – não apenas a do presente, como também a do porvir. A fé no imprevisível.

Será utópico pensar que esta ordem, em lugar de excluir realidades, as irá incluindo todas? Ordem é limite, e limite é exclusão. Mas o limite, e o seu inevitável excluir, pode funcionar de outra maneira, numa situação futura que hoje somente podemos vislumbrar. No entanto, daquilo que se vislumbra podem nascer algumas indicações, como flechas que marcam uma direção.

Viver humanamente é ter que eleger entre as circunstâncias, disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, ao enunciar a Razão Vital. Mas há uma eleição prévia, decisiva entre todas: a que se faz de si mesmo. Sempre entendi a afortunada fórmula de Ortega – “somos necessariamente livres” – como equivalente a esta: “somos necessariamente pessoa”. Mas não é o mesmo, se para além de o ser necessariamente, se quer sê-lo, pois aí se coincide com o próprio ser livre. Atualiza-se a liberdade; só então a comum, a própria.

Nesta situação de liberdade atualizada, a realidade aparece de maneira diversa em relação a quando se é apenas “necessariamente livre”. Diferença que se mostra abissal quando se é livre sem o querer ser, quando se é pessoa apenas pelo fato do nascimento. A realidade deforma-se na mente de quem é pessoa “à força”; não há de ser outra a raiz do ato da calúnia. Quem é apenas necessariamente pessoa teme a realidade e a planifica: plana, esquelética, quase uma imagem de morte. Ao passo que a realidade se torna mais real à medida que se ordena, para quem tenha aceito a si próprio como pessoa. A realidade é vida para ele.

Porém, há um modo de se afirmar como pessoa, um modo trágico que é afirmar-se como personagem; o personagem é sempre trágico; sob ele geme a pessoa e, para um dia se libertar, precipita-se na tragédia, depois de ter precipitado aquilo que dela dependia. Se o homem ocidental retirar a sua máscara, renunciar a ser personagem na história, estará disponível para eleger-se como pessoa. E não é possível eleger-se a si mesmo como pessoa sem eleger, ao mesmo tempo, todos os demais. E os demais são todos os homens.

Com isso não se acaba o caminho; melhor, começa.

 

Roma, 23 de julho de 1956

 

[Persona y democracia: la historia sacrificial. Barcelona: Anthropos: 1992; trecho do capítulo “La función de la minoría y del pueblo en la democracia naciente”; pp. 162-5]

Tradução: Sílvio Diogo