“O concerto”, María Zambrano

María Zambrano

María Zambrano por Sciammarella — El País, 25/jan./2010

Para o mestre Andrés Segovia

Ouvia-se. Acaso haveria de se ouvir o violão se o seu ressoar não entreabrisse desde o primeiro instante o modo justo de escutar? Eis a sua primeira virtude, indiscernível por enquanto. Os que se preocupam com as pedagogias talvez tenham se dado conta de que a Música é que ensina sem palavras o justo modo de escutar. E de que, quando se trata da palavra sozinha, as coisas se passam de maneira semelhante: a música, que pode ser uma forma de silêncio, é que sustenta a palavra no seu meio e no seu modo justo, nem tão alta nem tão baixa — sempre um pouco baixa, de preferência. Porque a música é, desde o início, aquilo que se ouve, aquilo que se há de ouvir, e, sem ela, a palavra sozinha decai tornando-se mais densa, em vias de se transformar em pedra, ou ascende volatilizando-se, frustrando as expectativas. Graças à música, a palavra não frustra; desprovida dela, mesmo sendo palavra de verdade — e, neste caso, ainda mais —, ela se desdiz. A música é a garantia da não traição, não existem nela “as boas intenções”, e uma única falha na voz que se expressa revela a falácia ou denuncia o descumprimento da verdade. A música cumpre, cumpre-se; e, escutando-a, nós nos cumprimos. Aquele que leva consigo a música, o que é, quem é? Um ser remoto, uma pura atualidade do sempre. E resulta impensável que alguma vez se vá, que alguma vez não tenha estado. Voltará.

Voltará sempre quem faz a música deste instante. Voltará essa música que mais se aproxima da origem, do princípio, quando simultaneamente revela o instante de agora. Dura, toda ela, um instante. Dura um instante toda a música. Um instante de eternidade, tal qual o morrer, o nascer, o amar.

Em especial, quando vem do violão a música; mas o que seria na verdade esse pulsar solitário, essa onda do ser e da vida? Não será, porventura, o instrumento musical em sentido estrito, inteiro e só, único?

Instrumento único da música toda. É possível que uma nota só lhe bastasse. Inconfundível, unia os contrários: o ser e o não-ser do próprio sentimento. Era lamento e não era. Celebração sem rastro de triunfo. A música une os contrários, ou está tomando fôlego antes que apareçam? Ou a sua execução é um puro ato que nos devolve num instante à origem do tempo, justo agora, quando tantos caminhos foram percorridos por ele, não só agora como antes, depois de tudo, afinal? E que, dessa forma, nos dá a lei do íntegro sentir, livrando-nos da nostalgia que os simplificadores do viver acreditam ser o dom da música e, sobretudo, a sua voluptuosidade. Pode haver dor, e com maior intensidade no violão, que talvez seja entre todos os instrumentos o escolhido pela dor. A dor, porém, não pede para ser estabelecida, condensada; a dor pede para surgir enfim sem ser notada, depois de germinar, de haver germinado como uma inumerável colônia de formigas. A dor que no violão se esquiva do sofrimento, sob o Anjo que ajusta o sentimento minuciosamente e o orienta passo a passo rumo àquilo que não se acaba, no alto. Guarda a música o segredo da exatidão do sentir, as cifras do cálculo infinitesimal do padecer. E isto alcança, ao menos entre os instrumentos ocidentais, o seu máximo cumprimento no violão, tão entranhável que ecoa lá de dentro, na gruta do coração do mundo. E por isso, os que a resvalam por andar às pressas acham que ela é carpideira, e os que a aproveitam tratam-na como lancinante. E ela lhes diz: “Deixai-me sozinha”, mas eles não entendem. Pois é oportuno considerar também que ela se ofereça sozinha a alguém que, sem pressa, prossiga durante toda a sua vida quase sem a tocar, roçando-a ligeiramente, desfiando o seu segredo de acordo com o número, esse que se esconde mais quanto mais se revela. Clareia, então, a noite do padecer; o enxame do sofrimento se unifica. O som é um só. O Anjo arrancou os espinhos e ele próprio se faz sentir enquanto se apaga.

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Tradução: Sílvio Diogo

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María Zambrano. Claros del bosque (edición de Mercedes Gómez Blesa). 3.ª ed. Madrid: Cátedra, Colección Letras Hispánicas, 2017, pp. 209-11.

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Uma versão em português da letra de “Nega (Photograph blues)”, música de Gilberto Gil

Nêga (Pedacinho do céu)
— Gilberto Gil

(versão em português da letra: Sílvio Diogo)

Nêga
Você não sossega, não
Nega, não
Os seus loucos poucos dias
Os seus poucos findos dias
Pra mim
Nêga
Você me pega, eu
Me apego, sim
Os meus loucos poucos dias
Os meus poucos findos dias
São seus

Quando eu te conheci, quando eu te conheci foi tudo tão azul
Fui te rondando, te sondando sem um pio
Só fiz questão de elogiar o seu pêlo macio
E você veio então com uma conversa de xampu
(Fiquem à vontade, fiquem à vontade)
E foi tirando, foi tirando sem parar fotografias
Pelo centro da cidade
E a gente ia, a gente ria

Nêga…

Você caminha onde agorinha eu caminhei, e vai você
Revendo assim meu velho povo que eu deixei lá
E eu aqui fazendo o mesmo, aquilo mesmo, o mesmo, o mesmo, o mesmo que você
E agora posso mergulhar na sua xícara de chá, de chá, deixá, de chá, de chá, deixá
Fiquem à vontade, juntos à vontade
Muito à vontade, sempre à vontade
Pra ser, pra ser, prazer, pra ser
Pra ser, prazer, pra ser, pra ser
O que era destino, o que era de ser
O que era destino, o que era de ser
E foi, e só
Aquilo que foi só, e o que não foi

Nêga…

Revele as nossas fotografias
Quem sabe o sonho, assim, seja verdade
Quem sabe, nêga, a gente risse, sempre ria
Ou caía de uma vez a tempestade

Revele, nêga, as nossas fotografias
Quem sabe, assim, quem sabe a gente saiba
Quem sabe, sim, quem sabe, não, o sim, o não, o sim, o não
O nada, a não ser um pedacinho seu
Nêga, só um pedacinho do céu

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DIOGO, Sílvio. Respingos e clamores: libreto do fundo do peito liberto. São Paulo: Edições Toró, 2005.

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Nota: Esta versão em português, publicada em meu primeiro livro de poemas, foi concebida a partir da música gravada por Gilberto Gil e Jorge Ben no álbum Gil Jorge Ogum Xangô (Philips, 1975). Uma primeira gravação de “Nega (Photograph blues)” havia aparecido no LP inglês de Gilberto Gil, lançado em 1971 na Inglaterra pela Famous e no Brasil pela Philips.

A letra de “Nega (Photograph blues)” em inglês:

‘Gilberto Gil: todas as letras’ (incluindo letras comentadas pelo compositor) / organização: Carlos Rennó; colaboração especial: Marcelo Fróes; textos de Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik. Edição revista e ampliada. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 139.

“Clareiras do bosque”, María Zambrano


Apresento aqui uma passagem da versão em português do livro Claros del bosque, de María Zambrano. A circunstância da tradução de uma obra escrita por uma filósofa, em linguagem dotada de forte sentido poético — a fronteira tênue em que Zambrano constrói conceitos e metáforas —, estabelece desafios para o exercício do trânsito entre idiomas.

O intenso diálogo da filosofia com a poesia marca toda a trajetória intelectual de María Zambrano (1904-91). Sobre a singularidade de Claros del bosque, publicado em 1977, assim se expressa a própria pensadora: “Creio portanto que, como livro, é o que mais responde a essa ‘ideia’ há tempos formulada de que ‘pensar é antes de tudo — como raiz, como ato — decifrar o que se sente’, entendendo por sentir o ‘sentir originário’, expressão usada por mim já há muito anos”.

O excerto a seguir está no quinto capítulo do livro, “La metáfora del corazón”.

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CLAREIRAS DO BOSQUE
— A metáfora do coração

É profeta o coração, tal como aquilo que se encontra no centro e num confim, sempre na iminência de ir ainda mais além do que já foi. Está a ponto de romper a falar, de que o seu reiterado som se articule nesses instantes em que quase se detém para recobrar o alento. O novo que habita no homem, a palavra; mas não as que dissemos, ou no mínimo como as dissemos; uma palavra que fosse nova apenas porque brotasse, porque nos surpreendesse como o alvor da palavra. Visto que o homem padece por não haver assistido à sua própria criação. E à criação de todo o universo conhecido e desconhecido. A sua ânsia de conhecer parece ter precisamente como fonte essa ânsia de não haver assistido à criação em sua totalidade, desde a luz primeira, desde antes: desde as trevas não dilaceradas. A teologia das grandes religiões — e também a filosofia, de modo mais circunspecto — dá testemunho do caráter ineludível desta revelação.

E não parece que se tenha considerado suficientemente este grande ressentimento, este ressentimento “fundamental” que o ser humano leva no seu coração, como raiz de todos os ressentimentos que o povoam: não haver assistido — e seria, por sinal, testemunha única — ao ato criador. Se tomamos por base o relato sagrado do Gênesis, o homem sucumbiu à sedução promissora do futuro: “Sereis como deuses”, não em apetite de felicidade, mas, ao contrário, saindo da felicidade que o inundava para ir buscar uma criação própria, de algo que ele fizesse; não se restringindo a contemplar o que se lhe oferecia, para fugir da pura presença dos seres de quem sabia o nome, mas não o segredo. Todavia, a palavra que não chega a sair do coração não se perde, essa palavra nova na qual resplandeceria, com claridade inextinguível, o novo da palavra. A palavra diáfana, virginal, sem pecado de intelecto, nem de vontade, nem de memória. E a sua claridade teria o que nenhuma palavra nos dá certeza de alcançar: ser inextinguível. Não se perde, desata-se em voz, uma voz que suspira sozinha e, tal como o suspiro, eleva-se atravessando angústia e espera; transcendendo.

E é a voz que se infiltra em certas palavras de uso cotidiano e, com ainda maior ênfase, nas mais simples, as que dão certeza. E se não se tornam por isso inextinguíveis, têm uma espécie de firmeza e até de fórmula sagrada.

E é a voz interior que se identifica com algumas vozes, com algumas palavras que se escutam não se sabe bem se dentro ou fora, porque se escutam do íntimo. E ao sair para escutá-las, é de si mesmo que se sai. E entre dentro e fora, todo o ânimo fica suspenso, como fica sempre em toda identificação de algo que pulsa no coração e algo que existe objetivamente. É o terror supremo que se precipita ao escutar como certo aquilo que se teme. E o total esquecimento de si, quando se escuta o que nem sequer se sabia estar aguardando. E nesta feliz situação dá-se a música perfeita; o canto.

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Tradução: Sílvio Diogo

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Em dezembro do ano passado, a revista Caliban publicou um ensaio que compus sobre a pensadora espanhola: Escritos, mulher, escritos: a minha descoberta de María Zambrano”.

“Ficar em silêncio e caminhar são hoje em dia duas formas de resistência política”

David Le Breton, sociólogo

David Le Breton (Le Mans, 1953) na última terça-feira, 17 de outubro, em Málaga, durante a entrevista / Foto de Javier Albiñana

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O pensador francês, autor de livros como El silencio e Elogio del caminar, descreve o seu ideário nesta entrevista concedida ao Grupo Joly, antes de pronunciar uma conferência em La Térmica.

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Por Pablo Bujalance
Málaga, 19 de outubro de 2017
[artigo publicado originalmente no ‘Diario de Sevilla’]

Doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII e professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Ciências Humanas Marc Bloch, de Estrasburgo, o pensador francês David Le Breton (Le Mans, 1953) encarna como poucos de seus contemporâneos a melhor tradição intelectual de seu país. Na Espanha, publicou com êxito livros como El silencio, Elogio del caminar e Desaparecer de sí: una tentación contemporánea, com os quais aposta em formas concretas de resistência diante da desumanização do presente. Nesta semana pronunciou uma conferência em La Térmica, o centro de cultura contemporânea da Assembleia Legislativa de Málaga, antes da qual concedeu esta entrevista.

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Permita-me uma pergunta um tanto primária para começar: você defende o silêncio como forma de resistência, mas de onde nasce o ruído?
Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século XX como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica. Neste contexto, o silêncio implica uma forma de resistência, uma maneira de manter a salvo uma dimensão interior frente às agressões externas. O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio. O maior problema, provavelmente, é que a comunicação eliminou os mecanismos próprios da conversação e se tornou altamente utilitarista com base nos dispositivos portáteis. E a pressão psicológica que suportamos para os armazenar é enorme.

É mais fácil cultivar e fomentar o silêncio no Oriente, em relação à Europa e aos Estados Unidos, por exemplo?
Sim, na tradição japonesa existe uma noção muito importante de disciplina interior, cristalizada em sistemas de pensamento como a filosofia zen. Digamos que no Oriente há muito caminho percorrido, mas as invasões contra as quais convém opor resistência já são as mesmas.

O que você responderia a quem sustentasse que o silêncio é uma confissão de ignorância?
O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.

Sobre o desaparecer de si, penso na psicologia construtivista e em autores como Jean Piaget. Seria possível formular uma psicologia da desconstrução para a personalidade?
Sim, é possível chegar a isso por meio de uma disciplina, de um exercitar-se no silêncio. Como disse antes, no Japão esta disciplina é algo muito comum. Podemos ir abrindo na nossa rotina diária espaços para o silêncio, para meditar, para nos encontrarmos com nós mesmos, e com a disciplina adequada esses espaços serão cada vez maiores. A minha melhor experiência nesse sentido, a definitiva, foi no Caminho de Santiago: quando cheguei enfim a Compostela, compreendi que eu havia me transformado completamente, depois de numerosos dias em marcha e em absoluto silêncio. Foi um renascimento.

Na França, vocês possuem uma grande tradição do caminhar com Balzac e a figura do flâneur.
Sim, o caminhar nas cidades, o vagar sem uma meta concreta. Não apenas Balzac, também Flaubert o defendia. E para os situacionistas, isso se converteu num assunto fundamental. Caminhar é outra forma de tomar consciência de si, de reparar no próprio corpo, na respiração, no silêncio interior. Na Idade Média havia aqueles que se dispunham intensamente a caminhar no deserto. Porém, a prática do caminhar nas cidades encerra conotações relacionadas ao prazer. Trata-se de desfrutar daquilo que você percebe, de se deleitar com os atrativos que a cidade lhe oferece pelos sentidos. É uma atividade hedonista. Jean Baudrillard e os intelectuais de orientação sartriana também o definiram assim, como uma prática contrária ao puritanismo.

É por essa qualidade de resistência que se tacha de louco quem caminha sem rumo?
Sim, é o que acontece. E por isso o caminhar, como o silêncio, é uma forma de resistência política. No momento de sair de casa, de movimentar-se, você de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente aonde você deve ir, por qual caminho e por qual meio. Caminhar porque sim, eliminando da prática qualquer tipo de apreciação útil, com uma intenção decidida de contemplação, implica uma resistência contra esse utilitarismo e, ocasionalmente, também contra o racionalismo, que é o seu principal benfeitor. A marcha lhe permite advertir como é bonita a Catedral, como é brincalhão o gato que se esconde por ali, as cores do pôr-do-sol, sem qualquer finalidade, porque toda sua finalidade é esta: a contemplação do mundo. Frente a um utilitarismo que concebe o mundo como um meio para a produção, o caminhante assimila o mundo que as cidades contêm como um fim em si mesmo. E isso, claro, é contrário à lógica imperante. Daí a vinculação com a loucura.

Entretanto, com a sua transformação em centros comerciais, e penso no próprio coração de Málaga, as cidades não se tornaram os piores inimigos dos caminhantes?
Sim, você tem razão. De fato, todas as grandes cidades, seja Paris ou Tóquio, já se transformaram em superfícies comerciais. É muito importante que as cidades encontrem um equilíbrio entre os recursos que garantam a sua prosperidade e a qualidade de vida dos que nelas residem. De outra maneira, as cidades tornam-se entidades desumanizadoras. O fato de caminhar por suas ruas sem nenhum interesse em comprar ou em gastar dinheiro, somente em vagar sem rumo, daqui até ali, porque sim, também é uma forma de deixá-las mais humanas, de rebelar-se contra as ordens que convertem todas e cada uma das interações humanas num processo econômico.

De volta ao silêncio: a indústria cultural não foi um dos principais canais do ruído no último meio século?
Sim, é isso. Estou de acordo. Em meu livro El silencio me ocupava desse assunto. Porque, afinal de contas, a indústria cultural vem a ser uma forma do poder político. Uma atividade cultural teria de estar encaminhada para que cada um se encontrasse consigo mesmo, se reconhecesse em seu interior e iniciasse um diálogo íntimo sem sair de si, valendo-se dos instrumentos que a cultura deveria pôr ao seu alcance. Contudo, em vez disso, temos uma cultura que é cada vez mais de massas e menos de pessoas, na qual é impossível se reconhecer. Também é importante opor resistência às formas invasivas da cultura que permeiam o silêncio.

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Tradução: Sílvio Diogo

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Um agradecimento à professora Ana Maria Domingues de Oliveira, que divulgou em seu mural no Facebook a entrevista em espanhol.

“O ingresso”, María Zambrano

Neste escrito de 1965, a pensadora espanhola María Zambrano levanta questões sobre o ingresso de estudantes advindos de escolas públicas e de classes desprivilegiadas nas universidades e, de modo mais geral, sobre a travessia dos estudos na vida das pessoas. Vale muito a reflexão, até mesmo — e especialmente — por aquilo que há de datado em seu ensaio.

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María Zambrano

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O INGRESSO

Era mais brusco e também mais solene, em outras épocas, o trânsito da Escola Primária aos estudos do bacharelado em relação ao que se verifica hoje da Primária à “High School” ou aos Liceus de Ensino Médio. Diversas razões contribuem para isso: a primeira parece ser a democratização do ensino médio, para o qual afluem, cada [vez] em maior número, os estudantes de um e de outro sexo. Antes, especialmente no “velho mundo”, o acesso ao Liceu ou ao Instituto era reservado a uma certa classe social, e era indício quase certo do prosseguimento dos estudos até à Universidade ou às Escolas Superiores. Ingressar, pois, no Instituto ou na High School significava o primeiro passo de uma longa carreira que, alcançada, conservaria os seus seguidores dentro do recinto dessa classe social tão ampla denominada burguesia, ou os incluiria dentro dela, no caso — não muito frequente — de quem a ela não pertencesse.

Se por acaso o garoto que ingressava, mediante exame, no estabelecimento de ensino médio havia cursado o básico em uma escola pública, e não em um desses colégios chamados “particulares”, sentia-se separado dos seus companheiros que ficavam porventura ainda mais um ano nos bancos da Primária ou que, ingressando no seio de sua própria família, começavam a trabalhar em um ofício. Desses companheiros e amigos da infância, um abismo separava o afortunado estudante. Ele já era de outra classe, de outro mundo: ele estudava em vez de trabalhar para ganhar a vida. Seguia educando-se; educando-se e não somente estudando, ao passo que aqueles outros que não haviam ingressado no ensino médio davam por terminada a sua educação junto com os seus estudos. Daquele momento em diante, só os ensinaria a vida, a dura experiência da vida. E era também como se de repente tivessem que se fazer homens; como se todas as suas férias houvessem para sempre terminado; como se somente as rudes alegrias saíssem ao encontro deles, com sua perigosa dupla face. Como se de repente o [que] se chama “a realidade da vida” se lhes precipitasse totalmente.

O que é então seguir estudando sabendo que será por muitos anos seguir educando-se? Se fosse perguntado ao privilegiado que se separava de seus companheiros da infância para “elevar-se” por meio do estudo a outra categoria social, a outro modo de vida: Que modo de vida é este do estudante, acaso não tem a ver com a realidade da vida — o que seria o mesmo que dizer que é algo irreal? Não exatamente: o estudante ingressa num modo de viver que tem contato com a realidade da vida; o que faz é real, real e às vezes heroico o esforço. Resulta porém que a realidade desses estudos, dessa prosseguida educação, produzirá o seu fruto em um longínquo amanhã. Será quando acabe a carreira, quando se encontre lançado à realidade da vida — tal como se vê hoje o companheiro pobre que não pôde seguir uma carreira. E se tais reflexões se fizesse, ingressaria desde o primeiro momento no Estabelecimento de Ensino Médio com a grave alegria de quem se sabe privilegiado, de quem recebe um dom que obriga, e que talvez mereça menos que outros que não o receberam. O privilégio de preparar-se, de ir-se preparando para essa rude, esquiva realidade da vida. O ir familiarizando-se com ela passo a passo, seguindo uma ordem. Conduzido, guiado. As procissões acadêmicas têm esse sentido; ser a representação da vida mesma das aulas; os jovens iniciandos conduzidos e guiados pelos iniciadores que lhes evitam obstáculos, quedas, duras experiências, riscos sem fim; que lhes mostram o caminho do labirinto antes de deixá-los sozinhos em seu centro.

— Fevereiro de 1965

*

Tradução: Sílvio Diogo

Filosofía y educación: manuscritos. Málaga, Ágora, 2007 (Org.: Ángel Casado e Juana Sánchez-Gey).

“Rebelde”, Juana de Ibarbourou

Juana de Ibarbourou

Caronte: serei escândalo na tua barca.
Que as outras sombras rezem, gemam, chorem,
E sob os teus olhares de sinistro patriarca
As tímidas e tristes, em baixo timbre, orem…

Eu irei como calandra cantando pelo rio
E à tua barca levarei o meu olor selvagem,
E irradiarei nas ondas do córrego sombrio
Alguma azul lanterna que alumbre a viagem.

Por mais que tu não queiras, e um piscar de horror
Me lancem teus dois olhos, mestres no terror,
Caronte, eu na tua barca serei como um escândalo.

E exausta de sombra, de préstimo, de frio,
Quando quiseres me deixar na margem do rio
Serão os braços teus a me soltar: conquista de vândalo.

*

[tradução: S.D.]

“Propósito de ano novo”, Gioconda Belli

Gioconda Belli

Nasce o ano demandando de mim o retorno ao meu ser.
Que regressem as profundas palavras
as leituras, os milagres perpétuos
Deixar o efêmero, as fotos divertidas, as notícias insólitas
fora de mim
Minha vida desprevenida encheu-se de ruído
A solidão já não encontra a quietude dos amplos salões
A prazerosa cerimônia das boas-vindas
Agora é preciso buscá-la qual uma dama extraviada
Alçar fossos para preservá-la do assédio.
A moderna invasão de todo minuto que sobra
converteu a vida em voragem, impressões, fogos fátuos, rostos
como rastros leves nas multidões, nas feiras, nas leituras.
Conversa-se com apuro, em parênteses, antes de se voltar à notícia, ao texto,
ao comentário, ao “curtir” — ilusório prazer do pobre cérebro embotado —
Em nossas mãos puseram a fascinação dos labirintos,
túneis abertos de vento por onde o tempo escapa veloz
sem que mal escutemos a sonoridade da tarde ou do dia, idos para sempre.
Quero, neste ano que nasce, recordar que uma manhã é insubstituível
Jamais haverá outra manhã com a mesma data que ESTA.
Tantas opções, porém as mãos se inquietam,
acendem as telas. Perde-se então o instante do qual emergiria
a solução dos enigmas. Isto e muito mais se perde.
Prometo caminhar mais este ano. Caminhar sem música, sem fones de ouvido, sem escutar livros.
Empenhar-me no diálogo com o vento, com as minhas lembranças, com os retalhos de
conversas que continuaram reverberando; recordarei o que disse com os amigos.
A insondável particularidade dos filhos. A farra dos netos.
Revisarei a biblioteca, a fonoteca, a videoteca da minha mente, os seus segredos e
projetos. Dosarei as redes, os aplicativos, o celular
Retornarei ao silêncio, às sombras da gruta,
à densidade do sangue
ao subterrâneo com os seus instigantes baús
Me esconderei com o tempo
Pentearei os cabelos brancos
E sentirei o seu perfume
Mimarei, para que não se dissipe,
para gozá-la e desdobrá-la, cada fenda
para me deliciar e retornar ao assombro
ao íntimo espaço onde flutuam quietos
planetas sem explorar,
constelações.

— 7 de janeiro de 2017

[tradução: S.D.]