AR-

Onze de dezembro, domingo, fui ao Museu Tipografia Pão de Santo Antônio para imprimir uma nova leva do poema (sem título, até então) que havia composto no ateliê aberto do dia anterior, na programação da Semana do Patrimônio Tipográfico.

No momento de puxar o bloco de tipos, cometi um erro de principiante: deixei escorregar algumas das peças de chumbo, amarradas com barbante, e precisei então reencaixá-las.

Daí veio o erro seguinte: a sílaba “ar-”, da palavra “arrancar”, saiu invertida na composição. E não me dei conta disso até que as vinte cópias do poema passassem pela prensa. Pois bem: lá estava eu com vinte folhinhas de “ra-rancar” rindo da minha cara.

A nova e última emenda, passadas algumas semanas, foi recortar as letrinhas, inverter as cores dos papéis, e batizar o poema de “AR-”, com o hífen movimentando a inspiração e a expiração.
 

 

Um bom crime chileno

rubem-braga
Rubem Braga

Quando eu era editor pensei em fazer um livro — ou mais de um — sem nenhuma literatura, apenas com narrativas de crimes verdadeiros. É difícil de explicar, mas inegável a atração que isso exerce sobre o leitor. Aqui vai um crime acontecido em 1903 no Chile.

O caso é que uma bela noite um incêndio destruiu o edifício da Legação da Alemanha. No meio dos destroços fumegantes havia um cadáver. O Ministro, barão Hans von Boden, não teve dificuldades em reconhecer o corpo do conselheiro da Legação, Wilhelm Beckert, mesmo porque na mão esquerda estava a aliança de casamento. Além de Beckert, devia estar na Legação, na hora do incêndio, o jovem porteiro Tapia, chileno. Inutilmente se procurou o seu corpo; não foi encontrado em parte alguma. A mulher de Tapia informou que ele não aparecera em casa.

Examinando com mais atenção o cadáver de Beckert, os médicos chegaram à conclusão de que ele havia sido assassinado antes do incêndio, recebendo golpes na cabeça e no coração. O Ministro revelou que dinheiro e valores consideráveis tinham sido roubados.

Sabia-se que Beckert tinha sido ameaçado por jovens nacionalistas chilenos; ele contara isso a alguns amigos. Entre seus papéis particulares foi encontrada uma carta anônima contendo ameaças a sua vida, e uma carta escrita por ele próprio, endereçada ao presidente da República do Chile, para ser aberta em caso de morte. Essa carta não tinha nenhuma revelação interessante; apenas ele protestava contra acusações que lhe eram feitas de exercer atividades contrárias aos interesses dos chilenos e acabava pedindo clemência para seu assassino, que só poderia ser um moço fanático. A emoção pública foi enorme, e as altas autoridades foram ao enterro do conselheiro. O discurso feito pelo Ministro continha ameaças veladas ao governo chileno, caso o criminoso não fosse punido.

Tapia é procurado em todo o Chile pela polícia e pela população sem resultado. É a essa altura que aparece um judeu de certa idade, relojoeiro, que procurou o juiz encarregado do processo para contar o seguinte: que vira o conselheiro Beckert na noite do incêndio e, pelos seus cálculos, depois do incêndio. O juiz perguntou se ele tinha certeza de que era Beckert. Disse que sim, pois o conhecia muito bem. Mas falara com ele? O relojoeiro disse que o cumprimentara em alemão, e Beckert, que ia tomando um carro de praça, respondera em castelhano, dizendo que não o conhecia. Essa conversa do relojoeiro não seria levada muito a sério, se um jornalista desses sensacionalistas não a publicasse com certo escândalo. Ao dar a entrevista, o relojoeiro negou-se a admitir que se tivesse enganado na pessoa e na hora. Gabava-se de ser um excelente fisionomista e, apesar de a rua estar meio escura, reconhecera perfeitamente Beckert. Quanto à hora, também tinha certeza, pois era um homem de horários precisos: um relojoeiro.

Essas declarações animaram um dentista, que vira o corpo queimado, a declarar que os dentes pareciam os de um homem muito jovem, e não de um senhor da idade de Beckert. A coisa estava ficando mais séria, e apesar da grande irritação do Ministro da Alemanha, o juiz acabou ordenando a exumação do corpo. O dentista de Beckert foi chamado e declarou que aquela boca não era de seu cliente. A mulher de Tapia disse que este tinha dentes perfeitos, só uma pequena cárie. E lá estava a cárie.

Beckert foi preso no sul do país, quando tentava atravessar a fronteira para a Argentina. Ainda tinha muito dinheiro no bolso, e seus documentos, com outro nome, eram perfeitos. Foi condenado à morte e, enquanto esperava a execução, confessou que seu grande consolo, no meio daquele tremendo golpe errado, era reler os belos elogios que lhe fizera, no discurso à beira-túmulo, o seu ex-chefe, o barão Hans von Boden, Ministro do Kaiser.

Janeiro, 1990

*

Um cartão de Paris. / Rubem Braga; [seleção: Domício Proença Filho]. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1997.

Da profissão do poeta

Da profissão do poeta (1956)
— Geir Campos

A Paulo Mendes Campos

Da Consolidação das leis do trabalho:
“Não haverá distinção relativa à espécie de emprego ou à condição do trabalho, seja intelectual ou manual ou técnico”.

 

Da Identificação Profissional

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.

 

Do Contrato de Trabalho

Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio do meu canto.
Embora a dor ilhada ou coletiva
me doa, antes celebro as coisas belas
que movem o sol e as demais estrelas
— antigos temas que parecem novos
de tão gratos ao meu e aos outros povos.

 

Da Relação com Vários Ofícios

Meu verso tine como prata boa
pesando na confiança dos bancários;
os empregados no comércio bem
sabem como atender aos que encomendo
e recomendo mais do que ninguém;
aos que se ligam em telefonia
com ou sem fio, rádio, a esses também
sei dizer à distância ou de mais perto
a cifra e o texto no minuto certo;
para os músicos profissionais,
sem castigar o timbre das palavras
modulo frases quase musicais;
para os operadores de cinema
meu verso é filme bom que a luz não queima;
trilho também as estradas de ferro
e chego ao coração dos ferroviários
como um trem sempre exato nos horários;
às equipagens das embarcações
de mares ou de lagos ou de rios
meu verso fala doce e grave como
doce e grave é a taboca dos navios;
nos frigoríficos derrete o gelo
da apatia, se é para derretê-lo,
meu canto a circular nas serpentinas;
à boca da escotilha ou nas esquinas
do cais, o meu recado é força viva
guindando a atenção dos homens da estiva;
desço cantando aos subsolos e às minas
onde outros operários desenterram
o minério de suas artérias finas;
a outros, que dão sua têmpera aos metais,
meu canto ajuda feito um sopro a mais
aflando o fogo em flâmulas vermelhas;
aos colegas que lidam nos jornais
boas noticias dou e, mais do que isso,
jeito de as repetir e divulgar
quando o patrão quisera ser omisso;
à gente miúda, pronta a ser maior,
passo lições de um magistério puro
e o que é dever escrevo a giz no muro;
para os químicos sei fórmulas novas
que os mártires elaboram nas covas…
e a todos que trabalham vai assim
meu canto sugerindo meio e fim.

 

Do Horário do Trabalho

Marcadas as minhas horas de ofício,
de dia em sombras pelo chão e à noite
no rútilo diagrama das estrelas,
só quem ama o trabalho sabe vê-las.

 

Dos Períodos de Descanso

Seja domingo ou dia de semana,
mais do que as horas neutras do repouso
confortam-me os encargos rotineiros;
meu descanso é confiar nos companheiros.

 

Do Direito a Férias

Nunca me participam por escrito
ou verbalmente os ócios que mereço,
mas sempre gozo bem o merecido:
pois o ócio não é ofício pelo avesso?
É quando fio o verso; depois teço.

 

Da Remuneração das Férias

Em férias tenho a paga de saber
lembrado o verso meu por quem o inspira;
é como se outra mão tangesse a lira

 

Do Salário Mínimo

Laborando entre os pontos cardinais,
de norte a sul, de leste a oeste, vou
cobrando aqui e ali quanto me basta:
o privilégio de seguir cantando.
(Imposto é cuidar onde e como e quando.)

 

Do Expediente Noturno

Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
sem se tornar com isso menos pura
a voz sobe uma oitava na mistura.

 

Da Segurança do Trabalho

Mesmo no escuro, canto. Ao vento e à chuva,
canto. Perigo à vista, canto sempre;
e é clara luz e um ar nunca viciado
e sol no inverno e fresca no verão,
meu canto, e sabe a flores se é de flores
e a frutos se é de frutos a estação.
Só não me esforço à luz artificial
com que a má fé de alguns aos mais deslumbra
servindo-lhes por luz o que é penumbra;
também quando o ar parece rarefeito
a lira engasga, o verso perde o jeito.

 

Da Higiene do Trabalho

Não canto onde não seja o sonho livre,
onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito;
para enganar o tempo ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto…
Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança.

 

Da Alteração de Contrato Etc.

Meu ofício é cantando revelar
a palavra que serve aos companheiros;
mas se preciso for calar o canto
e em fainas diferentes me aplicar
unindo a outros meu braço prevenido,
mais serviço que houver será servido.

*

CAMPOS, Geir. Da profissão do poeta. 1ª ed. Rio de Janeiro, Philobiblion e Civilização Brasileira, 1956. Xilogravuras de Manuel Segalá. Tiragem de 500 exemplares.

Rebelde

Juana de Ibarbourou

Caronte: serei escândalo na tua barca.
Que as outras sombras rezem, gemam, chorem,
E sob os teus olhares de sinistro patriarca
As tímidas e tristes, em baixo timbre, orem…

Eu irei como calandra cantando pelo rio
E à tua barca levarei o meu olor selvagem,
E irradiarei nas ondas do córrego sombrio
Alguma azul lanterna que alumbre a viagem.

Por mais que tu não queiras, e um piscar de horror
Me lancem teus dois olhos, mestres no terror,
Caronte, eu na tua barca serei como um escândalo.

E exausta de sombra, de préstimo, de frio,
Quando quiseres me deixar na margem do rio
Serão os braços teus a me soltar: conquista de vândalo.

*

[tradução: S.D.]

Propósito de ano novo

Gioconda Belli

Nasce o ano demandando de mim o retorno ao meu ser.
Que regressem as profundas palavras
as leituras, os milagres perpétuos
Deixar o efêmero, as fotos divertidas, as notícias insólitas
fora de mim
Minha vida desprevenida encheu-se de ruído
A solidão já não encontra a quietude dos amplos salões
A prazerosa cerimônia das boas-vindas
Agora é preciso buscá-la qual uma dama extraviada
Alçar fossos para preservá-la do assédio.
A moderna invasão de todo minuto que sobra
converteu a vida em voragem, impressões, fogos fátuos, rostos
como rastros leves nas multidões, nas feiras, nas leituras.
Conversa-se com apuro, em parênteses, antes de se voltar à notícia, ao texto,
ao comentário, ao “curtir” — ilusório prazer do pobre cérebro embotado —
Em nossas mãos puseram a fascinação dos labirintos,
túneis abertos de vento por onde o tempo escapa veloz
sem que mal escutemos a sonoridade da tarde ou do dia, idos para sempre.
Quero, neste ano que nasce, recordar que uma manhã é insubstituível
Jamais haverá outra manhã com a mesma data que ESTA.
Tantas opções, porém as mãos se inquietam,
acendem as telas. Perde-se então o instante do qual emergiria
a solução dos enigmas. Isto e muito mais se perde.
Prometo caminhar mais este ano. Caminhar sem música, sem fones de ouvido, sem escutar livros.
Empenhar-me no diálogo com o vento, com as minhas lembranças, com os retalhos de
conversas que continuaram reverberando; recordarei o que disse com os amigos.
A insondável particularidade dos filhos. A farra dos netos.
Revisarei a biblioteca, a fonoteca, a videoteca da minha mente, os seus segredos e
projetos. Dosarei as redes, os aplicativos, o celular
Retornarei ao silêncio, às sombras da gruta,
à densidade do sangue
ao subterrâneo com os seus instigantes baús
Me esconderei com o tempo
Pentearei os cabelos brancos
E sentirei o seu perfume
Mimarei, para que não se dissipe,
para gozá-la e desdobrá-la, cada fenda
para me deliciar e retornar ao assombro
ao íntimo espaço onde flutuam quietos
planetas sem explorar,
constelações.

— 7 de janeiro de 2017

[tradução: S.D.]

Calada

O tema desta historieta é tão velho quanto andar para trás. Como só fazemos andar para trás na atual temporada, vamos lá. Há uma pessoa que me conta as cenas e aqui simplesmente as transcrevo. Pode-se resumir tudo nos versos de Cacaso: “O amor que não dá certo sempre está por perto”.

O ano é 1991. Patrícia é funcionária do departamento de odontologia da universidade e apaixona-se por um estudante, Felipe, pouco mais jovem do que ela. Tenta de todo jeito contornar ou evitar o embaraço, mas em vão. Passa então a contornar o próprio Felipe, a dar-se à vista do moço, a demorar-se nos poucos toques que trocam, mas em vão. O curso dele se esvai, Felipe se forma. Ela não lhe diz o interdito.

A turma toda sabe do amor de Patrícia. Felipe, não. Ou faz que não.

Passada a primeira fase de turvo desengano — ele já longe —, Patrícia quer materializar o sentimento, por incerto que seja, platônico ou o escambau, num ato concreto. Como não é simpática a lampejos de fúria, decide compor uma música. Não tem ideia de que elementos é feita uma música. Quer porque quer.

Ensaia em casa, escreve versos, arrisca uma melodia. Canta por muitas manhãs. Quando considera estar razoável, aluga uma hora de estúdio, deixa tudo planejado com um conjunto de instrumentistas; ela própria se dispõe a gravar a voz. No dia marcado, o conjunto não aparece. O técnico do estúdio vê-se premido por duas circunstâncias: o tormento da mulher (de mistura à falta de traquejo) e o pulsar do relógio na parede revestida com isolamento acústico. Sugere-lhe assim que vá para casa, tente adaptar a letra à melodia de uma canção já existente e retorne no dia seguinte.

Patrícia escolhe na madrugada “Gravity of love”, do projeto Enigma. Sua letra chama-se “Calada”.

O técnico, solícito à causa, faz o que pode na mistura. E Patrícia vê o quanto, num estúdio, uma hora é pouquíssimo. Consegue sair, feliz da vida, com três cópias em CD. É a sua música!

Faz-se necessário contar que já estamos em 2001 e que nossa protagonista está casada. Quase não se faz presente a imagem de Felipe, a vida toma rumos estáveis. Na universidade, ela trabalha há tempos em outro departamento. É nos corredores do prédio de odontologia, contudo, que encontra um colega dos tempos antigos que lhe dá notícias, após um caloroso abraço, sobre Felipe: “ele anda aqui perto, para um congresso”.

“O quê?!”

Sem esperar o término do expediente, a mulher inventa pelo telefone qualquer desculpa ao marido, passa rápido em casa, recolhe um dos três empoeirados CDs, guardados entre papéis, e viaja de carro à cidade vizinha. O périplo por pousadas, hotéis e chácaras não a leva a congresso algum. Interroga, conversa, manobra, orienta-se, retorna, inventa novas histórias. Senta-se sozinha às vinte e uma horas de sexta e pede uma cerveja na calçada do bar.

Em frente, a rádio comunitária evangélica anuncia promoções da farmácia. Ela se perde em devaneios vários e, é óbvio, na incômoda pergunta sobre o porquê de estar ali àquela altura da noite, do ano, da vida. No intervalo desses pensamentos ou, quem sabe, em uma das interrupções do som alto contíguo, ocorre-lhe a ideia de ir à rádio e pedir que toquem sua música para toda a cidade. O programador que lhe recebe pede apenas, em troca, a cópia do CD. Não sem relutar um tempo e explicar que se trata tão-somente de um plágio do projeto Enigma, Patrícia cede. E assim se dá a estreia de “Calada”.

Felipe continua personagem ausente. Estamos em 2013. Patrícia, divorciada, procura com os funcionários da odonto o endereço original do ex-aluno, entre os registros de arquivo. Dirige-se com um amigo até as imediações da residência ali informada. E depois de inventar outra história na vizinhança consegue saber que, desde o término do curso, ele mora em Brasília. Em um quase amanhecer da mesma semana de investigações, ela quer pixar uma frase para Felipe na fachada da casa onde ainda vive a mãe do homem.

Por motivos de segurança e por sigilo acordado com a pessoa que me narra a história, não informo a localização da casa. Posso dizer que a tentativa do recado no muro é frustrada por dois policiais que rondam o bairro; e que Patrícia só não é presa com o amigo porque se decide a contar a versão real a eles. Como prova, entrega-lhes a segunda cópia do CD.

Infelizmente, não há mais a relatar. Patrícia está hoje disposta a esquecer Felipe. Quer sim melhorar a música, incrementá-la, gravá-la de novo e, de preferência, com instrumentistas de verdade. Ela própria frequenta aulas de canto.

Terapia dos brotos

froes
Leonardo Fróes

 

Nesse tempo de incertezas,
confiscos e estripulias,
o chuchu já está brotando
em menos de cinco dias.
Também a mandioca brava,
a cana e a melancia
começam no mês de agosto
a enraizar com energia.
A bem dizer, qualquer pau
metido na terra fria
vai pegar e botar folhas
sem relutância ou porfia.
O tempo, se por um lado
produz enchente e agonia,
por outro convém às plantas
que saem da letargia.
Até a cebola brota
no aço inox da pia
quando acaba o sono verde
que a primavera anuncia.
Se for o caso, comprove:
pegue o bulbo que irradia,
coloque-o num vaso fértil
e espere a flor com alegria.
Nesse tempo, o desespero,
a ideia de moratória,
fez de cada brasileiro
um descrente na vitória.
Ninguém olhou para o chão
onde se escreve uma história
pequena, de tegumentos
e seivas que irão à glória.
Ninguém viu que uma semente
explode sem nostalgia
para dar à terra exausta
mais alento e outra harmonia.
Isso no entanto acontece
no lado claro da via
pelo qual também passamos
sem saber aonde se ia.
A semente, um broto novo,
a ideia que se teria,
a casca velha que fende
e morre no que ela cria,
tudo isso são momentos
de uma estranha parceria
que abaixa a crista do homem
e depois logo o extasia.
A vida é maior que a gente
e mais do que a gente espia,
pensando que ao ver de fora
a gente se torna um guia.
A vida contém esterco,
fungos de melancolia,
gestos doidos que florescem
entre amor e antipatia.
Mas também contém os galhos
que abraçam quem se desfia
procurando uma razão
de dar o que pretendia.
Contém, é claro, essas greves
e a inflação sem garantia,
salários de manga curta
com brigas de algaravia.
Mas também contém os berros
do instante de quem procria
e, em se tratando de plantas,
é a imersão na afonia.
O silêncio, sua carga
de interior teimosia,
e a capacidade lenta
de entregar cada fatia.
A natureza é engraçada,
dá sem trégua e principia
a gerar tudo de novo,
avessa à monotonia.
Hoje mesmo ela desperta
de sua breve dormência
para dar à humanidade
uma sensual inocência.
Dá os seios da beterraba
no vão das línguas macias,
o achado de um chuchu murcho
que aponta melhores dias
e ainda o repolho e suas
múltiplas orelhas sadias.
Ouça pois esse conselho
de quem fez o que podia,
pegando na enxada para
dar corpo ao que não se via.
Aproveite bem a hora
e plante, por terapia,
ou para matar a fome,
entre os homens, de empatia.

*

Argumentos invisíveis. Rio de Janeiro: Rocco, 1995

Fotografia de Leonardo Fróes: revista Modo de Usar & Co.