Masculina coragem


Sílvio Diogo

a Gioconda Belli

Necessita-se de homens corajosos;
homens que olhem nos olhos
e aprimorem o jeito de alegrar as mulheres,
calentar as mulheres.
E alertar-se.
Homens que assumam as próprias imperfeições
e as enfrentem com o ímpeto de que são dotados.
Que percebam, sim, os marasmos da amada
e busquem nos segredos da convivência
os pontos precisos, os momentos precisos
de falar e agir.
Homens que sejam tocados pelo desejo
de estarem felizes consigo,
com os amigos, o trabalho, os sonhos, a vida.
Necessita-se de homens corajosos
para lidar com a casa, as necessidades, as perdas;
os assuntos fortes e delicados.
Homens que procurem cuidar
das carências do corpo,
da saúde do coração.
Necessita-se de novos homens.
E de experiência, também, necessita-se.
Em proveito dos gêneros
(muitos mais do que dois)
é dirigido este anúncio.
Necessita-se, por certo,
de mulheres atentas
a essas tantas
necessidades.

*

Ilustração: — Sílvio Diogo, 2008
(grafite, papel, lápis de cor, tesoura)
[desenho do logotipo das Edições Toró (2005), versão colorida para o livro “Um segredo no céu da boca: pra nossa mulecada”. São Paulo: Edições Toró, 2008]

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Pausa para refletir

Espelho mágico,
ó estilhaçado ser
que nos devolve
o escárnio do povo,
a triste figura!

Diante de ti,
irmão fractal,
aos despedaços,
não saímos:
iludidos de ótica.

Arriscas provar
que a vaidade
é o nosso feitiço,
olhar o excesso
em excesso.

Espelho esperto,
espantalho da paz,
queres fazer crer
que somos só
a feia aflição.

Alucinados,
trocamos de pele
e nos vestimos
do lado do avesso
para te agradar.

Ousemos, enfim,
impor uma pausa
à tua presença,
à tua própria imagem
dessemelhante.

Mãos que se achegam
procuram-se ver.
Aos olhos dos outros
(se não forem o inferno)
é que nos descobrimos.

Música das máquinas

Adentrar, menino, a marcenaria;
vasculhar o mundo do marceneiro
de nome Minaré.

— Minaré! Minaré!

Desvendar, no tempo de após,
o maquinário e a memória,
a palavra desenhada,
a datilografia do som,
a melodia sob a agulha,
a revelação da luz.

— E clique! E clique!

Eriçar a ponta dos dedos:
abrir as portas do voo
com o toque da voz.

Contar histórias de um tempo
em que marceneiro e menino
dividem pó de oficina
e canção de motor.

— Minaré! Minaré!

A moça do box

Sonhei com a moça do box. Não reconheci o seu rosto. Havia a névoa quente ao redor dela, e permaneci à porta. Havia o vapor do sonho.

Foi assim: eu chegara a uma casa circundada por árvores, de aspecto simples, pintura descascando, com varanda e quintal. Estava aberta. Não dava ares de abandono, ao contrário, os móveis, as plantas, os utensílios indicavam que era habitada.

A curiosidade conduzia-me pelos espaços da casa, e quando pressenti que a qualquer momento poderia chegar gente, elas efetivamente apareceram. Eram mulheres. Entraram falantes e não demonstraram surpresa com a minha presença. Traziam sacolas e já se iam esparramando pelos cômodos.

Foi uma menina que veio até mim. Pediu-me que alcançasse uma caixa de brinquedos no alto da estante. E me apontava detalhes do ambiente enquanto brincávamos. Era estranha a naturalidade de tudo.

Passado algum tempo, em que se fez silêncio na casa, a menina me guiou para um corredor que principiava à esquerda da sala onde estávamos. Caminhei por ele, à meia-luz, até a última porta à direita. Estava aberta também.

E eis que me encontro com a imagem da moça do box, no banho. Além dela, uma outra mulher completava o quadro. E creio que foi por causa da presença tranquila desta última, sentada junto à entrada, que permaneci parado à porta. Com a espontaneidade própria dos acontecimentos do sonho, a moça do box pôs-se a falar comigo, a conversar sobre assuntos que eram de meu conhecimento e interesse. Eu não a reconhecia. Ela falava e falava, no meio do vapor.

Foi assim que pude saber da localização da casa, dos arredores, de como havia ido parar ali. Não havia hesitação nas palavras da moça. Ouvi com atenção tudo o que me contou, e só fui ser provocado pela interrogação sobre a sua identidade quando acordei.

AR-

Onze de dezembro, domingo, fui ao Museu Tipografia Pão de Santo Antônio para imprimir uma nova leva do poema (sem título, até então) que havia composto no ateliê aberto do dia anterior, na programação da Semana do Patrimônio Tipográfico.

No momento de puxar o bloco de tipos, cometi um erro de principiante: deixei escorregar algumas das peças de chumbo, amarradas com barbante, e precisei então reencaixá-las.

Daí veio o erro seguinte: a sílaba “ar-”, da palavra “arrancar”, saiu invertida na composição. E não me dei conta disso até que as vinte cópias do poema passassem pela prensa. Pois bem: lá estava eu com vinte folhinhas de “ra-rancar” rindo da minha cara.

A nova e última emenda, passadas algumas semanas, foi recortar as letrinhas, inverter as cores dos papéis, e batizar o poema de “AR-”, com o hífen movimentando a inspiração e a expiração.
 

 

Um bom crime chileno

rubem-braga
Rubem Braga

Quando eu era editor pensei em fazer um livro — ou mais de um — sem nenhuma literatura, apenas com narrativas de crimes verdadeiros. É difícil de explicar, mas inegável a atração que isso exerce sobre o leitor. Aqui vai um crime acontecido em 1903 no Chile.

O caso é que uma bela noite um incêndio destruiu o edifício da Legação da Alemanha. No meio dos destroços fumegantes havia um cadáver. O Ministro, barão Hans von Boden, não teve dificuldades em reconhecer o corpo do conselheiro da Legação, Wilhelm Beckert, mesmo porque na mão esquerda estava a aliança de casamento. Além de Beckert, devia estar na Legação, na hora do incêndio, o jovem porteiro Tapia, chileno. Inutilmente se procurou o seu corpo; não foi encontrado em parte alguma. A mulher de Tapia informou que ele não aparecera em casa.

Examinando com mais atenção o cadáver de Beckert, os médicos chegaram à conclusão de que ele havia sido assassinado antes do incêndio, recebendo golpes na cabeça e no coração. O Ministro revelou que dinheiro e valores consideráveis tinham sido roubados.

Sabia-se que Beckert tinha sido ameaçado por jovens nacionalistas chilenos; ele contara isso a alguns amigos. Entre seus papéis particulares foi encontrada uma carta anônima contendo ameaças a sua vida, e uma carta escrita por ele próprio, endereçada ao presidente da República do Chile, para ser aberta em caso de morte. Essa carta não tinha nenhuma revelação interessante; apenas ele protestava contra acusações que lhe eram feitas de exercer atividades contrárias aos interesses dos chilenos e acabava pedindo clemência para seu assassino, que só poderia ser um moço fanático. A emoção pública foi enorme, e as altas autoridades foram ao enterro do conselheiro. O discurso feito pelo Ministro continha ameaças veladas ao governo chileno, caso o criminoso não fosse punido.

Tapia é procurado em todo o Chile pela polícia e pela população sem resultado. É a essa altura que aparece um judeu de certa idade, relojoeiro, que procurou o juiz encarregado do processo para contar o seguinte: que vira o conselheiro Beckert na noite do incêndio e, pelos seus cálculos, depois do incêndio. O juiz perguntou se ele tinha certeza de que era Beckert. Disse que sim, pois o conhecia muito bem. Mas falara com ele? O relojoeiro disse que o cumprimentara em alemão, e Beckert, que ia tomando um carro de praça, respondera em castelhano, dizendo que não o conhecia. Essa conversa do relojoeiro não seria levada muito a sério, se um jornalista desses sensacionalistas não a publicasse com certo escândalo. Ao dar a entrevista, o relojoeiro negou-se a admitir que se tivesse enganado na pessoa e na hora. Gabava-se de ser um excelente fisionomista e, apesar de a rua estar meio escura, reconhecera perfeitamente Beckert. Quanto à hora, também tinha certeza, pois era um homem de horários precisos: um relojoeiro.

Essas declarações animaram um dentista, que vira o corpo queimado, a declarar que os dentes pareciam os de um homem muito jovem, e não de um senhor da idade de Beckert. A coisa estava ficando mais séria, e apesar da grande irritação do Ministro da Alemanha, o juiz acabou ordenando a exumação do corpo. O dentista de Beckert foi chamado e declarou que aquela boca não era de seu cliente. A mulher de Tapia disse que este tinha dentes perfeitos, só uma pequena cárie. E lá estava a cárie.

Beckert foi preso no sul do país, quando tentava atravessar a fronteira para a Argentina. Ainda tinha muito dinheiro no bolso, e seus documentos, com outro nome, eram perfeitos. Foi condenado à morte e, enquanto esperava a execução, confessou que seu grande consolo, no meio daquele tremendo golpe errado, era reler os belos elogios que lhe fizera, no discurso à beira-túmulo, o seu ex-chefe, o barão Hans von Boden, Ministro do Kaiser.

Janeiro, 1990

*

Um cartão de Paris. / Rubem Braga; [seleção: Domício Proença Filho]. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1997.